Ágape
O que significa ágape na Bíblia?
A palavra no original
ἀγάπη
agapē · Strong G26
Amor de benevolência, afeto ou estima voluntária, sem exigir que o objeto amado seja merecedor
Tudo isto ao mesmo tempo
- amor de vontade e decisão, não apenas de sentimento
- afeto benevolente voltado para o bem do outro
- amor de Deus pela humanidade
- amor fraternal entre cristãos
- também usado, em sentido neutro ou negativo, para apego a pessoas, coisas ou ao mundo
Resposta curta
Ágape (ἀγάπη) é um dos termos gregos para amor, ao lado de eros, philia e storge. No grego clássico a palavra era rara e pouco definida, usada de forma neutra para afeto ou estima. No Novo Testamento, porém, ela ganha peso especial: passa a descrever um amor de vontade e decisão, voltado para o bem do outro, que não depende do mérito de quem é amado.
É a palavra escolhida para falar do amor de Deus pela humanidade () e do amor que os cristãos devem ter uns pelos outros (). Mas o Novo Testamento também usa o mesmo termo para amor comum, e até para apego a coisas erradas, como em , onde se diz que Demas amou o mundo presente. O sentido depende sempre do contexto, não da palavra isolada.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoA ideia de um amor que se move por decisão, e não por mérito de quem o recebe, atravessa a Escritura: da aliança que Deus faz com Israel, não por serem o povo mais numeroso (), até o mandamento de amar a Deus e ao próximo (, citado por Jesus em ). O Novo Testamento aponta essa trajetória para a cruz: Paulo escreve que Deus demonstra seu agapē por nós no fato de que Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores (). Ali, o amor que escolhe agir em favor de quem não tem mérito para merecê-lo, tema que percorre toda a Bíblia, chega ao seu ponto mais alto.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Ágape é a palavra grega usada na Bíblia para amor. Ela aparece no Novo Testamento para falar do amor de Deus pelas pessoas e do amor que os cristãos devem ter uns pelos outros, um amor que escolhe fazer o bem mesmo quando isso custa algo. Mas a palavra não é reservada só para esse uso: o mesmo termo também aparece em versos que falam de amar coisas erradas, como o dinheiro ou o mundo. O que muda o sentido é sempre a frase inteira, não a palavra sozinha.
De onde vem a palavra
A palavra grega ἀγάπη (agapē) tem uma história curiosa: fora da Bíblia, ela era pouco usada na literatura grega clássica, aparecendo raramente e sem um significado técnico fixo. O verbo relacionado, ἀγαπάω (agapaō, Strong G25), era mais comum e significava simplesmente "ter afeto por", "estimar" ou "preferir", sem a carga de paixão de eros nem a familiaridade de philia, a amizade entre iguais, e sem o calor doméstico de storge, o afeto natural entre familiares. Foi na tradução grega do Antigo Testamento, a Septuaginta (LXX), que agapē e agapaō ganharam destaque, escolhidos para traduzir o hebraico ahăbâh e seu verbo ahēb — termos que cobrem desde o amor conjugal (Cântico dos , onde a LXX usa agapē) até o amor de aliança de Deus por Israel () e, no outro extremo, paixões destrutivas, como o desejo distorcido de Amnom por Tamar (, LXX).
Essa amplitude de uso continua no Novo Testamento. Os escritores neotestamentários escolheram agapē e agapaō com grande frequência — muito mais do que eros, que nunca aparece no texto grego do Novo Testamento, ou philia, usada poucas vezes — para descrever tanto o amor de Deus quanto o amor humano esperado entre os discípulos de Jesus. O ponto alto textual é , onde Paulo descreve as marcas desse amor: paciente, benigno, que não busca os próprios interesses. Outro marco é e 16, que afirmam que "Deus é agapē". Mas o termo segue sendo usado também em sentidos neutros ou negativos: em , o mesmo verbo agapaō descreve Demas, que "amou o presente século" e abandonou o trabalho ao lado de Paulo. Entender agapē exige, portanto, observar o contexto de cada ocorrência, em vez de tratar a palavra como se tivesse, por si só, um significado técnico e exclusivamente positivo em todo uso bíblico.
Aprofundamento
Um dos debates mais conhecidos entre estudiosos do grego bíblico envolve o diálogo entre Jesus e Pedro em . Ali, Jesus pergunta a Pedro, por três vezes, se ele o ama, alternando entre formas do verbo agapaō e do verbo phileō (de philia). Uma leitura popular, difundida por comentaristas do século XIX e XX como Richard Trench e retomada por obras de divulgação como o Vine's Expository Dictionary of Old and New Testament Words, sustenta que agapaō marcaria um amor superior, mais espiritual e sacrificial, enquanto phileō indicaria apenas afeto pessoal — e que a troca de verbo no diálogo seria proposital e carregada de sentido teológico, quase como se o texto grego escondesse uma mensagem cifrada sobre o crescimento espiritual de Pedro.
Linguistas do Novo Testamento mais recentes, porém, como James Barr, em sua crítica ao método do Theological Dictionary of the New Testament (o TDNT), e D. A. Carson, em Exegetical Fallacies, alertam que esse tipo de leitura corre o risco de tratar palavras isoladas como se carregassem, sozinhas, uma doutrina inteira — o que Barr chamou de "ilegitimate totality transfer": importar para uma ocorrência específica todos os sentidos que uma palavra pode ter em outros lugares do texto grego. No caso de , o próprio evangelho grego usa agapaō e phileō de forma intercambiável em outras passagens para descrever o mesmo tipo de amor: o do Pai pelo Filho ( usa phileō; usa agapaō), o que enfraquece a ideia de uma distinção rígida de intensidade entre os dois verbos ali empregados.
Isso não significa que agapē seja uma palavra vazia de conteúdo teológico, mas que seu peso vem principalmente do uso que os escritores do Novo Testamento fazem dela em contextos como e , não de uma suposta carga semântica embutida na palavra em si, à parte de qualquer contexto em que ela apareça. O léxico BDAG, padrão acadêmico de referência para o grego do Novo Testamento, define agapē de modo mais modesto: afeição, estima, amor voluntário, sem impor de antemão o sentido de "amor incondicional" a toda ocorrência da palavra. É o conjunto de passagens — o mandamento de amar o próximo (, citado por Jesus em ), o exemplo da cruz () e a descrição relacional detalhada de — que constrói o quadro cristão desse amor, mais do que a etimologia isolada da palavra grega.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Ágape é uma palavra usada só para o amor espiritual e nunca para amor comum ou errado.
O Novo Testamento usa o mesmo verbo agapaō, por exemplo, para o apego de Demas ao presente século (), e a Septuaginta usa agapē para o amor conjugal do Cântico dos Cânticos e até para o desejo distorcido de Amnom por Tamar (). A palavra em si é neutra; o contexto é que define se o amor descrito é bom ou não.
Dizem que:A troca entre agapaō e phileō no diálogo de Jesus com Pedro em João 21 prova uma escala fixa de intensidade entre amor superior e amor comum.
Estudiosos do grego bíblico como James Barr e D. A. Carson mostram que o próprio evangelho de João usa os dois verbos de forma intercambiável em outras passagens para o mesmo tipo de amor, o do Pai pelo Filho, o que enfraquece a leitura de uma distinção rígida de significado entre eles naquele texto específico.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Vê agapē integrada dentro do conceito mais amplo de caritas, no qual eros e agapē não se opõem, mas o desejo humano é purificado e elevado pelo dom de si — leitura desenvolvida, por exemplo, na encíclica Deus Caritas Est.
Protestante/Luterana
Segue a distinção clássica proposta por Anders Nygren entre agapē, o amor que desce e se doa sem ser motivado pelo valor do objeto amado, e eros, o amor que busca subir em direção a algo percebido como valioso — dois movimentos considerados opostos.
Ortodoxa
Associa agapē à participação no amor trinitário e ao caminho da teose, entendendo o amor divino como algo que a pessoa humana é chamada a viver em sinergia com a graça, não apenas a receber de forma passiva.
Reformada
Enfatiza que o agapē de Deus se manifesta como eleição soberana e gratuita, um amor que escolhe e se firma independente de qualquer mérito ou atrativo prévio na pessoa amada.
O que fazer com isso
Reconhecer que agapē é, antes de tudo, uma palavra comum do grego ajuda a ler o Novo Testamento com mais cuidado: o texto não usa uma palavra mágica reservada só para amor perfeito. O peso de vem da descrição que Paulo faz do comportamento desse amor — paciência, bondade, ausência de inveja — e não de um significado escondido na palavra grega isolada. Entender essa diferença evita generalizações fáceis ao explicar o texto para outras pessoas.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas6 obras
- Frederick William Danker (ed.). A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- W. E. Vine. Vine's Expository Dictionary of Old and New Testament Words, 1940.
- Gerhard Kittel (ed.). Theological Dictionary of the New Testament (TDNT), verbete ἀγαπάω, 1964.
- James Barr. The Semantics of Biblical Language, 1961.
- D. A. Carson. Exegetical Fallacies, 1984.
- Anders Nygren. Agape and Eros, 1953.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Ágape é a mesma coisa que amor incondicional?
Não exatamente. A palavra grega agapē, em si, é bastante neutra e nem sempre descreve algo incondicional — ela também é usada para amor comum e até para apego a coisas erradas. A ideia de amor incondicional vem da descrição que o Novo Testamento faz desse amor em textos como e , não de um sentido fixo embutido na palavra.
Qual a diferença entre ágape, eros e philia?
Eros era a palavra grega para desejo e paixão romântica, e philia para afeto entre amigos ou iguais. Ágape, no grego clássico, era um termo mais neutro e pouco usado; o Novo Testamento a adota com grande frequência para descrever tanto o amor de Deus quanto o amor esperado entre os cristãos, embora a palavra também apareça em sentidos comuns.
De onde vem o número de Strong de ágape?
O substantivo ἀγάπη corresponde ao número G26 na concordância de Strong; o verbo relacionado ἀγαπάω corresponde a G25. Essas referências ajudam a localizar as ocorrências da palavra no texto grego do Novo Testamento.
A Bíblia usa ágape apenas para o amor de Deus?
Não. Embora seja a palavra escolhida para descrever o amor de Deus em e , o mesmo termo aparece para o amor conjugal na Septuaginta grega do Cântico dos Cânticos e até para o apego de alguém ao mundo presente, em .
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