Orge (Ira, Cólera)
O que significa orge, a ira, e como o cristão deve lidar com ela?
A palavra no original
ὀργή
orgḗ · Strong G3709
Ira ou cólera, disposição de indignação com objeto e motivo, aplicada ao ser humano e a Deus.
Tudo isto ao mesmo tempo
- ira e cólera
- indignação duradoura
- ira de Deus e juízo
- paixão a ser limitada
- vingança e justiça
Resposta curta
Orge (ὀργή) é a palavra grega para ira ou cólera, e no Novo Testamento serve tanto para a ira humana quanto para a ira de Deus. Em aparece no verbo parente: "irai-vos e não pequeis"; em diz que a ira do homem não produz a justiça de Deus; em a ira de Deus se revela do céu contra a impiedade. Os dicionários descrevem a orge como uma disposição mais assentada do que um arroubo, uma reação que tem objeto e motivo, embora esse contraste com outras palavras gregas para ira seja debatido. A tradução importa: "ira", "cólera" e "indignação" soam diferente, e cada escolha influencia como se entende o que Deus faz e o que se pede do ser humano.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO Novo Testamento mostra Jesus com ira em , ligada à tristeza pela dureza de coração, e apresenta a obra de Cristo como resposta à ira de Deus: justificados pelo seu sangue, os crentes são salvos da ira por meio dele (), e Jesus é quem os livra da ira vindoura (). Não há tipologia no sentido estrito aqui; a ligação é entre o tema da ira e a obra de Cristo no argumento paulino.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Orge é a palavra grega para ira ou cólera. Na Bíblia ela aparece em dois sentidos: a ira das pessoas e a ira de Deus contra o mal. Sobre a ira humana, Paulo diz em que a pessoa pode se irar sem pecar, mas não deve guardar a ira de um dia para o outro, e diz que a ira do homem não produz a justiça de Deus. Sobre a ira de Deus, a descreve como reação à injustiça. Muitos veem a orge como ira mais duradoura que uma explosão, mas isso é debatido.
De onde vem a palavra
Orge ocorre cerca de trinta e seis vezes no Novo Testamento, e a maior parte delas trata da ira de Deus. Essa ira aparece em João Batista, que adverte os que vêm ao batismo sobre a "ira vindoura" (; ), e em Paulo, para quem a ira de Deus "se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens" (). Em os cristãos esperam o Filho do céu, "Jesus, que nos livra da ira vindoura", e em o "grande dia da ira" faz os povos buscar abrigo.
A ira humana é tratada em tom de cautela. Em , Paulo cita o Salmo 4:4 na Septuaginta: "irai-vos e não pequeis; que o sol não se ponha sobre a vossa ira". O verbo é orgizo, da mesma família, e o versículo reconhece que irritar-se pode acontecer sem pecado, mas não deve se prolongar. Em e a orge aparece em listas de coisas que o cristão deve abandonar, junto com amargura, gritaria e maldade. manda ser "tardio para a ira", porque "a ira do homem não produz a justiça de Deus".
Há ainda o caso especial de , em que Jesus olha ao redor "com ira" (met' orges), entristecido com a dureza do coração dos que o observavam para ver se curaria no sábado. É um dos poucos textos em que a palavra é aplicada à própria pessoa de Jesus, e mostra que a ira, quando dirigida contra o mal e unida à tristeza, não é descrita como pecado.
O contexto grego mais amplo também ajuda. Filósofos como Aristóteles tratavam a ira em sua Retórica como desejo de vingança por uma ofensa percebida, e os estoicos a viam como paixão a ser extirpada. O Novo Testamento não adota nenhum dos dois quadros por inteiro: reconhece a ira como emoção humana real, limita-a, e atribui a Deus uma ira que é resposta justa ao mal, diferente do capricho do ofendido.
Aprofundamento
O substantivo ὀργή (Strong G3709) tem etimologia incerta, possivelmente ligada à ideia de impulso; o verbo orgizo e o adjetivo orgilos são parentes. Léxicos como o BDAG registram os sentidos "ira, cólera" para a emoção humana e "ira" para a reação de Deus ao pecado, e muitos estudiosos, desde Trench em seus Synonyms of the New Testament, distinguiram orge de thymos, outro termo para ira: thymos seria o ardor súbito que se inflama e se apaga, orge uma disposição mais assentada, que pode durar e visar uma punição. Essa distinção ajuda em vários textos, mas não deve ser levada ao extremo. O próprio Novo Testamento junta as duas palavras em , "o vinho do thymos da orge de Deus", e lista as duas sem diferença nítida; muitos léxicos recentes tratam as duas como largamente sobrepostas.
O ponto mais debatido é o sentido da ira de Deus. C.H. Dodd, em seu comentário a Romanos de 1932, propôs que a expressão designa um processo impessoal de consequências morais em um universo ordenado, sem uma emoção divina. Leon Morris, em The Apostolic Preaching of the Cross, de 1955, e vários outros respondem que o texto emprega o vocabulário pessoal da orge justamente para dizer que Deus reage com justiça, de modo pessoal, ao mal, e que isso dá sentido à propiciação (). Outros, como Douglas Moo em seu comentário a Romanos, mantêm que a ira é pessoal, mas a entendem como expressão da santidade de Deus, não de uma paixão descontrolada. O texto de mostra a ira operando como entrega de Deus às consequências da rebeldia humana ("Deus os entregou"), e isso alimenta ambos os lados do debate.
Quanto à ira humana, o quadro é cuidadoso. não manda sentir ira, mas assume que ela pode surgir e impede que se instale. pede que não se vinguem, "mas deem lugar à ira de Deus", e lembra que a autoridade pública executa a ira contra quem pratica o mal. A mesma palavra, em contextos diferentes, aponta para vingança pessoal proibida, justiça pública permitida e juízo de Deus. Na tradição cristã, Lactâncio escreveu no início do século IV um tratado sobre a ira de Deus contra a ideia de que um Deus bom não pode se irar, e Agostinho e Tomás de Aquino discutiram se a ira humana pode ser virtuosa quando dirigida contra o mal e na medida certa.
É também relevante notar o que a palavra não é. Orge não designa um mau humor passageiro, nem se confunde com a tristeza ou a indignação moral de quem se importa; o texto grego tem outros termos para esses estados. A tradução "ira" é mais segura do que "raiva" ou "fúria", que carregam conotações do português atual de perda de controle, ausentes do campo central do termo.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A Bíblia proíbe todo tipo de ira.
diz "irai-vos e não pequeis", reconhecendo que a ira pode existir sem pecado, e mostra Jesus olhando "com ira". O que o texto proíbe é a ira que se prolonga, que busca vingança ou que domina a pessoa (; ).
Dizem que:Orge é sempre explosão, e thymos é sempre ira que dura.
A tradição de Trench propõe justamente o contrário: orge seria disposição mais duradoura e thymos arroubo súbito. Mesmo essa distinção é só tendência; em e as duas palavras aparecem sem fronteira clara, e léxicos recentes veem sobreposição.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Pessoal e propiciatória (evangélica clássica)
A ira de Deus é a reação pessoal e justa do Criador ao pecado, e a cruz de Cristo a satisfaz, de modo que e 5:9 formam um argumento contínuo. Esta é a linha de Leon Morris e de muitos comentaristas reformados.
Processo moral impessoal (C.H. Dodd)
A ira de Deus em Romanos designa a consequência inevitável do pecado em uma ordem moral, sem sugerir emoção divina; Deus não se irrita, mas o pecado produz seus efeitos.
Católica e ortodoxa
Falam da ira de Deus como linguagem analógica para a justiça divina diante do mal, sem passionalidade humana em Deus, e discutem a ira humana a partir da distinção entre indignação virtuosa e vício, como em Tomás de Aquino.
O que fazer com isso
O texto não pede que o cristão finja que não sente ira: pede que ela não ganhe a casa. e tratam a ira como algo a ser reconhecido, limitado no tempo e submetido à justiça de Deus, nunca usado para justificar vingança. Quando alguém se encontra irado, a pergunta que o texto sugere é o que a ira está produzindo.
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Fontes consultadas5 obras
- Danker, F.W. (ed.). A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 3ª ed., 2000.
- Trench, R.C.. Synonyms of the New Testament, 1854.
- Dodd, C.H.. The Epistle of Paul to the Romans (Moffatt New Testament Commentary), 1932.
- Morris, L.. The Apostolic Preaching of the Cross, 1955.
- Moo, D.J.. The Epistle to the Romans (New International Commentary on the New Testament), 1996.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Sentir ira é pecado segundo a Bíblia?
Não necessariamente. diz "irai-vos e não pequeis", o que reconhece que a ira pode ocorrer sem pecado. O alerta é para não deixá-la durar ("que o sol não se ponha sobre a vossa ira") nem usá-la como motivo para vingança (; ).
A ira de Deus é como a ira humana?
O texto usa a mesma palavra, mas as tradições divergem sobre o sentido. A maioria vê a ira divina como reação justa e pessoal de Deus ao mal, sem o descontrole típico da ira humana; outros, como Dodd, a entendem como consequência moral impessoal. O vocabulário bíblico não resolve a questão sozinho.
Jesus se irou?
diz que Jesus olhou ao redor "com ira", entristecido com a dureza de coração dos que o observavam. O texto liga essa reação ao mal que estava sendo praticado, não a uma ofensa pessoal.
Qual a diferença entre orge e thymos?
Léxicos antigos e comentaristas como Trench propõem que thymos seja o ardor súbito, e orge uma disposição mais assentada. Estudos recentes veem muita sobreposição entre os dois termos no Novo Testamento, e a distinção deve ser usada com cautela.
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