Logizomai (Imputar, Creditar)
O que significa logizomai (imputar) na Bíblia?
A palavra no original
λογίζομαι
logizomai · Strong G3049
Calcular, computar, levar em conta; por extensão, creditar na conta de alguém, considerar ou concluir.
Tudo isto ao mesmo tempo
- contabilidade e cálculo
- creditar ou lançar na conta de alguém
- considerar e avaliar
- concluir um raciocínio
- linguagem forense da justificação
Resposta curta
Logizomai (λογίζομαι) é um verbo grego de contabilidade e de raciocínio: calcular, computar, levar em conta e, daí, considerar ou concluir. É o verbo que Paulo usa, mais de dez vezes, em , ao citar : a fé de Abraão lhe foi "creditada" como justiça. Fora desse capítulo, designa o Deus que não "leva em conta" as transgressões dos homens () e o amor que não "leva em conta" o mal ().
A tradução tradicional por "imputar" carrega um peso teológico que o verbo, sozinho, não tem: ele pode ser vertido por contar, atribuir ou creditar, e a escolha entre essas opções está no centro dos debates sobre a justificação em Paulo. Este verbete expõe o sentido do verbo e os textos em que ele aparece.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textonão menciona Cristo: fala de Abraão, da promessa de uma descendência e da fé do patriarca. É Paulo quem traça a trajetória até Jesus. Em ele afirma que a palavra "foi-lhe contado" não foi escrita só por causa de Abraão, mas também por causa dos que creem naquele que ressuscitou dentre os mortos a Jesus, entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitado para a nossa justificação. Em , o "não imputar" de Deus acontece "em Cristo". O elo é, portanto, a leitura apostólica de que o modo como Deus tratou Abraão (graça recebida pela fé) é o mesmo modo como trata agora os que confiam em Cristo, e não um prenúncio simbólico escondido no versículo hebraico.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Logizomai é um verbo grego que vem do mundo das contas: significa calcular, contar, lançar algo na conta de alguém. Paulo o usa em para dizer que Deus contou a fé de Abraão como justiça, como quem credita um valor numa conta sem que a pessoa tenha trabalhado por ele. A mesma palavra aparece quando Deus não conta os pecados contra as pessoas e quando o amor não guarda rancor. Traduzir por imputar, creditar ou atribuir muda um pouco a ênfase, e por isso essa palavra é muito discutida entre os cristãos.
De onde vem a palavra
O verbo grego logizomai pertence à família de logos e, no uso comum do mundo helenístico, pertence antes de tudo ao vocabulário da conta e da contagem: somar valores, lançar uma quantia no registro de alguém, fazer um cálculo. Dicionários como o BDAG registram esse uso financeiro ao lado de usos mais amplos, de pensar, avaliar e concluir. Paulo escreve, portanto, numa língua em que "levar em conta" tinha um sentido quase de livro-caixa, e isso aparece com nitidez em , onde o salário de quem trabalha é "contado" como dívida e não como favor.
Por trás de está o hebraico. Em lê-se que Abraão creu no Senhor e que isso lhe foi contado como justiça; o verbo hebraico é chashav (חָשַׁב), e a Septuaginta o traduz por logizomai. A mesma tradução grega verte chashav por logizomai em outros textos do Antigo Testamento: diz que o sacrifício oferecido fora do prazo não será aceito nem "contado" em favor de quem o ofereceu, e o Salmo 106:31 diz que o zelo de Finéias lhe foi contado como justiça. Ou seja, o verbo já circulava na linguagem cúltica e jurídica de Israel antes de Paulo.
No Novo Testamento a palavra ocorre cerca de quarenta vezes, com forte concentração em Romanos. Na carta, Paulo costura dois textos pela palavra em comum: , sobre Abraão, e o Salmo 32:1-2, sobre o homem a quem o Senhor "não conta" o pecado (). Esse tipo de ligação entre dois textos por um termo compartilhado era um procedimento conhecido na exegese judaica da época, e aqui serve para sustentar que Abraão foi declarado justo antes da circuncisão e sem obras ().
O verbo também tem sentidos que nada têm de debate doutrinário. Em Paulo "considera" que os sofrimentos do tempo presente não se comparam à glória futura; em manda que os leitores se "considerem" mortos para o pecado; em Abraão "raciocina" que Deus pode ressuscitar Isaque. Reconhecer essa amplitude evita ler toda ocorrência do verbo como um termo técnico de justificação.
Aprofundamento
Os léxicos distribuem logizomai em alguns campos de sentido. O primeiro é o de calcular e contar, com a noção de lançar algo na conta de alguém (). O segundo é o de considerar ou avaliar, como em e . O terceiro é o de concluir um raciocínio, como em , onde Paulo diz "concluímos" que o homem é justificado pela fé. No passivo, o verbo ganha o sentido de "ser tido como", como na circuncisão que seria contada como incircuncisão () ou nos filhos da promessa, contados como descendência (). Um verbo vizinho, ellogeo, aparece em ("o pecado não é imputado onde não há lei") e em ("ponha isso na minha conta"), e confirma o pano de fundo de contabilidade.
A tradução é um problema real. A palavra portuguesa "imputar" vem do latim imputare, e as versões da tradição de Almeida a usam em ("foi-lhe imputado para justiça"), enquanto traduções mais recentes, como a NVI, preferem "creditado". O grego diz literalmente que a fé foi contada "para/como justiça" (eis dikaiosynen). Em é a fé que é contada como justiça; em o objeto é a própria justiça, que Deus conta "sem obras". Paulo, nesse capítulo, não escreve a expressão "a justiça de Cristo foi imputada", e é por isso que parte da pesquisa afirma que a doutrina clássica da imputação da justiça de Cristo é uma síntese construída a partir de outros textos ( Coríntios 1:30, ), e não uma leitura direta do verbo logizomai. Os defensores da doutrina respondem que a síntese é coerente com o conjunto do ensino paulino. A questão é legítima nos dois lados.
A face negativa do verbo é igualmente importante. Em Deus, em Cristo, reconcilia o mundo consigo "não lhes imputando os seus pecados", e em cita-se o Salmo 32 para dizer bem-aventurado aquele a quem o Senhor não conta o pecado. No extremo oposto da escala, aplica o mesmo verbo ao amor, que "não leva em conta o mal": o que Deus faz no plano da graça, o texto espera do amor no plano humano, sem dizer que as duas coisas são idênticas.
O contraste de merece cuidado. Paulo não diz que a fé é um "trabalho" que merece o pagamento, e sim que, para quem não trabalha mas crê naquele que justifica o ímpio, a fé é contada como justiça. cita o mesmo versículo de Gênesis, mas o usa para sustentar que a fé se completa em obras; as tradições discutem se os dois autores falam da mesma coisa em registros diferentes ou se enfatizam aspectos distintos do mesmo texto.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Logizomai significa, por si só, "transferir a justiça de Cristo para a conta do crente".
O verbo significa contar, creditar ou considerar. Em o que é contado como justiça é a fé de Abraão (4:3,5,9) ou a própria justiça (4:6), sem menção literal à justiça de Cristo. A doutrina da imputação da justiça de Cristo é defendida por tradições como a luterana e a reformada a partir de um conjunto de textos, mas isso é uma síntese teológica, não o significado do verbo.
Dizem que:"Imputar" é um conceito inventado por Paulo.
O verbo já aparece no Antigo Testamento grego com o mesmo uso: fala de um sacrifício que não será "contado" a favor de quem o oferece, e o Salmo 106:31 diz que o zelo de Finéias lhe foi contado como justiça. Paulo usa uma linguagem que seus leitores já conheciam da Septuaginta.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Luterana e reformada
Entende a justificação como declaração forense: Deus declara justo o pecador e lhe atribui, por meio da fé, a justiça de Cristo, que é uma justiça alheia (Lutero e Calvino). é lido junto com e como base dessa leitura.
Católica romana
O Concílio de Trento (1547) entende a justificação não só como perdão, mas também como renovação interior do ser humano pela graça. Exegetas católicos modernos, como Joseph Fitzmyer, reconhecem que logizomai em é linguagem de contagem e não de infusão, e leem o verbo dentro de um processo que inclui a transformação.
Nova Perspectiva sobre Paulo (N. T. Wright, J. D. G. Dunn)
Destaca o contexto de aliança: o verbo declara quem pertence à família de Abraão pela fé, e trata de quem são os membros do povo de Deus (judeus e gentios), e não da transferência de um estado moral. Wright, em Justification (2009), rejeita a formulação clássica de uma justiça de Cristo imputada.
Wesleyana e arminiana
Costuma enfatizar que o que diz ser contado como justiça é a fé, em resposta à graça preveniente, e liga o ato de Deus ao processo de santificação, sem reduzi-lo a um registro legal.
O que fazer com isso
Perceber que logizomai é linguagem de conta ajuda a ler sem pressa e sem atalhos. O verbo descreve um ato de Deus que não depende de salário, e o texto não esconde que a palavra exata para traduzi-lo é objeto de discussão. Convém ler o capítulo inteiro, comparar traduções e distinguir o que Paulo escreve do que a tradição acrescentou em torno dele.
Passagens relacionadas7
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Fontes consultadas6 obras
- Bauer, W.; Danker, F. W.; Arndt, W. F.; Gingrich, F. W.. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- Kittel, G.; Friedrich, G. (eds.). Theological Dictionary of the New Testament (verbete logizomai), 1964.
- Moo, D. J.. The Epistle to the Romans (NICNT), 1996.
- Fitzmyer, J. A.. Romans (Anchor Bible), 1993.
- Wright, N. T.. Justification: God's Plan and Paul's Vision, 2009.
- Strong, J.. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Imputar, creditar e atribuir são a mesma coisa?
São tentativas de traduzir o mesmo verbo grego, logizomai. "Imputar" vem do latim e é a escolha tradicional em Almeida; "creditar" aproxima-se da ideia de conta bancária; "atribuir" e "contar" são mais neutros. A diferença está na ênfase teológica que cada palavra sugere, não em verbos distintos no original.
O que Gênesis 15:6 diz exatamente?
Que Abraão creu no Senhor e que isso lhe foi contado como justiça. O verbo hebraico é chashav, que a Septuaginta verte por logizomai. Paulo cita o versículo em e em .
Logizomai sempre tem sentido de justificação?
Não. O verbo também significa considerar, raciocinar e concluir, como em , e . O sentido de "ser contado como justo" depende do contexto de .
Tiago e Paulo usam o mesmo versículo da mesma maneira?
Ambos citam , mas com ênfases diferentes: Paulo, para dizer que Abraão foi justificado sem obras da lei; Tiago, para dizer que a fé genuína se mostra em obras. A relação entre os dois textos é discutida pelas tradições.
Palavras próximas
Temas
- No grego
- Fé e obras
- Abraão e a promessa
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