
Romanos 3:28: a palavra que Lutero acrescentou ao traduzir "somente pela fé"
Lutero mudou a Bíblia em Romanos 3:28?
Concluímos, portanto, que o ser humano é justificado pela fé, independentemente das obras da Lei.
Resposta curta
Em , Paulo fecha um argumento construído desde o capítulo 1: judeus e gentios estão debaixo do pecado, e ninguém se torna justo diante de Deus cumprindo a Lei. A conclusão é direta: "o ser humano é justificado pela fé, independentemente das obras da Lei". No grego que chegou até nós não há palavra equivalente a "somente" — a ideia está implícita no contraste que Paulo constrói, mas não está escrita ali.
Foi Martinho Lutero, ao traduzir o Novo Testamento para o alemão em 1522, quem inseriu "allein" (somente) nesse versículo. A escolha virou alvo de ataques de teólogos católicos, que o acusaram de adulterar o texto para encaixar sua teologia. Lutero se defendeu publicamente, argumentando que a palavra tornava explícito um sentido que a frase já carregava. O episódio mostra como toda tradução envolve escolhas interpretativas.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoé a conclusão de um argumento cujo centro está nos versículos imediatamente anteriores: Deus "propôs Jesus por sacrifício de reconciliação" (3:25) para "ser justo, e justificador daquele que tem fé em Jesus" (3:26). O texto retoma uma trajetória que atravessa toda a Escritura — a busca humana por se tornar justo diante de Deus, que a Lei mosaica expõe mas não resolve — e a declara encerrada não numa nova lei ou num novo esforço, mas na obra de Cristo. A justificação "pela fé, independentemente das obras da Lei" só é possível porque, alguns versículos antes, Paulo já identificou onde a justiça de Deus se manifestou concretamente: em Cristo Jesus e no seu sacrifício. O versículo 28 é a fórmula que resume essa convergência, não uma tipologia isolada.
Respaldo no Novo Testamento:
Contexto histórico
Romanos é uma carta que Paulo escreveu a uma igreja que ele ainda não havia visitado, reunindo cristãos de origem judaica e gentia que conviviam com tensões sobre o lugar da Lei de Moisés na vida da comunidade. Do capítulo 1 ao 3, Paulo constrói um argumento longo: primeiro mostra que os gentios, mesmo sem a Lei escrita, são culpados diante de Deus (1:18-32); depois mostra que os judeus, mesmo tendo recebido a Lei, também falham em cumpri-la (2:1-3:8); e conclui, apoiado numa sequência de citações do Antigo Testamento, que "todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado" (3:9-18). Diante desse quadro, ninguém pode alegar méritos próprios: "toda boca se cale" (3:19).
É nesse contexto que aparece a expressão "obras da Lei" (em grego, erga nomou). Para os primeiros leitores judeus da carta, essa expressão remetia sobretudo às práticas que marcavam a identidade do povo da aliança — circuncisão, leis alimentares, guarda do sábado — ainda que o termo também alcance, de forma mais ampla, qualquer tentativa de se tornar justo diante de Deus por desempenho próprio. O verbo "justificado" traduz dikaiousthai, forma do verbo grego dikaioo, que no uso jurídico e também na tradução grega do Antigo Testamento (a Septuaginta) carrega sentido forense: declarar alguém justo, como um juiz absolve um réu, não necessariamente transformá-lo moralmente por dentro.
O verbo inicial do versículo, logizometha ("concluímos" ou "consideramos"), sinaliza que Paulo está fechando um raciocínio, não abrindo um tema novo. A frase grega diz, em tradução literal, algo como "consideramos, pois, ser justificado pela fé o ser humano, à parte das obras da Lei" — sem nenhum advérbio equivalente a "somente" ou "só" em nenhum manuscrito grego conhecido do Novo Testamento, seja no texto majoritário usado por Erasmo (base da Textus Receptus), seja nos manuscritos mais antigos usados pelas edições críticas modernas. A exclusividade da fé, no grego, está no argumento — no contraste com "obras da Lei" — e não numa palavra isolada.
Aprofundamento
O caso mais conhecido de "tradução movida por teologia" na história da Bíblia aconteceu em 1522, quando Martinho Lutero publicou sua tradução do Novo Testamento para o alemão, conhecida como Septembertestament. Ao verter , ele escreveu: "So halten wir nun dafür, dass der Mensch gerecht werde... allein durch den Glauben" — "consideramos, pois, que o ser humano é justificado... somente pela fé". A palavra allein (somente) não corresponde a nenhum termo do texto grego que Lutero tinha diante de si.
A escolha não passou despercebida. Teólogos católicos contemporâneos de Lutero, entre eles Hieronymus Emser, publicaram críticas duras à sua tradução do Novo Testamento como um todo, listando o que consideravam centenas de erros e distorções — e o "allein" de se tornou o exemplo mais citado de que Lutero estaria forçando o texto bíblico a dizer o que sua teologia já havia decidido de antemão.
Lutero respondeu por escrito, num texto de 1530 conhecido como Sendbrief vom Dolmetschen ("Carta Aberta sobre a Tradução"). Ali ele defendeu duas coisas ao mesmo tempo: primeiro, que o alemão corrente exigia esse tipo de reforço para que a frase soasse natural — comparou a construções do dia a dia em que se acrescenta "só" ou "somente" para deixar clara uma oposição já implícita na frase; segundo, que o sentido teológico da palavra já estava no texto, mesmo sem ela, porque o próprio Paulo contrasta "a lei das obras" com "a lei da fé" dois versículos antes (3:27) e repete a mesma lógica de exclusão em outras cartas, como e . Lutero também argumentou que não fora o primeiro cristão a usar a fórmula "fé somente" para resumir o ensino de Paulo sobre justificação — alegação que caberia a um leitor mais especializado verificar caso a caso, mas que mostra que ele não considerava estar inventando uma doutrina, e sim tornando explícita, numa única palavra, uma leitura que já circulava.
O episódio se tornou um estudo de caso clássico sobre os limites entre tradução e interpretação: nenhuma tradução é uma cópia mecânica palavra por palavra, e decisões como essa — acrescentar uma palavra ausente para deixar mais claro o que o tradutor entende ser o sentido do original — acontecem, em menor escala, em praticamente toda tradução bíblica já feita. A diferença é que, nesse caso, a decisão específica de Lutero ficou documentada, debatida e associada ao nome de quem a tomou.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Lutero adulterou de má-fé a Bíblia para inventar uma doutrina que não existia antes dele, inserindo uma palavra que muda o sentido do texto.
A palavra "somente" de fato não está no grego, mas o próprio argumento de Paulo (3:27-28, o contraste entre "lei das obras" e "lei da fé") já exclui qualquer contribuição das obras da Lei para a justificação. Lutero tornou explícito, e nunca escondeu, o que fez — defendeu a escolha publicamente por escrito em 1530, o que é incompatível com uma tentativa de fraude disfarçada.
Dizem que:A ideia de sermos justificados "só pela fé" foi uma invenção teológica de Lutero, sem nenhum precedente na história do cristianismo.
O próprio Lutero, ao se defender, alegou que outros escritores cristãos antes dele já haviam resumido o ensino de Paulo sobre justificação com fórmulas equivalentes a "fé somente" — o que, mesmo exigindo verificação caso a caso, mostra que ele entendia estar explicitando uma leitura já em circulação, não fabricando uma doutrina do zero.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Luterana
A tradução com "somente" expressa corretamente a lógica do argumento de Paulo: a justificação é obra exclusiva da fé em Cristo, sem nenhuma contribuição das obras humanas. O "somente" de Lutero apenas torna explícito, numa palavra, o que o contraste entre "lei das obras" e "lei da fé" (3:27) já ensina.
Católica
Desde o Concílio de Trento, a tradição entende que a fé é o início e o fundamento da justificação, mas não exclui a cooperação com a graça manifestada na caridade e nas obras que dela decorrem. Por isso a inserção de "somente" foi historicamente vista como um risco de sugerir mais exclusão do que o texto grego afirma — ainda que o diálogo ecumênico recente tenha reconhecido convergência significativa com a leitura luterana sobre o papel central da fé.
Reformada
Concorda com os luteranos que a justificação é só pela fé, mas costuma articular a ideia distinguindo justificação (ato imediato, declarado só pela fé) de santificação (processo que produz obras como fruto, não como causa). A fórmula usual nessa tradição é que "a fé que justifica nunca está só", ou seja: não há mérito nas obras, mas obras sempre acompanham a fé verdadeira.
Ortodoxa
Tende a não operar com a mesma dicotomia ocidental entre fé e obras da Lei. Lê "obras da Lei" principalmente como referência às práticas rituais mosaicas (circuncisão, leis alimentares) que deixam de ser exigidas dos gentios convertidos, e entende a salvação como um processo de cooperação contínua entre a graça divina e a resposta humana ao longo da vida, sem centrar a discussão no debate ocidental sobre "sola fide".
No original5 termos
δικαιοῦσθαιdikaiousthaiG1344
ser declarado justo; forma passiva de dikaioo, termo forense usado para uma sentença de absolvição, não para transformação moral interior
πίστειpisteiG4102
pela fé; caso dativo de pistis, confiança/fidelidade depositada em alguém
ἔργωνergonG2041
obras, ações realizadas
νόμουnomouG3551
da Lei, referindo-se à Lei de Moisés
λογιζόμεθαlogizomethaG3049
concluímos, consideramos, chegamos ao cômputo de; verbo que fecha um raciocínio
O que fazer com isso
Antes de discutir traduções, vale notar o que Paulo realmente diz: ninguém fica bem com Deus por acumular desempenho suficiente. Isso tira um peso de quem vive tentando provar o próprio valor espiritual todos os dias. Na prática, isso muda a pergunta diante de um erro ou de uma fase de fé fraca — de "fiz o suficiente?" para "em quem estou confiando?". Também serve de lembrete de humildade ao comparar diferentes traduções da Bíblia antes de tirar conclusões de uma palavra isolada.
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Fontes consultadas4 obras
- Martinho Lutero. Sendbrief vom Dolmetschen (Carta Aberta sobre a Tradução), 1530.
- F.F. Bruce. Romans: An Introduction and Commentary (Tyndale New Testament Commentaries), 1963.
- C.E.B. Cranfield. A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Romans (International Critical Commentary), 1975.
- Alister McGrath. Iustitia Dei: A History of the Christian Doctrine of Justification, 1986.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Lutero cometeu fraude ao traduzir a Bíblia?
Ele acrescentou uma palavra que não está no grego, e foi acusado disso por teólogos católicos da sua época. Mas nunca escondeu a escolha: defendeu-a publicamente por escrito, argumentando que era exigência do alemão e coerente com o sentido do texto, não uma tentativa de enganar o leitor.
As traduções da Bíblia em português têm "somente" nesse versículo?
Não. As traduções para o português seguem o texto grego disponível, que não traz esse advérbio. A formulação com "somente" ficou associada especificamente à tradição alemã iniciada por Lutero.
Isso significa que Tiago 2:24 contradiz Paulo, já que Tiago diz que a justificação não é só pela fé?
Os dois tratam de aspectos diferentes: Paulo discute como uma pessoa é declarada justa diante de Deus, sem cumprir a Lei; Tiago discute como a fé genuína se comprova diante dos outros, por meio de obras. A maioria das tradições cristãs lê os dois textos como complementares, não como contraditórios.
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