Lev / Levav
O que significa "lev" ou "levav", a palavra hebraica para coração, na Bíblia?
A palavra no original
לֵב / לֵבָב
lev / levav
Coração — o órgão físico, e por extensão o centro interior da pessoa: mente, vontade e sentimento.
Tudo isto ao mesmo tempo
- mente e razão
- vontade e decisão
- sede das emoções
- consciência moral
- o ser interior
Resposta curta
Lev (לֵב) e sua forma alongada levav (לֵבָב) são as palavras hebraicas mais comuns para "coração" no Antigo Testamento. Diferente do português, em que "coração" quase sempre indica sentimento, no hebraico bíblico a palavra designa o centro interior de toda a pessoa: ali residem o pensamento, a memória, a vontade e a capacidade de decidir, não apenas a emoção. É por isso que a Bíblia fala em "pensar no coração" () ou "propor no coração" (), usos que em português soariam mais naturais com a palavra "mente".
Esse sentido amplo aparece no mandamento central de , "amarás o Senhor teu Deus de todo o teu levav", que pede lealdade da pessoa inteira. Léxicos como o de Brown, Driver e Briggs (BDB) tratam lev/levav como o termo central do hebraico bíblico para descrever o ser humano por dentro.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO tema do lev/levav percorre toda a Escritura hebraica como diagnóstico da condição humana (; ) e como promessa: Deus daria ao seu povo um coração novo (; ). O Novo Testamento lê essa trajetória como cumprida na obra de Cristo e no dom do Espírito. Jesus ensina que é do coração, e não apenas de gestos externos, que nascem tanto o mal () quanto a verdadeira adoração (), retomando o vocabulário e a preocupação dos profetas. Paulo, em , descreve os cristãos como uma carta escrita não em tábuas de pedra, mas em 'tábuas de carne do coração', pelo Espírito, ecoando diretamente a linguagem de Ezequiel sobre o coração de carne que substitui o coração de pedra. A trajetória do termo hebraico, portanto, aponta para uma renovação interior que o Novo Testamento associa à pessoa e à obra de Jesus Cristo.
Respaldo no Novo Testamento: (citando ); ;
Em palavras simples
Na Bíblia, "coração" quase sempre traduz as palavras hebraicas lev ou levav. Para os israelitas antigos, o coração não era só o lugar do sentimento: era o centro de toda a pessoa, incluindo os pensamentos, as decisões e a vontade. Por isso, mandamentos como "ame a Deus de todo o coração" pedem mais do que emoção — pedem que a pessoa inteira, com sua mente e suas escolhas, esteja voltada para Deus. Entender isso evita reduzir passagens bíblicas sobre o coração apenas a sentimentos.
De onde vem a palavra
A palavra lev (לֵב) e sua variante levav (לֵבָב) vêm da mesma raiz hebraica e são, de longe, os termos mais usados no Antigo Testamento para o que o português chama de "coração". As duas formas aparecem centenas de vezes ao longo de toda a Escritura hebraica, da Torá aos livros proféticos e à literatura sapiencial, e os léxicos padrão (BDB, HALOT) não indicam diferença clara de significado entre elas — levav parece ser simplesmente a forma mais alongada, talvez mais comum em contextos poéticos e legais, como no próprio Deuteronômio.
O que chama atenção para o leitor brasileiro é a amplitude do campo semântico. No uso bíblico, o coração é sede da emoção, mas também do pensamento racional ("disse em seu coração", Salmo 14:1), da memória, da consciência moral, da vontade que escolhe obedecer ou não, e até da coragem física (em algumas passagens, "perder o coração" descreve o medo que paralisa um exército, como em ). Não existe, no vocabulário hebraico, uma palavra separada e amplamente usada só para "mente" ou "intelecto" no sentido em que o grego ou o português têm; lev/levav cobre esse espaço.
Esse uso corresponde a uma visão de pessoa mais unificada do que a divisão moderna entre razão, emoção e vontade. Quando profetas como Jeremias e Ezequiel falam de um "coração novo" que Deus dará ao seu povo (; ), não estão prometendo apenas sentimentos renovados, mas uma reorientação completa da pessoa: como ela pensa, o que ela quer e como ela decide agir. Essa é a razão pela qual comentaristas como Keil e Delitzsch, ao tratarem desses textos proféticos, insistem em traduzir e explicar lev/levav com cuidado, evitando o reducionismo emocional que a palavra "coração" carrega em português contemporâneo.
Por essa mesma amplitude, traduções bíblicas em português às vezes precisam optar por "mente", "ânimo" ou "vontade" em vez de "coração", conforme o contexto, para que o leitor não restrinja o sentido apenas ao afetivo. É um lembrete útil de que nenhuma tradução capta sozinha todo o alcance da palavra original, e de que o estudo do termo hebraico enriquece a leitura de passagens já conhecidas.
Aprofundamento
A raiz consonantal ל-ב-ב está entre as mais produtivas do hebraico bíblico. Lev (לֵב) é a forma curta e mais frequente; levav (לֵבָב) é a forma expandida, com a consoante bet duplicada na escrita plena. Segundo o léxico de Brown, Driver e Briggs (BDB) e o HALOT (Koehler e Baumgartner), as duas formas são tratadas como variantes de uma mesma palavra, sem distinção semântica sistemática — a escolha entre elas parece em boa parte estilística ou ditada pelo contexto fonético e métrico do texto hebraico.
Do ponto de vista literal, lev/levav designa primeiro o órgão físico que bate no peito ( descreve um golpe no "coração" de Absalão). Mas na esmagadora maioria das ocorrências a palavra funciona de modo figurado, referindo-se ao interior da pessoa como um todo. O Theological Dictionary of the Old Testament (TDOT) organiza esses usos em campos que incluem: (1) sede do intelecto e da memória — "guardar no coração" (Salmo 119:11); (2) sede da vontade e da decisão — "propor no coração" (), "endurecer o coração" (); (3) sede da emoção — alegria, tristeza, temor; (4) sede da consciência moral — o coração que "condena" ou não (); e (5), num sentido mais raro, sede da coragem física.
Um uso teologicamente decisivo aparece em e , onde o coração humano é descrito como inclinado ao mal e "enganoso mais que todas as coisas" — um diagnóstico da condição humana, não uma afirmação sobre emoções ruins. Do lado oposto, e o chamado "Shemá" fazem do levav o primeiro alvo do amor a Deus, junto com a alma (nefesh) e a força (meod), formando uma tríade que os comentaristas judaicos clássicos (como Rashi) já discutiam em termos de pensamento, vida e recursos.
Vale notar que o Novo Testamento grego traduz lev/levav quase sempre por kardia, que herdou esse mesmo campo semântico amplo — daí Jesus poder dizer, em , que é "do coração dos homens" que saem os maus pensamentos, listando ali intenções e decisões, não apenas emoções. Vine's Expository Dictionary observa essa continuidade entre o uso hebraico e o grego como parte do pano de fundo necessário para entender a antropologia bíblica do Novo Testamento.
Outro ponto notado pelos léxicos é que o hebraico bíblico não distingue nitidamente "coração" de "mente" ou "espírito" (ruach) do modo como a psicologia moderna separa essas funções; os três termos se sobrepõem em vários contextos, e cabe ao interprete observar o verbo e o complemento que acompanham lev/levav em cada ocorrência para entender se o texto enfatiza pensamento, decisão, emoção ou coragem naquele caso específico. Essa atenção ao contexto imediato, mais do que a busca por um sentido fixo e único da palavra, é o que os comentários técnicos recomendam ao leitor que estuda o termo com mais profundidade.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:No hebraico bíblico, 'coração' (lev/levav) significa a mesma coisa que em português: só sentimento e emoção.
Léxicos como BDB e HALOT documentam que lev/levav cobre também o intelecto, a memória e a vontade que decide. Expressões como 'disse em seu coração' (Salmo 14:1, sentido de pensar) ou 'endureceu o coração' (, sentido de decisão obstinada) não fazem sentido se a palavra for lida só como emoção.
Dizem que:O coração bíblico é sempre descrito de forma positiva, como o lugar puro da espiritualidade da pessoa.
O Antigo Testamento também usa lev/levav para descrever o mal moral: fala do coração humano inclinado só para o mal, e o chama de enganoso. A palavra descreve o centro da pessoa, para o bem e para o mal, não uma reserva automática de bondade.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Tradição reformada
Textos como ('o coração é enganoso mais que todas as coisas') e são lidos como base para a doutrina da depravação total: o lev humano, em sua totalidade — pensamento, vontade e afeto — está corrompido pelo pecado e incapaz, por si, de buscar a Deus.
Tradição católica
O mesmo vocabulário do coração é lido dentro de uma antropologia em que a natureza humana foi ferida, mas não totalmente destruída pelo pecado; o lev conserva capacidade de resposta à graça, cooperando com ela rumo à conversão anunciada por profetas como Ezequiel.
Tradição ortodoxa
Na espiritualidade oriental, o coração (correspondente ao grego kardia e associado ao nous) é visto como o centro espiritual mais profundo da pessoa, obscurecido pela queda mas capaz de ser purificado e iluminado pela oração e pela vida na graça, recuperando sua função original.
Tradição wesleyana/arminiana
O coração corrompido descrito em Jeremias e Gênesis é real, mas a graça preveniente de Deus já atua sobre ele antes da conversão, restaurando parcialmente a capacidade humana de responder livremente ao chamado divino.
O que fazer com isso
Saber que lev/levav no hebraico bíblico inclui pensamento e vontade, não só sentimento, muda a leitura de passagens conhecidas. "Amar a Deus de todo o coração" () não descreve um estado emocional passageiro, mas um compromisso que envolve o que a pessoa pensa, decide e prioriza no dia a dia. Da mesma forma, "guardar a Palavra no coração" (Salmo 119:11) fala de memória e disciplina de pensamento, não apenas de afeto.
Passagens relacionadas7
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Fontes consultadas5 obras
- Francis Brown, S. R. Driver e Charles A. Briggs. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB), 1906.
- G. Johannes Botterweck e Helmer Ringgren (eds.). Theological Dictionary of the Old Testament (TDOT), verbete lev, 1995.
- Ludwig Koehler e Walter Baumgartner. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 2000.
- W. E. Vine. Vine's Expository Dictionary of Biblical Words, 1940.
- C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament (comentário a Jeremias e Ezequiel), 1866.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Lev e levav são a mesma palavra?
Sim, são a mesma raiz hebraica; levav é a forma mais longa. Os léxicos não apontam diferença de sentido consistente entre as duas, apenas uma provável preferência estilística ou métrica em certos textos, como no Deuteronômio.
Por que Deuteronômio 6:5 manda amar a Deus 'de todo o coração, de toda a alma e de toda a força'?
Porque levav ali já inclui pensamento e vontade; ao somar nefesh (alma/vida) e meod (força/recursos), o texto reforça que o amor a Deus deve envolver a pessoa inteira, sem deixar de fora nenhuma dimensão da existência.
O coração bíblico é o mesmo órgão físico que bombeia sangue?
A palavra também nomeia o órgão físico (), mas a esmagadora maioria dos usos bíblicos é figurada, referindo-se ao centro interior da pessoa, não à anatomia.
Qual a relação entre o lev hebraico e a kardia grega do Novo Testamento?
O Novo Testamento grego traduz lev/levav por kardia na maior parte das vezes, herdando o mesmo campo semântico amplo — por isso Jesus, em , fala do coração como origem de pensamentos e intenções, não só de sentimentos.
Palavras próximas
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