Homoousios (Da Mesma Substância)
O que significa homoousios, "da mesma substância", no Credo de Niceia?
A palavra no original
ὁμοούσιος
homoousios
Da mesma substância ou essência (em latim, consubstantialis); termo pós-bíblico do Credo de Niceia.
Tudo isto ao mesmo tempo
- mesma substância ou essência
- igualdade de natureza entre Pai e Filho
- oposição ao arianismo
- vocabulário filosófico de Niceia
- termo pós-bíblico
Resposta curta
Homoousios (ὁμοούσιος) é um termo grego que significa "da mesma substância" ou "da mesma essência". Não está na Bíblia: foi escolhido pelo Concílio de Niceia, em 325, para afirmar que o Filho é da mesma substância do Pai, contra Ário, que ensinava que o Filho era criatura. O credo diz que o Filho é "gerado, não feito, consubstancial ao Pai". A palavra é, portanto, uma ferramenta de interpretação posterior ao Novo Testamento, que as igrejas históricas usam para resumir o que textos como , , e afirmam sobre o Filho. Foi muito discutida na época, inclusive por quem preferia o termo homoiousios, "de substância semelhante".
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaA palavra não é bíblica, e por isso não há texto do Novo Testamento a ser cumprido nem tipologia a ser construída. O que a tradição afirma é que ela busca expressar o que o Novo Testamento diz sobre Cristo: o Verbo que é Deus (), em quem habita toda a plenitude da divindade () e que é a expressão exata do ser de Deus (). O termo funciona, nessa leitura, como uma tentativa de dizer com precisão o que esses textos já afirmam.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Homoousios é uma palavra grega que quer dizer "da mesma substância". Ela não está na Bíblia. Foi usada no Concílio de Niceia, em 325, para dizer que Jesus, o Filho, é Deus como o Pai é Deus, contra Ário, que ensinava que o Filho era uma criatura. O Credo de Niceia diz que Jesus é "consubstancial ao Pai". Os cristãos usam a palavra para resumir textos como e , mas ela é uma explicação posterior.
De onde vem a palavra
No início do século IV, uma controvérsia agitava a Igreja em Alexandria. O presbítero Ário ensinava que o Filho, o Logos, havia sido criado pelo Pai antes de todos os tempos, mas que era uma criatura, e que "houve um tempo em que ele não existia". O bispo Alexandre de Alexandria rejeitou essa tese, e a disputa se espalhou pelo Império Romano. O imperador Constantino, interessado na unidade da Igreja, convocou o primeiro concílio ecumênico em Niceia, cidade da atual Turquia, em 325.
O concílio redigiu um credo que afirmava a fé no "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, gerado do Pai, unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial (homoousios) ao Pai". A palavra decisiva foi escolhida porque títulos bíblicos, como "Filho de Deus" e "imagem de Deus", podiam ser aceitos por Ário em um sentido que o concílio considerava insuficiente. Segundo uma carta de Eusébio de Cesareia, o próprio Constantino sugeriu o termo, e historiadores discutem até que ponto isso reflete o processo real.
É preciso ser claro: homoousios não aparece na Bíblia. Nem mesmo o substantivo ousia, "substância, ser", tem no Novo Testamento esse sentido filosófico: em ele significa simplesmente "bens, patrimônio". Trata-se de vocabulário da filosofia grega, usado também por grupos gnósticos, e que alguns pais da Igreja evitavam por esse motivo. Há relatos de que um sínodo em Antioquia, por volta de 268, teria rejeitado o termo por associá-lo ao ensino de Paulo de Samósata, mas essa informação vem de fontes posteriores e é tratada com cautela.
A aceitação não foi imediata. Nas décadas seguintes, muitos bispos temiam que homoousios favorecesse o sabelianismo, a ideia de que Pai e Filho seriam apenas modos de uma única pessoa. Isso deu origem a propostas intermediárias, como homoiousios, "de substância semelhante". Atanásio de Alexandria defendeu o termo de Niceia, e os pais capadócios (Basílio de Cesareia, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa) ajudaram a esclarecer a distinção entre ousia e hypostasis. Em 381, o Concílio de Constantinopla confirmou a fé nicena.
Aprofundamento
A palavra homoousios é formada por homos (mesmo) e ousia (ser, substância, essência). Ousia vem do verbo einai, "ser", e designa aquilo que algo é, em oposição ao que lhe acontece. Dizer que o Filho é homoousios ao Pai significa afirmar que ele possui a mesma natureza divina, e não uma natureza semelhante ou derivada de menor categoria. A formulação foi pensada para responder à pergunta de Ário em termos que ele não pudesse aceitar: todos os títulos bíblicos do Filho podiam ser lidos como honorários, mas ser da mesma substância do Pai deixava pouco espaço para tratar o Filho como criatura.
A diferença entre homoousios e homoiousios é uma só letra, o iota, e deu origem à expressão popular de que o cristianismo teria se dividido "por causa de um iota". Foi uma disputa menos mesquinha do que parece: os homoiousianos, como Basílio de Ancira, temiam que a unidade de substância apagasse a distinção entre Pai e Filho. Com o tempo, quando os capadócios esclareceram que uma só ousia podia subsistir em três hypostaseis, muitos homoiousianos se aproximaram da fé nicena. Isso mostra que o debate era sobre como falar com precisão do que as Escrituras dizem, e não sobre uma disputa vazia.
Os ecos bíblicos que os defensores do termo apontavam são variados. diz que o Verbo "estava com Deus" e "era Deus". traz "Eu e o Pai somos um", em que "um" está no neutro (hen): uma só coisa, e não uma só pessoa. afirma que em Cristo "habita corporalmente toda a plenitude da divindade". diz que o Filho é "o resplendor da glória e a expressão exata do seu ser" (charaktēr tēs hypostaseōs). fala de quem estava "em forma de Deus". No Ocidente latino o termo foi vertido por consubstantialis, e Tertuliano, antes de Niceia, já falava de Pai e Filho como de uma só substância (una substantia) em três pessoas, vocabulário que preparou o terreno. Quem aceita o termo vê nele um resumo desses textos; quem o critica, como alguns grupos não trinitários, entende que a Bíblia se basta sem o vocabulário filosófico e que o termo introduz categorias estranhas. Convém lembrar que Niceia não decidiu o cânon nem votou a divindade de Cristo do zero: a adoração a Cristo já aparecia no século II, e Plínio, em carta ao imperador por volta do ano 112, já descrevia cristãos que cantavam a Cristo "como a um deus".
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A palavra homoousios aparece no Novo Testamento.
Ela não ocorre no Novo Testamento nem na Septuaginta. Foi adotada em Niceia (325) como vocabulário filosófico para expressar a igualdade de natureza entre Pai e Filho, e a tradição cristã a apresenta como interpretação de textos bíblicos, não como citação deles.
Dizem que:A divindade de Cristo foi inventada pelo imperador Constantino no Concílio de Niceia.
A adoração a Cristo é anterior: Plínio, por volta de 112, já descrevia cristãos que cantavam a Cristo como a um deus. Em Niceia, a discussão era se Ário estava certo ao tratar o Filho como criatura, e a maioria dos bispos presentes já confessavam a divindade de Cristo.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica, ortodoxa e protestante histórica (credo niceno)
Entende homoousios como expressão fiel do ensino do Novo Testamento sobre o Filho. O termo não acrescenta nada à revelação, mas protege contra leituras que reduzem o Filho a criatura.
Reformada (Calvino)
Aceita o uso de termos não bíblicos, como Trindade e consubstancial, quando servem para explicar o sentido das Escrituras, mas insiste que o critério é a Escritura, e não a palavra em si.
Homoiousianos do século IV (Basílio de Ancira)
Preferiam falar de substância "semelhante", por temer que homoousios apagasse a distinção entre Pai e Filho. Posições desse grupo aproximaram-se da fé nicena quando a distinção entre ousia e hypostasis foi esclarecida.
Não trinitários (Testemunhas de Jeová, unitarianos)
Consideram o termo uma categoria filosófica grega estranha à Bíblia e rejeitam a conclusão trinitária que ele resume. Leem textos como e como sinais de subordinação do Filho.
O que fazer com isso
Homoousios lembra que a Igreja, ao longo da história, recorreu a palavras que não estão na Bíblia para guardar o que a Bíblia diz. Isso convida a distinguir texto e vocabulário de interpretação, sem desprezar nenhum dos dois. Para o leitor, vale ler primeiro os textos sobre o Filho e só depois o credo, percebendo que a palavra foi criada para proteger uma afirmação bíblica, e não para substituí-la.
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Fontes consultadas6 obras
- Kelly, J. N. D.. Early Christian Doctrines, 1960.
- Ayres, L.. Nicaea and Its Legacy: An Approach to Fourth-Century Trinitarian Theology, 2004.
- Hanson, R. P. C.. The Search for the Christian Doctrine of God, 1988.
- Williams, R.. Arius: Heresy and Tradition, 1987.
- Pelikan, J.. The Christian Tradition, vol. 1: The Emergence of the Catholic Tradition (100-600), 1971.
- Calvino, J.. Institutas da Religião Cristã (livro I, cap. 13).
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Homoousios está na Bíblia?
Não. É um termo filosófico grego adotado pelo Concílio de Niceia, em 325. A tradição cristã o apresenta como resumo do que textos como e dizem sobre o Filho.
Qual a diferença entre homoousios e homoiousios?
Homoousios significa "da mesma substância"; homoiousios, "de substância semelhante". A diferença é a letra iota. Os defensores de homoiousios temiam que a primeira forma apagasse a distinção entre Pai e Filho.
O que Ário ensinava?
Ário afirmava que o Filho era criado pelo Pai antes dos tempos, mas era uma criatura, de modo que "houve um tempo em que ele não existia". O Concílio de Niceia rejeitou essa tese.
Constantino decidiu a divindade de Cristo?
Não no sentido popular. Ele convocou o concílio e, segundo Eusébio de Cesareia, sugeriu o termo, mas a fé na divindade de Cristo já existia, e a questão discutida era a posição de Ário sobre o Filho.
Palavras próximas
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