Murmuração (Gongysmos)
O que significa murmuração na Bíblia?
A palavra no original
γογγυσμός
gongysmos · Strong G1112
Resmungo ou queixa murmurada, palavra de origem provavelmente onomatopeica para o descontentamento persistente.
Tudo isto ao mesmo tempo
- queixa e resmungo
- descontentamento persistente
- reclamação contra Deus ou contra líderes
- desgaste da comunhão
- oposto da gratidão e da hospitalidade generosa
Resposta curta
Murmuração, no português de hoje, é a queixa baixa e repetida: o resmungo de quem reclama sem enfrentar o assunto de frente, seja contra Deus, contra líderes ou contra os irmãos. Não se trata de sussurro nem de falar baixo por educação, e sim de um descontentamento que se alimenta de si mesmo. No Novo Testamento a palavra traduz o grego γογγυσμός (gongysmos), geralmente considerado de origem onomatopeica, como um resmungo ouvido de longe. Aparece em ("fazei todas as coisas sem murmurações nem contendas"), em , na queixa dos helenistas pelas suas viúvas, em e em . O pano de fundo é o deserto do Êxodo, onde o povo murmurou contra Moisés e contra o Senhor. O termo descreve uma atitude que corrói a comunhão.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Contrastevem logo depois do hino de Cristo, que "a si mesmo se esvaziou" e foi obediente até a morte (). O contraste é deliberado no desenho da carta: onde o povo no deserto murmurou diante da prova, Cristo aceitou o caminho do Pai sem queixa contra ele. O texto não diz que Jesus nunca expressou angústia, pois no Getsêmani ele o fez em oração aberta ao Pai (). A diferença está entre levar a dor a Deus e murmurar contra Deus.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Murmuração é a reclamação baixa e constante, o resmungo de quem vive insatisfeito e espalha esse descontentamento ao redor. A palavra grega, gongysmos, imita o próprio som do resmungo. Na Bíblia, o exemplo clássico é o povo de Israel no deserto, que reclamava de tudo contra Moisés e contra Deus. Em , Paulo pede que os cristãos façam tudo sem murmurações nem contendas. Isso não proíbe contar a Deus uma dor ou apontar um problema verdadeiro, como acontece em . O alvo da crítica é a queixa que corrói a confiança e a união.
De onde vem a palavra
A palavra grega nasce do campo sonoro: gongysmos é o som baixo e contínuo de quem resmunga, e o verbo correspondente, gongyzo, descreve o ato de murmurar. Os léxicos costumam tratá-los como formações onomatopeicas, parentes distantes do nosso "cochichar" ou "resmungar". Por isso o leitor de língua portuguesa tropeça: "murmuração" soa a sussurro ou a rumor de água, quando o uso bíblico é de reclamação.
O pano de fundo é o Antigo Testamento grego, a Septuaginta. Em , o povo recém-saído do Egito se queixa da fome e diz que Moisés e Arão os trouxeram ao deserto para matá-los. O texto repete a ideia várias vezes, e Moisés responde que a queixa não é contra eles, mas contra o Senhor (). O mesmo padrão volta em e 17. Em todos esses casos a murmuração nasce de uma pergunta de fundo: será que Deus é bom e fiel?
No Novo Testamento o termo aparece poucas vezes, e com tons diferentes. Em designa o murmúrio dividido da multidão sobre Jesus, uns dizendo que era bom, outros que enganava o povo. Em é a queixa dos judeus de língua grega, que viam suas viúvas esquecidas na distribuição diária; os apóstolos tratam a reclamação como problema real e organizam a solução. Em , Paulo pede que a comunidade aja "sem murmurações nem contendas", e em pede hospitalidade "sem murmuração". O verbo ainda é usado por Paulo como advertência em , lembrando o deserto.
O conjunto mostra que a palavra não designa qualquer expressão de dor. Designa o descontentamento crônico que circula pelos cantos, evita o diálogo aberto e desgasta a confiança entre as pessoas e em Deus. Por isso Paulo associa a murmuração às contendas: uma alimenta a outra, e as duas enfraquecem o testemunho coletivo de uma comunidade que pretende viver como família diante do mundo.
Aprofundamento
A palavra γογγυσμός (gongysmos, Strong G1112) vem do verbo γογγύζω (gongyzo). Obras como o léxico de Bauer-Danker (BDAG) e o Theological Dictionary of the New Testament explicam a família como onomatopeica, isto é, formada a partir do som do resmungo, algo comparável a "grumble" ou "murmur" em outras línguas. É uma explicação aceita, mas é um juízo sobre a origem sonora do termo, e não uma etimologia que se possa comprovar documento por documento.
Na Septuaginta, gongysmos e gongyzo traduzem principalmente o vocabulário hebraico da queixa, em especial tĕlunnôt, as "queixas" de e 12, e a raiz lûn, "queixar-se". Nas narrativas do deserto, o centro da cena não é o volume da voz, mas o alvo: o povo se queixa do alimento, da água e da liderança, e o narrador conclui que a queixa atinge o próprio Deus. Isso ajuda a ler . Nos versículos seguintes, Paulo fala de uma "geração corrompida e perversa" e de filhos de Deus "irrepreensíveis" (), uma linguagem que muitos comentaristas, entre eles O'Brien e Silva, ligam a , texto sobre a rebeldia do povo no deserto. Se a ligação procede, Paulo está dizendo que a igreja de Filipos não deve repetir o erro de Israel.
É preciso distinguir murmuração de lamento. Os Salmos contêm queixas dirigidas a Deus com franqueza ( e 88), e Jó fala duramente diante dele. O Novo Testamento não condena essa forma de oração. O que o vocabulário de gongysmos retrata é outra coisa: a queixa lateral, feita a terceiros, que não busca resposta e supõe que Deus ou os líderes agem com má vontade. Em o verbo descreve os trabalhadores da primeira hora que reclamam do dono da vinha por ele ser generoso com os outros, e aí aparece bem o núcleo do problema: ressentimento diante da bondade alheia.
Há ainda um dado frequentemente esquecido. usa gongysmos para uma queixa que, segundo a narrativa, tinha fundamento, pois as viúvas estavam sendo preteridas. A reação dos Doze não é repreender os queixosos, e sim escolher sete homens para cuidar do serviço. O texto, portanto, não faz de toda reclamação um pecado; o que pesa é a direção e o espírito com que ela é feita. Na tradição monástica, a Regra de São Bento chega a tratar o murmúrio como falta grave da vida comunitária, o que mostra como cedo a igreja o entendeu como ameaça à convivência.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Murmurar na Bíblia significa falar baixinho ou sussurrar.
O sentido bíblico é de queixa e descontentamento, não de volume de voz. Gongysmos pode ser dito em voz audível; o que define o termo é a atitude de reclamação, como em , onde o povo se queixa abertamente de Moisés e do Senhor.
Dizem que:Toda reclamação é murmuração e, portanto, pecado.
A Bíblia traz lamentos dirigidos a Deus ( e 88) e uma queixa legítima em , que os apóstolos atendem. A murmuração condenada é a queixa ressentida, que desconfia da bondade de Deus ou desgasta os irmãos, e não a exposição honesta de um problema real.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada e evangélica
Lê a murmuração do deserto, retomada em , como sintoma de incredulidade: queixar-se da provisão é duvidar da bondade de Deus. Em , aplica o princípio à vida comum da igreja.
Católica e monástica
Trata a murmuração como falta contra a caridade e a paz comunitária. A Regra de São Bento a condena repetidas vezes como veneno da vida em comum, e a tradição moral a aproxima da maledicência.
Exegese histórico-crítica
Destaca o pano de fundo do Êxodo e de em e nota que o termo, em e , pode ter sentido mais neutro de queixa ou comentário murmurado.
O que fazer com isso
Vale perguntar a quem a queixa está sendo dirigida. A Bíblia admite levar a dor a Deus e expor um problema real a quem pode resolvê-lo, como em . A murmuração começa quando a reclamação passa a circular em volta, sem endereço, e vai moldando o ambiente. não pede silêncio sobre o que está errado, mas um modo de falar que preserve a comunhão.
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Fontes consultadas5 obras
- Danker, F.W. (ed.). A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- Kittel, G.; Friedrich, G. (eds.). Theological Dictionary of the New Testament, 1964.
- O'Brien, P.T.. The Epistle to the Philippians (New International Greek Testament Commentary), 1991.
- Silva, M.. Philippians (Baker Exegetical Commentary on the New Testament), 2005.
- Vine, W.E.; Unger, M.; White, W.. Vine's Complete Expository Dictionary of Old and New Testament Words, 1985.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Murmuração é o mesmo que fofoca?
Não exatamente. A murmuração bíblica é a queixa e o descontentamento, dirigidos contra Deus, os líderes ou os irmãos. Pode incluir fofoca, mas o foco do termo é a reclamação ressentida. A maledicência tem vocabulário próprio na Bíblia.
Onde a murmuração aparece pela primeira vez na Bíblia?
O episódio central é , quando o povo se queixa da fome no deserto contra Moisés e Arão. Moisés lembra que a queixa, na prática, se dirige ao Senhor (). O termo grego gongysmos vem da tradução grega do Antigo Testamento.
Reclamar com Deus em oração é murmuração?
Em geral, não. Salmos como o 13 e o 88 levam queixas a Deus com franqueza, e a Bíblia os guarda como oração. A murmuração condenada supõe desconfiança da bondade de Deus e não busca diálogo com ele.
O que Paulo quis dizer em Filipenses 2:14?
Pediu que a igreja viva sem murmurações nem contendas, para que seus membros sejam irrepreensíveis em meio a uma geração corrompida. Muitos comentaristas veem aí um eco do Israel murmurador do deserto.
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