Pular para o conteúdo
Significado Bíblico
Dicionário bíblicogregointermediária

Eudokia (Boa Vontade, Beneplácito)

O que significa "paz aos homens de boa vontade" (eudokia) em Lucas 2:14?

A palavra no original

εὐδοκία

eudokia · Strong G2107

O que parece bem a alguém; agrado, beneplácito, propósito favorável.

Tudo isto ao mesmo tempo

  • agrado e favor de Deus
  • beneplácito e propósito
  • boa vontade
  • desejo do coração
  • aprovação do Pai ao Filho

Resposta curta

Eudokia (εὐδοκία) é a palavra grega para o agrado, o beneplácito ou o propósito favorável. Formada de eu (bem) e a raiz de dokeo (parecer, achar), indica aquilo que "parece bem" a alguém e, quando o sujeito é Deus, o seu favor e decisão benevolente. Em é o "beneplácito" da vontade de Deus; em , a sua "boa vontade"; e o verbo afim eudokeo está na voz do Pai em : "em ti me comprazo".

A passagem mais conhecida é . A tradição textual mais bem atestada traz o genitivo (anthropois eudokias), de modo que o sentido é "paz entre os homens a quem Deus quer bem", e não "os homens que têm boa vontade", como o texto ficou conhecido. Este verbete mostra a palavra e o problema textual.

Onde a palavra aparece

Como isso aponta para Jesus

Cumprimento direto

O verbo ligado à eudokia está nos lábios do Pai quando fala do Filho: "em ti me comprazo" (; ; ). Mateus faz uma conexão explícita com o Antigo Testamento ao citar , "o meu amado, em quem a minha alma se compraz", como cumprido em Jesus (12:17-18). Em , a eudokia de Deus é anunciada junto ao nascimento do Salvador (2:11), e em o beneplácito da vontade de Deus é o fundamento da adoção "por meio de Jesus Cristo". O conjunto sustenta a leitura de que o favor de Deus se manifesta, no Novo Testamento, em Cristo.

Respaldo no Novo Testamento: ;

Em palavras simples

Eudokia é uma palavra grega que significa agrado, favor ou propósito bom. Quando se fala de Deus, é o seu beneplácito, aquilo que lhe agrada e que ele decide fazer. Em os anjos anunciam paz na terra, e muitos aprenderam isso como paz aos homens de boa vontade. Só que os manuscritos mais antigos trazem outra forma da palavra, e o sentido mais provável é paz entre os homens a quem Deus quer bem. Ou seja, a boa vontade ali é de Deus, não uma condição que os homens precisam ter.

De onde vem a palavra

Na cena de , os pastores, em campo aberto, recebem o anúncio do nascimento do Salvador, "que é Cristo, o Senhor" (2:11), e uma multidão do exército celestial proclama: "Glória a Deus nas alturas, e paz na terra entre os homens..." seguido de uma palavra com eudokia. O hino é breve, e a sua última linha foi, durante séculos, lida de modo diferente conforme o texto grego e a tradução em uso.

O problema é textual. Os manuscritos antigos mais importantes, como o Sinaítico e o Vaticano em sua leitura original, trazem o genitivo eudokias, "de agrado/favor", ligado a "homens": anthropois eudokias. Manuscritos posteriores, a base do chamado Texto Recebido e das versões protestantes mais antigas, trazem o nominativo eudokia, uma terceira afirmação paralela: "glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade aos homens". A Vulgata latina traduziu pax hominibus bonae voluntatis, e a fórmula "homens de boa vontade" se firmou na liturgia ocidental, onde muitos entenderam "boa vontade" como disposição humana.

No Novo Testamento, o substantivo é raro (cerca de nove vezes) e seu uso é variado. Em e , Jesus diz ao Pai que foi do teu "agrado" ter escondido certas coisas dos sábios. Em e 1:9 designa o propósito de Deus na predestinação e no mistério da sua vontade. Em , a "boa vontade" de Deus é a razão pela qual ele opera nos crentes o querer e o realizar. Em , o termo é ambíguo, pois pode apontar para o desejo de bondade dos crentes ou para o propósito divino.

Há, porém, ocorrências em que a eudokia é humana: Paulo fala do "desejo" do seu coração por Israel () e de alguns que pregam Cristo "por boa vontade" (). A palavra, portanto, não é exclusiva de Deus; o contexto decide. O verbo eudokeo, com sentido de comprazer-se ou aprovar, está ligado ao Pai em :18 e 17:5 e em .

Aprofundamento

Em termos lexicais, os léxicos distinguem na palavra três sentidos principais: o de agrado ou favor; o de vontade ou propósito; e o de desejo. A etimologia é transparente (eu, "bem", mais a raiz de dokeo), mas o uso bíblico não se reduz a ela. Na Septuaginta, eudokia e eudokeo costumam traduzir termos hebraicos de favor e aceitação, em especial ratson (רָצוֹן), como no Salmo 51:18 (50:20 na Septuaginta), em que se pede a Deus que faça bem a Sião "segundo o teu bom prazer". Dessa base vem o uso do Novo Testamento, em que a palavra indica o favor de Deus como causa e origem de seus atos.

Em , a escolha entre as duas leituras tem consequências. Com o genitivo, a frase se divide em dois membros: glória a Deus nas alturas, e paz na terra entre os homens de favor, isto é, aqueles a quem Deus favorece. Com o nominativo, a frase tem três: glória, paz e boa vontade, esta de Deus para com os homens. Defensores de cada leitura apontam a harmonia poética do paralelismo; a crítica textual contemporânea, representada por Bruce Metzger, considera o genitivo mais bem apoiado. Joseph Fitzmyer observou ainda uma expressão semelhante nos textos de Qumran, que falam dos "homens de seu favor" (ou "filhos do seu agrado"), o que torna a construção plausível em ambiente semítico, sem que isso seja prova definitiva.

Em qualquer das leituras, o ponto de fundo é o mesmo: o tradicional "homens de boa vontade" costuma ser lido como uma condição, como se a paz fosse reservada a quem tem boa disposição. O genitivo grego, porém, aponta para a boa vontade de Deus, e não para a dos homens, e o anúncio é o de que Deus, ao enviar o Salvador, mostra o seu agrado. As versões reconhecem isso de modos diferentes: a Almeida Revista e Atualizada traz "entre os homens, a quem ele quer bem", e a Almeida Revista e Corrigida segue o nominativo ("boa vontade para com os homens"). O Missal Romano italiano vigente traduz "pace in terra agli uomini, amati dal Signore", um reflexo da leitura do genitivo na própria liturgia.

O verbo eudokeo ajuda a entender o substantivo. Em , a voz do céu declara de Jesus: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" (eudokesa); em , o evangelista cita com o verbo eudokeo, aplicando o texto ao servo escolhido; em "aprouve" (eudokesen) a Deus que nele habitasse toda a plenitude. Nos três casos, o agrado do Pai tem Jesus como centro, e é esse o fio que liga o hino dos anjos ao batismo e à transfiguração.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Lucas 2:14 diz que há paz para os homens que têm boa vontade.

    No texto grego mais bem atestado, eudokias é o favor de Deus, e a frase diz "paz entre os homens de (seu) favor", isto é, aqueles a quem Deus quer bem. A leitura de "homens de boa vontade" vem sobretudo da tradução latina da Vulgata e da liturgia e foi entendida em chave de disposição humana.

  • Dizem que:Eudokia é sempre uma palavra que descreve o favor de Deus.

    Em Paulo fala da eudokia do seu coração (seu desejo por Israel) e em alguns pregam Cristo "por boa vontade". O sentido é determinado pelo contexto, e o sujeito pode ser humano.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Leitura crítica do genitivo (maioria dos estudiosos modernos)

    Segue eudokias, lê "homens de favor" e entende que a paz é concedida àqueles a quem Deus favorece. Metzger e Fitzmyer a apoiam, e a Almeida Revista e Atualizada verte em sentido semelhante.

  • Leitura do nominativo (Texto Recebido e tradição da Almeida Corrigida)

    Segue eudokia e lê três afirmações paralelas: glória a Deus, paz na terra e boa vontade de Deus para com os homens. É a base de traduções como a Almeida Revista e Corrigida e da King James, e entende a eudokia como o favor de Deus a toda a humanidade.

  • Tradição litúrgica latina

    O Gloria em latim, pax hominibus bonae voluntatis, consagrou a fórmula "homens de boa vontade". Comentaristas católicos hoje recordam que a boa vontade ali é a de Deus, e a liturgia em vernáculo de algumas línguas ajustou o texto.

  • Debate teológico: eleição e alcance do favor

    Leitores da tradição reformada tendem a ver no genitivo a ênfase na iniciativa soberana de Deus (cf. ), enquanto leitores de tradição wesleyana e arminiana destacam que o anúncio é dirigido à humanidade em geral. O próprio texto de Lucas não resolve essa discussão.

O que fazer com isso

ensina, primeiro, a ler o hino pelo que Deus faz, e não por uma condição que o ser humano deveria cumprir. Saber que a leitura mais bem atestada fala do favor de Deus ajuda a escutar a passagem sem transformá-la em cobrança. Também convida a conferir qual texto e qual tradução se está lendo, pois o que se cita nos cartões de Natal nem sempre coincide com o que o grego mais antigo traz.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas6 obras
  • Bauer, W.; Danker, F. W.; Arndt, W. F.; Gingrich, F. W.. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
  • Metzger, B. M.. A Textual Commentary on the Greek New Testament, 1971.
  • Fitzmyer, J. A.. The Gospel According to Luke I-IX (Anchor Bible), 1981.
  • Marshall, I. H.. The Gospel of Luke (NIGTC), 1978.
  • Kittel, G.; Friedrich, G. (eds.). Theological Dictionary of the New Testament (verbete eudokeo, eudokia, de G. Schrenk), 1964.
  • Strong, J.. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Lucas 2:14 diz "homens de boa vontade" ou "homens a quem Deus quer bem"?

O texto grego mais bem atestado traz o genitivo eudokias, que se entende como "homens de favor" (de Deus), isto é, aqueles a quem Deus quer bem. A fórmula "homens de boa vontade" se firmou pela tradução latina e pela liturgia.

Por que existem duas leituras em Lucas 2:14?

Porque os manuscritos divergem em uma só letra: eudokia, nominativo, em manuscritos tardios; eudokias, genitivo, nos mais antigos. A diferença muda o número de afirmações do hino e o sentido da última.

Eudokia aparece em outros lugares do Novo Testamento?

Sim, cerca de nove vezes, entre elas , , , :13 e . O verbo eudokeo aparece em :18 e 17:5.

Eudokia e graça são a mesma coisa?

Não. Eudokia enfatiza o agrado e o propósito de Deus, o que lhe parece bom; charis, graça, enfatiza o favor concedido a quem não o merece. Os dois termos se aproximam em , mas são palavras distintas.

Palavras próximas

Temas

  • No grego
  • #eudokia
  • #boa-vontade
  • #beneplacito
  • #lucas-2-14
  • #efesios-1-5
  • #favor-de-deus

Publicado em 29/10/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • εὐδοκία (eudokia) em grego, Strong G2107
  • 6 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

Sem devocional, sem corrente e sem promoção. Só o verbete da semana, com o contexto que normalmente fica de fora. Todo e-mail leva um link para sair, e sair é imediato.

Esta palavra nas passagens explicadas

Paz na terra aos homens de boa vontade, ou a quem Deus escolhe?

No relato de Lucas, um anjo aparece aos pastores de Belém para anunciar o nascimento de Jesus, e de repente surge ao lado dele "uma multidão de exércitos celestiais", louvando a Deus e dizendo: "Glória nas alturas a Deus, paz na terra, e aos seres humanos boa vontade." A frase parece simples, mas esconde um dos debates textuais mais conhecidos do Novo Testamento.

Ler explicação →

Agapas-me ou phileis-me? O jogo de palavras que o português apaga

O grego tem, no Novo Testamento, mais de uma palavra corrente para "amar", e este trecho usa duas delas alternadamente: ἀγαπάω, agapaō, e φιλέω, phileō. O português quase sempre traduz as duas pela mesma palavra — "amar" —, e o jogo verbal que estrutura a cena inteira desaparece por completo na leitura em tradução.

Ler explicação →