Ergon (Obra)
O que significa ergon (obra) na Bíblia?
A palavra no original
ἔργον
ergon · Strong G2041
Obra, ação, trabalho; aquilo que alguém faz ou realiza.
Tudo isto ao mesmo tempo
- trabalho e ocupação
- ação e conduta
- feito ou realização
- obras de Deus e de Cristo
- obras da lei e boas obras
Resposta curta
Ergon (ἔργον) é a palavra grega para obra, ação, trabalho ou realização, e ocorre mais de cento e sessenta vezes no Novo Testamento. Pode designar o trabalho cotidiano, as ações de uma pessoa, os feitos de Deus e de Cristo, ou o resultado de um esforço. A palavra está no centro de um dos debates mais conhecidos da teologia: as "obras da lei" que Paulo diz não justificar (; ), as "boas obras" para as quais somos criados () e a fé sem obras que Tiago chama de morta (). Examinar os contextos de cada texto ajuda a evitar que os dois apóstolos pareçam se contradizer.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteNos textos paulinos, as obras da lei são contrastadas com a fé em Cristo como base da justificação (). Em , Jesus redefine a pergunta sobre as obras de Deus: a obra é crer naquele que o Pai enviou. As obras do próprio Jesus, realizadas em nome do Pai, são apresentadas como testemunho de quem ele é (). Em , as boas obras são resultado da nova criação em Cristo, não a sua causa.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Ergon é a palavra grega para obra, ação ou trabalho. No Novo Testamento ela aparece de várias formas: o trabalho comum, as ações das pessoas, as obras de Jesus e de Deus. Ganhou fama por causa de uma aparente tensão entre Paulo e Tiago. Paulo diz que a pessoa não é justificada pelas "obras da lei"; Tiago diz que a fé sem obras é morta. Quando se olha o contexto de cada passagem, vê-se que eles falam de coisas diferentes e não precisam ser lidos como adversários.
De onde vem a palavra
A palavra ἔργον é comum no grego antigo e designa aquilo que alguém faz: trabalho, ocupação, feito, produto. O Novo Testamento a usa em muitos registros, e uma boa parte do debate sobre ela se resolve quando se separa o uso comum do uso técnico.
No uso comum, ergon é o trabalho de alguém. Jesus diz que o Pai trabalha e que ele também trabalha (), e que é preciso fazer "as obras" de quem o enviou enquanto é dia (). As obras de Jesus, especialmente os sinais, são apresentadas como testemunho de sua missão (; 10:25). Quando a multidão pergunta o que deve fazer para realizar "as obras de Deus", a resposta de Jesus desloca a pergunta: a obra de Deus é crer naquele que ele enviou ().
No uso técnico dos debates paulinos, aparece a expressão "obras da lei" (erga nomou), em :2 e . Paulo afirma que o ser humano não é justificado por elas, mas pela fé em Cristo. Em ele usa Abraão como exemplo e distingue o que é recebido como dívida do que é recebido como graça. Em a ordem é explicitada: a salvação é pela graça, mediante a fé, não de obras; mas somos feitura de Deus, criados em Cristo Jesus "para boas obras".
Tiago retoma o termo em contexto diferente. Em , o autor se dirige a quem alega ter fé sem manifestá-la em ações de cuidado e justiça. A fé que não produz obras é "morta", e Abraão e Raabe são citados como exemplos de fé que se mostrou em atos. Outros textos, como , e 3:5, e , completam o quadro: as obras são tratadas ora como fruto da fé, ora como critério de avaliação, e ora como algo que não conquista a salvação.
Aprofundamento
O núcleo do debate está na expressão "obras da lei". Na leitura tradicional, associada a Lutero e a Calvino, ela designa qualquer tentativa de conquistar a justiça diante de Deus por meio da obediência à lei, e Paulo estaria opondo graça e mérito. Desde os estudos de E.P. Sanders sobre o judaísmo do período, publicados em 1977, e de James Dunn, desenvolveu-se a chamada "nova perspectiva sobre Paulo". Nela, as obras da lei seriam sobretudo as práticas que marcavam a identidade judaica, como a circuncisão, as leis alimentares e o sábado, e o problema abordado em Gálatas seria se os gentios precisavam adotá-las para pertencer ao povo de Deus. Intérpretes como Douglas Moo defendem que a leitura tradicional não é afastada por esse debate, pois o contexto de e 4 trata também do que a lei exige e da incapacidade humana de cumpri-la. As duas posições citam os mesmos textos e a discussão continua entre especialistas.
Quanto a Tiago, convém notar que ele e Paulo usam o verbo "justificar" em sentidos que podem diferir. Em , a justificação de Abraão é vista no ato em que ele oferece Isaque, isto é, a fé se mostra verdadeira; Paulo, em , olha para , quando Abraão crê e isso lhe é creditado como justiça, bem antes desse ato. Tiago pergunta que tipo de fé é genuíno; Paulo pergunta com que base alguém é aceito por Deus. Além disso, quando Tiago fala em obras, ele pensa em ações de misericórdia (), e não em obras da lei mosaica.
As tradições cristãs organizam essa relação de formas distintas. As igrejas luteranas e reformadas falam de justificação somente pela fé, com obras como fruto necessário; a tradição católica, expressa no Decreto sobre a Justificação do Concílio de Trento (1547), ensina que a justificação é obra da graça e que as boas obras, feitas na graça, contribuem para o crescimento da pessoa justificada.
Um último ponto filológico é que ergon não tem, por si, sentido negativo. A palavra pode ser "boa" (kalon, agathon), "má" (ponēron) ou "morta" (), e o adjetivo mostra a avaliação. Quem lê só a palavra "obras" sem o adjetivo e sem o complemento (da lei, da fé, da carne, de Deus) perde o essencial do sentido em cada versículo. Também ajuda lembrar que o plural "obras" e o singular "obra" nem sempre se equivalem: fala de uma só obra, crer, enquanto fala de muitas.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Paulo e Tiago se contradizem sobre fé e obras.
Eles respondem a perguntas diferentes. Paulo trata do que torna alguém aceito por Deus, em contraste com obras da lei (; ). Tiago trata de como se reconhece uma fé genuína, que se mostra em ações de misericórdia (). O uso do verbo "justificar" também não é idêntico nos dois.
Dizem que:Ergon sempre se refere a esforços religiosos para ganhar salvação.
A palavra é neutra e designa qualquer trabalho ou ação, inclusive as obras de Jesus (), a obra de Deus em nós () e as boas obras para as quais fomos criados (). O sentido depende do complemento e do contexto.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Luterana e reformada
Lê "obras da lei" como toda tentativa de mérito diante de Deus. A justificação é só pela fé, e as boas obras são fruto necessário e evidência dela (; ).
Católica (Concílio de Trento)
Ensina que a justificação é dom da graça, mas que as obras feitas na graça contribuem para o crescimento da justiça recebida, em harmonia com .
Nova perspectiva sobre Paulo (Sanders, Dunn, Wright)
Entende "obras da lei" sobretudo como marcas de identidade judaica (circuncisão, alimentos, sábado), de modo que o debate gira em torno de quem pertence ao povo de Deus.
O que fazer com isso
O estudo de ergon mostra que a pergunta correta nem sempre é "obras ou fé", e sim "de que obras fala o texto e para quê". Paulo e Tiago ajudam a evitar dois extremos: confiar em esforços próprios para ser aceito e tratar a fé como mera opinião. Observar o complemento de cada ocorrência (da lei, boas, da fé) é um exercício simples que torna a leitura mais precisa.
Passagens relacionadas7
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas5 obras
- Bauer, W.; Danker, F.W.; Arndt, W.F.; Gingrich, F.W.. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- Sanders, E.P.. Paul and Palestinian Judaism, 1977.
- Dunn, J.D.G.. Jesus, Paul and the Law, 1990.
- Moo, D.J.. The Epistle to the Romans (NICNT), 1996.
- Concílio de Trento. Decreto sobre a Justificação (Sessão VI), 1547.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que são "obras da lei" em Gálatas 2:16?
É a expressão erga nomou. Na leitura tradicional, designa a observância da lei como tentativa de mérito; na nova perspectiva, designa práticas que marcavam a identidade judaica, como circuncisão e leis alimentares. As duas leituras são debatidas entre especialistas.
Tiago 2 contradiz Romanos 3?
Não necessariamente. Os dois textos tratam de perguntas diferentes e usam "justificar" de maneiras que podem diferir. Paulo fala da base da aceitação diante de Deus; Tiago, da prova de que a fé é real.
Efésios 2:10 diz que somos criados para boas obras?
Sim. Depois de afirmar que a salvação é pela graça, mediante a fé, e não de obras (2:8-9), o texto diz que somos feitura de Deus, criados em Cristo Jesus para boas obras, preparadas de antemão por ele.
Palavras próximas
Temas
- No grego
- #ergon
- #obra
- #obras-da-lei
- #boas-obras
- #tiago-2
- #galatas-2-16