Elpís
O que significa elpís na Bíblia
A palavra no original
ἐλπίς
elpís · Strong G1680
Expectativa confiante de algo considerado certo, ainda que não realizado ou visto.
Tudo isto ao mesmo tempo
- expectativa confiante do futuro
- confiança numa promessa de Deus
- aguardar algo garantido, ainda que invisível
- chance ou possibilidade (uso mais fraco)
Resposta curta
Elpís (ἐλπίς) é a palavra grega traduzida por "esperança" no Novo Testamento. No grego clássico, o termo era neutro: podia designar tanto a expectativa de algo bom quanto o temor de algo ruim, como em Tucídides e nos trágicos. No uso bíblico, em Paulo e Pedro, o sentido se estreita quase sempre para uma expectativa confiante e positiva, apoiada não em desejo vago, mas numa promessa de Deus considerada certa, ainda não vista.
O centro dessa esperança é a ressurreição de Cristo. O autor de Hebreus chama a esperança de "âncora da alma, firme e segura" (), e Pedro a descreve como "viva", gerada pela ressurreição de Jesus (). Por isso elpís se distingue da tikvah hebraica: não é apenas aguardar um bem futuro incerto, mas apoiar-se num acontecimento que, para a fé cristã, já se cumpriu.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoA esperança bíblica é um tema que atravessa toda a Escritura, mas o Novo Testamento a redefine em torno de um evento concreto: a ressurreição de Jesus. O Antigo Testamento já fala de esperança em Deus (a tikvah que sustenta o justo em meio à angústia), mas essa esperança aponta para frente sem um marco histórico que a ancore de modo definitivo. Pedro descreve os cristãos como "gerados de novo para uma esperança viva, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos" () — a palavra "viva" marca a virada: a esperança deixa de ser apenas confiança numa promessa futura e passa a se apoiar num fato já ocorrido. É esse movimento, da expectativa aberta do Antigo Testamento para a esperança ancorada num acontecimento histórico específico, que os autores do Novo Testamento descrevem ao empregar elpís.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Elpís é a palavra grega para "esperança" no Novo Testamento. Fora da Bíblia, podia significar tanto uma expectativa boa quanto um medo do que estava por vir. Nos escritos cristãos, porém, ganhou um sentido mais firme: confiança tranquila de que algo prometido por Deus vai acontecer, mesmo sem se ver ainda. Essa esperança está amarrada à ressurreição de Jesus — não é otimismo solto, mas confiança apoiada em algo que os primeiros cristãos acreditavam já ter acontecido de verdade.
De onde vem a palavra
No grego usado fora da Bíblia, elpís (ἐλπίς) era uma palavra ambivalente. Em Homero, Heródoto e nos trágicos gregos, podia expressar tanto a expectativa de coisas boas quanto o receio de coisas más — daí expressões como "boa esperança" ou "má esperança" para diferenciar o sentido pretendido em cada frase. O historiador Tucídides chega a tratar elpís com desconfiança, como algo que sustenta os homens em momentos de crise sem garantia real de que se cumprirá, um consolo que também pode enganar.
O Novo Testamento herda essa palavra do vocabulário grego comum, mas a transforma. Segundo o léxico BDAG e o dicionário de W.E. Vine, no uso cristão o termo praticamente perde a ambiguidade: quase sempre designa uma expectativa confiante e positiva, quase nunca temor. Paulo usa elpís com grande frequência em Romanos, onde a esperança aparece ligada à glória futura (), à perseverança em meio ao sofrimento () e à criação inteira que aguarda libertação (). Em Efésios e Colossenses, a esperança é algo "reservado nos céus" () e chega a ser identificada com a própria presença de Cristo no crente: "Cristo em vós, a esperança da glória" ().
Essa esperança contrasta com a palavra hebraica do Antigo Testamento costumeiramente citada como equivalente, tikvah (תִּקְוָה), que também expressa expectativa confiante, como em "o SENHOR será a esperança do seu povo" () ou "há esperança para a árvore" (). A diferença não está no grau de confiança — ambas podem ser fortes — mas no fundamento histórico que o Novo Testamento lhe atribui: a esperança cristã se apoia especificamente na ressurreição de Jesus como evento já ocorrido, algo que a tikvah veterotestamentária, por razões cronológicas óbvias, não podia expressar da mesma forma. É essa ligação com um fato passado, e não apenas com uma promessa futura, que os autores neotestamentários exploram ao empregar elpís.
Aprofundamento
A etimologia de elpís é discutida entre os lexicógrafos. Alguns a associam à raiz do verbo élpō ("esperar", "supor"), já presente em Homero; outros observam que a palavra, tanto na forma substantiva quanto na verbal (elpízō, "esperar", usada cerca de 31 vezes no Novo Testamento), sempre envolve uma orientação da mente para o futuro, favorável ou não, conforme registram o Theological Dictionary of the New Testament (TDNT) e o léxico BDAG. O que muda drasticamente do grego secular para o uso bíblico é o objeto dessa expectativa: no grego pagão, a esperança podia repousar na sorte, em deuses caprichosos ou simplesmente no desconhecido; nos escritos do Novo Testamento, ela repousa quase sempre em Deus e em promessas específicas e nomeadas.
Richard Trench, em seu clássico "Synonyms of the New Testament", observa que o Novo Testamento eleva elpís a um status quase técnico, associando-a à fé e ao amor como uma das três grandes virtudes permanentes: "Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor" (). Isso não significa que a palavra perca todo uso cotidiano — em , por exemplo, elpís descreve a esperança quase perdida de sobrevivência num naufrágio, um sentido mais próximo do uso comum de "chance" do que de convicção teológica. Mas o peso doutrinário do termo está nos textos em que a esperança se firma explicitamente na ressurreição: Paulo, diante do Sinédrio, declara ser julgado "por causa da esperança e da ressurreição dos mortos" (; ver também e 26:6-7), unindo as duas ideias como praticamente inseparáveis uma da outra.
Pedro reforça essa mesma ligação ao abrir sua primeira carta bendizendo a Deus, que "nos gerou de novo para uma esperança viva, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos" () — o particípio "viva" (zōsan) contrasta implicitamente com esperanças mortas, isto é, sem fundamento real algum. Já o autor de Hebreus usa a imagem naval da âncora: a esperança "penetra até o interior do véu", onde Cristo já entrou como precursor em nosso favor (), unindo esperança e o Lugar Santíssimo celestial. Título significativo também é "bendita esperança" em , ligada explicitamente à "manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo" — leitura que a tradição cristã costuma associar diretamente à segunda vinda de Cristo, o momento em que a esperança deixaria de ser aguardada para se tornar visão plena e definitiva.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Elpís, no Novo Testamento, sempre significa uma certeza absoluta e nunca um desejo mais fraco.
Em , a palavra descreve a esperança quase perdida de sobrevivência num naufrágio, um uso próximo de "chance" e não de convicção teológica plena. O peso técnico do termo aparece principalmente nos textos sobre a ressurreição, não em todas as ocorrências.
Dizem que:A esperança bíblica é apenas otimismo ou pensamento positivo religioso.
Léxicos como o BDAG e autores como Trench mostram que elpís, no uso neotestamentário central, está ligada a um evento histórico específico (a ressurreição de Jesus) e a promessas nomeadas de Deus, não a uma disposição psicológica genérica de esperar o melhor.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Catolicismo
A esperança (spes) é uma das três virtudes teologais, ao lado da fé e da caridade, infundida pela graça e voltada para a bem-aventurança eterna e o auxílio divino necessário para alcançá-la.
Protestantismo reformado
A esperança é fruto da fé e da eleição em Cristo, apoiada na certeza da graça soberana de Deus; por isso é descrita como firme e inabalável, ligada à perseverança dos santos.
Tradição ortodoxa
A esperança está profundamente ligada à participação na vida ressuscitada de Cristo (theosis), sendo vivida na liturgia e nos sacramentos como antecipação real, ainda que parcial, da glória futura.
Pentecostalismo e evangelicalismo
A esperança é frequentemente associada à "bendita esperança" do retorno iminente de Cristo (), funcionando como motivação central para a vida de vigilância e testemunho.
O que fazer com isso
Entender elpís ajuda a diferenciar a esperança bíblica de otimismo genérico ou pensamento positivo. No uso do Novo Testamento, esperança não é uma sensação de que "tudo vai dar certo", mas confiança apoiada em algo específico: a ressurreição de Cristo, já ocorrida, e as promessas de Deus, já dadas. Essa distinção importa para quem lê passagens como ou e quer entender por que os autores associam esperança à firmeza, e não à incerteza.
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Fontes consultadas4 obras
- Frederick William Danker (ed.). A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- W.E. Vine. Vine's Expository Dictionary of New Testament Words, 1940.
- Gerhard Kittel (ed.). Theological Dictionary of the New Testament (TDNT), vol. 2, 1964.
- Richard Chenevix Trench. Synonyms of the New Testament, 1880.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Elpís é a mesma coisa que fé?
Não exatamente. Paulo as trata como conceitos distintos, ainda que próximos, ao lado do amor, em . A fé tende a descrever confiança presente numa pessoa ou promessa; a esperança, especificamente, olha para algo ainda não realizado, mas considerado certo.
Elpís sempre tem sentido positivo na Bíblia?
Quase sempre, mas não em absoluto. Em , a palavra descreve a esperança quase perdida de sobrevivência durante uma tempestade no mar, um uso mais próximo de "chance" do que de convicção religiosa firme.
Qual a diferença entre elpís e a esperança do Antigo Testamento?
Ambas expressam confiança, mas a esperança do Novo Testamento, ao usar elpís, costuma se apoiar explicitamente na ressurreição de Jesus como acontecimento já ocorrido, algo que o vocabulário hebraico de esperança, por razões históricas, não tinha como expressar.
De onde vem a palavra elpís?
Lexicógrafos a ligam à raiz do verbo grego élpō, relacionado a esperar ou supor, já presente em Homero. No grego secular era neutra, podendo indicar tanto expectativa boa quanto receio; o Novo Testamento estreita seu uso para o sentido positivo.
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