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Significado Bíblico
Costumes da épocaintermediária
Ilustração da categoria Costumes da época

A terra fundada sobre os mares: a cosmologia antiga do Salmo 24

O Salmo 24 ensina que a terra flutua sobre as aguas, e isso contradiz a ciencia moderna?

Ao SENHOR pertence a terra, e sua plenitude; o mundo, e os que nele habitam. Porque ele a fundou sobre os mares; e sobre os rios ele a firmou.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

O Salmo 24 abre afirmando que a terra pertence ao Senhor ‘porque ele a fundou sobre os mares e a firmou sobre as correntes’ (vv.1-2). A imagem reflete a cosmologia compartilhada por Israel e seus vizinhos no antigo Oriente Proximo, que imaginava o mundo habitavel assentado sobre um oceano subterraneo primordial, e nao uma descricao cientifica de geologia ou fisica planetaria. Ler esse verso como erro cientifico ou como previsao tecnica precisa comete o mesmo equivoco de genero literario: o salmo usa a linguagem cosmologica disponivel na epoca para fazer uma afirmacao teologica especifica, a de que Deus, e nao os deuses das aguas caoticas veneradas por outros povos da regiao, e o verdadeiro fundador e dono soberano de toda a terra e de tudo o que nela habita.

Como isso aponta para Jesus

Tipologia

O tema biblico de Deus exercendo autoridade sobre as aguas caoticas reaparece nos evangelhos quando Jesus acalma uma tempestade com uma palavra, deixando os discipulos admirados sobre quem seria aquele que ate o vento e o mar obedecem. A cena nao cita o Salmo 24 diretamente, mas ecoa o mesmo motivo teologico mais amplo do dominio divino sobre as forcas aquaticas caoticas, agora manifestado na pessoa de Jesus.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

O Salmo 24 diz que Deus fundou a terra sobre os mares e as correntes de agua. Essa e a forma como os povos antigos, incluindo Israel, imaginavam o mundo: uma terra firme colocada sobre um oceano profundo por baixo. Nao e uma descricao cientifica, e sim uma linguagem cultural comum na epoca usada para afirmar algo teologico: que Deus, e nao outras divindades das aguas caoticas veneradas por povos vizinhos, e o verdadeiro dono e criador soberano de todo o mundo.

Contexto histórico

O Salmo 24 e classificado como hino de entrada, provavelmente usado numa procissao litargica de subida ao templo em Jerusalem, o que explica a pergunta retorica dos versos seguintes sobre quem pode subir ao monte do Senhor e permanecer no seu lugar santo. Antes dessa pergunta, porem, o salmo abre com uma declaracao cosmica sobre a propriedade divina de toda a terra, fundamentada precisamente na imagem da fundacao do mundo sobre os mares e as correntes de agua. Essa cosmologia, longe de ser exclusiva de Israel, era compartilhada amplamente pelos povos do antigo Oriente Proximo: textos mesopotamicos e cananeus descreviam o mundo habitavel como uma superficie firme colocada sobre ou emergindo de um oceano primordial caotico, muitas vezes associado a divindades rivais do deus criador principal de cada panteao local, como o combate entre Marduk e Tiamat na tradicao babilonica ou entre Baal e Yamm na tradicao cananeia de Ugarite. O texto biblico de Genesis 1 e varios salmos, incluindo este, usam vocabulario semelhante para as aguas primordiais, mas de forma sistematicamente polemica: em vez de um combate entre divindades rivais, e o unico Deus de Israel que simplesmente fala e organiza essas aguas, sem qualquer disputa cosmica real contra um adversario divino equivalente ou proximo em poder. A procissao liturgica que provavelmente acompanhava o canto desse salmo levava fieis e sacerdotes subindo em direcao ao templo, e a abertura cosmica dos dois primeiros versos funcionava como fundamento teologico para tudo o que vinha depois: se toda a terra pertence ao Senhor por direito de criacao, entao a pergunta sobre quem pode se aproximar do seu lugar santo ganha peso ainda maior, porque nao se trata de negociar acesso a um territorio qualquer, mas de se aproximar do proprio dono soberano de todo o mundo habitado, criador legitimo reconhecido por toda a terra e por todos os povos que nela vivem, sem excecao alguma de fronteira ou nacionalidade.

Aprofundamento

A palavra hebraica tehom, traduzida geralmente como abismo ou aguas profundas, aparece tambem em Genesis 1:2 para descrever o estado inicial e caotico da criacao antes da ordenacao divina do mundo habitavel. No Salmo 24, o verbo usado para fundar a terra sobre os mares carrega a ideia de estabelecer algo firme sobre uma base originalmente instavel e amorfa, uma acao ativa e continua de conter e organizar aquilo que, sem intervencao divina, tenderia ao caos primordial. John Walton, especialista em cosmologia do antigo Oriente Proximo, argumenta que textos como este nao pretendiam fazer afirmacoes cientificas sobre a composicao fisica do planeta no sentido moderno da palavra, mas comunicar, usando a cosmologia funcional e phenomenologica disponivel na epoca, uma verdade teologica sobre ordem versus caos e sobre quem detem autoridade legitima sobre essa ordem estabelecida. Esse mesmo motivo de dominio divino sobre as aguas caoticas primordiais reaparece em outros salmos, como o Salmo 104 e o Salmo 89, e em textos poeticos como Job 38, onde Deus e questionado sobre onde estava quando as fundacoes da terra foram lancadas sobre as aguas profundas do abismo primordial. Ler esse tipo de linguagem como se fosse um relatorio geologico moderno, seja para valida-lo cientificamente por meio de analogias forcadas com lencois freaticos e placas tectonicas, seja para refuta-lo como erro cientifico grosseiro, ignora o genero literario e a intencao comunicativa original do texto. O ponto do salmo nao e ensinar sobre a estrutura fisica do planeta, mas afirmar, num ambiente cultural saturado de mitologias rivais sobre as aguas caoticas, que o Deus de Israel exerce dominio incontestado e pacifico sobre essas forcas, sem depender de combate cosmico contra qualquer divindade rival das aguas para estabelecer e manter essa ordem duradoura sobre toda a terra habitavel e seus habitantes. Essa diferenca teologica e mais significativa do que parece a primeira vista: enquanto os mitos vizinhos retratavam a ordem do mundo como resultado fragil de uma batalha entre poderes divinos comparaveis, sempre sujeita a nova ruptura caso o deus vencedor fraquejasse, o texto biblico apresenta a estabilidade do mundo como decorrencia simples e segura da palavra de um unico Deus sem rivais reais, o que oferecia aos leitores antigos um fundamento de confianca bem mais solido do que qualquer garantia baseada num equilibrio de forcas divinas em constante disputa e risco de reversao a qualquer momento futuro imprevisivel e fora do controle efetivo de qualquer uma das partes envolvidas nesse equilibrio instavel.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:O Salmo 24 ensina cientificamente que a terra e plana e flutua literalmente sobre um oceano, contradizendo a geologia e a astronomia modernas.

    O texto usa a cosmologia phenomenologica compartilhada no antigo Oriente Proximo para fazer uma afirmacao teologica sobre a soberania de Deus, nao uma descricao cientifica da estrutura fisica do planeta. Confundir genero poetico-teologico com relatorio cientifico e um erro de leitura, nao um erro do texto.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Leitura concordista

    Tenta harmonizar a imagem com fenomenos geologicos reais, como lencois freaticos e oceanos subterraneos, buscando validacao cientifica moderna para a linguagem do salmo.

  • Leitura de genero cosmologico antigo

    Reconhece que o texto usa deliberadamente a cosmologia compartilhada da epoca para fazer uma afirmacao teologica polemica contra divindades rivais das aguas, sem pretensao de precisao cientifica sobre a estrutura fisica do mundo.

No original1 termo
  • תְּהוֹםtehom

    abismo, aguas profundas primordiais; o mesmo termo usado em Genesis 1:2 para o estado caotico inicial da criacao antes da ordenacao divina do mundo habitavel.

O que fazer com isso

Reconhecer o genero cosmologico do texto liberta o leitor de duas armadilhas comuns: forcar o salmo a concordar tecnicamente com a ciencia moderna, ou descarta-lo como primitivo e sem valor por nao fazer isso. O ponto permanece relevante hoje sob outra forma: reconhecer que toda a criacao, inclusive as forcas que parecem caoticas e incontrolaveis na propria vida, pertence a um Deus que a sustenta e ordena, e nao a forcas rivais fora de controle algum.

Passagens relacionadas5

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas2 obras
  • John H. Walton. The Lost World of Genesis One: Ancient Cosmology and the Origins Debate, 2009.
  • Peter C. Craigie. Psalms 1-50 (Word Biblical Commentary), 1983.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

A Biblia ensina que a terra e plana?

O texto usa a cosmologia phenomenologica comum no antigo Oriente Proximo, que descrevia o mundo de forma funcional e nao cientifica. O ponto teologico do salmo e a soberania de Deus sobre a criacao, nao uma tese sobre a forma fisica exata do planeta.

Por que os povos antigos associavam o mar ao caos?

Porque o oceano representava, na experiencia cotidiana, uma forca poderosa, imprevisivel e potencialmente destrutiva. Varias mitologias vizinhas de Israel personificavam essa forca em divindades rivais, e o Salmo 24 responde afirmando que essas aguas estao sob o controle pacifico do unico Deus verdadeiro.

Temas

  • Criação e ciência
  • #salmo-24
  • #cosmologia-antiga
  • #mares
  • #aguas-subterraneas
  • #antigo-oriente-proximo
  • #terra-fundada
  • #hino

Publicado em 24/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 2 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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