
De quem será a esposa na ressurreição, se ela teve sete maridos?
vamos reconhecer nosso cônjuge no céu se não há casamento na ressurreição
Naquele mesmo dia chegaram a ele os saduceus, que dizem não haver ressurreição, e perguntaram-lhe, dizendo: Mestre, Moisés disse: Se um homem morrer sem ter filhos, seu irmão se casará com sua mulher, e gerará descendência ao seu irmão. Deuteronômio 25:5 Ora, havia entre nós sete irmãos. O primeiro se casou, e depois morreu; e sem ter tido filhos, deixou sua mulher ao seu irmão. E da mesma maneira também foi com o segundo, o terceiro, até os sete. Por último, depois de todos, a mulher também morreu. Assim, na ressurreição, a mulher será de qual dos sete? Pois todos a tiveram. Jesus, porém, lhes respondeu: Errais, por não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus. Porque na ressurreição, nem se tomam, nem se dão em casamento; mas são como os anjos de Deus no céu. E sobre a ressurreição dos mortos, não lestes o que Deus vos falou: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó? Êxodo 3:6 Deus não é Deus dos mortos, mas sim dos vivos! Quando as multidões ouviram isto,ficaram admiradas de sua doutrina.
Resposta curta
Os saduceus não acreditavam em ressurreição e montaram um caso hipotético para ridicularizar essa ideia diante de Jesus. Citando a lei do levirato, em que um homem deveria se casar com a viúva do irmão sem filhos para dar-lhe descendência, descrevem sete irmãos que, um após o outro, se casaram com a mesma mulher e morreram sem filhos. A pergunta: de quem ela seria esposa na ressurreição, já que todos a tiveram?
Jesus não entra no jogo da hipótese. Responde que eles erram por não conhecer as Escrituras nem o poder de Deus: na ressurreição as pessoas "nem se tomam, nem se dão em casamento", pois vivem como os anjos. Depois prova a própria ressurreição citando Êxodo, mostrando que Deus se apresenta como Deus de Abraão, Isaque e Jacó no presente, não no passado.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoJesus defende a ressurreição usando as Escrituras que os saduceus aceitavam, mas é a própria ressurreição de Jesus que se torna a prova histórica e a garantia concreta dessa doutrina. Paulo chama Cristo ressuscitado de "primícias dos que dormem" — o primeiro caso de um padrão que se estenderá a todos os que pertencem a ele. O tema da ressurreição, que aqui é apenas argumentado a partir do texto, em Cristo se torna acontecimento: ele não só ensina que os mortos ressuscitarão, ele ressuscita primeiro, tornando concreta a esperança que defendeu diante dos saduceus.
Respaldo no Novo Testamento:
Contexto histórico
Os saduceus formavam uma elite sacerdotal e aristocrática de Jerusalém que aceitava como Escritura apenas os cinco livros de Moisés (a Torá) e rejeitava doutrinas que não encontrasse explicitamente ali, entre elas a ressurreição dos mortos, a existência de anjos como seres autônomos e um mundo espiritual detalhado. Os fariseus, ao contrário, defendiam a ressurreição com base em textos como e em leituras da própria Torá. Esse era um debate teológico real e acalorado no judaísmo do primeiro século, e os saduceus tentam usar Jesus, que também ensinava a ressurreição, para expor o que consideravam um absurdo lógico da doutrina.
A pergunta se apoia na lei do levirato, descrita em : se um homem morria sem filhos, seu irmão devia se casar com a viúva para gerar um herdeiro que perpetuasse o nome do falecido. Era um mecanismo social de proteção à viúva e de preservação da linhagem e da herança de terra dentro da família, não um casamento comum. O caso dos sete irmãos, citado também no livro apócrifo de Tobias (embora com final diferente), era provavelmente um exemplo escolar usado por rabinos para testar ou ridicularizar posições teológicas, o chamado gênero de "pergunta capciosa".
A resposta de Jesus tem duas partes. Primeiro, ele nega a premissa: a vida ressuscitada não é uma simples continuação da vida terrena com os mesmos vínculos e instituições, entre elas o casamento, comparando os ressuscitados aos anjos nesse aspecto específico da ausência de casamento, não em natureza ou substância. Segundo, ele argumenta a favor da ressurreição a partir da Torá, o único terreno que os saduceus aceitavam, citando , onde Deus se identifica a Moisés como "o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó". Jesus explora o tempo verbal presente da fala de Deus: ele não diz "eu fui", mas "eu sou", o que implica que os patriarcas, apesar de mortos havia séculos, continuam de algum modo vivos diante de Deus, sustentando a esperança da ressurreição.
Aprofundamento
O detalhe mais discutido deste episódio é a frase "são como os anjos de Deus no céu" (v. 30). Jesus não afirma que os ressuscitados se tornam anjos ou perdem a identidade pessoal; comentaristas como Matthew Henry e Craig Blomberg notam que a comparação é pontual, limitada ao aspecto de que os anjos não se casam nem se reproduzem, algo do qual os judeus do primeiro século já tinham essa noção comum sobre a natureza angélica. O texto não trata de como serão os afetos, as memórias ou os vínculos entre pessoas que se amaram nesta vida; ele responde apenas à pergunta específica dos saduceus, que era sobre a instituição do casamento, não sobre a continuidade do amor ou do reconhecimento mútuo.
Vale notar por que Jesus escolhe e não um texto mais óbvio sobre ressurreição, como ou . A resposta está no público: os saduceus só reconheciam autoridade na Torá (Gênesis a Deuteronômio), então qualquer argumento vindo de Daniel ou dos profetas seria descartado de imediato. Jesus usa o texto que eles próprios aceitam contra a própria posição deles, um recurso de argumentação característico dos debates rabínicos da época, e historiadores do judaísmo do Segundo Templo como F. F. Bruce descrevem esse tipo de confronto textual como comum entre os grupos religiosos judaicos do primeiro século.
O argumento em si depende de uma leitura teológica específica: para Jesus, o fato de Deus continuar a se identificar como "Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó" no tempo presente, muito depois da morte física desses patriarcas, só faz sentido se eles ainda existem de alguma forma diante de Deus, e essa existência contínua aponta para a ressurreição final do corpo, não apenas para a imortalidade da alma. É um argumento sutil, que parte da gramática (o verbo "sou" no presente) e da natureza da aliança de Deus com os patriarcas, que a Escritura descreve como eterna.
O episódio termina com a reação das multidões, "admiradas de sua doutrina" (v. 33), e em esse mesmo confronto motiva um escriba a reconhecer que Jesus respondeu bem. O relato mostra Jesus como um intérprete hábil das Escrituras hebraicas, capaz de vencer uma armadilha teológica sem recorrer a nenhuma autoridade além do próprio texto sagrado que seus interlocutores já aceitavam.
Também merece nota o contraste implícito entre saduceus e fariseus registrado por historiadores como Flávio Josefo: os primeiros, ligados à aristocracia sacerdotal, tendiam a um conservadorismo textual que rejeitava desenvolvimentos doutrinários posteriores à Torá; os fariseus, mais próximos do povo, haviam incorporado a esperança da ressurreição como parte central da piedade judaica, herança que o próprio cristianismo primitivo assumiu e aprofundou à luz da ressurreição de Jesus.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Jesus disse que os ressuscitados vão se tornar anjos.
O texto diz apenas que os ressuscitados são "como" os anjos num aspecto específico, a ausência de casamento; não afirma mudança de natureza ou espécie, e os ressuscitados permanecem seres humanos com corpo transformado, não anjos.
Dizem que:Sem casamento no céu significa que o amor entre cônjuges desaparece ou é esquecido.
Jesus responde a uma pergunta específica sobre a instituição do casamento levantada pelos saduceus; o texto não trata de memória, afeto ou reconhecimento mútuo entre pessoas que se amaram nesta vida.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
católica
A tradição tomista lê o texto como negação do casamento enquanto instituição terrena, mas não como fim dos laços de caridade entre as pessoas; a comunhão dos santos preserva algum tipo de reconhecimento e afeto mútuo, transformado pela glória, sem os vínculos exclusivos e reprodutivos do matrimônio.
reformada/evangélica
Enfatiza a sobriedade do texto: Jesus responde apenas sobre o fim do casamento como instituição, e a tradição evita especular além disso sobre a natureza exata dos relacionamentos na eternidade, remetendo à transformação radical prometida em .
adventista
Associada à doutrina do estado inconsciente dos mortos, lê "Eu sou o Deus de Abraão" como garantia da certeza da ressurreição futura na mente de Deus, não como prova de que os patriarcas já vivem conscientemente agora; a existência plena só ocorre com a ressurreição corporal.
No original4 termos
ΣαδδουκαῖοιSaddoukaioiG4523
Saduceus, grupo religioso judaico sacerdotal e aristocrático que rejeitava a ressurreição, os anjos como seres autônomos e aceitava só a Torá como Escritura
ἀνάστασιςanastasisG386
ressurreição, o ato de se levantar dos mortos; termo central do debate entre Jesus e os saduceus neste episódio
γαμοῦσινgamousinG1060
forma do verbo casar-se, usado por Jesus ao afirmar que na ressurreição as pessoas "nem se casam, nem se dão em casamento"
ἄγγελοιangeloiG32
anjos, mensageiros de Deus; usados por Jesus como termo de comparação para descrever um aspecto da vida ressuscitada
O que fazer com isso
O texto não satisfaz a curiosidade sobre como serão os relacionamentos na eternidade, mas corrige uma expectativa comum: a vida ressuscitada não é a vida atual prolongada indefinidamente, com os mesmos arranjos e instituições. Isso convida a colocar a esperança da ressurreição na transformação prometida por Deus, e não em projeções feitas a partir da experiência presente. Para quem enlutou um cônjuge, o texto não nega o valor daquele amor; apenas indica que a forma futura da vida com Deus supera as categorias que conhecemos hoje.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas4 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Craig L. Blomberg. Matthew (The New American Commentary), 1992.
- F. F. Bruce. New Testament History, 1969.
- Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas, 93.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Se não há casamento no céu, um casal vai se esquecer um do outro?
O texto não diz isso. Jesus responde apenas sobre a instituição do casamento, não sobre memória, afeto ou reconhecimento entre pessoas. Ele nega que o casamento continue como vínculo formal, não que o amor vivido desapareça.
Por que Jesus citou Êxodo em vez de um texto mais claro sobre ressurreição?
Porque os saduceus só aceitavam autoridade nos cinco livros de Moisés. Um argumento tirado de Daniel ou dos profetas seria descartado de imediato, então Jesus usa o próprio terreno textual deles.
Quem eram os saduceus e por que rejeitavam a ressurreição?
Eram um grupo sacerdotal e aristocrático de Jerusalém que aceitava apenas a Torá como Escritura e não encontrava ali uma doutrina explícita de ressurreição, ao contrário dos fariseus, que a defendiam com base em outros textos.