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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Questões de tradução

Perdoar "setenta vezes sete": é literal ou infinito?

Setenta vezes sete são 490 perdões ou é um número infinito?

Então Pedro aproximou-se dele, e perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe respondeu: Eu não te digo até sete, mas sim até setenta vezes sete.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Pedro pergunta a Jesus quantas vezes deve perdoar um irmão que peca contra ele e propõe sete vezes — mais do que se considerava razoável entre os judeus da época. Jesus responde: "Eu não te digo até sete, mas sim até setenta vezes sete" (). A frase grega por trás é ambígua e pode ser lida como "setenta vezes sete" (490) ou "setenta e sete vezes", o que gera debate entre tradutores até hoje.

Essa discordância sobre o cálculo exato não muda o sentido da resposta. A mesma construção aparece na tradução grega antiga de , onde Lamec se vangloria de uma vingança sem limites. Jesus usa a mesma fórmula para o lado oposto: um perdão tão vasto que se torna impossível de contar. A pergunta de Pedro buscava um limite; a resposta de Jesus dissolve essa ideia.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

O padrão de "setenta vezes sete" só faz sentido pleno quando se vê de onde vem o cancelamento da dívida na própria parábola: um rei que absorve, sem cobrar, uma quantia impagável. O Novo Testamento aplica exatamente essa imagem à obra de Cristo — descreve Deus "cancelando o escrito de dívida que havia contra nós... e o tirou do meio, cravando-o na cruz." A dívida de dez mil talentos que o servo não podia pagar é a figura da dívida moral que a humanidade tem diante de Deus, quitada não por negociação, mas pela cruz. Perdoar "sem contar" só é sustentável para quem já recebeu, primeiro, um perdão que também não teve limite nem condição de ser retribuído — o mesmo Jesus que ensina isso a Pedro perdoaria, da cruz, aqueles que o crucificavam ().

Respaldo no Novo Testamento:

Contexto histórico

reúne instruções de Jesus sobre a vida da comunidade que o segue. Os versículos imediatamente anteriores (15-17) tratam de como lidar com um irmão que peca: primeiro em particular, depois com testemunhas, por fim diante da igreja. É nesse contexto de disciplina e reconciliação que Pedro se aproxima e pergunta: "até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?" (v. 21).

O número sete não era arbitrário. Comentaristas como R.T. France e Craig Keener observam que, na cultura judaica do período, havia a ideia de que perdoar a mesma pessoa três vezes já era suficiente — princípio associado ao padrão de julgamento de Deus contra as nações em ("por três transgressões... e por quatro") e mais tarde discutido no tratado talmúdico Yoma. Ao propor sete, Pedro dobrava esse número e ainda somava um, certamente esperando elogio pela generosidade.

Jesus responde com uma expressão grega — ἑβδομηκοντάκις ἑπτά (hebdomekontákis heptá) — que é gramaticalmente ambígua. Pode ser lida como "setenta vezes sete" (multiplicação, resultando em 490) ou como "setenta e sete vezes" (soma). As duas leituras aparecem em diferentes traduções para o português e para outras línguas, e o debate entre especialistas sobre qual é mais precisa continua até hoje.

O que praticamente todos os comentaristas notam é que a mesma construção grega ocorre na Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, em . Ali, Lamec se gaba: "se sete vezes se vingará de Caim, Lamec o será setenta e sete vezes." Lamec usa a fórmula para anunciar vingança sem limites. Jesus parece retomar deliberadamente essa mesma linguagem para o propósito oposto: não vingança ilimitada, mas perdão ilimitado. Seja o resultado 490 ou 77, o efeito retórico é o mesmo — um número tão alto que ultrapassa qualquer prática de contagem, sinalizando que a pergunta de Pedro (buscar um limite) estava malformulada desde o início.

Aprofundamento

Logo depois de responder a Pedro, Jesus conta uma parábola que funciona como comentário sobre a própria resposta (vv. 23-35). Um rei decide acertar contas com seus servos, e um deles lhe devia dez mil talentos. Um talento equivalia a muitos anos de salário de um trabalhador comum; dez mil talentos era, para os ouvintes originais, praticamente o maior número e a maior quantia que se podia imaginar — uma dívida impossível de pagar em qualquer prazo razoável. O servo implora paciência, e o rei, compadecido, cancela a dívida inteira.

O mesmo servo, porém, encontra um colega que lhe devia cem denários — uma quantia real, mas equivalente a poucos meses de trabalho, incomparavelmente menor. Em vez de aplicar a mesma misericórdia que recebeu, ele o agarra pela garganta e o manda prender. Quando o rei descobre, sua reação é dura: entrega o servo aos torturadores "até que pagasse tudo o que lhe devia" (v. 34). Jesus fecha o ensino com uma advertência direta: "Assim também meu Pai celestial vos fará, se não perdoardes de coração cada um ao seu irmão suas ofensas" (v. 35).

A lógica da parábola explica por que a resposta a Pedro não podia ser um número fixo. Se o critério fosse contar ofensas, o servo da parábola estaria tecnicamente "certo" ao cobrar os cem denários — a dívida era real. O problema não é a exatidão da conta, mas a desproporção entre o que ele recebeu e o que se recusou a dar. "Setenta vezes sete" não é uma meta a ser cumprida e depois abandonada; é a recusa de transformar o perdão em um sistema de contabilidade.

Sobre o problema gramatical específico, comentaristas como Craig Blomberg registram que o texto grego admite as duas leituras e que a decisão entre elas não muda a aplicação prática — em nenhuma das duas o número funciona como teto literal. O peso da passagem recai sobre o eco de : onde a linhagem de Caim proclamava vingança sem freio, o Reino dos céus proclama perdão sem freio. É uma inversão deliberada de valores, não uma equação a ser resolvida.

Vale notar que o contexto imediato (vv. 15-17) já supõe um processo de confrontação e busca de arrependimento antes de qualquer fala sobre perdão — o ensino de Pedro não anula esse processo, apenas remove qualquer limite de quantas vezes ele pode se repetir quando a ofensa é reconhecida e o pedido de reconciliação, sincero.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Depois de perdoar exatamente 490 vezes a mesma pessoa pela mesma ofensa, o cristão está liberado para parar de perdoar.

    O número funciona como expressão idiomática de totalidade, não como cota a ser contabilizada; a parábola que Jesus conta em seguida (vv. 23-35) trata justamente de um servo que tentou aplicar contabilidade ao perdão e foi condenado por isso.

  • Dizem que:Pedro estava sendo mesquinho ao sugerir apenas sete vezes.

    Sete já superava, e bastante, o padrão de generosidade discutido entre os judeus da época, ligado à ideia de perdoar até três vezes; Pedro provavelmente imaginava estar propondo um número extraordinariamente alto.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica

    Associa a exigência de perdão sem limite numérico à prática sacramental da confissão, em que a Igreja ensina que a absolvição pode ser buscada tantas vezes quanto necessário, refletindo a mesma disposição ilimitada exigida do cristão.

  • Reformada

    Distingue o perdão interior — não guardar rancor no coração — do processo formal de reconciliação descrito nos versículos 15-17, que pressupõe arrependimento; perdoar de coração não dispensa a busca por responsabilização quando a ofensa persiste sem reconhecimento.

  • Ortodoxa

    Lê o padrão de perdão ilimitado à luz da prática penitencial contínua acompanhada por um padre espiritual, entendendo a repetição sem fim como reflexo da misericórdia constante de Deus na vida do fiel.

  • Pentecostal

    Enfatiza o perdão repetido como decisão prática e renovável da vontade a cada nova ofensa, associada ao processo de santificação e à liberdade do crente de responder à graça já recebida.

No original4 termos
  • ἑβδομηκοντάκιςhebdomekontákisG1441

    "setenta vezes" — advérbio numeral que, combinado com ἑπτά, forma a expressão ambígua entre multiplicação (70x7) e soma (70+7).

  • ἑπτάheptáG2033

    "sete" — numeral cardinal, usado tanto na sugestão de Pedro (via ἑπτάκις) quanto na resposta de Jesus.

  • ἑπτάκιςheptákisG2034

    "sete vezes" — forma usada por Pedro em sua pergunta no v. 21.

  • ἀφήσωaphésoG863

    futuro do verbo ἀφίημι, "perdoar", também usado no sentido de deixar ir ou remitir uma dívida — o mesmo verbo por trás do cancelamento de dívidas na parábola seguinte.

O que fazer com isso

Uma forma prática de aplicar esse ensino é notar quando se está, literalmente, contando: "já perdoei essa pessoa três vezes por isso" é o tipo de frase que revela uma contabilidade de mágoas em andamento. O convite de Jesus não é ignorar o dano nem fingir que ofensas repetidas não pesam, mas abandonar o hábito de guardar um placar. Isso não exige aceitar tudo em silêncio — é possível perdoar de coração e, ao mesmo tempo, buscar limites saudáveis diante de quem continua ofendendo.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • R.T. France. The Gospel of Matthew (New International Commentary on the New Testament), 2007.
  • Craig L. Blomberg. Matthew (New American Commentary), 1992.
  • Craig S. Keener. A Commentary on the Gospel of Matthew, 1999.
  • D. A. Carson. Matthew (The Expositor's Bible Commentary), 1984.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Setenta vezes sete são 490 ou 77 perdões?

Depende de como se lê a construção grega, que é ambígua entre multiplicação e soma. Traduções diferem por isso, mas o efeito é o mesmo: um número tão alto que deixa de funcionar como cota a ser esgotada.

Isso significa que devo aceitar qualquer tipo de ofensa sem limite?

O texto fala de perdão de coração, não de eliminar toda consequência ou proteção. O processo descrito nos versículos 15-17 do mesmo capítulo já pressupõe buscar reconciliação com quem reconhece o erro; perdoar não exige ignorar riscos reais ou abrir mão de segurança diante de quem continua ofendendo.

Por que Pedro sugeriu justamente sete vezes?

Sete já superava o que se considerava generoso na prática judaica da época, ligada à ideia de perdoar até três vezes. Pedro provavelmente esperava ser elogiado por isso, o que torna a resposta de Jesus ainda mais surpreendente.

Temas

  • Perdão
  • Pedro
  • #mateus-18
  • #setenta-vezes-sete
  • #parabola-do-credor-incompassivo
  • #genesis-4-24
  • #lamec
  • #traducao-biblica

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Publicado em 24/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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