
Deus conduz alguém à tentação?
Por que o Pai Nosso pede que Deus não nos conduza à tentação?
E não nos conduzas à tentação, mas livra-nos do mal; porque teu é o Reino, o poder, e a glória, para sempre, Amém.
Resposta curta
A frase que a maioria decorou é "não nos deixes cair em tentação". A que está no grego é mais dura: "não nos conduzas à tentação" — e a Bíblia Livre, a tradução usada aqui, traz exatamente essa.
O problema salta à vista. afirma que Deus não tenta ninguém. Se é assim, por que pedir que ele não faça o que já não faz?
Não é curiosidade de tradutor. Em 2019 o missal italiano passou a trazer uma formulação equivalente a "não nos abandones à tentação", com aprovação papal, e os bispos franceses já haviam feito mudança semelhante em 2017.
A discussão se decide em duas coisas verificáveis: o que o verbo grego faz, e o que a palavra traduzida por tentação significa.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoJesus ensina o pedido e depois o ora por si mesmo: no Getsêmani manda os discípulos orarem para não entrar em tentação e pede que o cálice passe dele. formula o resultado — "foi tentado em tudo, à nossa maneira, mas sem pecado" — e devolve a promessa que o pedido pressupõe. Quem ensinou a pedir para não ser levado à prova foi levado a ela e não foi poupado.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
A frase que quase todo mundo decorou é "não nos deixe cair em tentação", mas no texto original a ideia é mais direta: peça a Deus para não te levar a uma prova. Isso soa estranho, porque em outro lugar a Bíblia diz que Deus não tenta ninguém para o mal. A explicação está numa palavra que serve tanto para "tentação" quanto para "prova" — como a prova que Abraão passou. O pedido pode ser lido como: não me leve a uma prova maior do que eu aguento.
É um pedido de humildade: admitir que você não confia cegamente em si mesmo. O próprio Jesus fez esse pedido antes de ser preso, e não foi poupado da prova — só não ficou sozinho nela.
Contexto histórico
O pedido é o sexto do Pai Nosso, e vem logo depois do perdão das dívidas.
A oração aparece em duas versões. traz a forma longa, dentro do Sermão do Monte; traz uma forma mais curta, em resposta a um pedido dos discípulos.
O contexto imediato em Mateus é uma instrução sobre como não orar: nem como os hipócritas, que oram para ser vistos, nem como os gentios, que acham que serão ouvidos pelo muito falar. A oração modelo é apresentada como o oposto das duas coisas — curta e sem plateia.
O mundo em que ela foi dita conhecia bem a ideia de prova divina. O Antigo Testamento a narra sem constrangimento: Deus prova Abraão em , e Israel no deserto em , "para te humilhar, e te provar".
Quem ouviu o pedido pela primeira vez não estranharia a ideia de Deus levar alguém a uma prova. Estranharia mais a nossa dificuldade com ela.
Aprofundamento
Convém separar as duas questões, porque elas têm respostas de força diferente.
A primeira é o verbo. O grego traz um termo que significa levar para dentro, conduzir a. É a forma normal de dizer isso, sem nenhuma marca de permissão. O texto grego não diz "não permitas que sejamos levados".
Existe um argumento clássico em favor da leitura permissiva: Jesus teria orado em aramaico, e o aramaico usa uma forma causativa que também comporta sentido permissivo, que o tradutor grego teria vertido literalmente. O argumento é antigo e respeitável, e precisa ser apresentado pelo que é — uma reconstrução do que teria sido dito, e não a leitura de um manuscrito. Não existe manuscrito aramaico primitivo desta oração.
A segunda questão é a palavra traduzida por tentação, e é onde a dificuldade se dissolve melhor. Ela cobre duas coisas que o português separou: sedução ao pecado e prova, teste. A mesma raiz descreve a prova de Abraão na versão grega do Antigo Testamento, e é a que aparece em "vigiai e orai, para que não entreis em tentação", no Getsêmani.
Com isso, três leituras ficam disponíveis, e nenhuma é absurda.
A leitura da prova entende o pedido como "não nos leves a uma prova que não suportaríamos". Ela é coerente com , que promete que Deus não deixa ninguém ser provado além do que pode suportar, e com o Getsêmani.
A leitura escatológica entende a palavra com artigo — a Prova, o tempo final de provação — e liga o pedido a , "a hora da provação que há de vir sobre todo o mundo". Ela explica bem por que o pedido vem no fim da oração, junto do livramento do maligno.
A leitura permissiva é a que produziu as traduções tradicionais. Ela é a mais confortável e a menos apoiada na gramática grega.
Um último dado, este textual e independente das três: a doxologia final — "porque teu é o Reino, o poder e a glória" — não aparece nos manuscritos gregos mais antigos de Mateus. Ela é antiga e entrou cedo no uso litúrgico, mas a maioria das edições críticas a coloca em nota.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:O grego diz "não nos deixes cair em tentação".
O verbo grego significa conduzir para dentro, sem marca de permissão. A forma permissiva vem de uma reconstrução do aramaico que Jesus teria falado — argumento antigo e respeitável, mas que não se apoia em nenhum manuscrito.
Dizem que:A mudança feita pela Igreja Católica alterou a Bíblia.
A alteração foi no texto litúrgico, não nas edições do Novo Testamento grego. O missal italiano mudou em 2019 e o francês em 2017; as edições críticas do grego seguem trazendo o mesmo verbo de sempre.
Dizem que:A doxologia "porque teu é o Reino" está em todos os manuscritos.
Ela não aparece nos manuscritos gregos mais antigos de Mateus. É antiga e entrou cedo no uso litúrgico, mas a maioria das edições críticas a registra em nota.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Pedido para não ser levado à prova
Lê a palavra grega no sentido de teste, coerente com a prova de Abraão e com o Getsêmani. Sustentada por . É a leitura mais próxima da gramática.
Pedido escatológico
Lê a palavra como a Prova final, ligando o pedido a . Explica bem a posição do pedido no fim da oração, ao lado do livramento do maligno.
No original3 termos
πειρασμόςpeirasmos
Cobre duas coisas que o português separou: sedução ao pecado e prova. A mesma raiz descreve a prova de Abraão na versão grega do Antigo Testamento.
εἰσενέγκῃςeisenenkes
"Conduzas para dentro". Verbo comum de levar a, sem nenhuma marca de permissão no grego.
τοῦ πονηροῦtou ponerou
"Do mal" ou "do maligno". A forma grega é ambígua entre neutro e masculino, e as traduções se dividem entre as duas.
O que fazer com isso
O pedido tem uma consequência prática que a versão suavizada apaga: ele supõe que a pessoa que ora não confia em si mesma.
Não é um pedido para ser poupado de dificuldade em geral. É um pedido para não ser colocado diante daquilo que se sabe não aguentar — e isso exige um grau de honestidade sobre os próprios limites que a linguagem religiosa costuma desencorajar.
O paralelo do Getsêmani ajuda a ver o formato. Ali Jesus manda vigiar e orar para não entrar em prova, e em seguida ele mesmo pede que o cálice passe. O pedido de ser poupado não é apresentado como falta de fé.
Há também um limite. A oração não promete ausência de prova, e o Novo Testamento não a promete em lugar nenhum. O que ela faz é colocar o pedido de ser poupado dentro da oração modelo, com todas as letras.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas4 obras
- Joseph Henry Thayer. A Greek-English Lexicon of the New Testament, 1889.
- Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
- Charles John Ellicott. A New Testament Commentary for English Readers, 1878.
- Marvin Vincent. Word Studies in the New Testament, 1887.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Então a oração que aprendi está errada?
Ela é uma tradução interpretativa de uma frase difícil, e não um erro grosseiro. O que se pode dizer com segurança é que o grego é mais direto do que a forma tradicional, e que as igrejas que mudaram o texto litúrgico fizeram isso por causa dessa diferença.
Tiago 1:13 contradiz o Pai Nosso?
Só se a palavra grega significar sempre sedução ao pecado. Como ela cobre também prova e teste, e o Antigo Testamento narra Deus provando pessoas sem constrangimento, os dois textos podem estar falando de coisas diferentes com a mesma palavra.
Por que Lucas traz uma versão mais curta?
Os dois evangelhos registram a oração em situações distintas — em Mateus dentro do Sermão do Monte, em Lucas a pedido dos discípulos. As diferenças entre as duas são um dos temas clássicos do estudo dos evangelhos.
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