
Mateus 23:9: por que Jesus disse para não chamar ninguém de "pai"?
Mateus 23:9 significa que não posso chamar ninguém de "pai"?
E não chameis a ninguém na terra vosso pai; porque o vosso Pai é um: aquele que está nos céus.
Resposta curta
faz parte de um discurso em que Jesus critica o modo como escribas e fariseus usavam títulos religiosos para conquistar prestígio. Ele alinha três avisos paralelos aos discípulos: não se deixem chamar "Rabi" (v.8), não chamem ninguém na terra de "pai" (v.9) e não sejam chamados "mestres" (v.10). O alvo não é o vocabulário em si, mas a disputa por posição que Jesus via nos líderes religiosos de seu tempo.
Por isso o versículo não proíbe tratar o pai biológico como "pai", nem decreta qual palavra a igreja pode usar para seus líderes. Ele afirma que nenhum ser humano ocupa, diante de Deus, o lugar de fonte última de autoridade espiritual — esse lugar pertence só ao Pai celestial. É essa questão de fundo, não a etiqueta de tratamento, que gera divergência entre tradições cristãs até hoje.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoA exigência de que só Deus seja reconhecido como "Pai" na terra aponta para um tema que atravessa toda a Escritura e converge em Cristo: a paternidade espiritual, dispersa entre patriarcas e mestres humanos, encontra sua fonte única e verdadeira revelada pelo Filho. É por meio de Cristo que os crentes recebem o Espírito de adoção e podem, de fato, chamar a Deus de "Aba, Pai" (; ) — algo que nenhum título humano, por mais honroso que seja, pode conceder. O próprio Filho, que revela o Pai (), é quem torna possível a relação filial que este versículo protege ao recusar substitutos humanos para o lugar único de Deus.
Respaldo no Novo Testamento:
Contexto histórico
registra o último discurso público de Jesus no templo de Jerusalém, dirigido às multidões e aos discípulos (v.1), pouco antes das "sete ais" contra escribas e fariseus. O pano de fundo é a cultura de honra da Judeia do primeiro século, em que mestres religiosos recebiam títulos que sinalizavam autoridade reconhecida: "Rabi" (de rab, "grande", tratamento dado a mestres da lei), e "mestre" (kathegetes, termo grego raro, usado só aqui no Novo Testamento, com sentido de guia ou diretor). Comentaristas como R. T. France e D. A. Carson observam que "pai" também funcionava, em certos círculos judaicos, como forma reverente de tratar um mestre ou patriarca espiritual reconhecido — daí Jesus encaixar essa palavra na mesma tríade de "Rabi" e "mestre".
O alvo imediato do discurso está descrito nos versículos anteriores: escribas e fariseus "fazem todas as suas obras para serem vistos pelos homens" (v.5), buscam os primeiros lugares e gostam de ser saudados nas praças com títulos de honra (vv.6-7). A tríade de proibições dos versículos 8 a 10 corresponde a três papéis de autoridade que a cultura da época distribuía a mestres religiosos — ensino, paternidade espiritual e direção — e Jesus reivindica, em última instância, esses papéis só para Deus e para Cristo.
Gramaticalmente, "não chameis" (em grego, subjuntivo aoristo com partícula negativa) forma uma proibição enfática dirigida à comunidade que ouve Jesus, não uma norma universal sobre vocabulário cotidiano. O próprio Jesus, em outro momento do mesmo Evangelho, reafirma o mandamento de honrar pai e mãe (Mt 15:4), o que mostra que ele não estava eliminando o uso comum da palavra "pai" para relações de família. O texto se encaixa no gênero da crítica profética contra a hipocrisia religiosa — próximo, em tom, das denúncias de Isaías e Malaquias contra sacerdotes que buscavam prestígio em vez de servir — e culmina, nos versículos 11 e 12, na inversão de valores que resume todo o discurso: quem se exalta será humilhado, e quem serve será exaltado.
Aprofundamento
A dificuldade prática de nasce de uma tensão real: o mesmo Novo Testamento que registra essa proibição também mostra Paulo se chamando de "pai" espiritual dos coríntios, porque foi ele quem os gerou "pelo evangelho" (), e chamando Timóteo de "filho" na fé (). Se o versículo fosse uma proibição literal do uso da palavra, o próprio Paulo o estaria violando. Comentaristas como D. A. Carson (no comentário sobre Mateus na Expositor's Bible Commentary) e R. T. France (NICNT) apontam essa mesma tensão para argumentar que Jesus está usando uma linguagem absoluta e enfática — recurso comum em seus ensinos, como quando manda "arrancar o olho" que faz pecar (Mt 5:29) — para atacar uma atitude, não para legislar sobre um termo específico.
Vale notar que ninguém aplica a mesma régua literal ao versículo vizinho: "nem sejais chamados mestres" (v.10) não impediu a igreja de reconhecer o ofício de mestre como dom espiritual () nem impede ninguém de chamar um professor de "professor". Essa inconsistência prática, observada por Carson, sugere que uma leitura estritamente literal da tríade "Rabi/pai/mestre" prova demais: teria que abolir também os títulos de "professor" e "mestre", o que nenhuma tradição cristã faz.
O que o texto condena, com clareza, é a busca por posição hierárquica que rivaliza com a autoridade única de Deus — o comportamento descrito nos versículos anteriores, de gente que ama "os primeiros lugares" e as saudações públicas de honra (vv.6-7). Chamar um sacerdote de "padre", um pastor de "pastor" ou um ancião de "pai na fé" não é, por si só, o que o texto tem em vista; o alvo é o coração que usa qualquer título — religioso ou não — para se colocar acima dos outros, esquecendo que todos são irmãos sob um único Pai celestial (v.8-9).
Esse é o motivo pelo qual a divergência entre tradições cristãs sobre o título "padre" não é, no fundo, uma disputa sobre o que o texto grego diz, mas sobre como aplicar esse princípio a uma prática eclesial que se desenvolveu séculos depois, num contexto institucional muito diferente do discurso original de Jesus contra os escribas e fariseus do templo.
Vale notar ainda que a própria tradição cristã, desde a Antiguidade, chama de "Pais da Igreja" os grandes teólogos dos primeiros séculos — um uso que ilustra bem a distinção que o texto pede: ninguém trata Agostinho ou Atanásio como fonte última de verdade acima de Deus só por causa desse título honorífico; o nome reconhece papel histórico e influência, não uma autoridade que rivaliza com a de Deus. Debates sobre o assunto atravessam a história da igreja pelo menos desde a Reforma do século XVI, quando reformadores usaram este versículo, entre outros argumentos, para questionar estruturas de autoridade eclesiástica que consideravam excessivas — o que mostra que a discussão sempre envolveu, além da exegese do texto, visões diferentes sobre como a autoridade deve ser organizada dentro da igreja.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Mateus 23:9 proíbe chamar seu pai biológico de "pai".
O contexto (vv.6-10) trata de títulos de honra que escribas e fariseus buscavam para si mesmos, não de relações familiares. O próprio Jesus, em , reafirma o mandamento de honrar pai e mãe, o que seria incoerente se ele estivesse abolindo o uso da palavra.
Dizem que:O versículo é uma prova bíblica direta e inequívoca de que é pecado chamar um sacerdote de "padre".
Se lido de forma estritamente literal, o mesmo princípio proibiria chamar alguém de "mestre" ou "professor" (v.10), o que nenhuma tradição cristã pratica. Comentaristas como D. A. Carson apontam essa inconsistência para argumentar que o alvo do texto é a atitude de autoexaltação, não a palavra específica.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
O título "padre" expressa paternidade espiritual do sacerdote sobre a comunidade, na mesma linha do que Paulo faz em ; é lido como advertência contra a arrogância e a busca de honra, não como proibição do termo.
Reformada/Protestante
Muitas correntes reformadas leem o versículo como um chamado a evitar hierarquias que concentrem autoridade espiritual em um título humano, e por isso preferem não usar "padre" ou títulos equivalentes para pastores, ainda que reconheçam funções de liderança na igreja.
Ortodoxa
A tradição ortodoxa mantém o tratamento de "padre" (ou equivalentes, como "batiushka") para seus sacerdotes, entendendo a paternidade espiritual como um ofício pastoral concreto que não usurpa o lugar único de Deus como Pai, desde que exercido com humildade.
Pentecostal/Evangélica
Boa parte das igrejas pentecostais evita títulos hierárquicos elaborados para seus líderes, preferindo "pastor" ou "irmão", e cita este versículo como base para uma cultura de igualdade entre os membros, embora na prática também desenvolva títulos próprios de liderança.
No original3 termos
πατέραpateraG3962
acusativo de patēr, "pai" — usado aqui como título de honra reivindicado por mestres religiosos, não apenas a relação familiar.
καλέσητεkalesēteG2564
subjuntivo aoristo de kaleō, "chamar/nomear" — a forma negada ("não chameis") cria uma proibição enfática dirigida aos discípulos.
εἷςheisG1520
"um", numeral usado para afirmar a unicidade do Pai celestial em contraste com qualquer pretensão humana ao título.
O que fazer com isso
O texto convida a olhar menos para a palavra usada e mais para a intenção por trás dela. Antes de discutir se "padre", "pastor" ou "pai na fé" é certo ou errado, vale perguntar: esse título, do jeito que eu uso ou recebo, está a serviço de outra pessoa ou está inflando minha posição? Um bom teste prático é observar como a pessoa reage quando contrariada ou corrigida — quem exerce liderança como serviço aceita isso com naturalidade; quem a usa como status, não.
Passagens relacionadas9
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Fontes consultadas3 obras
- D. A. Carson. Matthew (Expositor's Bible Commentary, edição revisada), 2010.
- R. T. France. The Gospel of Matthew (New International Commentary on the New Testament), 2007.
- Craig S. Keener. A Commentary on the Gospel of Matthew, 2009.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Então é errado chamar um padre de "padre"?
O versículo não fala do vocabulário em si, mas da busca por status que rivaliza com a autoridade única de Deus. Por isso tradições cristãs divergem: algumas veem o título como paternidade espiritual legítima (apoiadas em ), outras evitam usá-lo por prudência diante desse texto.
E chamar meu pai biológico de "pai"? Isso também está proibido?
Não. O próprio Jesus reafirma, no mesmo Evangelho, o mandamento de honrar pai e mãe (). O alvo do versículo é o uso de "pai" como título de autoridade religiosa, não o vínculo familiar.
Paulo se contradiz ao se chamar de "pai" dos coríntios em 1 Coríntios 4:15?
Não necessariamente — o gesto de Paulo é de responsabilidade e afeto por quem ele evangelizou, não uma reivindicação de posição hierárquica que rivalize com Deus. É justamente esse tipo de caso que alimenta o debate sobre como aplicar hoje.
Por que ninguém discute se pode chamar alguém de "mestre" ou "professor", já que o v.10 usa a mesma lógica?
É uma boa observação, feita também por comentaristas como D. A. Carson: se a proibição fosse sobre a palavra em si, teria que valer igualmente para "mestre". Isso reforça que o alvo do texto é a postura de autoexaltação, não um vocabulário proibido.
Temas
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