
Jesus contava parábolas para as pessoas não entenderem?
por que jesus falava em parábolas para as pessoas não entenderem
Então os discípulos se aproximaram, e lhe perguntaram: Por que falas a eles por parábolas? E ele lhes respondeu: Porque a vós é dado saber os mistérios do Reino dos céus, mas a eles não é dado. Pois a quem tem, lhe será dado, e terá em abundância; mas a quem não tem, até aquilo que tem lhe será tirado. Por isso falo a eles por parábolas; porque vendo, não veem; e ouvindo, não ouvem, nem entendem.
Resposta curta
Depois de contar a parábola do semeador, os discípulos se aproximam de Jesus, à parte da multidão, e perguntam por que ele fala ao povo por parábolas. A resposta, em , causa estranheza: Jesus diz que fala assim "porque vendo, não veem; e ouvindo, não ouvem, nem entendem" — como se a intenção fosse dificultar, e não facilitar, o entendimento de quem ouve.
O texto não descreve um Deus que esconde a verdade de gente sincera que busca entender. Ele descreve o efeito das parábolas sobre corações que já haviam se fechado ao ensino de Jesus, como mostra o capítulo anterior do evangelho. Para os discípulos, que se aproximam querendo entender, as parábolas revelam; para a multidão que já resistia, elas confirmam a distância que a própria multidão escolheu manter.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoA passagem gira em torno de um "mistério do Reino dos céus" que é dado a conhecer a alguns e permanece velado a outros. O Novo Testamento retoma essa mesma linguagem de mistério revelado mais adiante e a centraliza explicitamente em Jesus: Paulo fala do "mistério oculto desde os séculos... e que agora foi manifesto aos seus santos", que é "Cristo em vós, a esperança da glória" (). O padrão que descreve — verdade acessível a quem se aproxima com fé e velada a quem resiste — encontra sua expressão mais plena não numa parábola isolada, mas na própria pessoa de Cristo, que os evangelhos e as cartas apostólicas apresentam como o conteúdo final desse mistério antes só parcialmente entrevisto pelas Escrituras de Israel.
Respaldo no Novo Testamento:
Contexto histórico
reúne uma sequência de parábolas sobre o Reino dos céus, abrindo com a parábola do semeador (13:1-9). Assim que Jesus termina essa primeira parábola, os discípulos se aproximam, à parte da multidão, e perguntam por que ele ensina o povo dessa forma indireta. A pergunta faz sentido: parábolas (do grego parabolē, "colocar ao lado", uma comparação ou ilustração) eram um recurso pedagógico comum entre os mestres judeus do primeiro século, usado para tornar ideias abstratas mais acessíveis através de cenas do cotidiano — sementes, pescadores, pães, ovelhas.
A resposta de Jesus, porém, inverte a expectativa. Ele diz que aos discípulos "é dado saber os mistérios do Reino dos céus", mas à multidão isso "não é dado" (v. 11). O termo "mistério" (mystērion) não significa algo incompreensível por natureza, mas algo que estava oculto e agora é revelado a quem tem acesso a ele — linguagem comum na literatura judaica do período para descrever verdades reservadas a um grupo específico. Em seguida, Jesus cita um princípio de reciprocidade espiritual (v. 12): quem já tem recebe mais; quem não tem perde até o pouco que parecia ter. O mesmo ditado aparece, com variações, em , e na parábola dos talentos ().
O verso 13 fecha a resposta explicando a função concreta das parábolas naquele momento: "vendo, não veem; e ouvindo, não ouvem, nem entendem." Isso precisa ser lido dentro do cenário imediatamente anterior do evangelho: em , líderes religiosos acabavam de acusar Jesus de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, uma rejeição pública e deliberada de sua autoridade. A multidão que ouve as parábolas em já convive com esse clima de desconfiança e oposição crescente. Comentaristas como R. T. France observam que o texto não descreve uma multidão neutra impedida de entender, mas pessoas cuja disposição para ouvir já estava comprometida antes de as parábolas começarem.
Aprofundamento
A dificuldade de é teológica, não apenas literária: parece que Jesus usa parábolas para impedir, e não para ensinar. Mas a resposta continua no versículo 14 (fora do recorte desta passagem), onde Mateus cita explicitamente — o texto em que Deus comissiona o profeta para anunciar a um povo que, o próprio chamado já prevê, vai ouvir sem compreender. Mateus está dizendo que a reação da multidão diante de Jesus repete um padrão profético antigo: uma mensagem clara ainda pode ser recusada por um coração já fechado, e essa recusa tem consequências sobre a capacidade de compreender o que vem depois.
Isso muda o sentido da frase "porque vendo, não veem". Não é que Jesus fale de propósito para confundir pessoas sinceras que buscam a verdade. É que, para quem já decidiu resistir, a parábola funciona como um espelho: confirma, em vez de reverter, a distância que a própria pessoa escolheu manter. Para os discípulos — que se aproximam, perguntam, querem entender — a mesma parábola do semeador é explicada em detalhe logo a seguir (13:18-23). A forma da parábola não muda; muda a disposição de quem ouve.
O verso 12 ("a quem tem, lhe será dado... a quem não tem, até aquilo que tem lhe será tirado") reforça essa ideia com uma lógica de resposta em cadeia. Não se trata de riqueza material, mas de receptividade espiritual: o pouco entendimento que alguém já tem, se usado para buscar mais, cresce; se ignorado, se perde. É o mesmo princípio que reaparece na parábola dos talentos () e no ensino paralelo de .
Vale notar que Mateus não apresenta isso como um decreto arbitrário sobre quem pode ou não ser salvo. O ponto de partida da recusa é humano e visível no texto: os líderes religiosos já haviam atribuído a obra de Jesus a um poder demoníaco () pouco antes desse capítulo. As parábolas, nesse contexto, não fecham uma porta que estava aberta — tornam visível, para quem quiser ver, que a porta já havia sido fechada por escolha própria. Ao mesmo tempo, o texto preserva um espaço genuíno de mistério: por que a graça alcança uns e não outros continua sendo uma pergunta que atravessa toda a Escritura, e diferentes tradições cristãs respondem a ela de formas distintas, como mostra a seção de interpretações abaixo.
Vale notar ainda que essa mesma cena aparece, com pequenas variações de ênfase, em e , o que sugere que os primeiros evangelistas viam nela um ensino importante sobre a natureza do discipulado, não um detalhe isolado de um único relato. O próprio fato de os discípulos precisarem se aproximar e perguntar mostra que entender a parábola exigia disposição para buscar explicação — a compreensão, aqui, nunca é automática nem gratuita, mesmo para quem já caminhava com Jesus havia meses.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Jesus contava parábolas de propósito para que as pessoas não se convertessem, como se Deus escondesse a salvação de quem realmente queria se salvar.
O texto situa o endurecimento depois da rejeição que os líderes religiosos já haviam manifestado em , não antes de qualquer busca sincera. A mesma parábola do semeador é explicada em detalhe a quem se aproxima querendo entender (13:18-23), o que mostra que a barreira não está em Jesus escondendo algo, mas na disposição de quem ouve.
Dizem que:As parábolas eram apenas um recurso didático simples, sem nenhuma outra função além de facilitar o entendimento.
Os versículos 11 a 13 afirmam explicitamente uma segunda função: para quem já resiste, a parábola também vela e confirma o afastamento. Reduzir as parábolas a mera simplificação pedagógica ignora essa dimensão que o próprio Jesus expõe na resposta aos discípulos.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada
Lê o "é dado" e o "não é dado" do versículo 11 como expressão da soberania divina na eleição: Deus concede graciosamente aos discípulos o entendimento dos mistérios do Reino segundo seu próprio propósito, um tema que ecoa e a discussão paulina sobre eleição em . A diferença entre quem entende e quem não entende repousa, em última instância, na iniciativa de Deus.
Arminiana/wesleyana
Enfatiza a resposta humana como decisiva: o "não é dado" descreve a consequência judicial de uma escolha real e resistível, já manifestada pela multidão que rejeitara Jesus em . O endurecimento não é predeterminado antes de qualquer resposta humana, mas segue a recusa que as pessoas mesmas praticaram.
Católica
Seguindo leitores patrísticos como João Crisóstomo, entende as parábolas como um ato de misericórdia pedagógica: Jesus adapta a forma de revelação à capacidade e à disposição de cada ouvinte, sem fechar definitivamente a porta para quem, mesmo endurecido no momento, possa mais tarde se voltar e compreender.
No original4 termos
παραβολαῖςparabolaisG3850
forma flexionada de parabolē, "parábola" — uma comparação ou ilustração que coloca uma verdade ao lado de uma imagem familiar para explicá-la.
μυστήριαmystēriaG3466
plural de mystērion, "mistérios" — verdades que estavam ocultas e agora são reveladas a quem tem acesso a elas, não segredos incompreensíveis por natureza.
βλέποντεςblepontesG991
particípio de blepō, "vendo" — descreve quem olha sem realmente perceber o sentido do que vê.
ἀκούοντεςakouontesG191
particípio de akouō, "ouvindo" — paralelo a blepontes, descreve quem escuta sem captar o significado da mensagem.
O que fazer com isso
Esse texto ajuda a entender por que a mesma pregação, a mesma leitura bíblica ou a mesma conversa sobre fé pode tocar profundamente uma pessoa e deixar outra completamente indiferente. Antes de concluir que uma mensagem foi mal explicada, vale perguntar que disposição interna cada ouvinte já trazia consigo. E antes de julgar quem não entendeu algo, vale lembrar que compreensão espiritual cresce com uso: quanto mais alguém busca entender o pouco que já viu, mais espaço se abre para enxergar o resto.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas4 obras
- Matthew Henry. Comentário Bíblico Matthew Henry (Exposição do Antigo e do Novo Testamento), 1710.
- R. T. France. The Gospel of Matthew (New International Commentary on the New Testament), 2007.
- D. A. Carson. Matthew (The Expositor's Bible Commentary), 1984.
- Craig L. Blomberg. Matthew (New American Commentary), 1992.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Isso significa que Deus impede pessoas sinceras de crerem em Jesus?
Não é isso que o texto afirma. O endurecimento descrito em vem depois da rejeição já manifestada pelos líderes religiosos em , não antes de qualquer busca sincera. Quem se aproxima de Jesus querendo entender, como os próprios discípulos, recebe explicação, e não uma parábola fechada.
Por que os discípulos entendiam e a multidão não, se ouviram a mesma parábola?
A diferença não estava na parábola, mas na postura de quem ouvia. Os discípulos se aproximaram e perguntaram; a multidão, segundo o contexto anterior do evangelho, já havia se posicionado contra Jesus. O mesmo relato é depois explicado em detalhe aos discípulos, em .
Esse texto contradiz a ideia de que o evangelho é para todos?
Não. descreve o efeito imediato das parábolas sobre um grupo específico, num momento específico, e não estabelece uma regra permanente sobre quem pode ouvir o evangelho. O próprio Mateus registra Jesus ensinando abertamente às multidões em outros momentos e enviando os discípulos a pregar a todas as nações, em .
Temas
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