
Mateus cita Jeremias, mas o texto é de Zacarias — por quê?
Por que Mateus diz que foi Jeremias quem profetizou, se o texto está em Zacarias?
Assim se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias, que disse: Tomaram as trinta moedas de prata, preço avaliado pelos filhos de Israel, o qual eles avaliaram; e as deram pelo campo do oleiro, conforme o que o Senhor me mandou. Zacarias 11:12-13; Jeremias 19:1-13; 32:6-9
Resposta curta
Depois que Judas devolveu as trinta moedas e se enforcou, os sacerdotes compraram um campo de oleiro como cemitério para estrangeiros. Mateus diz que isso "cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias", citando a compra do campo e o valor das moedas. O problema é que essas palavras específicas — trinta moedas jogadas ao oleiro como preço avaliado — não estão em Jeremias, mas em , quase palavra por palavra.
Não é erro de cópia nem contradição que derruba o relato. Mateus combina duas cenas ligadas a Jeremias (capítulos 19 e 32) com a linguagem exata de Zacarias sobre as trinta moedas. Citar sob o nome do profeta mais conhecido de um bloco de textos proféticos era prática reconhecida entre judeus e cristãos do primeiro século, não descuido do evangelista.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO próprio Mateus enquadra essa cena como cumprimento de Escritura, ligando o destino do dinheiro da traição de Jesus a um padrão profético mais amplo: o pastor rejeitado e avaliado por um preço de escravo, em Zacarias, e o campo comprado em meio ao juízo, em Jeremias. Jesus é apresentado como esse pastor desprezado, entregue por um valor humilhante, e o dinheiro de sua traição — que os sacerdotes não podiam devolver ao tesouro por ser "preço de sangue" — acaba, como o campo de Jeremias, servindo a um propósito que ultrapassa a intenção de quem o pagou: um lugar de sepultamento para estrangeiros. O detalhe da atribuição a Jeremias, longe de enfraquecer o quadro, mostra Mateus lendo a paixão de Jesus como o ponto em que várias linhas proféticas de rejeição e juízo convergem.
Respaldo no Novo Testamento:
Contexto histórico
narra um gesto profético simbólico: o pastor rejeitado por Israel pede seu salário, e o povo o avalia em trinta moedas de prata — exatamente o preço de um escravo ferido por um boi, segundo . É uma soma deliberadamente insultuosa. Em seguida, o Senhor manda que o pastor jogue essa "bela quantia" ao oleiro, dentro da casa do Senhor — um ato de desprezo pelo valor atribuído a ele. O texto grego de reproduz quase literalmente esse detalhe: as moedas, o oleiro, a avaliação "pelos filhos de Israel".
Já Jeremias fornece as outras duas peças da cena. Em , o profeta compra um vaso de oleiro, leva os anciãos ao vale do filho de Hinom — lugar historicamente associado a culto idólatra e derramamento de sangue inocente — e quebra o vaso como sinal de que Deus vai despedaçar Judá por sua infidelidade. Em , já no cerco final de Jerusalém, o profeta compra um campo em Anatote pesando prata, um gesto de esperança em meio ao juízo: a vida e a posse da terra continuariam depois do desastre.
Mateus funde essas três cenas porque elas compartilham o mesmo cenário simbólico: prata pesada, um oleiro, um campo, e o tema do sangue que não pode ficar no tesouro sagrado. Os sacerdotes recusam devolver o dinheiro de Judas ao cofre do templo por ser "preço de sangue" () e o destinam à compra de um campo — repetindo, na prática, o padrão que Jeremias já havia encenado com o vaso quebrado e o campo comprado, e usando o número exato e o gesto descrito por Zacarias. Para o leitor original, formado nas Escrituras hebraicas, a citação evocava esse conjunto de imagens entrelaçadas, não apenas uma única passagem isolada. Atribuir o conjunto a Jeremias — o profeta cujas cenas de oleiro e campo dão a moldura da história — era uma forma reconhecida de indicar a fonte principal do quadro profético, mesmo quando as palavras exatas vinham de outro livro.
Aprofundamento
Por que Mateus nomeia Jeremias para um texto que soa como Zacarias? Os estudiosos apontam algumas explicações, e elas não se excluem.
A primeira é a convenção de nomear uma coleção de rolos pelo primeiro ou mais conhecido profeta nela contida. A tradição judaica registrada no Talmude (Bava Batra 14b) lista Jeremias no início do rolo dos Profetas Posteriores em certas ordens de leitura. Citar um conjunto de textos proféticos sob esse nome de abertura era prática aceita. Algo semelhante acontece em , que atribui a Isaías uma citação que na verdade mistura com — o evangelista nomeia o profeta mais conhecido dos dois. F. F. Bruce discute esse padrão de citação combinada em seu estudo sobre o uso veterotestamentário no Novo Testamento.
A segunda explicação é a fusão deliberada de temas: Mateus não está citando uma única frase, mas reunindo um quadro — oleiro, campo, prata, sangue — que aparece espalhado entre , e . Comentaristas como D. A. Carson e Craig Blomberg observam que o evangelista provavelmente credita a Jeremias por ser a fonte da cena e do cenário (o oleiro, o vale, o campo), enquanto toma de Zacarias a formulação verbal exata sobre as trinta moedas.
Uma terceira linha, defendida por João Calvino em seu comentário sobre os evangelhos, é mais simples: seria um deslize de cópia, com o nome de Jeremias entrando no texto por engano no lugar de Zacarias. Bruce Metzger observa que um pequeno número de manuscritos tardios já tentou "corrigir" o texto trocando Jeremias por Zacarias — o que os críticos textuais leem como sinal de que "Jeremias" é a leitura mais antiga e mais difícil, exatamente porque nenhum copista teria trocado um nome fácil por um problemático de propósito.
Vale mencionar que Jerônimo, no século IV, registrou ter visto um texto hebraico atribuído a Jeremias que trazia essas palavras quase literalmente — mas nenhum manuscrito conhecido do livro de Jeremias, canônico ou não, preserva essa passagem, e a maioria dos estudiosos trata esse relato com cautela, como uma tentativa antiga de resolver o mesmo enigma, não como prova de uma fonte perdida de fato existente. Nenhuma dessas explicações exige admitir um erro doutrinário grave: todas partem do princípio de que citar por associação de temas, e nomear um conjunto de textos pela sua fonte principal, eram práticas de composição normais no primeiro século, bem diferentes dos critérios modernos de citação exata palavra por palavra que aplicamos hoje a um texto acadêmico.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Mateus cometeu um erro grosseiro que prova que a Bíblia é cheia de contradições e não pode ser confiável.
A citação combinada de textos sob o nome do profeta mais conhecido de um conjunto era uma prática reconhecida de composição no primeiro século — o próprio Marcos faz algo parecido em 1:2-3, atribuindo a Isaías uma citação que mistura Malaquias e Isaías. Não é descuido, é um modo de citar diferente do padrão moderno.
Dizem que:Existia um livro apócrifo completo de Jeremias, hoje perdido, de onde Mateus copiou essas palavras ao pé da letra.
Não há nenhum manuscrito, antigo ou moderno, que preserve essa passagem atribuída a Jeremias. O relato de Jerônimo sobre ter visto algo parecido é tratado pelos estudiosos com cautela, como uma tentativa de explicar o enigma na Antiguidade, não como evidência de uma fonte perdida real.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada
Segue a linha sugerida por João Calvino: o mais provável é um deslize de cópia, com o nome de Jeremias entrando por engano no lugar de Zacarias; a autoridade das Escrituras não depende de cada rótulo de citação estar preservado sem falha de transmissão.
Evangélica conservadora
Defende que não há erro algum: Mateus está deliberadamente combinando o cenário de Jeremias (oleiro, campo, juízo) com a formulação verbal de Zacarias, seguindo uma convenção de citação por fonte principal reconhecida no primeiro século.
Católica
Apoiada na leitura patrística de Jerônimo, admite a possibilidade de uma fonte judaica adicional hoje perdida, sem descartar também a hipótese da citação combinada; trata o episódio como um detalhe secundário diante do sentido teológico da passagem.
Ortodoxa
Lê a citação primariamente no plano tipológico, como parte do testemunho unificado dos profetas que aponta para a paixão de Cristo; considera a questão do nome atribuído um problema textual secundário, que não afeta a continuidade do sentido espiritual.
No original4 termos
ἸερεμίουIeremíouG2408
forma genitiva do nome "Jeremias", usada aqui como "[dito] por Jeremias"
τριάκονταtriákontaG5144
o numeral "trinta", referindo-se às moedas de prata
ἀργύριαargýriaG694
peças de prata, moedas de prata
κεραμέωςkerаméōsG2763
forma genitiva de "oleiro", o artesão que trabalha o barro
O que fazer com isso
Esse tipo de detalhe é um bom teste para como lidamos com perguntas difíceis na Bíblia. A reação fácil é desconfiar do texto inteiro por causa de um nome que não bate à primeira vista. A reação mais proveitosa é perguntar como as pessoas daquela época citavam e organizavam seus textos sagrados, porque muitas vezes o que parece falha é apenas um costume diferente do nosso. Vale a pena guardar essa pausa antes de concluir que algo está errado.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas5 obras
- Bruce M. Metzger. A Textual Commentary on the Greek New Testament, 1994.
- John Calvin. Commentary on a Harmony of the Evangelists, Matthew, Mark, and Luke, 1555.
- D. A. Carson. Matthew (The Expositor's Bible Commentary), 1984.
- Craig L. Blomberg. Matthew (The New American Commentary), 1992.
- F. F. Bruce. New Testament Development of Old Testament Themes, 1968.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Isso significa que a Bíblia tem um erro?
Não é isso que os estudiosos concluem. A explicação mais aceita é que Mateus está seguindo uma convenção antiga de citar um conjunto de textos pelo nome do profeta mais conhecido, combinando cenas de Jeremias com a linguagem exata de Zacarias. Mesmo os que veem aqui um possível deslize de cópia notam que isso não afeta o sentido da passagem nem a mensagem central do evangelho.
Existe mesmo um texto perdido de Jeremias com essas palavras?
Jerônimo, no século IV, mencionou ter visto algo parecido em um texto hebraico atribuído a Jeremias, mas nenhum manuscrito conhecido, canônico ou não, preserva essa passagem. A maioria dos estudiosos trata esse relato como uma tentativa antiga de resolver o mesmo enigma, não como prova de uma fonte perdida real.
Outros evangelhos têm o mesmo tipo de citação combinada?
Sim. atribui a Isaías uma citação que na verdade mistura com , nomeando apenas o profeta mais conhecido dos dois. É o mesmo padrão de citação por associação que aparece em .
Por que o campo do oleiro era importante para os primeiros cristãos?
registra que esse mesmo campo passou a ser chamado "Campo de Sangue" em aramaico, por ter sido comprado com dinheiro de uma traição. O detalhe reforça que a comunidade cristã primitiva já via ali um sinal do juízo e da ironia envolvidos na morte de Jesus.
Temas
- #mateus 27
- #trinta moedas de prata
- #zacarias 11
- #citação do antigo testamento
- #aparente contradição
- #campo do oleiro