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Significado Bíblico
Costumes da épocaintermediária
Ilustração da categoria Costumes da época

“Procurai a paz da cidade”: o que Jeremias 29:4-7 diz aos exilados na Babilônia

Por que Deus mandou os exilados construírem casas e orarem pela Babilônia, a cidade que os destruiu?

Assim diz o SENHOR dos exércitos, Deus de Israel, a todos os levados cativos, os quais fiz transportar de Jerusalém à Babilônia: Edificai casas, e nelas habitai; plantai hortas, e comei o fruto delas. Tomai esposas, e gerai filhos e filhas, e tomai esposas para vossos filhos, e dai vossas filhas a homens, para que gerem filhos e filhas; e ali multiplicai-vos, e não vos diminuais. E buscai a paz da cidade para onde eu vos levei, e orai por ela ao SENHOR; porque na paz dela vós tereis paz.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Em , o profeta escreve aos judeus levados à Babilônia em 597 a.C. e dá uma ordem inesperada: construir casas, plantar pomares, casar, ter filhos e procurar a paz da cidade, orando por ela. A carta contraria os falsos profetas que prometiam volta rápida a Jerusalém. Ela não manda esquecer a pátria, pois promete retorno depois de setenta anos, mas manda viver o presente com compromisso e sem ressentimento. Este verbete explica o contexto histórico da carta, o sentido de shalom e de buscar o bem da cidade, e o que significa viver como estrangeiro em terra que se opõe ao povo de Deus.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

A carta de Jeremias prepara a imagem do povo de Deus como estrangeiro em terra alheia, que o Novo Testamento aplica aos discípulos. Jesus pede ao Pai que os discípulos permaneçam no mundo sem ser do mundo e os envia como ele foi enviado, o que dá continuidade a essa vocação de viver fielmente em meio a uma sociedade que não compartilha toda a sua fé.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Jeremias escreveu aos judeus levados à Babilônia dizendo para não ficarem só esperando a volta: construam casas, plantem, casem, tenham filhos e orem pelo bem da cidade, porque a paz dela será a paz de vocês. Não mandou esquecer Jerusalém, pois prometeu a volta depois de setenta anos. É um conselho sobre viver com raízes e esperança em terra que não é a sua.

Contexto histórico

Em 597 a.C., Nabucodonosor tomou Jerusalém pela primeira vez e deportou o rei Joaquin (Jeconias), a rainha-mãe, os oficiais, os artesãos e muitos líderes (2Rs 24:10-16). Jeremias, que ficou na cidade, escreveu uma carta aos que foram levados. O capítulo 29 diz que a carta foi enviada por meio de Elasá e Gemarias, emissários do rei Zedequias a Nabucodonosor (29:3). O destinatário é amplo: “todos os do cativeiro”, incluindo anciãos, sacerdotes, profetas e todo o povo.

O motivo da carta era uma disputa. Em Jerusalém e na Babilônia, profetas como Hananias (Jr 28) anunciavam que o jugo da Babilônia seria quebrado em dois anos e que os objetos do templo logo voltariam. Jeremias contradiz essa esperança curta. Na carta, ele denuncia profetas que enganavam o povo (29:8-9, 21-23) e anuncia que o exílio duraria setenta anos (29:10), contra a expectativa de uma volta imediata.

O conteúdo prático vem nos versos 5 a 7. Deus ordena: edificar casas e morar nelas; plantar jardins e comer seus frutos; casar, ter filhos e filhas, arranjar casamentos para os filhos, e se multiplicar ali, sem diminuir. E então: “procurai a paz da cidade para onde vos fiz transportar e orai por ela ao Senhor, porque na sua paz vós tereis paz”. Note-se que a ordem é uma ação: construir, plantar, casar, gerar. Os exilados eram convidados a criar raízes.

Há evidências arqueológicas de que as comunidades judaicas na Babilônia de fato se estabeleceram. Tabuinhas cuneiformes do povoado de Al-Yahudu (“Cidade dos Judeus”), da região de Nipur, documentam judeus que trabalhavam a terra, pagavam impostos e faziam contratos no século VI e V a.C. O livro de Ezequiel mostra uma comunidade de exilados junto ao rio Quebar (Ez 3:15) e anciãos de Judá sentados diante do profeta, em sua casa (Ez 8:1). O Salmo 137, por contraste, mostra a dor de quem não conseguia cantar o canto do Senhor em terra estranha.

Aprofundamento

A carta traz uma surpresa teológica: Deus afirma ter sido ele quem “fez transportar” os exilados (v. 4, 7). O exílio não é apenas desastre político; faz parte do juízo de Deus sobre Judá, como Jeremias vinha anunciando. Isso muda a pergunta. Em vez de “como escapar?”, o povo é chamado a perguntar “como viver aqui?”. A resposta é lavrar a terra, formar famílias e buscar o bem da cidade.

A expressão “procurai a paz da cidade” usa o verbo darash, “buscar, procurar”, o mesmo verbo usado para buscar a Deus. A palavra “paz” é shalom, que vai além de ausência de guerra: indica bem-estar, saúde, prosperidade, relações em ordem. Procurar o shalom da cidade é buscar seu bem-estar. A segunda ordem é orar por ela. É uma instrução notável: orar pelos conquistadores, na capital do império que destruiu Jerusalém. A razão é dada em seguida: “na sua paz vós tereis paz”. O destino dos exilados estava ligado ao da cidade. Não é uma lealdade cega, e sim um reconhecimento de que a vida do povo de Deus acontece dentro de uma sociedade concreta.

É importante o que a carta não diz. Não manda adotar os deuses da Babilônia nem esquecer a identidade. O versículo 10 promete que, quando se cumprirem os setenta anos, Deus visitará o povo e o trará de volta. O verso 11, frequentemente citado de forma isolada, fala de planos de paz e de esperança, mas é dirigido a esse povo específico no seu contexto, e a promessa tem em vista o retorno e a restauração, não um sucesso individual garantido. Quem lê o verso 11 sem os versos 4 a 7 e 10 perde seu sentido original.

Também não se trata de submissão incondicional a qualquer poder. Jeremias convive com tensão: na mesma carta ele condena profetas que prometiam falsa paz e prediz a ruína de alguns líderes exilados (29:21-23). A ordem de orar pela cidade não é aprovação de tudo o que o império faz. Na própria Bíblia, a Babilônia será julgada (Jr 50 e 51). O texto convive com duas verdades: viver bem ali e esperar o juízo e a restauração.

O Novo Testamento retoma a imagem do exílio para descrever a vida dos fiéis. Primeira Pedro 1:1 e 2:11 chama os cristãos de “estrangeiros e peregrinos” e os exorta a ter uma conduta exemplar entre os gentios. Primeira Timóteo 2:1-2 pede orações por reis e autoridades, “para que tenhamos uma vida tranquila e sossegada”. fala dos que confessaram ser estrangeiros e peregrinos na terra. Em , Jesus pede ao Pai que não tire os discípulos do mundo, mas os guarde do mal, e diz que os envia ao mundo.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:Jeremias 29 manda os exilados aceitarem a dominação da Babilônia e desistirem de voltar para casa.

    A mesma carta promete, no verso 10, que depois de setenta anos Deus visitaria o povo e o traria de volta. A ordem de construir e orar não anula a esperança do retorno; ela tira o povo da espera passiva e das falsas promessas de volta imediata.

Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Leitura histórico-gramatical

    A carta orienta uma comunidade exilada a se estabelecer por uma geração, rejeitando a esperança de retorno rápido. O foco é a fidelidade prática no presente, com esperança no futuro.

  • Leitura cristã sobre a vida de peregrino

    O texto serve de modelo para a relação do povo de Deus com a sociedade em que vive: participação, serviço e oração pelo bem comum, sem confundir a cidade presente com a esperança final.

  • Leitura judaica da diáspora

    A carta é vista como base para a vida judaica em terras estrangeiras, em que a comunidade busca o bem do lugar onde mora, mantendo sua identidade e sua esperança de restauração.

No original3 termos
  • שָׁלוֹםshalomH7965

    paz, bem-estar, integridade; mais do que ausência de guerra.

  • דָּרַשׁdarashH1875

    buscar, procurar com empenho; o mesmo verbo usado para buscar a Deus.

  • גּוֹלָהgolahH1473

    exílio, cativeiro; designa tanto a deportação quanto a comunidade deportada.

O que fazer com isso

A carta ensina que viver como estrangeiro não é ficar em modo de espera, mas trabalhar, formar vínculos e orar pelo bem do lugar onde se está, sem perder a identidade nem a esperança. Isso vale para quem está num emprego difícil, numa cidade nova ou numa fase de perda: o presente também é lugar de fidelidade e de oração.

Passagens relacionadas5

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Jack R. Lundbom. Jeremiah 21–36 (Anchor Bible), 2004.
  • Walter Brueggemann. A Commentary on Jeremiah: Exile and Homecoming, 1998.
  • John Bright. Jeremiah (Anchor Bible), 1965.
  • Laurie E. Pearce e Cornelia Wunsch. Documents of Judean Exiles and West Semites in Babylonia in the Collection of David Sofer, 2014.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Jeremias 29:11 deve ser lido junto com os versos 4 a 7?

Sim. O verso 11 faz parte da mesma carta e promete esperança ao povo exilado, com retorno após setenta anos. Lido sem o contexto, perde o sentido original.

Devemos orar por governos que se opõem à fé?

A carta de Jeremias e apontam que sim. A oração pelo bem da cidade não aprova tudo o que ela faz, mas reconhece que a vida do povo de Deus está ligada à sociedade ao redor.

Temas

Publicado em 10/10/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • 3 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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