
Deus andava no jardim? O que significa a “viração do dia” em Gênesis 3:8
Deus tinha pés e caminhava de verdade no Éden? O que quer dizer “viração do dia”?
E ouviram a voz do SENHOR Deus, que passeava no jardim à brisa do dia; e o homem e sua mulher esconderam-se da presença do SENHOR Deus entre as árvores do jardim. E o SENHOR Deus chamou ao homem, e lhe disse: “Onde estás? E ele respondeu: “Ouvi tua voz no jardim, e tive medo, porque estava nu; e me escondi”.
Resposta curta
diz que Adão e Eva ouviram a voz do SENHOR Deus, que andava no jardim “pela viração do dia”. A frase levanta duas dúvidas comuns: Deus tem corpo e caminha como uma pessoa? E o que o hebraico rûaḥ hayyôm realmente quer dizer, já que as traduções oscilam entre brisa da tarde, vento do dia e até tempestade? Este verbete mostra que o texto fala de Deus com imagens humanas, o chamado antropomorfismo, para descrever proximidade e encontro, e não para definir a natureza divina. Também compara as leituras possíveis da expressão e aponta o centro da cena: o casal se esconde de quem sempre esteve perto, e Deus responde com uma pergunta, “Onde estás?”, em vez de um golpe imediato.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO texto não fala de Cristo de forma direta, mas descreve o início de uma trajetória: um Deus que procura quem se escondeu. Logo adiante, em , surge a primeira promessa sobre a descendência da mulher, e o Novo Testamento diz que o Verbo se fez carne e “habitou” entre nós, literalmente armou sua tenda, retomando a ideia de Deus presente em meio ao seu povo.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Depois de comer o fruto proibido, Adão e Eva ouvem Deus andando pelo jardim e se escondem. A expressão “viração do dia” pode significar uma brisa do fim da tarde, embora alguns estudiosos proponham outros sentidos. Dizer que Deus “anda” é um modo humano de falar da sua presença, e não prova que ele tem corpo. O mais importante é que Deus os procura e pergunta: “Onde estás?”.
Contexto histórico
Os capítulos 2 e 3 de Gênesis retratam o SENHOR Deus de maneira muito próxima: ele forma o homem do pó, planta um jardim, coloca o homem nele e lhe dá uma ordem sobre a árvore do conhecimento do bem e do mal. No capítulo 3, a serpente questiona essa ordem, a mulher e depois o homem comem do fruto, e o resultado imediato é descrito em termos de vergonha: os olhos de ambos se abrem, percebem que estão nus e costuram folhas de figueira para se cobrir. É nesse ponto que entra o versículo 8. Ele diz que o casal “ouviu a voz” do SENHOR Deus, que “andava no jardim pela viração do dia”, e que os dois se esconderam “da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do jardim”. Nos versículos seguintes, Deus toma a iniciativa: chama o homem, pergunta onde ele está, e o homem responde que ouviu a voz, teve medo porque estava nu e se escondeu. A cena abre uma sequência de perguntas, respostas e desculpas (3:9-13) que antecede as consequências descritas em 3:14-19. Vale notar o tipo de linguagem. Em , Deus fala e as coisas passam a existir, sem nenhuma imagem de mãos ou de passos. Em e 3, o narrador adota um estilo mais narrativo e cheio de imagens: Deus modela, planta, sopra e, aqui, caminha. Esse recurso é chamado de antropomorfismo, isto é, falar de Deus com características humanas. Outros textos do Antigo Testamento fazem o mesmo, como , em que Deus promete andar no meio do povo, e , que diz que o SENHOR anda no meio do arraial. O versículo, portanto, precisa ser lido dentro desse modo de falar, e não isolado dele. Também importa lembrar que a mulher ainda é chamada apenas de “sua mulher” nesse trecho; o nome Eva só aparece em 3:20, depois das sentenças.
Aprofundamento
A parte mais discutida do versículo é a expressão lĕrûaḥ hayyôm. Palavra por palavra, rûaḥ significa vento, sopro ou espírito, e yôm significa dia; a construção seria algo como “no vento do dia”. A tradução portuguesa tradicional, “viração do dia”, acompanha a leitura de que se trata de uma brisa de fim de tarde, quando o calor diminui. Há apoio para isso em Cantares 2:17 e 4:6, onde o hebraico fala de o dia “soprar” antes de as sombras fugirem, e a antiga tradução grega, a Septuaginta, verte a frase como “ao entardecer”. Mas essa não é a única proposta. Alguns estudiosos relacionam yôm a um termo acádico que significa tempestade e leem a cena como a aproximação de Deus com som de trovão, o que combinaria com o clima de julgamento. Outros, como o teólogo reformado Meredith Kline, entendem rûaḥ como “Espírito” e a cena como uma manifestação da glória de Deus para julgar. A conclusão honesta é que o sentido exato é incerto, e as três leituras convivem na literatura acadêmica. O segundo ponto é o verbo “andava”. Ele está numa forma hebraica (hitpael) que indica movimento repetido ou contínuo, daí também a tradução “passeando”. Isso não obriga a concluir que Deus tinha um corpo. O texto diz que o casal ouviu uma voz, ou um som, e não que viu uma figura. afirma que Israel, no Sinai, ouviu a voz de Deus, mas não viu forma alguma, e diz que Deus é espírito. A tradição judaica e a cristã, em geral, leem o andar como imagem de presença e proximidade, e não como descrição anatômica; ainda assim, o texto não esconde a ousadia da imagem. O terceiro ponto é a pergunta “Onde estás?”. Ela costuma ser usada para dizer que Deus não sabia onde Adão estava, mas o contexto não pede essa conclusão. Em , Deus pergunta a Caim onde está Abel e logo mostra que sabe o que aconteceu. Perguntar é, nessas cenas, uma forma de dar ao ser humano a chance de responder e assumir o que fez. Há ainda uma ironia no verso: o casal tenta se esconder entre as árvores daquele que as plantou. O que o texto destaca não é o horário do passeio, mas o contraste entre o Deus que se aproxima e as pessoas que, de repente, têm medo da sua presença, justamente aquele que lhes dera o jardim.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A pergunta “Onde estás?” prova que Deus não sabia onde Adão estava.
O contexto não pede essa conclusão. Em Deus pergunta a Caim onde está Abel e em seguida revela que conhece o crime. Nessas cenas a pergunta funciona como convite para o ser humano responder e assumir o que fez, e não como pedido de informação.
Dizem que:A Bíblia diz que Deus visitava Adão e Eva todos os dias no fim da tarde.
O texto não menciona rotina diária nem hora marcada. “Viração do dia” é uma expressão de sentido debatido, e o verbo “andava” pode indicar ação contínua, mas nenhuma das duas coisas fixa um horário. A ideia de visita vespertina diária é uma dedução, não uma afirmação do versículo.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura tradicional (brisa do entardecer)
Rûaḥ hayyôm designa o vento fresco do fim do dia, e o andar de Deus é linguagem humana para expressar presença e proximidade. É a leitura refletida na tradução “viração do dia” e na Septuaginta, que fala em entardecer.
Leitura de tempestade
Alguns estudiosos relacionam yôm a um termo acádico para tempestade e entendem que o casal ouviu a voz de Deus como trovão que se aproxima, o que daria à cena um tom de julgamento desde o início.
Leitura teofânica (Espírito do dia)
Meredith Kline e outros entendem rûaḥ como “Espírito” e veem na cena uma manifestação da glória divina em juízo, anterior às sentenças dos versículos seguintes.
No original3 termos
רוּחַrûaḥH7307
Vento, sopro ou espírito; em forma a expressão rûaḥ hayyôm, “vento do dia”, de sentido debatido.
יוֹםyômH3117
Dia, o período de luz ou o dia inteiro; aqui designa o momento do dia em que a cena acontece, geralmente entendido como fim de tarde.
מִתְהַלֵּךְmithallēkH1980
Particípio de hālak (andar) na forma hitpael, que indica movimento repetido ou contínuo; é o verbo usado também em para o andar de Deus no meio do povo.
O que fazer com isso
A cena ajuda a ler com calma as imagens humanas que a Bíblia usa para falar de Deus: elas comunicam proximidade e relação, e não limitam quem ele é. Também mostra um padrão que reaparece nas Escrituras: diante da culpa, a reação humana é se esconder, e a iniciativa de chamar parte de Deus. A pergunta “Onde estás?” abre espaço para dizer a verdade antes de qualquer sentença ser pronunciada.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas4 obras
- Gordon J. Wenham. Genesis 1–15 (Word Biblical Commentary), 1987.
- Nahum M. Sarna. Genesis (JPS Torah Commentary), 1989.
- Victor P. Hamilton. The Book of Genesis: Chapters 1–17 (NICOT), 1990.
- Meredith G. Kline. Images of the Spirit, 1980.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Deus tem corpo, já que Gênesis 3:8 diz que ele andava no jardim?
O texto usa linguagem humana para falar de Deus, o antropomorfismo, comum no Antigo Testamento. O casal ouviu uma voz ou um som, e afirma que Israel não viu forma alguma de Deus. A leitura tradicional entende o andar como imagem de presença, não como descrição de um corpo.
A tradução “viração do dia” está correta?
É uma tradução possível e antiga, que entende a expressão como brisa de fim de tarde. O hebraico rûaḥ hayyôm, porém, admite outros sentidos, como vento de tempestade ou Espírito do dia, e os estudiosos não chegaram a consenso.
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