
Os israelitas roubaram os egípcios ao sair do Egito?
Deus mandou os israelitas roubarem os egípcios quando saíram do Egito?
E fizeram os filhos de Israel conforme o mandamento de Moisés, pedindo aos egípcios objetos de prata, e objetos de ouro, e roupas. E o SENHOR deu favor ao povo diante dos egípcios, e deram-lhes; e eles despojaram os egípcios.
Resposta curta
diz que os israelitas, seguindo a palavra de Moisés, pediram aos egípcios objetos de prata, de ouro e roupas, e que o Senhor deu ao povo favor aos olhos deles, de modo que lhes davam o que pediam. O último verbo do trecho, traduzido por “despojaram” em muitas versões, é o que gera a controvérsia: no hebraico, ele pode soar como saque ou como livramento. A leitura mais comum, porém, une as duas coisas: o texto descreve um pedido atendido, e não um assalto, e o chama de despojo porque o povo saiu do Egito com a riqueza dos que o oprimiam. A passagem também cumpre a promessa feita a Abraão de que a descendência sairia com grandes bens.
Como isso aponta para Jesus
TipologiaO episódio está dentro da noite da Páscoa, que o Novo Testamento lê como figura de Cristo. O livramento do povo escravizado, com a saída do Egito, aponta para a libertação maior que Cristo realiza. O detalhe do despojo, porém, não é tipificado no Novo Testamento, e por isso a ligação vale para a saída como um todo.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Os israelitas pediram prata, ouro e roupas aos egípcios, e os egípcios deram. A Bíblia diz que Deus fez o povo ser bem visto por eles. Por isso muitas versões usam “despojaram”, mas o texto não fala de roubo escondido, e sim de um pedido atendido por quem queria que eles saíssem logo, depois da última praga. A cena cumpre uma promessa feita a Abraão: sua família sairia do Egito com grandes bens.
Contexto histórico
O trecho vem logo depois da décima praga e da noite da Páscoa. À meia-noite, o Senhor feriu todos os primogênitos do Egito (), e o faraó chamou Moisés e Arão e mandou que o povo saísse, junto com seus rebanhos. O versículo anterior diz que os egípcios apressavam o povo para que deixasse o país, pois diziam: “Todos nós seremos mortos” (12:33). É nesse clima de medo que se encaixam os versículos 35 e 36.
A passagem retoma ordens já dadas antes. Em , quando Deus chama Moisés, ele promete que dará ao povo favor diante dos egípcios, para que as mulheres peçam à vizinha e à hóspede objetos de prata, de ouro e vestes, e assim “despojarão os egípcios”. Em , antes da última praga, a ordem é repetida, e o texto acrescenta que o próprio Moisés era muito estimado pelos egípcios e pelo faraó. Por trás disso está a promessa feita a Abraão em : depois da servidão, a descendência sairia “com grande riqueza”.
Também é preciso lembrar a situação dos israelitas. Eles haviam trabalhado durante gerações em obras do Estado egípcio, em tijolos e em construções (), sem salário. O texto não faz a conta de uma dívida, mas o leitor antigo sabia que o povo saía de uma servidão pesada e que não saía de mãos vazias.
O verso 35 informa que os israelitas fizeram “conforme a palavra de Moisés”, ou seja, obedeceram a uma instrução prévia, e o verso 36 explica o resultado: Deus deu favor ao povo. A forma do verbo final, que a maioria das traduções vai verter como “despojaram”, dá nome ao efeito do episódio, e não ao método. A pergunta que o leitor de hoje faz, se isso foi roubo, nasce de uma tradução e de uma sensibilidade moderna sobre o verbo e sobre a justiça do ato.
Aprofundamento
O primeiro ponto é o vocabulário. O verbo que descreve o que os israelitas fizeram é sha'al, “pedir”. É o verbo comum para solicitar algo a alguém. Quando o texto diz que os egípcios “lhes davam o que pediam”, o ato descrito é um pedido atendido de forma voluntária, ainda que sob o medo da décima praga. Aqui o texto não fala de arrombamento nem de furto escondido.
O segundo ponto é o verbo final. Em hebraico, natsal tem um campo amplo de sentido: “arrancar”, “livrar”, “salvar” e, na forma intensiva usada aqui, “despojar”. Por isso algumas versões trazem “despojaram” e outras “esvaziaram” ou “saquearam”. A forma hebraica é a mesma de , onde Deus anuncia de antemão o resultado. Há quem leia a palavra num sentido neutro, de “tirar”, “levar embora”. Em todo caso, ela descreve o desfecho (o Egito ficou sem os seus bens), e não a maneira como o povo os obteve, que o versículo anterior já explicou como pedido.
O terceiro ponto é a velha discussão sobre “emprestar”. A versão King James e outras mais antigas traduziram o pedido como “tomar emprestado”, e daí surgiu a crítica de que os israelitas pediram sem intenção de devolver. O hebraico não diz “emprestar”. O verbo é o mesmo de “pedir” em geral, sem a ideia de devolução. Por isso muitas traduções modernas dizem simplesmente “pediram”.
O quarto ponto é a interpretação. Uma tradição leitora, presente em comentaristas judeus antigos e em muitos cristãos, entende o episódio como pagamento tardio pelo trabalho não remunerado de gerações. Outra o vê como despojo de guerra: o Senhor, que combateu o Egito pelas pragas, entrega a Israel o espólio do vencido, como em outras vitórias da Bíblia. Outra ainda destaca o favor divino, a graça que tocou o coração dos egípcios, e aqui o que vale é a iniciativa de Deus, não uma conquista dos hebreus. Essas leituras não se excluem totalmente, e o texto parece combiná-las.
O quinto ponto é o destino do ouro e da prata. Mais tarde, os mesmos objetos serviram para o bezerro de ouro (), mas também para o tabernáculo, quando o povo ofereceu espontaneamente seus bens para a obra (; 36:5-7). O texto mostra que o metal recebido foi usado tanto para a idolatria quanto para o culto, e não elogia o povo por isso.
Em resumo, quem afirma que a Bíblia manda roubar precisa ignorar o verbo “pedir” e o contexto que liga o episódio à promessa a Abraão. Quem ignora a palavra “despojar” também perde a força do texto, que quer mostrar a reviravolta do oprimido que sai rico, e não um assalto planejado.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Deus mandou os israelitas roubarem os egípcios.
O verbo da ordem e da execução é “pedir” (sha'al), e o texto diz que os egípcios davam o que lhes era pedido. Não há arrombamento nem furto às escondidas. O que há é um pedido aceito, sob a pressão do medo que a décima praga causou.
Dizem que:O hebraico diz que os israelitas “pediram emprestado” e nunca devolveram.
A ideia de “emprestar” vem de traduções antigas, como a King James. O verbo hebraico não carrega a noção de empréstimo, apenas a de pedir. A discussão sobre devolver ou não é uma pergunta moderna que o texto não faz.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Pagamento por trabalho não remunerado
Comentaristas judeus antigos e muitos cristãos entendem que o episódio compensa gerações de trabalho forçado sem salário. A ênfase é a justiça de Deus em favor do oprimido, ainda que o texto não faça contas.
Despojo do vencido (leitura de guerra)
O Senhor derrota o Egito pelas pragas e entrega ao povo o espólio, como acontece em outras vitórias de Israel. Aqui o verbo “despojar” descreve o desfecho de uma guerra em que Israel não luta.
Cumprimento da promessa a Abraão
O texto liga o episódio a . Os bens que saem do Egito mostram que Deus cumpre o que disse, e a ênfase recai no favor que ele concede ao povo, não em um ato planejado pelos israelitas.
No original2 termos
שָׁאַלsha'alH7592
Pedir, solicitar, perguntar. É o verbo comum para pedir algo a alguém, sem a ideia necessária de empréstimo. Descreve o gesto dos israelitas em .
נָצַלnatsalH5337
Na forma básica, arrancar, livrar, salvar. Na forma intensiva usada em (e em 3:22), tem o sentido de despojar, esvaziar alguém de seus bens. Descreve o resultado do episódio.
O que fazer com isso
O texto convida a ler com atenção os verbos antes de montar uma acusação contra a Bíblia ou uma justificativa a partir dela. Também mostra que o oprimido nem sempre sai da opressão de mãos vazias, e que isso acontece por graça, e não por esperteza. Quem usa a passagem para legitimar apropriação indevida de bens alheios vai contra o que o próprio versículo diz, que é pedir e receber.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- Nahum M. Sarna. Exodus (JPS Torah Commentary), 1991.
- Umberto Cassuto. A Commentary on the Book of Exodus, 1967.
- Douglas K. Stuart. Exodus (New American Commentary), 2006.
- Brevard S. Childs. The Book of Exodus (Old Testament Library), 1974.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Os egípcios deram os bens por vontade própria?
O texto diz que sim, no sentido de que eles atenderam ao pedido, e atribui isso ao favor que Deus deu ao povo. O contexto, porém, mostra um Egito aterrorizado pela morte dos primogênitos, que queria ver os israelitas fora do país.
Essa passagem justifica tomar bens de quem nos oprimiu?
Não. A narrativa é um evento único, ligado a uma promessa e a uma intervenção divina específica, e descreve pedido atendido. Usá-la como regra geral para apropriação de bens alheios vai além do que o texto diz.
O que os israelitas fizeram com o ouro e a prata?
O texto mostra dois destinos. Parte foi usada no bezerro de ouro (), e parte foi oferecida de coração para construir o tabernáculo ( e 36).
Temas
- Diferenças de tradução
- Moisés
- #exodo
- #egipcios
- #despojar
- #pedir
- #pascoa
- #ouro-e-prata