
Divórcio e novo casamento: o que Jesus disse em Mateus 19
A Bíblia permite se divorciar e casar de novo?
Então os fariseus se aproximaram dele e, provando-o, perguntaram-lhe: É lícito ao homem se divorciar da sua mulher por qualquer causa? Porém ele lhes respondeu: Não tendes lido que aquele que os fez no princípio, macho e fêmea os fez, e disse: Portanto o homem deixará pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e os dois serão uma única carne? Gênesis 2:24 Assim eles já não são mais dois, mas sim uma única carne; portanto, o que Deus juntou, o ser humano não separe. Eles lhe disseram: Por que, pois, Moisés mandou lhe dar carta de separação, e divorciar-se dela? Jesus lhes disse: Por causa da dureza dos vossos corações Moisés vos permitiu divorciardes de vossas mulheres; mas no princípio não foi assim. Porém eu vos digo que qualquer um que se divorciar de sua mulher, a não ser por causa de pecado sexual, e se casar com outra, adultera; e o que se casar com a divorciada também adultera.
Resposta curta
Os fariseus perguntam a Jesus se é lícito ao homem se divorciar da esposa "por qualquer causa" — uma frase que ecoa um debate rabínico do primeiro século sobre os limites do divórcio em . Em vez de escolher um lado dessa disputa, Jesus recua até a criação: Deus fez homem e mulher para se tornarem "uma única carne", e o que ele uniu, o ser humano não deve separar.
Quando questionado sobre por que Moisés autorizou a carta de divórcio, Jesus explica que isso foi uma concessão à "dureza do coração" humano, não o desenho original de Deus. Ele afirma que se divorciar e casar novamente constitui adultério — exceto em caso de "pecado sexual" (porneia). Essa cláusula de exceção, ausente nos relatos paralelos de Marcos e Lucas, tornou-se um dos pontos mais debatidos entre as tradições cristãs.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoJesus fundamenta sua resposta citando — homem e mulher se tornam "uma única carne". O Novo Testamento retoma essa mesma citação em , onde Paulo a aplica ao relacionamento entre Cristo e a igreja, chamando-a de "mistério". Isso sugere que o casamento, no arco bíblico, não é apenas uma instituição social a ser regulada, mas uma figura viva de aliança fiel que atravessa a Escritura — da criação, passando pela linguagem profética de Israel como esposa de Deus (Oseias, ), até a imagem final das npocias do Cordeiro em . A insistência de Jesus em que "o que Deus juntou, o ser humano não separe" ecoa, nesse arco maior, a fidelidade inabalável que o próprio Deus promete à sua aliança, mesmo quando o parceiro humano falha — algo que a igreja primitiva leu como espelhado supremamente na entrega de Cristo por sua noiva, a igreja.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Os líderes religiosos perguntam a Jesus se um homem pode se divorciar da esposa por qualquer motivo. Jesus não entra na discussão deles: ele volta ao plano original de Deus, em que homem e mulher se tornam uma só coisa e ninguém deveria separá-los. Quando perguntam por que Moisés permitiu o divórcio, Jesus responde que foi só por causa da teimosia do coração humano, não porque fosse o ideal de Deus. Ele ainda diz que casar de novo depois de um divórcio é adultério, exceto quando houve traição sexual no casamento.
Contexto histórico
A cena começa com um verbo carregado: os fariseus se aproximam "provando-o" — o mesmo tipo de teste usado nas tentações do deserto. A pergunta "é lícito ao homem se divorciar da sua mulher por qualquer causa?" não é neutra: ela ecoa uma disputa rabínica real e conhecida no judaísmo do primeiro século em torno de , texto que permite ao marido dar "carta de separação" quando encontra na esposa "algo indecente". Duas escolas de rabinos discordavam sobre o alcance dessa expressão. A escola de Shammai a lia de forma restrita, limitando o divórcio a falta grave, geralmente entendida como infidelidade sexual. A escola de Hillel a lia de forma ampla, permitindo o divórcio por motivos triviais — a Mishná (Gittin 9:10) chega a mencionar até queimar a comida do marido como causa aceitável nessa linha mais permissiva. Perguntar a Jesus se vale "qualquer causa" era, portanto, convidá-lo a tomar partido nessa controvérsia entre Hillel e Shammai.
Jesus recusa jogar o jogo dos termos da lei mosaica e volta à fonte anterior à própria lei: o relato da criação em e 2:24, onde homem e mulher são feitos um para o outro e se tornam "uma única carne". Ao fazer isso, ele desloca a pergunta de "o que é permitido?" para "o que Deus quis desde o princípio?". Quando os fariseus contra-argumentam citando Moisés, Jesus não nega que a permissão exista, mas explica sua origem: foi uma concessão prática diante da "dureza de coração" humana, não um mandamento ideal. A carta de divórcio, no contexto do Antigo Oriente Próximo, também cumpria uma função protetora — documentava formalmente que a mulher estava livre para se casar novamente, resguardando-a de acusação de adultério. É dentro desse pano de fundo jurídico e social que a resposta de Jesus, e sua cláusula sobre "pecado sexual", precisa ser lida.
Aprofundamento
O ponto central da resposta de Jesus é uma hierarquia: a vontade criacional de Deus ("no princípio") tem mais peso do que a concessão mosaica dada "por causa da dureza dos vossos corações". Em grego, essa expressão usa o termo sklerokardia, a mesma dureza de coração que os profetas atribuíam a Israel infiel. Jesus não trata como contradição de , mas como adaptação necessária a uma humanidade que já não vive à altura do desenho original — o que evita colocar Moisés contra a criação, mas também rebaixa o divórcio de "direito" a "permissão diante da falha humana". Vale notar ainda que, ao citar , Jesus sublinha o número: "os dois serão uma única carne" — um detalhe que a tradição cristã lê tradicionalmente também como argumento implícito a favor da união exclusiva entre um homem e uma mulher, e não apenas contra o divórcio.
A parte mais debatida do texto é a cláusula "a não ser por causa de pecado sexual" (em grego, porneia — termo amplo que cobre relações sexuais ilícitas em geral, distinto de moicheia, palavra mais específica para adultério). Essa exceção aparece em Mateus (aqui e em 5:32), mas está ausente nos relatos paralelos de e , que registram a proibição de Jesus sem nenhuma ressalva. Essa diferença entre os evangelhos é o motivo pelo qual estudiosos como Joseph Fitzmyer levantaram a hipótese de que porneia, no contexto mateano, pode se referir não a um adultério comum, mas a uniões consideradas ilegítimas pela própria Lei judaica — como os casamentos dentro de graus proibidos de parentesco listados em , comuns entre gentios convertidos que buscavam se tornar discípulos. Outros estudiosos, como David Instone-Brewer, preferem lê-la dentro do próprio debate Hillel-Shammai, como uma tomada de posição de Jesus a favor da leitura mais restrita da escola de Shammai, e não como uma categoria jurídica nova.
Essa ambiguidade histórica explica por que a mesma frase gerou, ao longo dos séculos, leituras cristãs tão diferentes sobre se ela autoriza apenas a separação de corpos, ou também um novo casamento para a parte inocente — divergência que atravessa igrejas até hoje, e que raramente se resolve apenas discutindo léxico grego, já que envolve também como cada tradição pastoreia pessoas feridas. O versículo 9 termina advertindo que casar com a pessoa divorciada "também adultera", mostrando que a preocupação central do texto não é catalogar exceções, mas proteger a seriedade de um vínculo que, nas palavras de Jesus, "o ser humano não separe".
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A Bíblia proíbe o divórcio sem qualquer exceção.
O próprio Jesus registra uma exceção ligada a "pecado sexual" no versículo 9. O texto trata o divórcio como grave desvio do plano de Deus, não como algo sem nenhuma ressalva possível.
Dizem que:Moisés instituiu o divórcio porque Deus considerava isso algo bom.
Jesus afirma explicitamente que a permissão mosaica foi uma concessão "por causa da dureza dos vossos corações", e que "no princípio não foi assim" — ou seja, uma adaptação à falha humana, não o ideal divino.
Dizem que:Esse texto dá uma lista completa e detalhada de todos os motivos válidos para o divórcio hoje.
O termo grego porneia é amplo e seu alcance exato é debatido por estudiosos sérios há séculos; tratar o versículo como um checklist jurídico fechado ignora essa ambiguidade histórica reconhecida pelos próprios comentaristas.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
A união matrimonial válida e consumada é indissolúvel; o que o texto chama de "divórcio" só pode ser separação de corpos, nunca dissolução do vínculo. A exceção de porneia é lida por autores como Fitzmyer como referência a uniões ilegítimas (incestuosas, segundo ), não a um adultério comum — o que explicaria a exceção sem abrir espaço para novo casamento em vida do primeiro cônjuge.
Ortodoxa
O ideal é a indissolubilidade, mas a igreja pode exercer oikonomia (economia pastoral) e permitir um segundo casamento em casos como adultério ou abandono, reconhecendo a fragilidade humana sem tratar essa permissão como equivalente ao primeiro casamento — daí a existência de um rito litúrgico penitencial distinto para segundas núpcias.
Reformada/Protestante histórica
Porneia designa infidelidade sexual conjugal e constitui motivo legítimo tanto para o divórcio quanto para o novo casamento da parte inocente, já que o cônjuge culpado rompeu unilateralmente a aliança. Essa leitura, associada a autores como John Murray, também amplia a mesma lógica a casos de abandono, a partir de .
Evangélica/pentecostal contemporânea
Sem negar o peso da fidelidade conjugal, parte dessa tradição enfatiza a possibilidade de restauração e novo começo, tratando a exceção de Mateus como um princípio pastoral mais amplo do que uma lista fechada de motivos — cada caso de ruptura conjugal grave sendo avaliado à luz da graça e do aconselhamento pastoral, não apenas do critério literal de porneia.
No original5 termos
πορνείαporneiaG4202
imoralidade sexual em sentido amplo — relação sexual ilícita em geral, termo mais abrangente que "adultério"
ἀπολύσαιapolysaiG630
despedir, mandar embora, divorciar-se de
μοιχᾶταιmoichataiG3429
cometer adultério
ἀποστασίουapostasiouG647
carta/certificado formal de divórcio ou separação
σκληροκαρδίανsklerokardianG4641
dureza de coração, resistência obstinada à vontade de Deus
O que fazer com isso
Este texto não é um manual de regras para casos conjugais difíceis, mas um chamado a levar o compromisso do casamento a sério, resistindo à tentação de tratá-lo como descartável. Isso não significa cobrar de quem já viveu um divórcio uma culpa que o texto não atribui a ela. Ler essa passagem com honestidade é reconhecer, ao mesmo tempo, o peso que Jesus dá à fidelidade e a compaixão com que trata quem carrega uma história marcada pela dureza de coração alheio.
Passagens relacionadas8
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Fontes consultadas5 obras
- Joseph A. Fitzmyer. To Advance the Gospel: New Testament Studies (inclui "The Matthean Divorce Texts and Some New Palestinian Evidence"), 1998.
- David Instone-Brewer. Divorce and Remarriage in the Bible: Social and Legal Context, 2002.
- Craig L. Blomberg. Matthew (The New American Commentary), 1992.
- John Meyendorff. Marriage: An Orthodox Perspective, 1975.
- D. A. Carson. Matthew, em The Expositor's Bible Commentary, 1984.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Jesus proíbe totalmente o divórcio nesse texto?
Não de forma absoluta: ele afirma que o desenho original de Deus é a união permanente, e chama a atenção para a gravidade de rompê-la, mas reconhece uma exceção ligada a "pecado sexual" (porneia). O alcance exato dessa exceção é que divide as tradições cristãs até hoje.
O que significa a expressão "pecado sexual" (porneia) na cláusula de exceção?
Porneia é um termo grego amplo para imoralidade sexual, mais genérico que a palavra específica para adultério (moicheia). Por isso estudiosos divergem se ela designa adultério conjugal, uniões consideradas ilegítimas pela Lei judaica, ou infidelidade descoberta ainda no noivado.
Por que Moisés permitiu o divórcio, segundo Jesus?
Jesus explica que foi uma concessão à "dureza de coração" das pessoas, não porque esse fosse o plano ideal de Deus para o casamento. A carta de divórcio de também protegia legalmente a mulher divorciada.
Por que os evangelhos de Marcos e Lucas não trazem essa cláusula de exceção?
Apenas Mateus registra a exceção por "pecado sexual" (aqui e em 5:32); e apresentam a proibição de Jesus sem ressalva explícita. Essa diferença entre os evangelhos é justamente o que alimenta as diferentes leituras cristãs sobre o alcance da exceção.
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