
O que quer dizer “preço de cão” em Deuteronômio 23:18?
O que é o “preço de cão” em Deuteronômio 23:18? A Bíblia chama pessoas de cães?
Não haverá prostituta das filhas de Israel, nem haverá prostituto ritual dos filhos de Israel. Não trarás pagamento de prostituta, nem pagamento de prostituto à casa do SENHOR teu Deus por nenhum voto; porque abominação é ao SENHOR teu Deus tanto um como o outro.
Resposta curta
proíbe a prostituição cultual em Israel e determina que o “salário de prostituta” e o “preço de cão” não sejam levados à casa do SENHOR para pagar votos. A palavra “cão” (kelev) causa estranheza: seria o animal, um insulto ou um termo técnico? A maioria dos comentaristas entende que “cão” designa o prostituto cultual, o equivalente masculino da prostituta do versículo anterior, em paralelismo hebraico, e cita uma inscrição fenícia de Chipre em apoio. Este verbete explica a expressão, as leituras alternativas, o debate acadêmico sobre a própria existência da prostituição sagrada no antigo Oriente Médio e o princípio que a lei defende: dinheiro obtido dessa forma não poderia ser oferta a Deus.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO texto não fala de Cristo e não tem tipologia. A relação com o Novo Testamento é indireta: Jesus afirma que cobradores de impostos e prostitutas entrariam no reino de Deus antes de certos líderes religiosos, o que mostra que a rejeição do culto cananeu pela Lei não significou o fechamento da porta para quem se arrepende.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
A lei de proíbe a prostituição ligada ao culto e proíbe levar ao templo o dinheiro dessa atividade. “Preço de cão” é provavelmente o pagamento do prostituto cultual, chamado “cão” em sentido depreciativo ou técnico. Uma inscrição fenícia ajuda a sustentar essa leitura, mas há dúvidas entre os estudiosos. A ideia principal é clara: o dinheiro obtido assim não pode ser oferecido a Deus.
Contexto histórico
reúne regras sobre quem pode entrar na assembleia do SENHOR, sobre a limpeza do arraial em tempo de guerra e sobre uma série de situações da vida em comunidade, como o escravo fugitivo, os empréstimos e os votos. No meio dessa sequência, os versículos 17 e 18 (23:18 e 19 na numeração da Bíblia hebraica) tratam de uma prática ligada ao culto. O versículo 17 diz que nenhuma das filhas de Israel será qĕdēšâ, e nenhum dos filhos de Israel será qādēš. Os dois termos vêm da raiz que significa “santo” ou “separado”, e por isso costumam ser traduzidos como “prostituta cultual” e “prostituto cultual”, isto é, quem se prostituía em ligação com o culto de uma divindade. O versículo 18 acrescenta que ninguém levará à casa do SENHOR, por causa de qualquer voto, “salário de prostituta” (’etnan zônâ) nem “preço de cão” (mĕḥîr keleb), pois ambos são abominação ao SENHOR. A sequência de leis em volta não trata disso diretamente, mas o assunto das ofertas votivas aparece logo em seguida, nos versículos 21 a 23, que lembram o dever de cumprir os votos. O pano de fundo é a rejeição do culto de Canaã: em Deuteronômio, Israel é advertido repetidamente a não imitar as práticas religiosas dos povos da terra (12:29-31; 18:9-14). A lei, portanto, combina dois assuntos: proíbe a prática em si, entre as filhas e os filhos de Israel, e impede que o dinheiro obtido assim seja usado como oferta ao SENHOR. Em outros pontos da Bíblia, prostituição e idolatria são ideias próximas, e profetas como Oseias descrevem a infidelidade religiosa de Israel com a linguagem da prostituição. A lei de se situa, portanto, num campo em que sexo, culto e dinheiro estavam entrelaçados nas religiões vizinhas. Os dois versículos se leem melhor juntos do que cada um isolado, já que a prática e o pagamento são o mesmo problema visto de dois lados.
Aprofundamento
A palavra kelev significa “cão” no hebraico. No antigo Oriente Médio, o cão era em geral visto como animal de rua e símbolo de desprezo: usa a imagem para se autodepreciar, usa-a como expressão de humilhação, e e recorrem a ela em sentido figurado. Por isso, uma leitura possível é a de insulto genérico contra quem se prostitui. A maioria dos comentaristas, porém, prefere um sentido mais específico, apoiado no paralelismo do hebraico. O versículo 17 usa o par qĕdēšâ e qādēš, mulher e homem; o 18 usa o par zônâ, prostituta, e keleb, cão. Se o segundo membro corresponde ao masculino, “cão” seria o prostituto cultual. Um apoio frequentemente citado é uma inscrição fenícia de Kition, em Chipre, que lista os klbm (a mesma palavra, no plural) entre o pessoal de um templo; muitos estudiosos entendem que se trata de um papel masculino associado ao culto, embora a interpretação da inscrição também seja debatida. Jeffrey Tigay, em seu comentário judaico a Deuteronômio, apresenta essa interpretação como a mais provável, ao lado da cautela com as evidências. Outra possibilidade, mais rara, é entender o texto de forma literal, como dinheiro obtido da venda de um cão, mas ela explica mal o paralelismo com a prostituta. Há ainda um debate maior. Alguns estudiosos modernos, como Stephanie Budin em The Myth of Sacred Prostitution in Antiquity, sustentam que a ideia de uma prostituição “sagrada” institucionalizada nos templos antigos é mais fraca do que se supôs. Se a tese estiver certa, o texto talvez trate de prostituição comum cuja renda se tentava consagrar a uma divindade, e não de um clero cultual. Outros estudiosos defendem a existência de práticas sexuais ligadas a cultos de fertilidade. Observe também a lógica econômica do versículo 18: o voto era uma promessa feita a Deus que costumava ser cumprida com animais ou valores levados ao santuário (cf. versículos 21 a 23). A lei impede que alguém quite um voto com dinheiro cuja origem contradiz a santidade do lugar. É uma regra sobre a pureza da oferta, e dialoga com a ideia, presente nos profetas, de que oferta sem justiça não agrada a Deus (; ). Assim, mesmo quem discorda sobre o significado de “cão” concorda no ponto prático da proibição. O que o texto afirma de forma clara é a proibição e o princípio: dinheiro obtido por essa via é abominação e não pode ser oferta. O termo “cão” não é, portanto, uma regra de classificação das pessoas, e sim uma designação técnica ou depreciativa para um papel que a lei veta. Qualquer leitura responsável precisa reconhecer essa incerteza sobre o sentido exato, mas também o sentido geral, que é sólido.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A Bíblia chama as pessoas de cães e as desqualifica como seres humanos.
No versículo, “cão” designa um papel ligado ao culto, em paralelo com “prostituta”, e não uma categoria de pessoas. A lei não ordena desprezo pelas pessoas, mas veta a prática e o uso do seu pagamento como oferta ao SENHOR. Em outros textos, “cão” aparece como metáfora de humilhação, não como regra jurídica.
Dizem que:O “preço de cão” é o dinheiro da venda de um cachorro.
Essa leitura literal existe, mas é minoritária e explica mal o paralelismo com “salário de prostituta”. A maioria dos comentaristas entende kelev como o equivalente masculino de zônâ, apoiando-se também em uma inscrição fenícia de Kition que cita os klbm entre o pessoal de um templo.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura do prostituto cultual (maioria)
“Cão” corresponde ao qādēš do versículo 17: o homem que se prostituía em ligação com o culto. O paralelismo com “prostituta” e a inscrição de Kition sustentam essa leitura.
Leitura do insulto geral
“Cão” seria um termo de desprezo aplicado a quem se prostitui, como em outros textos em que a palavra expressa humilhação, sem implicar uma categoria técnica do culto.
Leitura crítica da “prostituição sagrada”
Estudiosos como Stephanie Budin questionam que a prostituição sagrada institucional tenha existido nos moldes imaginados, e propõem que a lei trata de renda de prostituição comum que se tentava oferecer como voto.
No original3 termos
כֶּלֶבkelebH3611
Cão; em é entendido pela maioria como designação do prostituto ligado ao culto, em paralelo com a prostituta.
קָדֵשׁqādēšH6945
Da raiz de “santo”, “separado”; designa o homem ligado a práticas cultuais sexuais, no versículo 17, e é o equivalente masculino de qĕdēšâ.
מְחִירmĕḥîrH4242
Preço, pagamento; no versículo 18 liga o dinheiro à atividade proibida, e por isso não pode ser levado à casa do SENHOR.
O que fazer com isso
O princípio central é que Deus não se compra com qualquer dinheiro: a origem da oferta importa, e uma doação não limpa o que foi obtido por exploração. Convém ler a palavra “cão” como termo técnico ou depreciativo de um papel religioso ligado ao culto cananeu, e não como autorização para desprezar pessoas. O texto também lembra que práticas de exploração sexual feriam a dignidade de pessoas.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas4 obras
- Jeffrey H. Tigay. Deuteronomy (JPS Torah Commentary), 1996.
- Peter C. Craigie. The Book of Deuteronomy (NICOT), 1976.
- Stephanie L. Budin. The Myth of Sacred Prostitution in Antiquity, 2008.
- J. Gordon McConville. Deuteronomy (Apollos Old Testament Commentary), 2002.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que significa “preço de cão”?
A maioria dos comentaristas entende que é o pagamento do prostituto ligado ao culto, em paralelo ao “salário de prostituta”. O hebraico keleb, “cão”, funcionaria como termo depreciativo ou técnico para esse papel. Há leituras alternativas, e os estudiosos não chegaram a consenso.
Existia prostituição sagrada em Israel e nos povos vizinhos?
Há debate entre os estudiosos. A Bíblia condena práticas dessa natureza em Israel (; ), mas pesquisadores como Stephanie Budin discutem se a prostituição sagrada institucional existiu nos templos antigos da forma tradicionalmente descrita.
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