
O bode sacrificado no Dia da Expiação, o sangue levado ao Lugar Santíssimo
O que acontecia com o bode sacrificado no Dia da Expiação em Levítico 16?
Depois degolará em expiação o bode macho, que era do povo, e meterá o sangue dele do véu dentro; e fará de seu sangue como fez do sangue do bezerro, e espargirá sobre o propiciatório e diante do propiciatório: E limpará o santuário, das imundícias dos filhos de Israel, e de suas rebeliões, e de todos os seus pecados: da mesma maneira fará também ao tabernáculo do testemunho, o qual reside entre eles em meio de suas imundícias. E nenhum homem estará no tabernáculo do testemunho quando ele entrar a fazer a reconciliação no santuário, até que ele saia, e haja feito a reconciliação por si, e por sua casa, e por toda a congregação de Israel. E sairá ao altar que está diante do SENHOR, e o expiará; e tomará do sangue do bezerro, e do sangue do bode macho, e porá sobre as pontas do altar ao redor. E espargirá sobre ele do sangue com seu dedo sete vezes, e o limpará, e o santificará das imundícias dos filhos de Israel.
Resposta curta
Em , o sumo sacerdote sacrifica um bode pelos pecados do povo e leva seu sangue até o Lugar Santíssimo, aspergindo-o sobre o propiciatório e diante dele, além de usá-lo para purificar o altar do incenso. Era o único dia do ano em que alguém entrava naquele espaço, e o rito purificava tanto o povo quanto o próprio santuário, contaminado pelas impurezas e transgressões acumuladas.
retoma esse ritual detalhadamente para explicar a obra de Cristo: um sacrifício cujo sangue abre acesso ao lugar mais sagrado, tornando possível uma aproximação que antes exigia mediação anual e repetida. É uma das tipologias sacerdotais mais desenvolvidas explicitamente pelo Novo Testamento.
Como isso aponta para Jesus
Tipologiadesenvolve extensamente o ritual do Dia da Expiação para explicar a obra de Cristo, que entra no verdadeiro Lugar Santíssimo com seu próprio sangue, uma única vez, em vez de sangue animal repetido anualmente. É uma das tipologias com respaldo mais explícito e detalhado no Novo Testamento, construída pelo próprio autor de Hebreus.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
No Dia da Expiação, uma vez por ano, o sumo sacerdote de Israel sacrificava um bode e levava o sangue dele até o cômodo mais sagrado do templo, para pedir perdão pelos pecados de todo o povo. O ritual também purificava o próprio templo, que era considerado contaminado pelo pecado das pessoas. No Novo Testamento, o livro de Hebreus usa essa cena para explicar como Jesus, com seu próprio sangue, abriu acesso definitivo a Deus, sem precisar repetir o rito todos os anos.
Contexto histórico
descreve o ritual do Dia da Expiação, ou Yom Kippur, o momento litúrgico mais solene do calendário israelita, realizado uma única vez por ano, no décimo dia do sétimo mês (). O capítulo abre lembrando a morte dos filhos de Arão, Nadabe e Abiú, que haviam se aproximado indevidamente da presença de Deus () — um pano de fundo que explica a seriedade extrema com que o texto trata o acesso ao Lugar Santíssimo.
O ritual seguia uma sequência precisa. Primeiro, o sumo sacerdote se banhava e vestia roupas simples de linho branco, não as vestes ornamentadas habituais, sinal de humildade diante da tarefa. Sacrificava um touro por seus próprios pecados e pelos de sua casa, entrando com o sangue no Lugar Santíssimo. Depois, dois bodes eram apresentados: um era sorteado para o Senhor e sacrificado pelos pecados do povo, o outro era enviado vivo ao deserto (o "bode de Azazel", tratado separadamente em ). O sangue do bode sacrificado, junto com o do touro, era levado ao Lugar Santíssimo e aspergido sobre e diante do propiciatório, e depois usado também para purificar o altar do incenso, no ambiente externo ao Lugar Santíssimo.
Um detalhe frequentemente esquecido é que o rito não purificava apenas as pessoas: o texto diz explicitamente que o sumo sacerdote fazia expiação pelo "santuário", pela "tenda da congregação" e pelo "altar" (), por causa das "impurezas dos filhos de Israel e das suas transgressões, em todos os seus pecados" (). A concepção subjacente é que o pecado do povo contaminava fisicamente o espaço sagrado onde Deus habitava, exigindo purificação anual do próprio local, não apenas perdão pessoal. Fontes judaicas posteriores, como o tratado Yoma da Mishná, descrevem com grande detalhe litúrgico como esse ritual continuou sendo praticado no templo de Jerusalém até sua destruição em 70 d.C.
Aprofundamento
O verbo hebraico central de todo o capítulo é kaphar (כִּפֶּר), "expiar", "cobrir", "apagar" — a mesma raiz do nome do propiciatório, kapporet. usa esse verbo para descrever a ação sobre o santuário, e 16:17 e 16:30 o aplicam também às pessoas: "neste dia se fará expiação por vós, para purificar-vos". A ideia de que o sangue "cobre" ou "neutraliza" a impureza, sem necessariamente apagar o fato histórico do pecado, é central para entender a lógica sacrificial levítica — o pecado gera uma espécie de contaminação real, quase física, que precisa de tratamento ritual concreto, não apenas de arrependimento interior.
é o texto do Novo Testamento que mais desenvolve essa cena. O autor descreve, com vocabulário que ecoa diretamente , como o sumo sacerdote entrava "uma vez por ano" no "segundo [compartimento]", chamado Santo dos Santos, "não sem sangue" (), e usa isso para argumentar que Cristo, como sumo sacerdote definitivo, "não pelo sangue de bodes e novilhos, mas pelo seu próprio sangue, entrou uma vez por todas no Lugar Santíssimo, tendo obtido eterna redenção" (). O comentarista Harold Attridge, em seu comentário sobre Hebreus na série Hermeneia, observa que o autor constrói esse argumento por analogia estrutural direta: o padrão "sangue — entrada no lugar mais sagrado — expiação" é preservado, mas cada elemento é substituído por algo qualitativamente superior — sangue animal por sangue próprio, entrada anual por entrada única e definitiva, tenda terrena por "tenda maior e mais perfeita, não feita por mãos" ().
Essa é, entre todas as tipologias sacerdotais do Antigo Testamento, uma das que têm respaldo mais explícito e extenso no Novo Testamento — não é uma inferência de padrão, mas um desenvolvimento textual detalhado, versículo a versículo, do próprio autor de Hebreus. Ainda assim, é importante não perder de vista o sentido original do texto de Levítico: no seu contexto, o capítulo 16 institui um ritual concreto, anual, de purificação do santuário físico e do povo, sem qualquer indicação interna de que apontaria para um cumprimento futuro único. A leitura tipológica é uma reinterpretação legítima e profundamente enraizada no próprio Novo Testamento, mas construída a partir de um rito que, para os israelitas do Antigo Testamento, tinha função real e imediata, repetida a cada ano, sem essa consciência prospectiva. Milgrom, em seu comentário sobre Levítico, insiste em ler o capítulo 16 primeiro dentro da lógica sacerdotal israelita de contaminação e purificação ritual, antes de qualquer aplicação posterior — um cuidado metodológico que vale manter mesmo quando se reconhece, como o próprio Novo Testamento reconhece, a força teológica da tipologia cristã construída sobre esse rito.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:O Dia da Expiação servia apenas para perdoar pecados individuais, como uma confissão coletiva.
O texto de deixa explícito que o rito também purificava o santuário, o altar e a tenda da congregação, contaminados pelas impurezas e transgressões do povo — a expiação tinha uma dimensão espacial e cúltica, não apenas pessoal.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaísmo do Segundo Templo e rabínico
Preservou o Yom Kippur como o dia mais solene do calendário, e após 70 d.C., substituiu o sacrifício pelo jejum, pela oração e pelo arrependimento (teshuvá) como meios de expiação.
Tradição católica e ortodoxa
Frequentemente lê em conexão com a liturgia eucarística, entendendo a entrada única de Cristo no santuário celestial como fundamento perpétuo, e não apenas passado, da mediação sacerdotal de Cristo.
No original2 termos
כִּפֶּרkapharH3722
Verbo hebraico para 'expiar' ou 'cobrir' pecado, usado repetidamente em para descrever a ação do sangue sobre o santuário e sobre o povo.
קֹדֶשׁ הַקֳּדָשִׁיםqodesh haqqodashimH6944
Expressão hebraica para 'Lugar Santíssimo' ou 'Santo dos Santos', o compartimento mais interno do tabernáculo, acessado apenas uma vez por ano segundo .
O que fazer com isso
O detalhe de que o santuário também precisava ser purificado, e não só as pessoas, é um lembrete incômodo: o pecado não afeta apenas quem o pratica, contamina o ambiente, as relações, os espaços comuns. Pensar assim evita reduzir a fé a uma transação privada entre indivíduo e Deus, e recupera a ideia bíblica de que a restauração espiritual tem sempre uma dimensão coletiva e concreta, não apenas interior.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas2 obras
- Harold W. Attridge. The Epistle to the Hebrews (Hermeneia), 1989.
- Jacob Milgrom. Leviticus 1-16 (Anchor Bible), 1991.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre o bode sacrificado e o 'bode de Azazel' enviado ao deserto?
O bode sacrificado () morria e seu sangue era usado para expiar o santuário e o povo; o outro bode (16:20-22) permanecia vivo e era enviado ao deserto, carregando simbolicamente os pecados confessados para longe do acampamento — dois ritos distintos, com funções complementares.
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