
Anjos caídos e o tártaro: o que diz 2 Pedro 2:4
o que é o tártaro na bíblia e o que aconteceu com os anjos que pecaram
Porque se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, em vez disso lançando-os no inferno, entregou-os às cadeias da escuridão, tendo sido reservados para o julgamento;
Resposta curta
Em , o apóstolo abre uma lista de julgamentos do passado — anjos, dilúvio, Sodoma e Gomorra — para provar que Deus não deixa o mal impune. O verbo grego atrás de "lançando-os no inferno" é tartarosas, formado a partir de Tártaro, nome que os gregos usavam para o abismo mais profundo, reservado aos piores culpados em sua mitologia. É a única vez que a palavra aparece no Novo Testamento, e Pedro a emprega como imagem, não como mapa do mundo espiritual.
Pedro não conta quem eram esses anjos nem o que fizeram; pressupõe que os leitores já conheciam essa tradição, associada a . O ponto não é satisfazer curiosidade sobre anjos caídos, mas afirmar que, se nem seres espirituais poderosos escaparam da resposta de Deus, os falsos mestres que Pedro combate também não escapariam.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textonão menciona Cristo, e não deve ser lido como se fizesse. Mas o versículo se encaixa num tema maior que atravessa a Escritura: a certeza do julgamento divino contra a rebelião, um tema que a própria carta liga ao dia do Senhor, o momento em que Deus fará justiça final sobre o mundo (). O Novo Testamento identifica repetidamente Cristo como o agente desse julgamento final — 'porque já determinou um dia em que, com justiça, há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou' (), e 'nem também o Pai julga a ninguém, mas deu ao Filho todo o julgamento' (). O verbo grego usado em para 'reservados' reaparece em para descrever o próprio cosmo guardado para o juízo final — a mesma lógica que condenou os anjos rebeldes aponta para um julgamento maior, que a Escritura atribui a Cristo. Isso não faz do versículo uma profecia sobre Jesus, mas mostra como o padrão de justiça certa que ele ilustra converge, no arco bíblico mais amplo, para aquele a quem foi dada autoridade de julgar.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Em , Pedro diz que Deus não perdoou os anjos que pecaram: eles foram lançados num lugar de escuridão, presos e à espera do julgamento final. A palavra grega usada, tartarosas, vem do nome Tártaro, termo que os gregos usavam para o pior lugar de castigo em suas histórias antigas. Pedro pega esse termo emprestado como imagem forte, sem explicar quem são esses anjos nem o que fizeram. O objetivo do versículo é simples: mostrar que ninguém escapa do julgamento de Deus, nem mesmo anjos — e por isso os falsos mestres da igreja também não escapariam.
Contexto histórico
é uma advertência contra falsos mestres que estavam se infiltrando nas igrejas, negando a autoridade do Senhor e vivendo de forma imoral enquanto prometiam liberdade (2:1-3, 18-19). Para mostrar que o julgamento deles é certo, Pedro recorre a três exemplos do Antigo Testamento, em ordem: os anjos que pecaram (v. 4), o mundo antigo destruído pelo dilúvio, com Noé poupado (v. 5), e Sodoma e Gomorra reduzidas a cinza, com Ló poupado (v. 6-9). O padrão é sempre o mesmo: julgamento certo para o ímpio, resgate para o justo.
O primeiro exemplo, sobre os anjos, é o mais compacto e o mais alusivo dos três — Pedro não narra nada, apenas assume que os leitores sabem do que fala. Essa suposição faz sentido no judaísmo do Segundo Templo, período em que circulavam tradições extensas sobre anjos rebeldes, entre elas o livro de 1 Enoque, que expandia o episódio enigmático de (os "filhos de Deus" que se uniram a mulheres humanas) numa narrativa de anjos vigilantes acorrentados na escuridão até o julgamento final. 1 Enoque não é Escritura canônica em nenhuma tradição cristã majoritária, mas era lido e citado por autores judeus do período, e chega a citar esse livro diretamente — o que mostra como esse vocabulário e essas imagens já circulavam entre os primeiros cristãos.
Vale notar também a proximidade quase literal entre e , que trata do mesmo tema com palavras parecidas. Estudiosos como Richard Bauckham observam que essa semelhança é tão grande que praticamente todos os comentaristas reconhecem alguma relação literária direta entre as duas cartas, ainda que discordem sobre qual delas foi escrita primeiro. Entender esse pano de fundo ajuda a ler o versículo pelo que ele é: uma alusão rápida e carregada de peso retórico, não uma doutrina completa sobre anjos caídos.
Aprofundamento
A palavra que a maioria das traduções verte como "lançando-os no inferno" traduz o particípio grego tartarosas, do verbo tartaroo — formado diretamente sobre Tártaro, o nome que a mitologia grega dava ao abismo mais profundo, abaixo do Hades, reservado aos piores condenados. É um hápax legômeno: a única ocorrência dessa palavra em todo o Novo Testamento. Pedro, escrevendo para leitores familiarizados com o grego helenístico, usa um termo carregado de ressonância cultural para comunicar algo que os judeus de língua grega já vinham expressando havia gerações — esse vocabulário aparece também em textos judaicos do período, o que sugere que Pedro não está importando mitologia pagã sem mais, mas usando um termo que já tinha curso dentro do judaísmo helenístico para descrever prisão e castigo divinos.
Isso é importante porque muita gente lê "tártaro" e pressupõe uma cosmologia específica, com detalhes de localização e estrutura. O texto não oferece isso. A força da palavra está na conotação — um lugar de confinamento definitivo e escuro — não numa descrição literal do além.
Outro detalhe que vale registrar: os manuscritos gregos apresentam variação entre "cadeias da escuridão" e uma leitura próxima que fala de "covas" ou "poços" de escuridão, uma diferença de uma letra no grego que os críticos textuais discutem sem unanimidade sobre qual é a leitura original. Isso não muda o sentido geral do versículo, mas explica por que traduções diferentes escolhem imagens um pouco distintas.
O verbo seguinte, "reservados" (do grego tereo, "guardar", "manter sob custódia"), reaparece em , onde os céus e a terra atuais são descritos como "reservados para o fogo" no dia do juízo. Essa repetição de vocabulário liga o julgamento passado dos anjos ao julgamento futuro do mundo inteiro — o mesmo Deus que já executou sentença sobre seres espirituais está guardando o cosmo para um juízo ainda por vir. É um argumento a fortiori, comum na retórica judaica do período: se nem anjos, mais poderosos e mais próximos da presença de Deus do que qualquer ser humano, escaparam da resposta divina ao pecado, muito menos escapariam os falsos mestres que Pedro está combatendo.
Essa mesma lógica explica por que Pedro escolhe começar sua lista pelos anjos, e não pelo dilúvio ou por Sodoma. Os três exemplos seguem uma escala: de seres espirituais para toda a humanidade e depois para duas cidades específicas, do mais geral para o mais concreto, sempre reforçando que ninguém está isento — nem quem ocupa o lugar mais alto na hierarquia da criação. O versículo não pretende ensinar angelologia nem satisfazer curiosidade sobre a estrutura do mundo espiritual; ele empresta uma cena de julgamento já conhecida pelos leitores para sustentar um argumento pastoral urgente contra mestres que prometiam impunidade.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Tártaro na Bíblia é exatamente o mesmo lugar que o inferno descrito em outras passagens do Novo Testamento.
O Novo Testamento usa palavras diferentes para descrever destino de julgamento — Geena, Hades, Tártaro — cada uma com ressonâncias próprias; usa tartarosas uma única vez, como imagem emprestada do vocabulário grego, sem construir uma cosmologia unificada que equipare os termos.
Dizem que:O versículo narra em detalhe uma guerra ou rebelião específica de anjos contra Deus.
O texto não descreve evento, motivo ou identidade dos anjos; ele pressupõe que os leitores já conheciam essa tradição de outra fonte e apenas a cita como exemplo, sem contar a história.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura ligada à tradição judaica dos vigilantes (comum na igreja primitiva e retomada por parte da erudição moderna)
Os 'anjos que pecaram' são identificados com os 'filhos de Deus' de , seres celestiais que se uniram a mulheres humanas — leitura elaborada em 1 Enoque e adotada por vários pais da igreja antes do século IV.
Leitura agostiniana, influente na exegese católica e em boa parte da tradição reformada
fala da linhagem humana de Sete, não de anjos; o pecado angélico de remete antes à rebelião original de Satanás e de seus seguidores contra Deus, anterior e independente do episódio de .
Leitura evangélica contemporânea de ênfase pastoral
Sem resolver a identidade exata dos anjos, lê o versículo primariamente pelo seu efeito retórico no argumento de Pedro: um exemplo concreto e conhecido dos leitores para provar que o julgamento de Deus contra a rebelião é certo e não seletivo.
No original3 termos
ταρταρώσαςtartarosasG5020
particípio aoristo de tartaroo, 'lançar no Tártaro' — verbo formado sobre o nome grego do abismo mais profundo de castigo; hápax legômeno, única ocorrência no Novo Testamento.
σειραῖςseirais
dativo plural de seira, 'cadeia' ou 'corda' — usado aqui para descrever a prisão dos anjos na escuridão; manuscritos variam entre essa leitura e uma que fala de 'covas' de escuridão.
τηρουμένουςteroumenousG5083
particípio presente passivo de tereo, 'guardar', 'manter sob custódia' — o mesmo verbo reaparece em para o cosmo 'reservado' ao juízo final.
O que fazer com isso
O versículo não foi escrito para satisfazer curiosidade sobre o mundo espiritual, e forçar uma reconstrução detalhada do que aconteceu com esses anjos é ir além do que Pedro quis dizer. O convite do texto é mais direto: nenhuma posição, por mais elevada que seja, dá imunidade diante de Deus. Isso desarma a tentação de julgar gravidade moral pela aparência de autoridade — seja de uma pessoa, de um cargo religioso ou de qualquer discurso que se apresente como espiritualmente superior e, por isso, acima de prestar contas.
Passagens relacionadas6
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas3 obras
- Richard J. Bauckham. Jude, 2 Peter (Word Biblical Commentary), 1983.
- Michael Green. 2 Peter and Jude (Tyndale New Testament Commentaries), 1987.
- Douglas J. Moo. 2 Peter, Jude (NIV Application Commentary), 1996.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que é o 'tártaro' citado em 2 Pedro 2:4?
É uma tradução do verbo grego tartarosas, formado a partir de Tártaro, nome que a mitologia grega dava ao abismo mais profundo de castigo. Pedro usa essa palavra como imagem de peso, não como afirmação de que a cosmologia grega é literalmente verdadeira.
Esses anjos são os mesmos 'filhos de Deus' de Gênesis 6:1-4?
É a leitura mais antiga e mais difundida, ligada a tradições judaicas como o livro de 1 Enoque, mas o próprio texto de 2 Pedro não faz essa identificação explícita. Tradições cristãs divergem sobre como interpretar , e o versículo em si não resolve essa questão.
2 Pedro 2:4 aparece em outro lugar da Bíblia com palavras parecidas?
Sim, trata do mesmo tema com vocabulário muito próximo, descrevendo anjos que 'não guardaram o seu principado' e são mantidos em prisão até o juízo. Estudiosos reconhecem alguma relação literária direta entre as duas cartas.
Existe um lugar chamado Tártaro separado do inferno na Bíblia?
Não há uma cosmologia bíblica detalhada que separe Tártaro de outros termos como Hades ou Geena. Pedro toma emprestada uma palavra conhecida dos leitores gregos para descrever confinamento e julgamento, sem construir um mapa do além.
Esse versículo fala sobre demônios que atacam pessoas hoje?
Não. O texto descreve um julgamento específico já ocorrido no passado sobre um grupo de anjos, usado como exemplo histórico de que Deus julga o pecado — não é uma declaração geral sobre atividade demoníaca no presente.
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