
Temiam ao Senhor, mas serviam seus próprios deuses: o sincretismo que restou em Samaria
Como é possível temer ao Senhor e ao mesmo tempo adorar outros deuses, como o texto descreve os moradores de Samaria?
Mas cada nação fez para si seus deuses, e puseram-nos nos templos dos altos que haviam feito os de Samaria; cada nação em sua cidade onde habitava. Os da Babilônia fizeram a Sucote-Benote, e os de Cuta fizeram a Nergal, e os de Hamate fizeram a Asima; Os heveus fizeram a Nibaz e a Tartaque; e os de Sefarvaim queimavam seus filhos ao fogo a Adrameleque e a Anameleque, deuses de Sefarvaim. E temiam ao SENHOR; e fizeram dos do povo sacerdotes dos altos, os quais sacrificavam para eles nos templos dos altos. Temiam ao SENHOR, e honravam a seus deuses, segundo o costume das nações de onde haviam sido transportados.
Resposta curta
Depois da queda de Samaria e da deportação de boa parte da população israelita pela Assíria, o rei assírio reassenta gente de várias regiões conquistadas, Babilônia, Cuta, Ava, Hamate, Sefarvaim, nas cidades esvaziadas. Cada grupo trouxe consigo seus próprios deuses nacionais, e o texto lista com detalhe quase catalográfico quem adorava o quê: Sucote-Benote, Nergal, Asima, Nibaz, Tartaque, Adrameleque e Anameleque, cada um ligado a uma origem étnica específica. Mas o relato não descreve uma simples substituição de cultos: registra que essas pessoas passaram também a temer ao Senhor, o deus da terra em que agora viviam, sem abandonar seus deuses de origem, praticando as duas religiões lado a lado, um modelo de sincretismo que o texto retrata quase como observação etnográfica.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoA origem religiosa mista de Samaria narrada aqui é o pano de fundo direto da desconfiança religiosa entre judeus e samaritanos séculos depois. É exatamente esse histórico que Jesus aborda, com surpreendente falta de desprezo, na conversa com a mulher samaritana, deslocando a questão de qual monte ou qual mistura cultual é correta para a adoração em espírito e em verdade, um horizonte que ultrapassa tanto o templo de Jerusalém quanto o de Samaria.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Depois que o exército assírio destrói o reino de Israel e leva boa parte do povo para o exílio, gente de outras regiões conquistadas é trazida para morar em Samaria. Cada grupo trouxe seus próprios deuses, e o texto lista quem adorava o quê. Mas essas pessoas também começaram a temer ao Senhor, sem abandonar seus deuses antigos, praticando as duas religiões ao mesmo tempo. Esse sincretismo religioso ajuda a explicar as origens da futura identidade samaritana e a desconfiança que os judeus tinham dela mais tarde.
Contexto histórico
O capítulo 17 de 2 Reis marca um ponto de virada estrutural no livro: depois de narrar reinado após reinado do Norte declinando, culmina na conquista assíria de Samaria sob Sargão II, em 722 a.C., e na deportação de parte significativa da população israelita para diferentes regiões do império assírio (). A prática assíria de deportação em massa não visava apenas punir rebeliões, mas também dissolver identidades nacionais que poderiam gerar futuras revoltas, substituindo populações locais por gente trazida de outras províncias conquistadas, uma política documentada em inscrições assírias da época, incluindo os próprios anais de Sargão II. O texto bíblico nomeia as origens dos novos moradores: Babilônia, Cuta, Ava, Hamate e Sefarvaim, regiões situadas na Mesopotâmia e na Síria. Cada grupo chegou com seu panteão particular, e a lista detalhada de deuses, Sucote-Benote, provavelmente ligado à deusa babilônica Zarpanitu, Nergal, deus mesopotâmico da morte e do submundo, Asima, Nibaz e Tartaque, associados a divindades da região de Hamate e Ava, Adrameleque e Anameleque, ligados a Sefarvaim, possivelmente cultos que envolviam sacrifício infantil, mencionado explicitamente no versículo 31, reflete conhecimento real da geografia religiosa do império assírio. O detalhe da narrativa vai além de uma simples nota de rodapé: o autor bíblico está documentando, com precisão quase etnográfica, como a repovoação de Samaria criou uma paisagem religiosa plural, na qual múltiplos cultos nacionais coexistiam num mesmo território que também havia sido, gerações antes, o centro do culto, ainda que distorcido, ao Senhor no reino do Norte. A menção de que os moradores de Hamate e Sefarvaim queimavam seus filhos em honra a Adrameleque e Anameleque situa esses cultos dentro de um conjunto mais amplo de práticas religiosas cananeias e mesopotâmicas que a lei mosaica condena explicitamente em outros textos, reforçando o contraste entre a religiosidade recém-instalada em Samaria e os padrões exigidos pelo culto exclusivo ao Senhor.
Aprofundamento
O ponto teologicamente mais denso do texto está no verbo usado para descrever a relação dos novos moradores com o Senhor: eles temiam, yare, ao Senhor, o mesmo verbo usado em outros contextos bíblicos para descrever devoção genuína e reverente, mas simultaneamente continuavam servindo seus próprios deuses nacionais (17:33, 41). O texto não trata isso como hipocrisia disfarçada, mas descreve, quase sem julgamento retórico direto naquele ponto específico, um modelo de religião aditiva: adotar o culto local como camada extra de proteção religiosa, sem abandonar a identidade cultual de origem. Esse tipo de sincretismo era comum no mundo antigo, onde divindades eram frequentemente entendidas como ligadas a territórios específicos, servir ao deus da terra fazia sentido prático dentro de uma cosmovisão que associava poder divino a geografia, mesmo sem exclusividade religiosa. O relato de já prepara esse quadro ao narrar que os novos habitantes, sofrendo ataques de leões, pediram e receberam um sacerdote israelita enviado de volta para lhes ensinar o costume do Deus da terra, um pedido pragmático, não uma conversão teológica exclusiva. Comentaristas como Marvin Sweeney e Gary Knoppers observam que essa passagem é central para entender as origens do que mais tarde se tornaria a identidade samaritana, e que a hostilidade posterior entre judeus e samaritanos, refletida tanto no Novo Testamento quanto em fontes rabínicas, tem raízes explicitamente ligadas a essa descrição bíblica de origem religiosa mista. É importante notar, porém, que a arqueologia e a historiografia moderna complicam a leitura simplista de que os samaritanos do período do Novo Testamento eram descendentes diretos e exclusivos desses colonos estrangeiros; grupos de israelitas remanescentes provavelmente permaneceram na região e se misturaram com os novos moradores, o que torna a questão das origens samaritanas mais complexa do que uma leitura superficial do capítulo 17 sugere isoladamente. Teologicamente, o texto serve ao propósito mais amplo do Deuteronomista de explicar por que o reino do Norte caiu e por que sua religião remanescente era considerada impura pelo Judá pós-exílico: o sincretismo descrito aqui não é apenas um dado histórico neutro, mas parte da justificativa teológica para a rejeição judaíta posterior do culto samaritano, tensão que culminaria em episódios visíveis já no tempo de Jesus, como na conversa com a mulher samaritana em . Essa complexidade nas origens samaritanas ajuda ainda a entender por que a rejeição judaíta ao culto samaritano, embora teologicamente motivada, também carregava elementos de disputa étnica e política que ultrapassam a pura análise religiosa do capítulo 17.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:Os samaritanos do tempo de Jesus eram descendentes puros e exclusivos dos colonos pagãos trazidos pela Assíria em 2 Reis 17.
Historiadores e arqueólogos apontam que israelitas remanescentes continuaram habitando a região e provavelmente se misturaram com os novos colonos; a origem samaritana é mais complexa do que uma leitura direta e exclusiva do capítulo 17 sugere.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura deuteronomista/judaíta tradicional
Usa o sincretismo descrito aqui para justificar teologicamente a rejeição posterior do culto samaritano como ilegítimo e misturado.
Historiografia moderna (Gary Knoppers)
Argumenta que as origens samaritanas são etnicamente e religiosamente mais complexas do que o relato de sugere isoladamente, envolvendo continuidade israelita local além dos colonos estrangeiros.
No original1 termo
יָרֵאyare
temer ou reverenciar; o mesmo verbo usado para devoção genuína a Deus em outros textos, aqui aplicado a uma reverência que coexiste com o culto a outros deuses
O que fazer com isso
O texto expõe como é possível reverenciar a Deus em teoria enquanto se mantém, na prática, lealdades divididas, um risco que não terminou com os colonos assírios. A pergunta que o capítulo deixa em aberto é pessoal: que deuses de origem, ambições, medos herdados, lealdades antigas, continuam sendo servidos paralelamente a uma fé professada, sem que isso pareça contradição na hora, exatamente como não parecia contradição para os moradores de Samaria.
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Fontes consultadas2 obras
- Marvin A. Sweeney. I & II Kings (Old Testament Library), 2007.
- Gary N. Knoppers. Jews and Samaritans: The Origins and History of Their Early Relations, 2013.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Essa passagem é a origem dos samaritanos do Novo Testamento?
É parte da origem contada pela tradição judaíta, mas historiadores modernos consideram a questão mais complexa, com continuidade de população israelita local somada aos colonos estrangeiros trazidos pela Assíria.
É possível temer ao Senhor e servir outros deuses ao mesmo tempo, segundo o texto?
O texto descreve exatamente isso acontecendo na prática, mas não o aprova; ele registra o fato como parte da explicação de por que o culto remanescente em Samaria era considerado impuro e inaceitável pela teologia deuteronomista.