
Leões atacam os novos moradores de Samaria até um sacerdote ser enviado de volta
Por que a Assíria enviou um sacerdote israelita de volta a Samaria?
E trouxe o rei da Assíria gente de Babilônia, e de Cuta, e de Hava, e de Hamate, e de Sefarvaim, e os pôs nas cidades de Samaria, em lugar dos filhos de Israel; e possuíram a Samaria, e habitaram em suas cidades. E aconteceu ao princípio, quando começaram a habitar ali, que não temendo eles ao SENHOR, enviou o SENHOR contra eles leões que os matavam. Então disseram eles ao rei da Assíria: As nações que tu transportaste e puseste nas cidades de Samaria, não sabem a costume do Deus daquela terra, e ele lançou leões neles, e eis que os matam, porque não sabem a costume do Deus da terra. E o rei da Assíria mandou, dizendo: Levai ali a algum dos sacerdotes que trouxestes dali, e vão e habitem ali, e ensinem-lhes o costume do Deus daquela terra. E veio um dos sacerdotes que haviam transportado de Samaria, e habitou em Betel, e ensinou-lhes como haviam de temer ao SENHOR.
Resposta curta
Em , depois que a Assíria deporta a população israelita de Samaria e traz colonos de outras regiões conquistadas para repovoar a terra, leões passam a atacar e matar esses novos moradores. Eles interpretam os ataques como punição do 'deus da terra' que não conhecem, e informam o rei assírio, que então ordena o retorno de um dos sacerdotes israelitas exilados para ensinar aos colonos como adorar Yahweh.
A solução assíria — reimportar exatamente o tipo de culto que havia sido removido — é um episódio estranho e pouco comentado que está na origem direta do que mais tarde se tornaria o povo samaritano: uma mistura de populações estrangeiras com um culto a Yahweh ensinado de forma incompleta, misturado às próprias tradições religiosas que os colonos trouxeram de origem.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoEsse sincretismo religioso samaritano é exatamente o pano de fundo histórico da tensão entre judeus e samaritanos que aparece nos evangelhos. Quando Jesus conversa com a mulher samaritana em e com o samaritano bondoso em , ele atravessa deliberadamente uma divisão religiosa que remonta a este episódio de repovoamento assírio, oferecendo inclusão onde havia séculos de desprezo mútuo.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Depois que a Assíria conquistou Israel e levou seu povo para o exílio, trouxe outras populações de diferentes regiões do império para morar nas mesmas terras. Esses novos moradores começaram a ser atacados por leões e concluíram que era porque não sabiam como adorar o deus daquela terra. O rei assírio então mandou trazer de volta um sacerdote israelita para ensinar essas pessoas sobre Yahweh. O resultado foi uma religião misturada: eles passaram a respeitar Yahweh, mas continuaram adorando seus próprios deuses também — o começo do que depois seria o povo samaritano.
Contexto histórico
O capítulo 17 de 2 Reis narra a queda definitiva do reino do Norte, Israel, conquistado pela Assíria sob Sargão II em 722 a.C. depois de um cerco prolongado a Samaria, sua capital. O autor de Reis oferece, nos versículos anteriores (17:7-23), uma longa reflexão teológica sobre as causas dessa queda: décadas de idolatria persistente, rejeição dos profetas enviados por Yahweh e imitação das práticas religiosas das nações vizinhas, culminando no exílio de grande parte da população para diferentes regiões do império assírio — uma política deliberada de deportação em massa que a Assíria usava para quebrar identidades nacionais conquistadas e prevenir revoltas futuras.
Em seu lugar, o rei assírio traz colonos de Babilônia, Cuta, Ava, Hamate e Sefarvaim (), regiões variadas do império, cada uma trazendo suas próprias práticas religiosas para a nova terra. O texto relata que esses colonos, ao serem atacados por leões — um problema real e documentado em outras fontes do antigo Oriente Próximo sobre terras temporariamente despovoadas ou mal administradas agricolamente — concluem que a causa é religiosa: não conhecem 'o costume do deus da terra' (), refletindo uma visão comum na antiguidade de que cada território tinha uma divindade territorial cujo favor era necessário para a segurança local, independente da identidade étnica de quem morava ali. A resposta do rei assírio é pragmática, não uma conversão religiosa genuína: ele ordena que um dos sacerdotes israelitas deportados seja devolvido para instruir os colonos nos costumes de Yahweh, resultando numa prática religiosa híbrida — os colonos passam a temer Yahweh mas continuam servindo seus próprios deuses (), um sincretismo que o autor de Reis descreve sem aprovação, estabelecendo as bases religiosas do que os judeus posteriores chamariam de samaritanos. O texto de Reis descreve esse arranjo com tom claramente reprovador, listando detalhadamente os deuses estrangeiros que cada grupo de colonos continuou servindo mesmo depois da instrução religiosa recebida, o que deixa claro que não se tratou de uma conversão genuína a Yahweh, mas de uma acomodação religiosa parcial e pragmática.
Aprofundamento
A expressão hebraica mishpat elohei ha'arets (מִשְׁפַּט אֱלֹהֵי הָאָרֶץ), 'o costume/direito do deus da terra' (), reflete uma cosmologia religiosa comum no antigo Oriente Próximo em que divindades territoriais exigiam ritos específicos independentemente de quem habitasse a terra — um pressuposto que os próprios colonos assírios compartilhavam e que levou à solução pragmática de reimportar um especialista religioso local, em vez de simplesmente abandonar a terra. Mordechai Cogan e Hayim Tadmor, na Anchor Bible, observam que esse episódio é um raro relato bíblico que documenta, de dentro da própria narrativa israelita, como funcionava a política assíria de repovoamento e gestão religiosa de territórios conquistados, corroborada por registros extrabíblicos assírios sobre deportações em massa sob Sargão II.
T.R. Hobbs chama atenção para a ironia teológica do relato: o mesmo Yahweh cujo culto fora abandonado pelos israelitas nativos, levando ao exílio como juízo, agora precisa ser reensinado a estrangeiros que nem sequer o buscam por devoção genuína, mas por medo prático de leões — um contraste que sublinha, sem comentário direto do narrador, a superficialidade da religiosidade tanto dos antigos moradores quanto dos novos. O verbo usado para o culto resultante, em , yare ('temer' ou 'reverenciar'), é o mesmo usado normalmente para descrever devoção genuína a Yahweh em outras partes do Antigo Testamento, mas aqui aparece emparelhado com a continuidade do culto a outros deuses, criando uma tensão linguística deliberada que Iain Provan lê como o retrato bíblico mais antigo do que se tornaria, séculos depois, a identidade religiosa samaritana — uma mistura que os judeus do Sul, especialmente após o exílio babilônico, passariam a considerar ilegítima e impura, base do conflito histórico entre judeus e samaritanos que persiste até o Novo Testamento. Referências cruzadas incluem (a reflexão teológica sobre a queda de Israel), e , que documentam a hostilidade posterior entre judeus retornados do exílio e habitantes da região samaritana, e , onde Jesus e a mulher samaritana discutem essa mesma divisão histórica, remontando precisamente a este episódio de repovoamento assírio. Vale notar também que o culto híbrido resultante desse repovoamento evoluiria, muitos séculos depois, para o Pentateuco Samaritano e o templo rival no Monte Gerizim, instituições religiosas que os samaritanos mantêm até hoje como herança direta desse momento fundacional narrado em , ainda que os próprios samaritanos, historicamente, tenham defendido uma origem mais contínua e menos misturada do que o relato bíblico sugere.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:Os samaritanos do tempo de Jesus eram descendentes puros dos dez leões... quer dizer, das dez tribos de Israel, sem mistura estrangeira.
Segundo , a população samaritana descende de uma mistura entre remanescentes israelitas e colonos estrangeiros trazidos pela Assíria de várias regiões do império, com um culto híbrido a Yahweh e a outros deuses — não uma linhagem israelita pura.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
tradição judaica rabínica
Textos rabínicos posteriores usam esse episódio para justificar a desconfiança histórica em relação aos samaritanos, chamando-os às vezes de 'cutim' (referência a Cuta, uma das regiões de origem dos colonos), questionando a legitimidade religiosa deles.
tradição reformada
Lê o episódio como pano de fundo necessário para entender a inclusão radical de samaritanos no ministério de Jesus, contrastando a graça do evangelho com séculos de exclusão religiosa mútua.
No original2 termos
מִשְׁפַּטmishpat4941
'Costume', 'direito' ou 'ordenança' — usado na expressão 'o costume do deus da terra', refletindo a crença de que cada território exigia ritos religiosos específicos para garantir segurança e prosperidade.
יָרֵאyare3372
'Temer' ou 'reverenciar' — verbo usado para descrever a atitude dos colonos para com Yahweh, mas aplicado aqui a um culto superficial e misturado com outras divindades, não devoção exclusiva genuína.
O que fazer com isso
O episódio expõe como religiosidade motivada apenas por medo prático ou tradição herdada, sem transformação genuína de lealdade, produz um sincretismo confuso que nem satisfaz plenamente nenhuma das tradições misturadas. Vale perguntar se a própria fé de alguém hoje nasce de encontro real com Deus, ou apenas de um acordo pragmático com práticas herdadas do ambiente em que se cresceu.
Passagens relacionadas4
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Fontes consultadas3 obras
- Mordechai Cogan e Hayim Tadmor. II Kings (Anchor Bible), 1988.
- T.R. Hobbs. 2 Kings (Word Biblical Commentary), 1985.
- Iain Provan. 1 and 2 Kings (New International Biblical Commentary), 1995.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Os samaritanos do Novo Testamento vêm diretamente desse episódio?
Sim, a maioria dos historiadores liga a origem religiosa e étnica mista dos samaritanos a esse repovoamento assírio de Samaria narrado em , embora o grupo tenha se desenvolvido de forma mais específica nos séculos seguintes.
Por que leões atacavam os novos moradores?
O texto não dá uma causa naturalista explícita, mas terras temporariamente pouco povoadas ou mal administradas agricolamente eram, historicamente, mais vulneráveis a animais selvagens; os próprios colonos interpretaram o fato como sinal religioso, não como fenômeno agrícola.