A viúva de Sarepta
Quem foi a viúva de Sarepta que hospedou o profeta Elias?
Ficha do personagem
Reinado de Acabe, c. séc. IX a.C.; Sarepta, Fenícia
Resposta curta
A viúva de Sarepta é uma mulher sem nome, estrangeira, que vivia na região de Sidom, terra de onde veio a rainha Jezabel. Durante a grande seca anunciada por Elias, Deus manda o profeta até ela. Encontra-a catando gravetos junto ao portão, com apenas um punhado de farinha e um pouco de azeite, preparando a última refeição para ela e o filho. Elias lhe pede primeiro um pequeno bolo, e a promessa é que a farinha e o azeite não acabarão até que volte a chuva. Ela obedece, e a provisão se mantém. Mais tarde, quando o filho adoece e morre, Elias ora e o menino volta à vida. Jesus a cita na sinagoga de Nazaré como exemplo da atenção de Deus a quem estava fora de Israel.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteO próprio Jesus relaciona essa mulher à sua missão. Em , ao ser rejeitado na sinagoga de Nazaré, ele cita a viúva de Sarepta, ao lado de Naamã, o sírio, como exemplo de que Deus age em favor de gente de fora do povo da aliança, enquanto os próximos ao profeta não o recebem. O contraste é com os conterrâneos de Jesus: uma estrangeira recebe o profeta, e os de casa o recusam. O Novo Testamento não faz da viúva uma figura simbólica de Cristo, mas usa o seu caso para justificar o alcance universal do evangelho ().
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
A viúva de Sarepta era uma mulher estrangeira, pobre, que vivia numa cidade da região de Sidom. Na seca, o profeta Elias foi até ela e pediu comida. Ela tinha só um pouco de farinha e azeite e achava que ia morrer com o filho. Mesmo assim, obedeceu, e a farinha e o azeite não acabaram. Depois o filho dela morreu, e Elias orou, e o menino voltou a viver. Jesus lembrou dessa mulher para mostrar que Deus cuida também de pessoas que não eram do povo de Israel.
O mundo dele
A história se passa no reinado de Acabe, rei de Israel no século IX a.C., casado com Jezabel, filha de Etbaal, rei dos sidônios (). Acabe e Jezabel promoveram o culto a Baal, e Elias anunciou, em nome do Senhor, que não haveria orvalho nem chuva senão pela sua palavra (17:1). Depois de ficar escondido junto ao ribeiro de Querite, onde corvos o alimentavam, o ribeiro secou, e Deus mandou Elias para Sarepta (Zarefate no hebraico), cidade da região de Sidom, na costa da Fenícia.
O detalhe geográfico importa. Sidom era a terra de Jezabel e da religião de Baal que Elias enfrentava. Em vez de procurar abrigo em Israel, Elias é enviado ao território do culto que ameaçava seu povo, e é ali que encontra quem o sustente. Além disso, a cena trata de uma viúva, figura que na Bíblia representa quem não tem proteção econômica nem social, e que a lei de Israel manda cuidar (). O texto não diz que ela fosse adoradora do Senhor: ela fala do “Senhor, teu Deus” ao jurar, o que sugere que ainda via nele o Deus de Elias, e não o seu.
A seca atingia toda a região, e a fome era grave. e falam de três anos e seis meses de duração, um número que não registra. O nome da mulher não é dado, nem o do filho. A tradição rabínica tardia identificou o menino com o futuro profeta Jonas, mas o texto bíblico não sustenta isso. Quanto à data, o relato é geralmente situado por volta do meio do século IX a.C., e os detalhes sobre quanto tempo a mulher e Elias conviveram não aparecem no texto. O livro de 1 Reis não explica como ela chegou à viuvez nem de onde vinha a família, e esses silêncios fazem parte da narrativa: o foco está na palavra de Deus e na reação de quem a escuta.
A história
Em , Elias chega ao portão da cidade e encontra uma mulher juntando lenha. Ele pede um pouco de água e, quando ela vai buscar, pede também um pedaço de pão. A mulher responde com um juramento: só lhe sobra um punhado de farinha e um pouco de azeite, e ela está colhendo dois gravetos para preparar a última refeição, depois da qual ela e o filho morrerão. Elias diz: “Não temas”, e pede que faça primeiro um bolo pequeno para ele. A promessa é que a farinha da panela não se acabaria e o azeite da botija não faltaria até o dia em que o Senhor desse chuva. Ela fez conforme a palavra de Elias, e a provisão durou muitos dias.
O sentido do milagre está ligado ao confronto com Baal. Baal era tido na religião cananeia como o deus da chuva e da fertilidade. Que uma estrangeira sobreviva à seca, por palavra do Senhor, precisamente numa terra dedicada a Baal, é uma afirmação sobre quem de fato sustenta a vida. O pedido de Elias, que parece cruel porque pede o pouco que resta, funciona como teste de confiança: ela é chamada a arriscar o seu último recurso.
A segunda cena (17:17-24) é mais dura. O filho adoece e morre, e a mulher se volta contra Elias, perguntando se ele veio “trazer à memória” a sua iniquidade e matar seu filho. A reação mostra a ideia comum no mundo antigo de que a doença era ligada ao pecado, e que a presença de um homem santo podia expor culpas escondidas. Elias leva o menino para o quarto de cima, clama ao Senhor em termos de reclamação, e se estende três vezes sobre o corpo. O texto diz que o Senhor ouviu e a vida voltou ao menino. A mulher então diz que agora sabe que Elias é homem de Deus e que a palavra do Senhor em sua boca é verdade.
Em , Jesus, rejeitado em Nazaré, lembra que havia muitas viúvas em Israel nos dias de Elias, e que a nenhuma delas Elias foi enviado, mas à viúva de Sarepta, em Sidom. Lucas usa o exemplo para mostrar que a graça de Deus ultrapassa as fronteiras de Israel, o que irritou os ouvintes. A leitura de Lucas respeita a lógica do Antigo Testamento, em que Deus age além das fronteiras de Israel sem abandonar a aliança com ele. Os dois exemplos de Jesus, a viúva de Sarepta e Naamã, o sírio, mostram duas pessoas de fora, uma pobre e uma poderosa, e ambas são alcançadas pela mesma graça, o que ajuda a entender por que a pregação em Nazaré gerou tanta resistência.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:A viúva de Sarepta se chamava Zarefate.
Zarefate é o nome da cidade em hebraico, e Sarepta é a forma usada em e em muitas traduções portuguesas. A mulher não tem nome no texto bíblico.
Dizem que:O milagre da farinha e do azeite encheu a casa dela de provisão para sempre.
A promessa de vale “até o dia em que o Senhor fizer chover”. Trata-se de uma provisão diária durante a seca, e não de riqueza duradoura. A mesma casa passa, em seguida, pela morte do filho.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
Parte da tradição rabínica, como no Midrash, identifica o filho da viúva com o profeta Jonas e vê o episódio como sinal do poder de Deus sobre a vida e a morte. Outras leituras destacam que Elias foi enviado a uma estrangeira justamente quando Israel era infiel.
Católica e patrística
Alguns Padres da Igreja viram na viúva gentia uma figura da Igreja vinda das nações, e nos dois gravetos que ela juntava uma imagem da cruz. Essas leituras alegóricas são espirituais e não são exigidas pelo texto; a tradição católica as distingue do sentido literal, que trata o relato como milagre real.
Protestante
Os comentaristas protestantes costumam destacar a confiança na palavra de Deus e a graça de Deus em favor de uma estrangeira pobre. Muitos lembram que a presença de Elias não poupou a casa dela da dor, e que o texto mostra um Deus que ouve tanto a obediência quando a reclamação.
O que fazer com isso
A viúva de Sarepta é lembrada por agir quando tinha pouco e nenhuma garantia. O relato não trata a obediência dela como fórmula para se obter provisão, e a mesma narrativa mostra o luto e a dor dela diante da morte do filho. O que fica é a atenção de Deus a uma pessoa sem nome e sem prestígio, e a possibilidade de a fé aparecer em quem ninguém esperava.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Mordechai Cogan. 1 Kings (Anchor Bible), 2000.
- Simon J. DeVries. 1 Kings (Word Biblical Commentary), 1985.
- Iain W. Provan. 1 and 2 Kings (New International Biblical Commentary), 1995.
- Joel B. Green. The Gospel of Luke (NICNT), 1997.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Qual era o nome da viúva de Sarepta?
A Bíblia não registra. Ela aparece apenas como viúva de Sarepta, e o filho também não tem nome. A tradição posterior propôs que o menino fosse Jonas, mas o texto bíblico não diz isso.
Onde ficava Sarepta?
Ficava na costa da Fenícia, entre Tiro e Sidom, em território que pertencia à esfera de Sidom. Por isso a viúva era estrangeira e vivia na terra de Jezabel.
Por que Elias pediu primeiro o bolo para ele?
O texto não explica em detalhe. A leitura mais comum é que o pedido funciona como teste de confiança na promessa de Deus: ela devia dar o primeiro lugar à palavra do profeta antes de ver o resultado.
Por que Jesus citou essa viúva em Nazaré?
Para mostrar que, no tempo de Elias, Deus enviou o profeta a uma estrangeira e não a uma das muitas viúvas de Israel. Em Lucas, isso antecipa a abertura do evangelho aos gentios e explica a reação irada dos ouvintes.