A sunamita
Quem foi a mulher sunamita que hospedou o profeta Eliseu?
Ficha do personagem
Séc. IX a.C.; Suném, vale de Jezreel
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Resposta curta
A sunamita é uma mulher rica de Suném, no vale de Jezreel, que o texto não nomeia. Ao ver o profeta Eliseu passar com frequência, insiste que ele coma em sua casa e convence o marido a construir um pequeno quarto no terraço para ele. Em retribuição, Eliseu lhe anuncia que terá um filho, apesar da idade avançada do marido. O menino cresce, mas morre de repente, e a mulher vai sem demora ao encontro do profeta, que o traz de volta à vida. Anos depois, ao voltar de uma ausência de sete anos causada pela fome, ela apela ao rei para recuperar sua casa e seu campo, e a presença de Geazi, que naquele momento relata ao rei os feitos de Eliseu, favorece sua causa. Não se confunde com Abisague, a sunamita de .
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO Novo Testamento alude a essa história de forma breve. diz que “mulheres receberam seus mortos por ressurreição”, expressão que se aplica tanto à viúva de Sarepta quanto à sunamita. Em , Jesus ressuscita o filho único de uma viúva de Naim, em cena que lembra os relatos de Elias e Eliseu, e a multidão reconhece nele um grande profeta. O NT não chama a sunamita de figura de Cristo, mas apresenta Jesus como alguém que, diferentemente dos profetas, devolve a vida com uma palavra, sem se estender sobre o corpo ou pedir socorro a outro.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
A sunamita era uma mulher rica da cidade de Suném. Ela percebeu que o profeta Eliseu era um homem de Deus, deu-lhe comida e mandou fazer um pequeno quarto em sua casa para ele descansar quando passasse por lá. Como agradecimento, Eliseu disse que ela teria um filho, o que se cumpriu. Quando o menino morreu, ela foi atrás do profeta, e ele o trouxe de volta à vida. Depois, uma fome a obrigou a deixar a terra, e o rei devolveu tudo o que era dela. A Bíblia não diz o nome dela.
O mundo dele
A história se passa no século IX a.C., durante o ministério de Eliseu, sucessor de Elias, em Israel. Suném ficava na tribo de Issacar, no vale de Jezreel, na rota que Eliseu fazia entre Samaria e o monte Carmelo. Os textos de e 8 não indicam o nome do rei envolvido nessa época, e a datação exata é discutida, embora a maior parte dos comentaristas situe os fatos no reinado de Jorão ou em seu entorno.
O texto descreve a mulher como “importante” (em hebraico, gedolah, literalmente “grande”), termo que sugere posição social e recursos, e não apenas riqueza. Seu marido aparece como figura secundária, bem mais velho, e é ela quem reconhece em Eliseu um “santo homem de Deus” e toma a iniciativa de hospedá-lo. No mundo antigo, a hospitalidade a um viajante era dever sagrado, e o texto liga a mulher à tradição de Abraão e Sara, que também receberam visitantes e ouviram a promessa de um filho (). Judeus e cristãos notam esse paralelo desde a Antiguidade.
Outro ponto de contexto é o motivo da infertilidade. Num ambiente em que o filho garantia o nome da família e o sustento na velhice, a falta de herdeiros era uma fragilidade grave. Uma mulher rica, mas sem filho e com marido idoso, estava duplamente exposta. Isso ajuda a entender por que ela reage com tanta intensidade quando a promessa se cumpre e depois se rompe.
É importante não confundir essa mulher com Abisague, a sunamita que cuidou do rei Davi em seus últimos dias (). As duas são da mesma cidade, mas são pessoas diferentes, de épocas diferentes, e nenhuma delas tem relação de parentesco com a outra no texto. Essa distinção evita confusões frequentes em materiais devocionais, que misturam as duas ao falar de “a sunamita” sem explicar de qual das duas se trata.
A história
Em , a mulher faz mais do que oferecer comida. Ela observa que Eliseu é um santo homem de Deus e propõe um quarto no terraço, com cama, mesa, cadeira e candeeiro: um espaço fixo, em vez de uma hospitalidade esporádica. Eliseu quer retribuir e pergunta o que pode fazer por ela, se falar ao rei ou ao chefe do exército. Ela responde que vive “no meio do seu povo”, ou seja, que não precisa de intermediário. É Geazi, o servo do profeta, quem nota o que falta: um filho. Eliseu anuncia que, naquele tempo do ano seguinte, ela abraçaria um filho, e ela pede que o profeta não a engane.
Quando o menino morre (4:18-37), a reação da mulher é cheia de contenção. Ela o deita na cama do profeta, fecha a porta e, ao marido, que pergunta por que vai ver o homem de Deus, diz apenas: “Tudo bem” (em hebraico, shalom). Depois, diante de Geazi, que pergunta se está tudo bem com ela, o marido e o menino, repete a mesma palavra. Só quando chega ao profeta e se agarra a seus pés, a dor aparece, com uma pergunta que soa como queixa: ela havia pedido um filho? Eliseu manda Geazi com o cajado, mas o gesto não funciona. O próprio Eliseu entra no quarto, ora, estende-se sobre o menino, boca com boca, olhos com olhos, mãos com mãos, e o menino espirra sete vezes e abre os olhos.
A cena de é um epílogo. Eliseu avisa que virá uma fome de sete anos, e ela vai viver na terra dos filisteus. Ao voltar, apela ao rei para recuperar casa e campo. Naquele exato momento, Geazi conta ao rei os feitos de Eliseu, justamente a ressurreição do menino, e ela chega. O rei manda restituir tudo, inclusive o rendimento dos campos de todo o tempo em que esteve fora. O trecho tem um problema de cronologia: Geazi aparece como interlocutor do rei depois de ter sido ferido com a lepra em . Esse detalhe lembra que os capítulos de 2 Reis nem sempre seguem a ordem dos acontecimentos, e que as histórias de Eliseu foram reunidas por temas. Alguns estudiosos propõem que antecede cronologicamente o capítulo 5; outros, que ele ainda tinha acesso à corte, mas o texto não resolve o ponto. Para o leitor, o essencial é a coerência do conjunto: a mulher que cuidou do profeta com generosidade é cuidada, por sua vez, pelo Deus que ele serve, até nas questões legais e econômicas.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:A sunamita é a mesma mulher que cuidou do rei Davi.
A moça que aqueceu Davi velho se chamava Abisague e também era de Suném (), mas viveu cerca de um século antes. A mulher de e 8 é outra pessoa, sem nome registrado.
Dizem que:Eliseu ressuscitou o menino com o cajado enviado por Geazi.
O cajado enviado por Geazi não teve efeito (). Só quando Eliseu entrou no quarto, orou e se estendeu sobre o menino é que ele voltou à vida.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
A passagem é lida na sinagoga como haftará da porção semanal Vayera, que traz as visitas a Abraão e o anúncio do nascimento de Isaque. O Talmude (Berakhot 10b) usa a frase da mulher sobre o “santo homem de Deus” para discutir o valor de hospedar um sábio. A leitura liga a sunamita às matriarcas e à tradição de hospitalidade.
Católica
A tradição católica, apoiada em leituras patrísticas, vê no relato um exemplo de hospitalidade que acolhe o profeta e recebe o dom da vida, e lê o gesto de Eliseu como prefiguração, em sentido espiritual, da ressurreição. A leitura é espiritual, não literal, e deve ser distinguida do sentido histórico do texto.
Protestante
Os comentaristas protestantes destacam a fé da mulher, que não aceita que a morte do filho seja a palavra final, e a providência de Deus no epílogo, quando a terra é devolvida. Muitos lembram que o texto não apresenta fórmula, mas um caso de fé sob prova.
O que fazer com isso
A sunamita mostra uma hospitalidade que não espera retorno: ela oferece o que tem, não pede nada, e só se manifesta com firmeza quando tudo está em jogo. A narrativa não promete que um gesto generoso evite a dor, pois o filho que ela recebeu morre. O que o texto destaca é uma fé que continua buscando a Deus mesmo na perda, e que encontra reparação também em questões práticas como a casa e a terra.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Mordechai Cogan e Hayim Tadmor. II Kings (Anchor Bible), 1988.
- T. R. Hobbs. 2 Kings (Word Biblical Commentary), 1985.
- Iain W. Provan. 1 and 2 Kings (New International Biblical Commentary), 1995.
- Walter Brueggemann. 1 & 2 Kings (Smyth & Helwys Bible Commentary), 2000.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Qual era o nome da sunamita?
O texto bíblico não registra. Ela é chamada apenas de “a sunamita” ou “uma mulher importante de Suném”, assim como o marido e o filho. Não há como saber o nome pelo texto.
Por que ela respondeu “Tudo bem” se o filho estava morto?
A resposta usa a palavra hebraica shalom. A leitura mais comum é que ela evitou dar a notícia a quem não podia ajudar e guardou a dor para o profeta. O texto não explica, e os comentaristas variam entre fé, contenção e urgência.
Qual o papel de Geazi nessa história?
Geazi, servo de Eliseu, percebe que a mulher não tem filho, tenta ajudar o menino com o cajado sem sucesso e, em , narra ao rei a ressurreição no momento em que a mulher chega. O texto o mostra útil, mas limitado.
O que aconteceu com a casa e o campo dela?
Segundo , ela deixou a terra por sete anos por causa da fome. Ao voltar, o rei mandou devolver sua casa e todo o rendimento dos campos de quando esteve fora.