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Significado Bíblico
Matriarcaintermediária

Raabe

Quem foi Raabe na Bíblia e por que ela é citada como exemplo de fé?

Ficha do personagem

conquista de Canaã, séc. XIII a.C.

Relações

  • marido Salmom
  • filho Boaz
  • nora Rute
  • descendente Davi

Resposta curta

Raabe foi uma mulher de Jericó chamada no hebraico de de zonah, termo que léxicos como BDB e HALOT traduzem por prostituta. Quando dois espias enviados por Josué chegam à cidade, ela os esconde e mente aos soldados do rei sobre o paradeiro deles, negociando que sua família seja poupada quando Jericó cair. A cidade é destruída, mas Raabe e os seus saem com vida e passam a viver entre o povo de Israel.

A narrativa não termina em Josué. a inclui na genealogia de Jesus, como esposa de Salmom e bisavó de Davi. a cita como exemplo de fé, e , de obras — dois textos que usam a mesma mulher para argumentos teológicos diferentes sobre como a fé se demonstra.

Onde ele aparece

O nome

Raabeampla, larga (do hebraico רָחָב, Rachav, da raiz rachab, "ser largo, espaçoso")

Significado, origem e variantes →

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

Raabe entra na genealogia de Jesus registrada em , como bisavó de Davi, ao lado de Tamar e Rute — mulheres cuja presença na linhagem messiânica rompe o padrão esperado de uma lista de ancestrais reais. O evangelho não comenta essa escolha nem oferece leitura alegórica sobre ela; o dado relevante é estrutural: a linhagem que Mateus traça até Jesus passa, de fato, por uma mulher cananeia identificada no Antigo Testamento como zonah. Isso é consistente com a forma como o Novo Testamento volta a tratar Raabe — sempre como exemplo positivo (fé em , obras em ) — nunca como nota constrangedora a ser silenciada.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Raabe morava em Jericó e, segundo o relato bíblico, era prostituta. Quando dois espias israelitas chegam à cidade antes do ataque de Josué, ela os esconde e ajuda a fugir, pedindo em troca que sua família seja poupada quando a cidade cair. A cidade é destruída, mas Raabe e os seus escapam com vida. Anos depois, ela aparece na lista de antepassados de Jesus, em Mateus, e é citada duas vezes no Novo Testamento como exemplo de fé e de boas ações — uma trajetória incomum para alguém que começou à margem da sociedade de seu tempo.

O mundo dele

A história de Raabe se passa no início da conquista de Canaã pelos israelitas, tradicionalmente situada no século XIII a.C., logo após a travessia do deserto sob a liderança de Josué. Jericó era uma cidade fortificada perto do rio Jordão, a primeira que os israelitas precisariam enfrentar ao entrar na terra prometida. Antes do ataque, Josué envia dois homens em missão secreta de reconhecimento; eles se hospedam na casa de Raabe, construída sobre a muralha da cidade (), o que lhe permite descer os espias por uma corda pela janela quando os soldados do rei vêm procurá-los. O texto hebraico chama Raabe de zonah, palavra cujo sentido primário nos léxicos padrão (BDB, HALOT, Strong's) é prostituta; algumas traduções antigas e comentaristas posteriores propuseram estalajadeira, possivelmente para suavizar a caracterização moral, mas essa leitura tem respaldo lexical mais fraco. Como sinal do acordo com os espias, Raabe amarra um cordão escarlate na janela — a marca que identificaria sua casa e pouparia quem estivesse dentro dela quando Jericó caísse (). O relato da queda da cidade, em , confirma o cumprimento do acordo: Raabe e sua família são retirados antes da destruição e passam a viver junto ao povo de Israel. O texto observa que ela permaneceu "até hoje" entre os israelitas (), indicando que sua integração não foi passageira. Essa origem cananeia e a ocupação atribuída a ela tornam sua história notável dentro do conjunto de narrativas da conquista, que em geral tratam os habitantes de Canaã como inimigos a serem eliminados sob o herem, o voto de destruição total. Raabe é uma das exceções expressas a essa regra, preservada por causa da aliança que fez com os espias e, segundo o texto, por reconhecer o poder do Deus de Israel antes mesmo do ataque ().

A história

O que torna Raabe difícil de enquadrar é a dupla citação que recebe no Novo Testamento, cada uma servindo a um argumento diferente. Em , ela entra na lista de heróis da fé: "pela fé, Raabe, a prostituta, não pereceu com os desobedientes, porque acolheu em paz os espias." Em , a mesma mulher é citada para o argumento oposto na aparência: "não foi também Raabe, a prostituta, justificada pelas obras, quando acolheu os mensageiros e os fez sair por outro caminho?" Hebreus fala de fé, Tiago fala de obras, e ambos usam Raabe como prova. Comentaristas como Matthew Henry e, mais recentemente, F. F. Bruce em seu comentário sobre Hebreus, notam que os dois textos não se contradizem: a fé de Raabe não ficou apenas na convicção interior de que o Deus de Israel agiria (), ela se traduziu em risco concreto — esconder os espias, mentir aos soldados do próprio rei, arriscar a própria vida e a da família. Fé e obra aparecem como duas descrições da mesma ação, vistas de ângulos diferentes. O texto bíblico não esconde os elementos problemáticos dessa história. Raabe é identificada como zonah, e nada no relato de Josué nega essa caracterização ostensivamente moral. Ela também mente de forma direta aos soldados do rei sobre o paradeiro dos espias () — a narrativa relata a mentira sem comentário explícito de aprovação ou condenação, e os autores do Novo Testamento, ao elogiá-la, destacam a coragem e a hospitalidade demonstradas, não a mentira em si. É essa mesma mulher, de origem cananeia e reputação moral discutível segundo os padrões do próprio texto, que aparece na genealogia messiânica de , ao lado de Tamar (1:3) e Rute (1:5) — outras mulheres cuja entrada na linhagem de Davi envolveu circunstâncias fora do padrão esperado para uma genealogia real. Mateus não escreve uma nota explicando por que as incluiu; o padrão, porém, é visível: a linhagem que desemboca em Jesus não é composta apenas por figuras de reputação impecável, nem por famílias de origem exclusivamente israelita — Raabe era cananeia, e Rute, moabita. Keil e Delitzsch, em seu comentário sobre Josué, também observam que o texto hebraico não amacia a identidade de Raabe como zonah em nenhum momento da narrativa, o que reforça que sua inclusão posterior na genealogia messiânica não depende de uma reabilitação retroativa de sua biografia anterior à chegada dos espias. Vale notar que o hebraico רָחָב (Raabe, de raiz que sugere amplidão) não tem relação com רַהַב (Raab), nome usado em Jó e nos Salmos para um monstro marinho mitológico associado ao caos e, por vezes, ao Egito — são palavras hebraicas distintas, frequentemente confundidas por semelhança sonora em português.

O que costumam dizer errado3
  • Dizem que:A palavra hebraica zonah usada em Josué 2 significa apenas 'estalajadeira', nunca 'prostituta'.

    Léxicos padrão do hebraico bíblico, como BDB e HALOT, e o Strong's Concordance registram 'prostituta' como sentido primário e mais bem atestado de zonah. A leitura 'estalajadeira' aparece em fontes antigas posteriores (como o Targum e o historiador Josefo) e em parte da tradição interpretativa, mas tem respaldo lexical mais fraco que a tradução direta.

  • Dizem que:Raabe, citada em Josué, é a mesma Raabe (ou 'Raab') mencionada como monstro em Jó e nos Salmos.

    São palavras hebraicas diferentes apesar da semelhança em português: o nome da mulher é רָחָב (Rachav), enquanto o termo usado para o monstro marinho mitológico em :12 e é רַהַב (Rahab), às vezes também aplicado como epíteto poético para o Egito.

  • Dizem que:Raabe se tornou esposa de Josué depois da conquista de Jericó.

    O texto bíblico não registra nenhum casamento entre Raabe e Josué. Segundo , ela se casou com Salmom e foi mãe de Boaz, que mais tarde se casaria com Rute.

Como diferentes tradições cristãs leem4

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica

    Destaca a virtude teologal da fé demonstrada em obras concretas de hospitalidade e coragem; Padres da Igreja antigos, como Clemente de Roma, já viam no cordão escarlate de Raabe uma prefiguração da salvação pelo sangue, embora essa leitura tipológica não seja explicitada pelo Novo Testamento.

  • Ortodoxa

    Comemora Raabe entre os antepassados justos do Antigo Testamento lidos na liturgia que antecede o Natal, enfatizando sua conversão e inclusão plena no povo de Deus como sinal da universalidade da salvação, que alcança também os de fora de Israel.

  • Protestante/Reformada

    Usa o caso de Raabe para harmonizar e , argumentando que fé genuína e obra concreta não são categorias opostas, mas duas faces da mesma resposta de confiança em Deus — não há contradição entre os dois apóstolos.

  • Evangélica

    Enfatiza a transformação de vida de Raabe, de uma condição marginalizada para ancestral da linhagem que leva a Davi e a Jesus, como ilustração de que a graça bíblica não se restringe pela origem étnica ou pelo passado da pessoa.

O que fazer com isso

A trajetória de Raabe mostra que os textos bíblicos que tratam da linhagem messiânica não escondem origens incômodas nem exigem um histórico moral exemplar de quem neles aparece. O mesmo relato que a identifica como zonah e registra sua mentira aos soldados do rei também a apresenta, poucos capítulos e alguns séculos narrativos depois, como ancestral de Davi e exemplo citado duas vezes no Novo Testamento — uma vez pela fé, outra pelas obras.

Passagens relacionadas4
Fontes consultadas6
  • Brown, Driver, Briggs. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB), 1906.
  • Koehler, Ludwig; Baumgartner, Walter. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.
  • Strong, James. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
  • Keil, Carl Friedrich; Delitzsch, Franz. Commentary on the Old Testament: Joshua, 1875.
  • Henry, Matthew. Commentary on the Whole Bible, 1710.
  • Bruce, F. F.. The Epistle to the Hebrews (New International Commentary on the New Testament), 1990.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Raabe era realmente prostituta?

O texto hebraico de a identifica como zonah, termo cujo sentido primário nos léxicos padrão (BDB, HALOT) é prostituta. Parte da tradição antiga e alguns comentaristas propuseram a leitura 'estalajadeira', mas com respaldo lexical mais fraco.

Com quem Raabe se casou?

Segundo , ela se casou com Salmom e foi mãe de Boaz, que mais tarde se casaria com Rute. O texto de Josué não menciona esse casamento diretamente.

Raabe é mesmo ancestral de Jesus?

Sim. a inclui na genealogia de Jesus como bisavó de Davi, ao lado de outras mulheres — Tamar e Rute — cuja presença na linhagem real chama atenção por circunstâncias incomuns.

A Bíblia aprova a mentira que Raabe contou aos soldados?

O texto de Josué narra a mentira sem comentário explícito de aprovação ou condenação. e , ao elogiar Raabe, destacam a coragem e a hospitalidade que ela demonstrou ao acolher os espias, não a mentira em si.

Outros personagens

Publicado em 02/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 6 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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As passagens dele, explicadas

Por que Raabe é elogiada por mentir para proteger os espias?

Hebreus 11:31 lista Raabe, uma prostituta cananeia de Jericó, entre os exemplos de fé do Antigo Testamento: "Pela fé, Raabe, a prostituta, não pereceu com os incrédulos, pois acolheu em paz os espias." O episódio completo está em Josué 2: ela escondeu os dois espiões enviados por Josué e disse aos guardas do rei que eles já haviam partido, uma informação falsa que permitiu a fuga dos homens e, depois, poupou sua família da destruição de Jericó.

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