
Raabe era mesmo prostituta — e mentiu?
Por que a Bíblia elogia Raabe se ela mentiu?
E Josué, filho de Num, enviou desde Sitim dois espias secretamente, dizendo-lhes: Andai, reconhecei a terra, e a Jericó. Os quais foram, e entraram em casa de uma mulher prostituta que se chamava Raabe, e passaram a noite ali.
Resposta curta
Era. O hebraico *zonah* é a palavra comum para prostituta, e nem a Septuaginta nem o Novo Testamento a suavizam — Hebreus e Tiago repetem o termo ao elogiá-la.
E mentiu: escondeu os espias e disse ao rei que haviam partido. Os dois textos do Novo Testamento que a citam elogiam justamente esse episódio, e nenhum deles comenta a mentira. Essa combinação é o que faz do caso um clássico da ética cristã.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoMateus abre o evangelho com uma genealogia que inclui quatro mulheres, e Raabe é uma delas — cananeia, prostituta, inserida na linha que leva a Davi e a Cristo. Paulo desenvolve o princípio em : os que eram "estrangeiros aos concertos da promessa" foram aproximados. A genealogia é o argumento antes de qualquer doutrina sobre ele.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Raabe era mesmo prostituta — a palavra usada não deixa dúvida, e nem os textos do Novo Testamento que a elogiam suavizam isso. E ela mentiu de fato: escondeu os espiões e disse ao rei que eles já tinham ido embora.
Os textos que a elogiam depois falam só do acolhimento que ela deu, sem comentar a mentira, nem para aprovar nem para condenar — cristãos discutem esse silêncio há séculos, sem chegar a um consenso.
O que é certo é o resultado: essa mulher estrangeira, de passado marcado, aparece na lista de antepassados de Jesus.
Contexto histórico
Josué envia dois espias a Jericó. Eles entram na casa de Raabe — provavelmente porque uma hospedaria era o lugar onde estrangeiros passariam despercebidos, e casas de prostituição funcionavam também assim.
O rei descobre e manda buscá-los. Raabe os esconde sob talos de linho no terraço e responde que saíram ao anoitecer, apontando a direção errada.
Depois sobe ao terraço e faz o discurso mais notável do capítulo. Ela recita o que sabe: o mar Vermelho, a derrota de Seom e Ogue, e conclui com uma confissão que é teologia pura — "o SENHOR vosso Deus é Deus acima nos céus e abaixo na terra".
É uma cananeia, mulher, prostituta, que faz em Jericó a confissão que Israel deveria estar fazendo. O contraste com Acã, no capítulo 7 — israelita que rouba e é destruído —, é deliberado.
Aprofundamento
A questão da mentira é levada a sério há séculos, e as posições são conhecidas.
Agostinho sustentou que a mentira é sempre pecado, e que Raabe é elogiada pela fé e pela hospitalidade, não pelo engano; Deus teria recompensado o que havia de bom apesar do resto. É a posição mais rigorosa e a mais difícil de conciliar com o texto, que elogia especificamente o ato de esconder.
Outra linha, presente em vários reformadores e em boa parte da ética cristã posterior, argumenta que não existe dever de dizer a verdade a quem busca uma vida inocente para tirá-la — o dever de veracidade pressupõe um direito à informação, e um perseguidor não o tem. As parteiras do Egito, em , mentem ao faraó e o texto diz que "Deus fez bem às parteiras".
Uma terceira observa que o texto simplesmente não emite julgamento sobre a mentira, e que ler aprovação ou condenação onde há silêncio é acrescentar. O que elogia é ter recebido os espias em paz; o que elogia é tê-los recebido e enviado por outro caminho.
O destino de Raabe é o dado mais forte do episódio. registra que ela habitou no meio de Israel. a coloca na genealogia de Jesus, como mãe de Boaz — o resgatador de Rute. Duas estrangeiras seguidas na mesma linha.
A tradição judaica também a tratou com destaque: fontes rabínicas a listam entre as mulheres mais belas e a apresentam como convertida que se casou com Josué, o que não tem base bíblica mas indica o lugar que ela ocupava na memória.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Raabe não era prostituta, e sim estalajadeira.
A leitura vem de targuns aramaicos que usaram uma palavra ambígua, e é uma tentativa de suavização. O hebraico é *zonah*, e o grego de Hebreus e Tiago é *porne* — nenhum dos dois é ambíguo.
Dizem que:A Bíblia aprova mentir.
O texto não comenta a mentira em nenhum momento, e o que Hebreus e Tiago elogiam é ter recebido e protegido os espias. Ler aprovação explícita ao engano é acrescentar ao que está escrito — tanto quanto ler condenação explícita.
Dizem que:Raabe foi salva por ser boa pessoa.
Ela é apresentada como quem ouviu o que Deus havia feito e agiu com base nisso, e é exatamente esse ponto que destaca ao listá-la entre os que viveram pela fé. A profissão dela é registrada sem eufemismo, no mesmo versículo.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Elogio apesar da mentira
A fé e a hospitalidade são louvadas; o engano permanece pecado. Posição de Agostinho e de boa parte da tradição rigorista. Preserva a proibição absoluta da mentira; tem dificuldade com o fato de o ato elogiado ser justamente a ocultação.
Ausência de dever de veracidade
Quem busca vida inocente não tem direito à informação. Apoiada no episódio das parteiras do Egito, que Deus recompensa em . Explica bem o texto; abre uma exceção que exige critério para não virar regra.
Silêncio do texto
A narrativa não julga a mentira, e o Novo Testamento elogia o acolhimento. Ler além disso é preencher lacuna. É a posição mais cautelosa, e a menos satisfatória para quem quer uma regra.
No original3 termos
זוֹנָהzonah
"Prostituta". Palavra comum e sem ambiguidade. A Septuaginta traduz por *porne*, e Hebreus e Tiago repetem o termo grego.
חֶסֶדchesed
"Bondade leal, fidelidade de aliança". A palavra que Raabe usa ao pedir aos espias que usem de *chesed* com a casa dela — vocabulário de pacto, não de favor.
תִּקְוַת חוּט הַשָּׁנִיtiqvat chut hashani
"Cordão de fio de escarlate". O sinal na janela. Comentaristas antigos ligavam a cor ao sangue nos umbrais da Páscoa; é leitura teológica, não afirmação do texto.
O que fazer com isso
O que Raabe tem, e o texto diz com clareza, é informação e conclusão. Ela ouviu o que aconteceu no mar Vermelho quarenta anos antes, e concluiu.
A cidade inteira ouviu a mesma coisa. Ela mesma diz: "todos os moradores da terra estão desmaiados por causa de vós". A diferença entre ela e os vizinhos não é o que sabiam — é o que fizeram com o que sabiam.
E o preço foi imediato. Ela escondeu inimigos do próprio rei antes de ter qualquer garantia, com base num cordão de escarlate pendurado na janela.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Adam Clarke. Commentary on the Bible, 1810.
- John Gill. Exposition of the Entire Bible, 1748.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
A Raabe de Mateus 1 é a mesma de Josué?
A esmagadora maioria dos comentaristas entende que sim, embora Mateus não diga explicitamente. A cronologia entre Josué e Boaz é apertada, o que gerou discussão, mas nenhuma outra Raabe é conhecida.
O que aconteceu com a família dela?
registra que pai, mãe, irmãos e todos os seus foram tirados da cidade e postos fora do arraial de Israel, e o versículo 25 diz que ela habitou no meio de Israel "até hoje".
Mentir para salvar alguém é pecado?
É uma das perguntas clássicas da ética cristã, e não há consenso — as três posições descritas acima têm defensores sérios há dezesseis séculos. O caso costuma ser discutido junto com o das parteiras do Egito e com os que esconderam judeus na Segunda Guerra.
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