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Significado Bíblico
Líderintermediária

Ornã, o jebuseu

Quem foi Ornã, o jebuseu cuja eira Davi comprou?

Ficha do personagem

Reinado de Davi, c. séc. X a.C.; Jerusalém

Relações

  • vendeu a eira a Davi
  • contemporâneo do profeta Gade
  • local do futuro templo de Salomão
  • povo jebuseus

Resposta curta

Ornã, chamado Araúna em 2 Samuel, era um jebuseu de Jerusalém, dono de uma eira, o local onde se debulhava o trigo. Depois que Davi fez um censo e uma praga atingiu o povo, o anjo do Senhor parou junto à eira dele, e o profeta Gade mandou o rei erguer ali um altar. Ornã se ofereceu para dar tudo de graça, mas Davi respondeu que não ofereceria a Deus o que não lhe custasse nada, e pagou. O local foi depois associado ao templo de Salomão (). Os livros divergem no valor pago, cinquenta siclos de prata em Samuel e seiscentos siclos de ouro em Crônicas, e o verbete explica as duas grafias e as hipóteses sobre a diferença.

Onde ele aparece

Em palavras simples

Ornã, também chamado Araúna, era um jebuseu que tinha uma eira em Jerusalém, um terreno onde se debulhava o trigo. Depois de uma praga que atingiu Israel, o rei Davi recebeu ordem de erguer um altar nesse terreno. Ornã quis dar tudo de graça, mas Davi recusou e pagou o preço, dizendo que não ofereceria a Deus o que não lhe custasse nada. Mais tarde, esse lugar ficou ligado ao templo de Salomão. Os livros de Samuel e Crônicas trazem valores diferentes pela compra, e o texto não explica por quê.

O mundo dele

Ornã aparece no final do reinado de Davi, por volta de 970 a.C., numa Jerusalém que o rei havia tomado dos jebuseus algum tempo antes (). Os jebuseus eram um dos povos de Canaã que já viviam na cidade antes de Israel, e o texto sugere que, mesmo depois da conquista, ao menos alguns continuaram morando ali como proprietários. Não se sabe ao certo a posição social de Ornã. Uma tradição judaica posterior o chama de antigo rei dos jebuseus, mas o texto bíblico não diz isso. A expressão de , em que Araúna “dá como rei ao rei”, é de tradução discutida: pode significar que ele agiu com generosidade de rei, ou que ele mesmo era chamado de rei.

O episódio faz parte de um relato difícil. Em , Davi manda realizar um censo do povo, e Joabe tenta dissuadi-lo. Segue-se uma praga, na qual morrem setenta mil homens, até que o anjo para sobre a eira de Araúna. Crônicas, escrito séculos depois, atribui o censo a Satanás (), enquanto Samuel o atribui à ira do Senhor contra Israel, uma diferença que os comentaristas debatem.

Uma eira era uma superfície plana, em geral num lugar elevado e exposto ao vento, onde os feixes eram pisados por animais ou por um trilho para separar o grão da palha. É um espaço de trabalho, não de culto. Que um altar tenha sido erguido ali, e que ali depois se assentasse o templo, mostra como a escolha do lugar sagrado surgiu de um evento concreto e não de um plano prévio de Davi. O nome Moriá, citado em , também aparece em , e o texto de Crônicas parece ligar os dois, embora a identificação seja debatida entre os estudiosos, que também discutem onde exatamente ficava a eira.

A história

O relato de diz que o anjo do Senhor estendia a mão para destruir Jerusalém, quando o Senhor se arrependeu do mal e mandou que parasse, junto à eira de Araúna. Davi, ao ver o anjo, pede que a punição recaia sobre ele e sua casa, e não sobre o povo. Naquele dia, Gade o profeta ordena que ele suba e levante um altar ao Senhor na eira. Davi vai até lá, e Araúna, ao vê-lo, se prostra e pergunta por que o rei vem a seu servo.

Quando Davi explica que quer comprar a eira para erguer um altar e deter a praga, Araúna oferece tudo: a eira, os bois para o holocausto, o trilho e o jugo dos bois como lenha. Davi recusa: “Não, mas por certo preço to comprarei; não oferecerei ao Senhor, meu Deus, holocaustos que não me custem nada”. A frase é uma das mais citadas do episódio. Ela indica que o ato de adoração, para Davi, exige um custo pessoal e não se resolve com a doação de outro.

O problema mais discutido é o valor. Samuel diz que Davi comprou a eira e os bois por cinquenta siclos de prata (24:24). Crônicas diz que ele deu a Ornã, pelo lugar, seiscentos siclos de ouro de peso (21:25). A diferença é grande, e as explicações são conhecidas. Uma é que as compras foram distintas: Samuel trata da eira e dos bois, a parte menor, enquanto Crônicas fala do “lugar”, uma área mais ampla que serviria ao complexo do templo. Outra é que os números refletem tradições diferentes sobre o mesmo ato. O Talmude (Zevachim 116b) propõe que Davi tomou cinquenta siclos de cada uma das doze tribos, perfazendo seiscentos. Nenhuma dessas soluções é confirmada pelo texto, e o leitor honesto precisa admitir que a divergência permanece. O que as duas versões concordam é no essencial: Davi pagou, e fez questão de pagar, por um lugar que lhe foi oferecido de graça, e esse gesto marca o chão onde o templo seria levantado.

O nome também varia. Em Samuel aparece Araúna (com variações de grafia nos manuscritos), e em Crônicas, Ornã. Pode ser variação de transcrição de um nome de origem não israelita, e há quem sugira que reflita um título, mas isso não passa de hipótese.

No desfecho, Crônicas acrescenta que o Senhor respondeu com fogo do céu sobre o altar e que Davi declarou ali o lugar da casa do Senhor (21:26–22:1).

O que costumam dizer errado2
  • Dizem que:Ornã e Araúna eram duas pessoas diferentes.

    São o mesmo homem, o jebuseu dono da eira, referido por como Araúna e por e como Ornã. A diferença é de grafia, e as origens exatas da variação são debatidas.

  • Dizem que:Davi pagou cinquenta siclos de prata pelo monte do templo inteiro.

    Samuel diz que os cinquenta siclos foram pela eira e pelos bois (). Crônicas fala de seiscentos siclos de ouro pelo “lugar” (). O texto não diz que a quantia menor tenha cobrido o terreno do templo.

Como diferentes tradições cristãs leem3

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Judaica

    A tradição rabínica associa a eira de Ornã ao local do Templo e ao monte Moriá de . O Talmude (Zevachim 116b) harmoniza os valores propondo que os seiscentos siclos vieram de cinquenta de cada tribo. Há também a tradição de que Ornã foi rei jebuseu, sem base direta no texto.

  • Protestante

    Comentaristas protestantes costumam enfatizar o princípio de que a adoração tem um custo pessoal e destacam a mediação de Gade e o sacrifício que detém a praga. Em geral explicam as diferenças numéricas entre Samuel e Crônicas como compras distintas, reconhecendo que o texto não resolve a questão.

  • Católica

    A tradição católica, em linha com a leitura patrística, vê no altar da eira o ponto de partida do templo e, em sentido espiritual, um sinal da misericórdia de Deus que detém o castigo. A leitura espiritual é separada do sentido histórico, que trata do local e da compra.

O que fazer com isso

O gesto de Davi diante de Ornã coloca uma pergunta sobre o custo da devoção: oferecer a Deus algo que não nos custa nada é, para o texto, uma forma pobre de adoração. Ao mesmo tempo, a história mostra Ornã agindo com generosidade e sendo respeitado por isso, sem que a narrativa o trate como inferior. Vale ler com cuidado, sem usá-la como regra para cobrar contribuições.

Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
  • P. Kyle McCarter Jr.. II Samuel (Anchor Bible), 1984.
  • Ralph W. Klein. 1 Chronicles: A Commentary (Hermeneia), 2006.
  • Sara Japhet. I & II Chronicles (Old Testament Library), 1993.
  • Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament (1 e 2 Samuel), 1878.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Ornã e Araúna são a mesma pessoa?

Sim, a leitura mais aceita é que sejam o mesmo homem, o dono jebuseu da eira. Samuel usa Araúna, e Crônicas usa Ornã. A causa exata da variação do nome é debatida.

Por que Samuel e Crônicas trazem valores diferentes?

Samuel fala de cinquenta siclos de prata pela eira e pelos bois, e Crônicas de seiscentos siclos de ouro pelo lugar. Há explicações possíveis, como duas compras distintas, mas o texto não esclarece o ponto.

Ornã era israelita?

Não. Era jebuseu, povo que habitava Jerusalém antes da conquista por Davi. O texto não diz se ele passou a adorar o Senhor, mas mostra Davi o tratando com respeito e pagando o preço.

O que a eira de Ornã tem a ver com o templo?

Segundo , Salomão começou a construir o templo no monte Moriá, no lugar que Davi preparou, na eira de Ornã. O altar de Davi marcou o ponto de partida desse local sagrado.

Outros personagens

Publicado em 07/11/2026

Construído sobre fontes em domínio público. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 3 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

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As passagens dele, explicadas

Teologia densa2 Crônicas 3:1

O templo construído no monte Moriá: o mesmo lugar do sacrifício de Isaque?

2 Crônicas 3:1 diz que Salomão construiu o templo 'no monte Moriá'. O único outro lugar da Bíblia que usa esse nome é Gênesis 22:2, onde Deus manda Abraão sacrificar Isaque 'na terra de Moriá'. O Cronista é o único autor bíblico a fazer essa ligação explícita entre o local do templo e o local do teste de Abraão — nem Gênesis nem 1 Reis (que também narra a construção do templo) usam o nome 'Moriá' para o mesmo lugar. Não há como confirmar arqueologicamente que se trata da mesma colina exata, mas a escolha teológica do Cronista é deliberada: ele lê o altar de sacrifício do templo como continuação direta do episódio em que Deus proveu um substituto para Isaque — antecipando, no mesmo terreno, o sistema sacrificial inteiro que ali funcionaria por séculos.

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Teologia densa1 Crônicas 21:23-25

Por que Davi recusou receber de graça o terreno onde construiria o altar?

No fim da narrativa da peste enviada como juízo depois do recenseamento de Davi, o rei chega à eira de Ornã, o jebuseu, para construir ali um altar e oferecer sacrifício, obedecendo à instrução do anjo do Senhor transmitida pelo profeta Gade. Ornã, reconhecendo a gravidade do momento, oferece de imediato a eira, os bois para o holocausto e a madeira das carroças como lenha, tudo de graça. Davi recusa terminantemente: insiste em pagar o preço integral, declarando que não ofereceria ao Senhor holocaustos que não lhe custassem nada. A frase se tornou, ao longo da história da interpretação, um princípio teológico citado muito além desse episódio específico sobre o que realmente conta como oferta genuína.

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Teologia densa2 Samuel 24:18-25

"Não oferecerei ao Senhor o que não me custou nada"

No fim de uma peste que matou setenta mil homens em Israel como juízo pelo censo pecaminoso de Davi, o profeta Gade ordena que o rei erga um altar na eira de Araúna, o jebuseu. Araúna se oferece para dar de graça a eira, os bois para o sacrifício e a madeira de debulha para a lenha — um gesto generoso e prático diante de um rei em posição de exigir.

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Teologia densa2 Samuel 7:1-3

Natã disse "sim" antes de Deus dizer "não"

Em 2 Samuel 7:1-3, Davi propõe construir uma "casa" (templo) fixa para o Senhor, já que ele mesmo mora em palácio de pedra enquanto a arca da aliança segue numa tenda. O profeta Natã responde de imediato: "vai, faze tudo o que está no teu coração" — uma aprovação dada por conta própria, sem antes consultar Deus sobre aquele plano específico.

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Profecia1 Crônicas 17:11-12

"Confirmarei seu trono eternamente": a promessa a Davi em Crônicas

Em 1 Crônicas 17:11-12, o profeta Natã transmite a Davi uma promessa que muda o rumo do reino: não será Davi quem construirá uma casa para o SENHOR, mas o SENHOR quem construirá casa, uma dinastia, para Davi. Deus promete levantar um descendente de Davi depois dele, firmar seu reino, e esse descendente construirá o templo enquanto Deus confirma seu trono para sempre.

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Costumes da época1 Crônicas 6:31-32

Davi e os cantores: a música do culto antes do templo

1 Crônicas 6:31-32 aparece no meio de uma longa genealogia dos levitas e guarda um detalhe fácil de passar despercebido: foi Davi, e não Salomão, quem constituiu o serviço de música para a casa do Senhor. Isso aconteceu depois que "a arca teve repouso" — quando Davi a trouxe para Jerusalém e a colocou numa tenda, décadas antes de existir qualquer templo de pedra.

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