Nabote
Quem foi Nabote e por que Jezabel o matou?
Ficha do personagem
c. 870-850 a.C., Jezreel, Reino do Norte
Resposta curta
Nabote era um homem de Jezreel, dono de uma vinha ao lado do palácio do rei Acabe. Quando Acabe quis comprá-la ou trocá-la por outra melhor, Nabote recusou, dizendo que o Senhor o livrasse de ceder a herança de seus pais. O rei voltou para casa abatido, e sua mulher Jezabel resolveu o impasse: escreveu cartas em nome de Acabe aos anciãos de Jezreel, mandou proclamar um jejum e armou duas testemunhas falsas que o acusaram de maldizer a Deus e ao rei. Nabote foi apedrejado, e Acabe tomou a vinha. O profeta Elias anunciou então o juízo de Deus sobre a casa de Acabe, e a sentença se cumpre em , no campo de Nabote.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaNabote não é tipo formal de Cristo, e o texto não o apresenta como tal. Há, porém, semelhanças de situação: um justo condenado por falso testemunho, num processo montado por quem tinha poder e interesse, e executado fora da cidade (). Nos evangelhos, os chefes dos sacerdotes e o sinédrio procuram testemunho falso contra Jesus para o condenar à morte (), e lembra que ele sofreu fora da porta. A relação é de eco narrativo entre dois casos de injustiça judicial, e não de profecia cumprida.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Nabote tinha uma vinha ao lado do palácio do rei Acabe, em Jezreel. O rei queria a terra, mas Nabote recusou, porque aquela era a herança de sua família, e a lei de Israel não permitia vendê-la de forma definitiva. Jezabel, mulher de Acabe, arranjou duas testemunhas falsas que disseram que Nabote tinha amaldiçoado a Deus e o rei, e ele foi apedrejado. Acabe tomou a vinha, mas o profeta Elias lhe disse que Deus julgaria sua família, e isso se cumpriu mais tarde.
O mundo dele
A história se passa em Jezreel, na fértil planície do norte, no reino de Israel, por volta de 870 a 850 a.C. Acabe era filho de Onri e reinava em Samaria, mas o texto o apresenta com um palácio também em Jezreel (). Sua mulher Jezabel era filha de Etbaal, rei dos sidônios, e introduziu em Israel o culto a Baal (), o que explica o confronto com Elias nos capítulos anteriores.
A recusa de Nabote tem fundamento legal e religioso. Segundo a lei, a terra de Israel pertencia ao Senhor e não podia ser vendida em caráter definitivo (), e a herança de cada família devia permanecer na tribo (). O termo hebraico usado por Nabote, nahalah, é o mesmo empregado para a distribuição da terra entre os clãs em –19, o que reforça o peso religioso da recusa. Por isso Nabote não diz que a vinha vale mais do que o preço oferecido; diz que ceder "a herança de meus pais" seria contra o Senhor (). Para ele, vender não era uma questão de preço, e sim de fidelidade à aliança e de dever para com a família.
O procedimento usado por Jezabel também tem referências jurídicas. A lei exigia ao menos duas testemunhas para uma condenação (), e a blasfêmia era punida com apedrejamento (). O hebraico de usa o verbo "abençoar" como eufemismo de "amaldiçoar" nessa acusação contra Deus e o rei. Alguns estudiosos observam que, em outros reinos do Oriente Próximo, os bens de um condenado por crime contra o rei podiam passar à coroa, o que ajudaria a explicar a escolha da acusação; é uma inferência, pois o texto não explica por que Acabe esperava herdar a vinha.
O relato aparece entre as vitórias de Acabe sobre Ben-Hadade () e a campanha de Ramote-Gileade ().
A história
Acabe propõe a Nabote duas saídas: comprar a vinha por seu valor ou dar outra melhor em troca (). Ao ouvir a recusa, o rei volta ao palácio "triste e irritado", deita-se, vira o rosto para a parede e não come (21:4). Jezabel pergunta o motivo e, ao saber, diz: "Não governas tu agora sobre Israel?" (21:7). Ela escreve cartas em nome do rei, as sela com o selo dele e as envia aos anciãos e aos nobres da cidade. A ordem é proclamar jejum, sentar Nabote em destaque diante do povo e pôr dois homens "inúteis" para testemunhar que ele havia amaldiçoado a Deus e ao rei (21:8-10). Os anciãos e nobres, que deviam proteger o direito do cidadão, são os executores do plano e cumprem ao pé da letra as instruções da carta, e Nabote é levado para fora da cidade e apedrejado (21:11-14). Jezabel anuncia a Acabe que a vinha está livre, e ele desce para tomar posse (21:15-16).
É nesse ponto que o Senhor envia Elias. O profeta encontra Acabe na própria vinha e pergunta: "Mataste e também tomaste posse?" (21:19). A sentença é dupla. No lugar onde os cães lamberam o sangue de Nabote, lamberão o do rei, e a sua casa será desfeita como as de Jeroboão e de Baasa (21:19-22). Quanto a Jezabel, os cães a comerão junto ao muro de Jezreel (21:23). Acabe rasga as vestes, veste pano de saco, jejua e anda abatido, e o Senhor diz a Elias que, por causa dessa humilhação, o mal não virá em seus dias, mas nos dias de seu filho (21:27-29).
O cumprimento é narrado em dois lugares. Acabe morre em batalha em Ramote-Gileade, e o sangue de seu carro é lambido pelos cães no tanque de Samaria (), não em Jezreel. Já em , Jorão, filho de Acabe, é morto por Jeú exatamente no campo de Nabote, e Jeú lembra a palavra do Senhor sobre "o sangue de Nabote e o sangue de seus filhos", detalhe que não menciona. Comentaristas costumam ler esses textos em conjunto: a sentença original é parcialmente cumprida em Acabe e adiada, conforme 21:29, para a geração seguinte. Jezabel morre em e é devorada pelos cães, como Elias dissera.
O texto mostra ainda quem se considera responsável. Jezabel arquiteta o plano, mas é Acabe quem aceita o resultado e toma a vinha, e é ele quem Elias acusa.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Só Jezabel foi culpada pela morte de Nabote, e Acabe não teve responsabilidade.
O plano e as cartas são de Jezabel, mas ela age com o selo do rei (), e é Acabe quem desce para tomar posse da vinha (21:16). Elias o interpela diretamente: "Mataste e também tomaste posse?" (21:19). O texto faz recair a responsabilidade sobre os dois.
Dizem que:Nabote recusou o negócio por teimosia ou por querer um preço maior.
O motivo apresentado é de ordem religiosa e jurídica: a terra era herança familiar dada pelo Senhor, e a lei restringia sua alienação (; ). A resposta de Nabote é "O Senhor me livre de te dar a herança de meus pais" (), e não uma negociação.
Dizem que:Os cães lamberam o sangue de Acabe em Jezreel, no campo de Nabote, exatamente como Elias disse.
Acabe morreu em Ramote-Gileade, foi sepultado em Samaria e os cães lamberam o sangue de seu carro no tanque de Samaria (). O campo de Nabote só aparece no cumprimento sobre seu filho Jorão (), conforme o adiamento do juízo previsto em .
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada e evangélica
Lê a história como exemplo da justiça de Deus contra o abuso de poder e da realidade do arrependimento parcial de Acabe, que adia, mas não anula, o juízo. A palavra de Elias é vista como demonstração de que a aliança com o Senhor protege também o fraco diante do forte.
Patrística e católica
Ambrósio de Milão escreveu no fim do século IV o tratado De Nabuthae, usando o episódio para criticar a avareza dos ricos e a opressão dos pobres. O episódio é frequentemente lembrado em debates cristãos sobre propriedade, riqueza e justiça nos tribunais.
Histórico-crítica
Estuda a narrativa como parte de tradições proféticas do reino do Norte, em que a crítica à monarquia se concentra na posse da terra e no uso do tribunal. Muitos veem aqui um contraste entre o direito tradicional de Israel, ligado ao clã e à terra, e uma concepção de realeza mais próxima do modelo das cidades-Estado vizinhas.
O que fazer com isso
A história de Nabote mostra o que acontece quando o poder encontra um não que o desagrada: o desejo do rei, frustrado, encontra quem lhe ofereça um caminho aparentemente legal para obter o que a lei não permite. Também lembra que recusar vender algo pode ser uma convicção, e não teimosia. O relato não promete que o justo será defendido de imediato, mas afirma que o abuso não passa sem resposta de Deus.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas3
- Mordechai Cogan. 1 Kings: A New Translation with Introduction and Commentary (Anchor Bible 10), 2001.
- Walter Brueggemann. 1 & 2 Kings (Smyth & Helwys Bible Commentary), 2000.
- Ambrósio de Milão. De Nabuthae.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Nabote não vendeu a vinha ao rei?
Porque a terra era herança familiar recebida do Senhor, e a lei de Israel limitava sua venda definitiva (). Nabote afirma que o Senhor o livre de ceder essa herança (). O texto não o descreve como teimoso, e sim como fiel.
Como Jezabel conseguiu condenar Nabote?
Escreveu cartas em nome do rei, com seu selo, aos anciãos de Jezreel e mandou organizar um julgamento com jejum público e duas testemunhas falsas que o acusaram de amaldiçoar a Deus e ao rei (). Os anciãos obedeceram.
Os filhos de Nabote também foram mortos?
Segundo , Jeú se refere ao sangue de Nabote "e de seus filhos". O relato de não menciona os filhos, e o texto não explica como ou por que morreram.
Quando se cumpriu a sentença de Elias contra Acabe?
De forma parcial, na morte de Acabe em Ramote-Gileade (). O restante foi adiado para o filho, Jorão, morto por Jeú no campo de Nabote (), e para Jezabel ().