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Significado Bíblico
Apóstolointermediária

Mateus

Quem foi Mateus na Bíblia e por que ele era cobrador de impostos?

Ficha do personagem

Ministério de Jesus, séc. I d.C.

Relações

  • também chamado de Levi
  • filho de Alfeu
  • chamado por Jesus
  • colega apóstolo de os outros onze apóstolos

Resposta curta

Mateus era cobrador de impostos em Cafarnaum, ocupação que a sociedade judaica do primeiro século via com desprezo profundo: publicanos lucravam sobre tributos ligados ao sistema romano, cobrados diretamente por Roma ou repassados por governantes locais, e por isso eram tratados como traidores, afastados da vida religiosa normal. É esse homem, sentado à mesa de cobrança, que Jesus chama com apenas duas palavras — "Segue-me" — e ele se levanta e o segue imediatamente, sem hesitar ().

Logo depois, Mateus oferece um banquete em sua própria casa, reunindo Jesus com outros publicanos e "pecadores", o que atrai a crítica dos fariseus. Ele aparece na lista dos doze apóstolos () e, nos evangelhos de Marcos e Lucas, é chamado também de Levi, filho de Alfeu. A tradição da igreja antiga o identifica como autor do primeiro evangelho canônico.

Onde ele aparece

O nome

Mateusdom de Deus / dado por Deus (forma curta de Matatias, do hebraico mattan, "dom", + Yah, abreviação de YHWH)

Significado, origem e variantes →

Como isso aponta para Jesus

Contraste

Mateus era, aos olhos da religiosidade oficial de seu tempo, o retrato do excluído: colaborador do poder estrangeiro, ritualmente suspeito, categorizado ao lado de ladrões. É exatamente esse homem que Jesus escolhe chamar, e é na mesa da casa dele, cercado de outros 'publicanos e pecadores', que Jesus enuncia o princípio que resume sua missão — não veio para os justos, mas para os pecadores. O contraste entre a exclusão que cercava Mateus e a inclusão que Jesus pratica antecipa, no plano da narrativa, a lógica maior do evangelho: a graça alcança quem o sistema religioso já havia descartado, tema que Paulo retoma ao se descrever como 'o principal' dos pecadores que Cristo veio salvar.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Mateus trabalhava cobrando impostos, um ofício que fazia as pessoas da época odiarem quem o exercia, porque juntava dinheiro do próprio povo para entregar a governantes ligados a Roma. Um dia, Jesus passou por ele e disse apenas "siga-me" — e Mateus largou tudo na hora. Depois, ele deu uma festa em casa, convidando outros cobradores de impostos para conhecer Jesus, o que incomodou os líderes religiosos mais rígidos. Mateus se tornou um dos doze apóstolos, e a tradição cristã diz que ele escreveu o evangelho que leva seu nome.

O mundo dele

No primeiro século, a Galileia estava sob o governo de Herodes Antipas, tetrarca que respondia a Roma, e Cafarnaum funcionava como posto alfandegário numa rota comercial importante à beira do mar da Galileia. Ali se cobravam pedágios e taxas sobre mercadorias em trânsito, e esse era o trabalho de Mateus: um "publicano" no sentido amplo do termo, cobrador de tributos que financiavam, direta ou indiretamente, a estrutura de poder romana.

A função carregava um estigma quase insuperável. Fontes rabínicas posteriores classificavam cobradores de impostos ao lado de ladrões e assassinos para efeitos de testemunho em juízo, e o historiador judeu Flávio Josefo registra o ressentimento popular contra o sistema tributário romano na região. Além da associação com o poder estrangeiro, publicanos lidavam constantemente com moedas de efígie pagã e com gentios, o que os tornava ritualmente suspeitos aos olhos da religiosidade farisaica. Eram vistos não como funcionários públicos comuns, mas como colaboradores que enriqueciam à custa do próprio povo — muitas vezes cobrando além do devido, prática documentada e criticada na literatura da época.

É nesse cenário de exclusão social e religiosa que a narrativa evangélica situa o chamado de Mateus. O relato de menciona um "grande banquete" na casa dele, detalhe que sugere recursos consideráveis — coerente com o retrato de alguém que vivia da cobrança de impostos, ainda que a Bíblia não descreva sua condição financeira em detalhe. A cena seguinte, em que fariseus questionam Jesus por comer com "publicanos e pecadores" (), só faz sentido dentro dessa moldura social: para a religiosidade oficial da época, sentar-se à mesa de um homem como Mateus era o mesmo que endossar publicamente sua condição.

Vale notar que os quatro evangelhos preservam esse pano de fundo social de formas complementares: o próprio nome do ofício, "publicano", aparece nos sinóticos quase sempre associado a "pecadores" como categoria de gente marginalizada — não por acusação isolada de um autor, mas como retrato consistente da percepção popular daquele tempo sobre essa profissão.

A história

A cena do chamado é registrada com pequenas variações nos evangelhos sinóticos. Em , Jesus vê "um homem chamado Mateus" sentado na coletoria e diz "Segue-me"; o homem se levanta e o segue, sem que o texto registre qualquer hesitação ou pedido de prazo. Em e , a mesma cena aparece com o nome "Levi" — Marcos acrescenta "filho de Alfeu". A identificação entre Levi e Mateus é aceita pela quase totalidade da tradição cristã como a mesma pessoa com dois nomes, prática comum na época (como Simão/Pedro e Saulo/Paulo); apenas o evangelho atribuído a ele próprio usa o nome "Mateus", o que comentaristas como Matthew Henry observam como possível traço de humildade autoral, já que o autor evita o nome pelo qual talvez fosse mais respeitado socialmente antes de seguir Jesus.

Na sequência imediata, Mateus organiza uma refeição em casa, e "muitos publicanos e pecadores" se juntam a Jesus e seus discípulos à mesa (; fala em "grande banquete"). Os fariseus reagem perguntando aos discípulos por que o mestre deles frequenta esse tipo de companhia. Jesus responde com uma imagem médica — "não necessitam de médico os sãos, mas sim os doentes" — e cita o profeta Oseias: "misericórdia quero, e não sacrifício" (, ecoando ). É a única vez nos evangelhos em que essa citação de Oseias aparece associada diretamente ao episódio de Mateus.

Mais adiante, seu nome consta nas quatro listas apostólicas do Novo Testamento (; ; ; ), sempre entre os doze. Depois disso, o texto bíblico não relata mais nada sobre sua trajetória pessoal — não há registro canônico de sua atuação após a ressurreição de Jesus ou de sua morte. Tradições posteriores, fora do cânon, associam seu nome a missões na Etiópia, Pérsia ou outras regiões, e a um martírio; são tradições eclesiásticas antigas, não relatos bíblicos, e merecem ser tratadas como tal.

A atribuição do primeiro evangelho a Mateus remonta ao menos a Papias, bispo do segundo século citado por Eusébio de Cesareia (História Eclesiástica 3.39), que menciona Mateus reunindo "os oráculos" em língua hebraica. Essa tradição é antiga e amplamente aceita na história da igreja, ainda que estudiosos modernos debatam sua relação exata com o texto grego que chegou até nós, já que o evangelho de Mateus, como o conhecemos, compartilha grande parte de seu material com o de Marcos, o que levanta a questão de como um suposto relato de testemunha ocular se apoiaria tanto em outra fonte escrita.

O que costumam dizer errado3
  • Dizem que:Levi e Mateus eram duas pessoas diferentes, não a mesma pessoa.

    e / descrevem a mesma cena de chamado, no mesmo lugar, com a mesma resposta imediata — apenas com nomes diferentes. A tradição cristã majoritária os identifica como a mesma pessoa com dois nomes, prática documentada em outros discípulos, como Simão/Pedro.

  • Dizem que:Mateus era um homem rico que se tornou apóstolo abrindo mão de uma fortuna.

    A Bíblia não descreve a riqueza pessoal de Mateus. O banquete mencionado em sugere alguns recursos, mas não há base textual para afirmar que ele fosse especialmente rico antes de seguir Jesus.

  • Dizem que:O Evangelho de Mateus foi o primeiro evangelho escrito, por isso vem primeiro no Novo Testamento.

    A ordem dos evangelhos no cânon reflete tradição de organização, não necessariamente a ordem de composição. A maioria dos estudiosos modernos, seguindo a hipótese da prioridade de Marcos, considera que o evangelho de Marcos foi escrito antes e serviu de fonte para Mateus.

Como diferentes tradições cristãs leem4

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Tradição Católica

    Mateus, apóstolo e testemunha ocular do ministério de Jesus, é autor direto do evangelho que leva seu nome; a atribuição remonta aos padres da Igreja e é sustentada pelo Magistério como parte da tradição apostólica.

  • Tradição Ortodoxa

    Reafirma a autoria apostólica direta e preserva a tradição patrística de que Mateus teria composto um relato originalmente em hebraico ou aramaico, voltado à comunidade judaico-cristã, antes da forma grega que chegou até nós.

  • Protestantismo evangélico conservador

    Mantém a autoria mateana tradicional, entendendo que Mateus, como testemunha ocular, pode ter utilizado e integrado outras fontes escritas (como o material também presente em Marcos) sob sua própria supervisão apostólica, sem que isso comprometa sua autoria final.

  • Protestantismo histórico-crítico (tradição liberal/mainline)

    Vê o evangelho como produto de uma comunidade ligada à memória e ao ensino de Mateus, composto após o ano 70 d.C. com base em Marcos e outras fontes, sendo a atribuição ao apóstolo entendida como honorífica e tradicional, não como autoria literária direta.

O que fazer com isso

A história de Mateus registra um padrão que reaparece nos evangelhos: o chamado de Jesus alcança justamente quem a religiosidade oficial já havia riscado da lista dos aceitáveis. O banquete na casa do publicano, com sua mistura desconfortável de convidados, ilustra a frase que o próprio evangelho de Mateus registra: misericórdia, não sacrifício. É um retrato de como a narrativa bíblica lida com fronteiras sociais quando o assunto é quem tem acesso a Jesus.

Passagens relacionadas6
Fontes consultadas5
  • Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica, 325.
  • Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas, 94.
  • Joachim Jeremias. Jerusalém no Tempo de Jesus, 1969.
  • Matthew Henry. Comentário Bíblico de Matthew Henry, 1710.
  • Donald A. Hagner. Matthew 1-13 (Word Biblical Commentary), 1993.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Mateus e Levi são a mesma pessoa?

Sim. O evangelho de Mateus o chama de Mateus, enquanto Marcos e Lucas o chamam de Levi, filho de Alfeu, na mesma cena de chamado. A tradição cristã entende como a mesma pessoa com dois nomes, prática comum na época, como aconteceu com Simão/Pedro.

Por que os cobradores de impostos eram tão odiados?

Porque coletavam tributos ligados ao domínio romano, muitas vezes cobrando além do devido, e por isso eram vistos como colaboradores que enriqueciam à custa do próprio povo. Fontes rabínicas os classificavam ao lado de ladrões para efeitos legais.

Mateus realmente escreveu o evangelho que leva seu nome?

A tradição da igreja antiga, atestada já no século II por Papias, afirma que sim. Estudiosos modernos debatem os detalhes dessa autoria, já que o texto grego compartilha bastante material com o evangelho de Marcos.

O que aconteceu com Mateus depois que Jesus ressuscitou?

A Bíblia não conta. Ele aparece nas listas dos doze apóstolos em , mas o Novo Testamento não registra sua atuação posterior. Tradições eclesiásticas, fora da Escritura, falam em missões e martírio, mas não são relatos bíblicos.

Mateus era romano?

Não. Ele era judeu, mas trabalhava cobrando impostos ligados ao sistema de poder romano na Galileia, o que o tornava malvisto por seu próprio povo, e não porque fosse estrangeiro.

Outros personagens

Publicado em 23/08/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 5 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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