
Dizer sim e não fazer, ou dizer não e fazer?
O que significa a parábola dos dois filhos?
Mas que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Aproximando-se do primeiro, disse: “Filho, vai hoje trabalhar na minha vinha.” Porém ele respondeu: “Não quero”; mas depois se arrependeu, e foi. E, aproximando-se do segundo, disse da mesma maneira. E ele respondeu: “Eu vou, senhor”, mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? Eles lhe responderam: O primeiro. Jesus lhes disse: Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas estão indo adiante de vós ao Reino de Deus.
Resposta curta
A parábola é curta e o desfecho é o que a torna difícil de pregar: quem disse não e foi cumpriu a vontade do pai; quem disse sim e não foi, não.
Jesus a conta diante dos principais sacerdotes e dos anciãos, e a aplicação que ele mesmo dá é direta: os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus.
Não é uma frase sobre pecadores em geral. É dita a especialistas em religião, sobre pessoas que a religião daquele tempo considerava perdidas.
Há ainda um detalhe de manuscrito que quase nunca aparece: nem todas as cópias antigas trazem os dois filhos na mesma ordem, e uma delas inverte a resposta.
Como isso aponta para Jesus
ContrasteA parábola é contada depois de os líderes se recusarem a responder sobre a autoridade de João Batista, e desemboca em Jesus dizendo que os cobradores e prostitutas os precedem no Reino. descreve Cristo como aquele que foi obediente até a morte — o único que disse sim e foi. As três parábolas deste bloco em e 22 apontam todas para quem é rejeitado por quem deveria receber.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Um filho diz não ao pai e depois vai trabalhar; o outro diz sim e não vai. Quem cumpriu a vontade do pai foi o que disse não primeiro. Jesus conta isso a líderes religiosos e conclui que cobradores de impostos e prostitutas entravam no Reino de Deus antes deles — não porque errar seja bom, mas porque a resposta educada sem ação depois não vale mais que a recusa seguida de arrependimento.
A história não ensina que dizer não é melhor: os dois filhos erram de formas diferentes, e o que conta é quem terminou indo trabalhar. Há um alívio nisso: quem já disse não a Deus alguma vez não está automaticamente fora — o que importa não é desfazer o passado, é ir.
Contexto histórico
A cena é a última semana em Jerusalém, no templo.
Imediatamente antes, os principais sacerdotes perguntam com que autoridade Jesus faz aquelas coisas. Ele devolve com uma pergunta sobre o batismo de João — se era do céu ou dos homens. Eles calculam a resposta politicamente e dizem não saber.
É a esse grupo, e logo depois dessa recusa, que a parábola é contada. Ela vem em bloco com duas outras — os lavradores maus e a festa de casamento —, todas dirigidas à mesma audiência e todas com o mesmo movimento.
O cenário da história é agrícola comum. Um pai manda os dois filhos trabalhar na vinha, e o pedido não tem nada de excepcional.
A aplicação, no versículo 32, liga a parábola de volta a João Batista: ele veio no caminho da justiça, e os cobradores e prostitutas creram nele, enquanto os líderes, mesmo tendo visto, não se arrependeram depois.
Aprofundamento
A questão textual merece ser tratada primeiro, porque ela é real e costuma ser omitida.
Os manuscritos antigos apresentam pelo menos três arranjos diferentes desta parábola. Na forma mais difundida, o primeiro filho diz não e vai, e o segundo diz sim e não vai — e a resposta da audiência é "o primeiro". Em outra tradição a ordem dos filhos é invertida. E há uma leitura, presente em manuscritos importantes, em que a audiência responde apontando o filho que disse sim e não foi.
Essa última é a mais estranha, e é justamente por ser estranha que alguns críticos a consideram original — a tendência dos copistas é corrigir o difícil, não criá-lo. A maioria das edições segue a forma difundida.
A diferença não altera o ensino, porque a aplicação do versículo 31 é a mesma nas três: o Reino é entrado por quem fez, e não por quem disse.
O segundo ponto é o verbo do arrependimento. O grego usa aqui um termo que indica mudar de ideia, lamentar — e não o verbo mais forte, o de conversão, que Mateus usa em outros lugares. É o mesmo termo empregado em 27:3 para o remorso de Judas.
Isso desanuvia uma leitura idealizada do primeiro filho. Ele não é apresentado como exemplo de piedade: é alguém que recusou, mudou de ideia e foi. A parábola não elogia o processo dele, elogia o resultado.
O terceiro ponto é a identidade dos personagens, e ela é dada pelo próprio texto. O versículo 32 nomeia: os cobradores de impostos e as prostitutas creram em João; os líderes viram isso e nem assim mudaram.
Cabe notar o que a parábola não faz. Ela não diz que a primeira resposta é irrelevante nem que dizer não é melhor. Os dois filhos estão errados em alguma coisa, e a história só compara qual dos dois erros terminou na vinha.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A parábola ensina que dizer não é melhor que dizer sim.
Os dois filhos estão errados em alguma coisa. A história compara qual dos dois erros terminou na vinha, e não elogia a recusa inicial do primeiro.
Dizem que:O texto está igual em todos os manuscritos antigos.
Existem pelo menos três arranjos diferentes nas cópias antigas, e uma tradição importante traz a audiência apontando o filho que disse sim e não foi. A aplicação do versículo 31 é a mesma nas três.
Dizem que:O primeiro filho é modelo de arrependimento.
O verbo grego aqui indica mudar de ideia e lamentar, e é o mesmo usado para o remorso de Judas em 27:3 — não o termo mais forte de conversão. A parábola elogia o resultado, não o processo.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Contraste entre resposta e prática
Leitura majoritária, ancorada na aplicação que Jesus dá no versículo 31 e no contexto imediato, em que os líderes acabaram de se esquivar de uma pergunta.
Contraste entre dois grupos históricos
Lê os filhos como figuras dos publicanos e prostitutas de um lado e da liderança religiosa do outro, conforme nomeado no versículo 32. Restringe a parábola ao momento, mas com apoio direto no texto.
No original3 termos
μεταμεληθείςmetameletheis
"Tendo mudado de ideia", "tendo lamentado". Termo mais fraco que o de conversão, e o mesmo usado para o remorso de Judas em .
προάγουσινproagousin
"Vos precedem", no presente. Não é promessa futura: descreve algo já em curso na frase de Jesus aos líderes.
ἀμπελώνampelon
Vinha. A mesma palavra abre a parábola seguinte, dos lavradores maus, ligando as duas na mesma imagem.
O que fazer com isso
A parábola tem um alvo específico, e o alvo é gente que responde certo.
O segundo filho não é rebelde. Ele é educado, disponível e verbalmente correto — e é o que fica de fora. O problema dele é a distância entre a resposta e o dia seguinte.
Isso é desconfortável para qualquer ambiente em que a linguagem religiosa correta é a moeda corrente, e era exatamente o ambiente em que Jesus contou a história.
Há também um alívio nela, e ele é do tipo que não se anuncia. Quem já disse não — e há muita gente que disse não em algum momento — não fica de fora por causa disso. O primeiro filho começa recusando em voz alta e termina na vinha.
O texto não pede que ninguém desfaça o passado. Pede que alguém vá.
Passagens relacionadas6
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- Richard Chenevix Trench. Notes on the Parables of Our Lord, 1841.
- Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Charles John Ellicott. A New Testament Commentary for English Readers, 1878.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que os manuscritos divergem aqui?
A parábola tem pelo menos três arranjos nas cópias antigas, incluindo uma em que a audiência aponta o filho errado. Alguns críticos consideram essa a mais provável de ser original justamente por ser a mais difícil.
Quem são os dois filhos?
O versículo 32 nomeia: os cobradores de impostos e as prostitutas, que creram em João Batista, e os líderes religiosos, que viram e não mudaram.
A parábola vale para quem nunca disse nada?
Ela compara duas respostas dadas, e não trata do silêncio. O que ela estabelece é o critério — quem foi à vinha — e esse critério independe do que foi dito antes.
Temas
- Fariseus e religiosidade
- Obediência e votos
- #mateus
- #parabola
- #religiosidade
- #novo-testamento