Diná
Quem foi Diná, filha de Jacó?
Ficha do personagem
c. séc. XVIII a.C., Siquém, Canaã
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Resposta curta
Diná foi a única filha de Jacó e Léia mencionada pelo nome no Gênesis. É conhecida quase só pelo episódio narrado em . Jacó havia se instalado perto de Siquém, e Diná saiu para visitar as moças da região. Siquém, filho do príncipe local Hamor, a tomou, deitou-se com ela e a humilhou; depois, apaixonado, pediu-a em casamento.
Seus irmãos Simeão e Levi responderam com engano: exigiram que os homens da cidade se circuncidassem e, no terceiro dia, quando todos estavam com dor, mataram os homens e resgataram Diná. Os outros filhos de Jacó saquearam a cidade. Jacó reprovou o ato (; 49:5-7). Diná não fala em nenhum momento no capítulo, e a Bíblia não diz o que aconteceu com ela depois, a não ser que seu nome consta entre os que desceram ao Egito ().
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO Novo Testamento não cita Diná, e o episódio não é interpretado como profecia de Cristo. Não há tipologia que possa ser sustentada com honestidade. O que se pode dizer é que, ao reprovar a vingança de Simeão e Levi (), o texto já indica que a violência em resposta à violência não é o caminho aprovado, um tema que o Novo Testamento desenvolve de outra maneira.
Em palavras simples
Diná era filha de Jacó e Léia e irmã de Simeão e Levi. Num dia em que foi visitar as moças da região de Siquém, o filho do príncipe local a agarrou e a humilhou, depois disse que a amava e quis se casar com ela. Seus irmãos fingiram aceitar, fizeram os homens da cidade se circuncidarem e mataram todos enquanto ainda sentiam dor. Jacó reprovou o ato. Diná não fala em nenhum momento, e a Bíblia não conta o que foi da vida dela depois.
O mundo dele
Diná aparece no ciclo de Jacó, na época dos patriarcas, que a cronologia tradicional situa por volta do século XVIII a.C. O texto a apresenta primeiro em , em uma única frase: Léia "deu à luz uma filha e lhe chamou Diná". Ao contrário do que ocorre com os seis irmãos, o nome não recebe explicação no texto. Em hebraico, soa próximo ao verbo "julgar" (din), e muitos leitores veem nisso uma ressonância com os acontecimentos posteriores, mas é uma associação deles, não do narrador. Ela e os seis irmãos nasceram durante os anos de Jacó junto a Labão (; 35:26). É filha de Léia, a esposa que Jacó recebeu por engano de Labão, e irmã de Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zebulom.
O cenário do capítulo 34 é a região de Siquém, no centro de Canaã, onde Jacó comprara um terreno depois de voltar da Mesopotâmia e do encontro com Esaú (). A cidade é governada por Hamor, o heveu, e seu filho tem o mesmo nome da cidade, Siquém. A família de Jacó vivia ali como forasteira: tinha rebanhos e tendas, mas dependia da boa vontade dos habitantes. Esse fator ajuda a entender a fala de Hamor, que propõe casamentos entre os dois povos, livre circulação e compra de terras (34:9-10), e também o medo que Jacó demonstra depois.
É preciso notar a estrutura do texto. Os homens negociam entre si, o texto não registra que Diná tenha sido consultada, o narrador não lhe atribui uma palavra, e o capítulo termina com a pergunta dos irmãos, não com uma fala dela. O relato preserva as vozes dos homens e deixa Diná no centro do conflito sem lhe dar palavra. Os leitores atuais costumam destacar esse ponto, e vale lê-lo como é: o que o texto cala, ele cala.
A história
O capítulo 34 começa com uma frase simples: "Diná, filha de Léia, a qual esta dera a Jacó, saiu para ver as filhas da terra". Em seguida, três verbos descrevem o que Siquém fez: "tomou-a", "deitou-se com ela" e "humilhou-a" (34:2). O terceiro, innah, é o centro da discussão. Em outros textos, ele indica violência sexual (; ), mas também significa de modo geral "afligir" ou "humilhar". Por isso, há quem o entenda como estupro e há quem leia o trecho como relação sem casamento que desonrou a família. A maioria das traduções e dos comentaristas, considerando o conjunto dos verbos, lê o episódio como violência. O texto, porém, acrescenta que a alma de Siquém "se apegou" a Diná, que ele "amou a moça" e "falou ao seu coração" (34:3), de modo que o narrador mistura abuso e afeição, sem desfazer a tensão entre eles.
Jacó "soube" e se calou até que os filhos voltassem do campo (34:5). Quando chegam, ficam "indignados e muito irados", porque Siquém "fizera loucura em Israel" (34:7), expressão que designa uma infâmia dentro do povo. Siquém e Hamor, por sua vez, só falam de casamento e de aliança (34:8-12). Hamor propõe a aliança, e os filhos respondem "com engano" (34:13): só aceitariam se todos os homens se circuncidassem. Simeão e Levi, "irmãos de Diná", entram na cidade no terceiro dia, matam todos os homens, inclusive Hamor e Siquém, e retiram Diná da casa dele (34:25-26). Os demais filhos saqueiam a cidade, levando rebanhos, bens, mulheres e crianças (34:27-29). A circuncisão, sinal da aliança com Deus (), foi usada como instrumento do engano.
A reação de Jacó é de preocupação com a segurança do clã: "Vós me turvastes, fazendo-me cheirar mal entre os moradores desta terra" (34:30). Os irmãos respondem: "Faria ele da nossa irmã uma prostituta?" (34:31), e o capítulo acaba aí. A avaliação definitiva vem no leito de morte de Jacó, que amaldiçoa a ira de Simeão e Levi, "instrumentos de crueldade", e declara que os dispersará em Israel (49:5-7). Diná não é mais mencionada, exceto na lista de . Logo depois do massacre, Deus manda Jacó subir a Betel (35:1), e o texto diz que um terror divino caiu sobre as cidades vizinhas, de modo que ninguém perseguiu a família (35:5). Não se atribui marido nem filhos a Diná, e o que foi de sua vida o texto não conta.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Diná foi culpada pelo que lhe aconteceu por ter saído sozinha.
O texto diz apenas que ela saiu para visitar as moças da terra () e atribui a ação a Siquém. Leituras antigas, como a de Rashi, ligam o verbo "sair" a uma crítica ao comportamento dela, mas essa é uma interpretação posterior, e não o julgamento do narrador.
Dizem que:Gênesis 34 narra de modo inequívoco um estupro, sem nenhum debate no hebraico.
O verbo innah aparece com sentido de violência sexual em outros textos, mas também significa "humilhar" ou "afligir". A maioria dos leitores o entende como violência, e o contexto favorece essa leitura, mas o debate sobre o termo existe e deve ser reconhecido.
Dizem que:A Bíblia aprova a vingança de Simeão e Levi.
Jacó os repreende em e, em , amaldiçoa a ira deles e anuncia que serão dispersos. O texto registra a resposta dos irmãos (34:31) sem endossá-la.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica rabínica
O Midrash e Rashi leem a expressão "filha de Léia" em como alusão ao comportamento da mãe, que "saiu" ao encontro de Jacó, e veem nisso uma crítica à saída de Diná. Maimônides, em Leis dos Reis 9:14, argumenta que os homens de Siquém eram culpados por não julgarem o crime. Nahmanides, em contrapartida, critica Simeão e Levi.
Reformada
Calvino censura a crueldade e o engano dos irmãos, especialmente o uso da circuncisão, sinal sagrado da aliança, como instrumento de traição. Também observa, em tom de advertência, a imprudência de andar sem cautela entre os vizinhos, sem com isso inocentar Siquém.
Leituras contemporâneas
Intérpretes feministas e outros estudiosos chamam a atenção para o silêncio de Diná, para o fato de os homens decidirem em torno dela e para a questão da honra familiar. Alguns propõem ler a narrativa como crítica velada à violência dos irmãos; outros, como retrato de uma sociedade em que a vítima não é ouvida.
O que fazer com isso
A história de Diná lembra que a Bíblia registra violências sem aprová-las e que o silêncio do texto sobre a vítima também precisa ser notado. O leitor é convidado a perceber o que acontece com quem não tem voz na narrativa e a desconfiar de respostas que prometem justiça por meio de engano e mais violência. mostra que, para o texto, a vingança de Simeão e Levi não foi justiça, e isso sem diminuir a gravidade do que fizeram a Diná.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Gerhard von Rad. Genesis: A Commentary, 1972.
- Nahum M. Sarna. Genesis (JPS Torah Commentary), 1989.
- João Calvino. Commentaries on the First Book of Moses, called Genesis.
- Maimônides. Mishné Torá, Leis dos Reis.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Diná tinha irmãos?
Sim. Era filha de Jacó e Léia, e seus irmãos de mãe eram Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zebulom (:21). Os outros filhos de Jacó, de outras mães, também eram seus meios-irmãos.
O que o texto realmente diz sobre o que Siquém fez com Diná?
diz que ele a tomou, deitou-se com ela e a humilhou. O último verbo, innah, é discutido: em outros textos indica violência sexual, mas pode ter sentido mais amplo. A maioria dos leitores entende o episódio como violência.
Por que Simeão e Levi foram condenados por Jacó?
Jacó os acusa de trazer perigo sobre a família () e, mais tarde, amaldiçoa a ira deles, descrita como cruel, e anuncia que serão dispersos entre os irmãos (49:5-7).
O que aconteceu com Diná depois do episódio?
A Bíblia não diz. Ela é levada de volta da casa de Siquém () e aparece de novo apenas em , na lista dos filhos e filhas de Léia que acompanharam Jacó ao Egito. Tradições posteriores preencheram a lacuna de formas diferentes.