Aimeleque, sacerdote de Nobe
Quem foi Aimeleque, o sacerdote que ajudou Davi?
Ficha do personagem
Cerca de 1015 a.C.; Nobe, perto de Jerusalém
Resposta curta
Aimeleque era o sacerdote de Nobe, uma cidade sacerdotal perto de Jerusalém, quando Davi, fugindo de Saul, chegou lá sozinho e faminto. Sem outro pão à mão, Aimeleque lhe deu os pães da proposição, reservados aos sacerdotes, depois de verificar que os homens de Davi estavam ritualmente aptos, e entregou-lhe também a espada de Golias, guardada atrás do manto sacerdotal. Doegue, o edomita chefe dos pastores de Saul, estava presente e denunciou o fato. Saul convocou os sacerdotes e, diante da defesa de Aimeleque, ordenou a morte de todos. Os guardas se recusaram, mas Doegue executou oitenta e cinco sacerdotes, e Nobe foi destruída. Só Abiatar, filho de Aimeleque, escapou. Jesus cita o episódio em , com um nome que levanta uma dificuldade conhecida.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO próprio Jesus usa o episódio como argumento. Em , diante da crítica de que seus discípulos colhiam espigas no sábado, ele lembra que Davi e seus companheiros comeram os pães da proposição quando tiveram fome, e conclui que o Filho do Homem é senhor também do sábado. O texto de Samuel não aponta para Cristo; é Jesus quem o evoca para mostrar que a necessidade humana e a missão do rei ungido podiam, na própria Escritura, relativizar uma regra cerimonial.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Aimeleque era sacerdote em Nobe, perto de Jerusalém. Quando Davi chegou fugindo do rei Saul, com fome e sozinho, Aimeleque lhe deu os pães consagrados, que normalmente só os sacerdotes comiam, e a espada de Golias. Doegue, servo de Saul, viu tudo e contou ao rei. Saul mandou matar Aimeleque e os outros sacerdotes, e Doegue executou oitenta e cinco deles. Só o filho Abiatar escapou. Jesus lembrou esse episódio em , onde o texto traz o nome de Abiatar em vez do de Aimeleque.
O mundo dele
Aimeleque aparece quando Davi já estava em fuga. Depois que Saul tentou matá-lo e Jônatas confirmou o perigo (), Davi foi a Nobe, onde estava o santuário com os sacerdotes (). O local exato de Nobe é debatido, mas o texto a coloca na região de Jerusalém e Gibeá ( menciona Nobe num trajeto de invasão). Era uma cidade sacerdotal onde se guardava o pão da proposição, os doze pães postos semana a semana sobre a mesa do santuário, que somente os sacerdotes podiam comer ().
O sacerdócio de Nobe era herdeiro da linhagem de Eli, que servira em Siló. Aimeleque é chamado filho de Aitube (), e Aitube é ligado a Eli em . O próprio livro registra que Deus anunciara o fim da casa de Eli (), e vê esse anúncio cumprido quando Salomão afasta Abiatar do sacerdócio.
Outro elemento é a presença de Doegue. O texto diz que ele estava ali "retido perante o Senhor" (), sem explicar o motivo; pode ter sido um voto, um ritual ou uma situação de purificação. Isso ajuda a entender como Saul soube do que ocorreu: Doegue viu tudo.
É preciso também lembrar o que Davi disse. Ele afirmou que estava numa missão secreta do rei e que seus homens o esperavam em outro lugar (). O narrador não confirma essa versão, e a leitura comum é que Davi omitiu a verdade para não comprometer o sacerdote. A relação de Aimeleque com Davi, que ele declara conhecer como genro e servo fiel do rei (), é a base de sua defesa diante de Saul.
Por fim, vale notar que o episódio deixou marca na tradição poética. O cabeçalho do Salmo 52 associa sua composição ao momento em que Doegue foi a Saul e disse que Davi estivera na casa de Aimeleque. O salmo condena a língua enganadora de quem destrói, e a ligação entre ele e a cena de Nobe é a que o próprio título propõe; o texto do salmo, em si, não cita nomes.
A história
Em , Aimeleque sai ao encontro de Davi "tremendo" e pergunta por que ele está só. Davi pede cinco pães, e o sacerdote responde que só há pão consagrado, que só pode ser dado se os jovens se guardaram de mulheres. Davi diz que sim: o corpo dos seus homens é "santo" mesmo em expedições comuns. Aimeleque entrega os pães que haviam sido retirados de diante do Senhor para dar lugar aos recém-feitos. Davi pede ainda uma arma, e o sacerdote oferece a espada de Golias, embrulhada num pano atrás do efod, que Davi leva consigo.
A fala de Aimeleque em revela que ele agiu de boa-fé. Diante de Saul, pergunta quem entre os servos do rei era tão fiel quanto Davi, genro e comandante da guarda, e acrescenta que não era a primeira vez que consultava a Deus por ele. Declara que não sabia de nada sobre o conflito entre eles. Saul não aceita a defesa, vê conspiração e ordena a morte dos sacerdotes. Seus guardas recusam estender a mão contra "os sacerdotes do Senhor", e então Doegue, o edomita, mata oitenta e cinco homens que vestiam o efod de linho e depois ataca a cidade de Nobe, com homens, mulheres, crianças e animais (22:17-19). Abiatar foge para Davi, que reconhece sua responsabilidade pelo ocorrido (22:20-22).
O caso mais discutido envolve . Jesus, ao defender seus discípulos que colhiam espigas no sábado, lembra que Davi entrou na casa de Deus "no tempo do sumo sacerdote Abiatar" e comeu os pães da proposição. Mas, segundo , o sacerdote era Aimeleque, pai de Abiatar. As explicações principais são estas. Primeira: a expressão grega pode significar "na passagem sobre Abiatar", como se cita um trecho da Escritura, e não necessariamente "no tempo de". Segunda: Abiatar, que depois foi sacerdote de Davi, era a figura mais conhecida e o nome foi usado de forma abreviada. Terceira: pai e filho podem ter tido os dois nomes, já que os textos de e trazem as formas trocadas. Quarta: alguns manuscritos antigos omitem a expressão, e e não citam o nome. Nenhuma dessas propostas é decisiva, e os comentaristas divergem sobre qual é a mais provável.
Há ainda o argumento de Jesus em si, que não depende do nome. Ele pergunta se os fariseus nunca leram o que Davi fez quando teve necessidade e fome, e conclui que o sábado foi feito por causa do ser humano (). Mesmo quem considera a dificuldade do nome aberta reconhece que o ponto central do ensino permanece o mesmo: a regra cerimonial existe para servir à vida, e o caso de Davi, narrado no próprio texto sagrado, mostra isso.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:O sacerdote que ajudou Davi em Nobe foi Abiatar, como diz Marcos 2:26.
Em e 22:9-19, o sacerdote que ajuda Davi é Aimeleque, pai de Abiatar. Abiatar só aparece depois, como o único sobrevivente do massacre (). A tensão com é real e há várias propostas de solução, mas o relato de Samuel não deixa dúvida sobre quem entregou os pães.
Dizem que:Davi violou a lei ao comer os pães da proposição, e Jesus aprovou o desrespeito à Escritura.
O texto de Samuel mostra Aimeleque verificando a condição ritual dos homens de Davi antes de dar o pão (). Jesus não diz que a lei não vale, e sim que ela sempre foi lida com atenção à necessidade e à missão do rei ungido ().
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Protestante (evangélica)
Muitos comentaristas procuram harmonizar com , apontando que a expressão grega admite o sentido de "na passagem de Abiatar" ou que Abiatar, mais conhecido, foi citado no lugar do pai. Veem em Jesus o intérprete autorizado da Escritura e na história de Davi um precedente da primazia da misericórdia sobre o rito.
Católica
Tradicionalmente interpreta os pães da proposição como uma prefiguração da Eucaristia, e a distribuição dos pães sagrados a Davi como sinal de que o que é consagrado serve ao bem do povo de Deus. A questão do nome em Marcos é tratada pelos comentaristas como uma dificuldade de transmissão ou de abreviação, sem comprometer a mensagem do texto.
Judaica
A tradição rabínica considera a matança de Nobe um dos pecados mais graves de Saul e discute o papel de Doegue, apresentado em textos talmúdicos como um homem de saber que usou esse saber para o mal. O episódio é lido como exemplo de que a realeza sem temor de Deus destrói até o que é santo.
Crítica histórica
Boa parte dos estudiosos, como P. Kyle McCarter Jr., vê em um relato antigo sobre a ruptura entre Saul e o sacerdócio, ligado à ascensão de Abiatar e de Davi. Quanto a , alguns admitem um deslize de memória na tradição evangélica, enquanto outros propõem as soluções linguísticas e textuais já citadas.
O que fazer com isso
Aimeleque agiu com a informação que tinha, ajudou um homem em necessidade e pagou o preço de uma suspeita alheia. O relato não esconde a injustiça nem a minimiza, e também não pede que o leitor conclua que ajudar alguém traz sempre proteção. O que o texto preserva é a lembrança de um sacerdote que teve de decidir entre a regra do pão consagrado e a fome de um homem, e de guardas que preferiram desobedecer a um rei a levantar a mão contra os sacerdotes.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament (1 e 2 Samuel), 1878.
- P. Kyle McCarter Jr.. I Samuel: A New Translation with Introduction and Commentary (Anchor Bible), 1980.
- R. T. France. The Gospel of Mark (New International Greek Testament Commentary), 2002.
- Robert Alter. The David Story: A Translation with Commentary of 1 and 2 Samuel, 1999.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Marcos 2:26 fala em Abiatar e não em Aimeleque?
O texto não resolve a questão. As propostas mais conhecidas são que a expressão grega significa "na passagem sobre Abiatar", que o nome mais famoso foi usado no lugar do pai, que pai e filho tinham os dois nomes ou que há variação nos manuscritos. Nenhuma é unânime.
O que são os pães da proposição?
Eram doze pães postos todo sábado sobre a mesa no santuário, diante do Senhor, e depois comidos pelos sacerdotes em lugar santo (). Em , os pães retirados naquele dia eram os que Aimeleque tinha disponíveis para entregar a Davi.
Aimeleque sabia que Davi estava fugindo de Saul?
Pelo texto, não. Davi disse estar em missão secreta do rei (), e Aimeleque declara depois que não sabia de nada sobre a questão (22:15). O relato não confirma se Davi mentiu de forma deliberada, mas apresenta o sacerdote como ignorante do conflito.
O que aconteceu com os sobreviventes de Nobe?
Apenas Abiatar, filho de Aimeleque, escapou e foi para Davi, levando o efod (; 23:6). Ele serviu como sacerdote durante o reinado de Davi, até ser afastado por Salomão ().