
Jesus errou o nome do sumo sacerdote na história de Davi?
Por que Marcos diz que era Abiatar o sumo sacerdote, se em 1 Samuel foi Aimeleque quem deu o pão a Davi?
E ele lhes disse: Nunca lestes o que fez Davi, quando teve necessidade e fome, ele e os que com ele estavam? Como ele entrou na Casa de Deus, quando Abiatar era sumo sacerdote, e comeu os pães da proposição (dos quais não é lícito comer, a não ser aos sacerdotes), e também deu aos que com ele estavam?
Resposta curta
Ao defender os discípulos que colhiam espigas num sábado, Jesus lembra o que Davi fez: fugindo de Saul, faminto, ele entrou na Casa de Deus e comeu os pães da proposição, reservados aos sacerdotes. Marcos diz que isso aconteceu "quando Abiatar era sumo sacerdote". Mas, segundo , quem ocupava o posto naquele dia era Aimeleque, pai de Abiatar — que só assumiria o cargo depois, já com Aimeleque morto por ordem de Saul.
A expressão grega de Marcos funciona como marcador de época, não afirmação de cargo exato naquele instante — construção parecida aparece em e para situar um fato "nos dias de" alguém. Abiatar foi o sacerdote mais lembrado do reinado de Davi, e por isso o episódio ficou associado a seu nome, mesmo ocorrendo quando seu pai ainda servia no altar.
Como isso aponta para Jesus
TipologiaO próprio argumento de Jesus usa Davi como precedente para reivindicar autoridade maior do que a lei cerimonial: se o rei ungido, em necessidade, pôde comer o pão reservado aos sacerdotes sem culpa, o Filho do homem — descendente e antítipo de Davi — tem autoridade ainda maior sobre as instituições da aliança, incluindo o próprio sábado (). David funciona aqui como figura que aponta para alguém maior que virá depois dele, seguindo a mesma linha em que os evangelhos costumam ler a realeza davídica como antecipação de Cristo.
Respaldo no Novo Testamento:
Contexto histórico
registra uma discussão sobre o sábado: os discípulos de Jesus colhem espigas enquanto atravessam uma plantação, e os fariseus acusam isso de trabalho proibido no dia de descanso. Jesus responde citando um episódio de . Fugindo de Saul, Davi chega faminto ao santuário de Nobe e pede pão ao sacerdote que ali serve. Só havia os pães da proposição — os doze pães consagrados, trocados a cada sábado e postos diante do Senhor, que a lei reservava exclusivamente aos sacerdotes (). O sacerdote entrega o pão a Davi e aos seus homens, mesmo sendo, tecnicamente, uma violação da regra ritual.
O nome desse sacerdote em é Aimeleque, e não Abiatar. A relação entre os dois aparece pouco depois: Saul, sabendo que Aimeleque ajudou Davi, manda matar toda a família sacerdotal de Nobe; apenas um filho de Aimeleque escapa com vida — e esse filho se chama Abiatar (). Abiatar foge para junto de Davi e permanece como seu sacerdote por todo o restante do reinado, servindo ao lado de Zadoque, até ser afastado do cargo já no governo de Salomão, em favor de Zadoque (). Ou seja: no momento exato do episódio do pão, quem ocupava a função sacerdotal em Nobe era o pai, Aimeleque; o filho, Abiatar, só herdaria — e de fato exerceria por décadas — o posto de sacerdote de Davi depois da morte do pai.
É essa diferença entre pai e filho que gera a pergunta sobre : por que o evangelho associa o episódio ao nome de Abiatar, se historicamente quem estava servindo naquele dia era Aimeleque? A resposta passa por entender como o grego do Novo Testamento costumava datar acontecimentos — pelo nome da figura mais associada a determinado período, não necessariamente pelo ocupante exato do cargo em cada instante daquele período. É o mesmo recurso usado, por exemplo, para situar eventos "nos dias de" um rei ou governador específico.
Aprofundamento
A chave para entender a frase de Jesus está na construção grega por trás de "quando Abiatar era sumo sacerdote" (epi Abiathar archiereos). A preposição "epi" seguida de genitivo era usada no grego do primeiro século como marcador temporal — "no tempo de", "nos dias de" — sem necessariamente afirmar que a pessoa citada ocupava o cargo naquele instante exato. O próprio Novo Testamento usa a mesma construção em outros lugares: fala de João Batista pregando "sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes", tratando dois homens como referência de época mesmo sabendo que só um exercia oficialmente a função; e situa a fome "no tempo de Cláudio" (epi Klaudiou), sem que isso implique que o evento tenha ocorrido no primeiro instante do governo dele. O comentarista R.T. France observa, em seu comentário sobre Marcos, que essa leitura resolve a dificuldade sem exigir que se trate o texto como erro: Marcos estaria situando o episódio na era mais amplamente associada a Abiatar — o sacerdote que, aos olhos da tradição, ficou ligado a quase todo o reinado de Davi —, não afirmando que ele já detinha o título quando seu pai ainda vivia.
Há também uma pista dentro do próprio Antigo Testamento de que a genealogia dessa família sacerdotal era registrada com alguma variação. é claro: Abiatar era filho de Aimeleque, que por sua vez era filho de Aitube. Mas , ao listar os sacerdotes do reinado de Davi, inverte a ordem e chama de "Aimeleque filho de Abiatar" — o oposto do que se lê antes. Comentaristas como Keil e Delitzsch já discutiam essa aparente troca de nomes dentro do próprio texto hebraico, um sinal de que a tradição escrita sobre essa família sacerdotal específica já circulava com alguma flutuação de nomes muito antes dos evangelhos existirem.
Vale registrar que a dificuldade não passou despercebida na transmissão do texto grego: o aparato crítico do Novo Testamento mostra que alguns manuscritos antigos simplesmente omitem a expressão "quando Abiatar era sumo sacerdote", mantendo só "como ele entrou na Casa de Deus e comeu os pães da proposição". Isso indica que copistas notaram a tensão e, em vez de inventar uma solução, preferiram simplificar a frase — o oposto do que se esperaria se a comunidade cristã primitiva tratasse esse detalhe como prova de erro grave: a reação foi de cautela editorial, não de alarme doutrinário. Combinando o uso idiomático de "epi" com essa flutuação de nomes já presente no próprio Antigo Testamento, a explicação mais sólida é que Marcos identificou o episódio pelo sacerdote mais célebre da linhagem, um recurso de datação, não um erro de fato sobre quem estendeu o pão a Davi naquele dia em Nobe.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Esse erro de nome prova que os evangelhos foram escritos de memória, muito tempo depois, sem cuidado com os fatos, e por isso não merecem confiança.
A expressão grega usada por Marcos segue um padrão de datação idiomático, atestado em outros textos do Novo Testamento (, ), que nomeia períodos pela figura mais associada a eles, sem afirmar cargo exato em cada instante. Um detalhe tão específico e verificável — o nome de um sacerdote secundário de uma narrativa do Antigo Testamento — é justamente o tipo de dado que um autor descuidado tenderia a omitir, não a incluir.
Dizem que:Aimeleque e Abiatar eram a mesma pessoa, apenas com dois nomes diferentes.
afirma explicitamente que Abiatar era filho de Aimeleque — são duas pessoas distintas, pai e filho, e essa relação de parentesco é mencionada de forma clara dentro do próprio Antigo Testamento.
No original4 termos
ἐπὶepiG1909
Preposição que aqui funciona como marcador temporal, "no tempo de, nos dias de" — mesmo uso de e , não implica necessariamente ocupação exata do cargo naquele instante.
ἈβιάθαρAbiathar
Nome próprio, forma grega do hebraico Ebiatar; sacerdote, filho de Aimeleque, que se tornou sumo sacerdote de Davi após a morte do pai.
ἀρχιερέωςarchiereōsG749
Genitivo de archiereus, "sumo sacerdote" — o cargo máximo da hierarquia sacerdotal levítica.
ἄρτους τῆς προθέσεωςartous tēs protheseōsG740 / G4286
"Pães da proposição": os doze pães consagrados, trocados semanalmente e postos diante do Senhor no santuário, reservados normalmente só aos sacerdotes ().
O que fazer com isso
Um detalhe assim incomoda porque parece pequeno demais para ter explicação — e é justamente aí que vale desacelerar antes de concluir algo. A mesma pergunta que soa como acusação ("a Bíblia errou aqui") também pode ser tratada como convite a entender melhor como aquele texto foi escrito, com que convenções e para quem. Não é preciso resolver toda dúvida no mesmo dia; dá para guardar a pergunta, continuar lendo, e voltar a ela com mais calma e mais informação depois.
Passagens relacionadas8
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Fontes consultadas4 obras
- R.T. France. The Gospel of Mark: A Commentary on the Greek Text (NIGTC), 2002.
- William L. Lane. The Gospel of Mark (NICNT), 1974.
- C.F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament: 1 Samuel, 1875.
- Frederick William Danker (ed.). A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Aimeleque e Abiatar eram parentes?
Sim, eram pai e filho. Aimeleque era o sacerdote em Nobe quando Davi pediu pão; depois que Saul mandou matar Aimeleque e sua família sacerdotal, o filho Abiatar escapou e se tornou sacerdote de Davi pelo resto do reinado.
Existem manuscritos gregos que não têm a expressão sobre Abiatar?
Sim, alguns manuscritos antigos do Novo Testamento omitem a frase "quando Abiatar era sumo sacerdote", o que mostra que copistas notaram a dificuldade. Ainda assim, a maioria dos manuscritos manteve a expressão, e ela é considerada parte do texto original de Marcos.
Isso quer dizer que a Bíblia tem um erro histórico?
Não é isso que a maioria dos comentaristas conclui. A construção grega usada por Marcos é um recurso normal de datação por época, não uma afirmação de que Abiatar já ocupava o cargo naquele dia específico.
Por que Jesus citou esse episódio para justificar colher espigas no sábado?
Porque o caso de Davi mostra um precedente bíblico em que a necessidade humana levou até um sacerdote a flexibilizar uma regra ritual sem que isso fosse condenado. Jesus usa esse exemplo para argumentar que o sábado serve ao ser humano, não o contrário.
Temas
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