Pular para o conteúdo
Significado Bíblico
Estudo completoPara uma classe55 minintermediária

Traduções da Bíblia: como o texto chegou ao português

como escolher uma tradução da bíblia

Resposta curta

A Bíblia que está na sua mão é o resultado de uma cadeia longa e conhecida: manuscritos hebraicos e gregos copiados à mão por séculos, uma tradução grega do Antigo Testamento anterior a Cristo, o latim de Jerônimo, as Bíblias em língua do povo da Reforma e, por fim, as versões em português, de Almeida e Figueiredo à NAA, à NVI e à Bíblia de Jerusalém. Cada elo envolveu escolhas: qual manuscrito seguir, quanto manter da forma do original, quando esclarecer um sentido. Este estudo percorre essa cadeia em seis partes, apresenta os versículos que diferem entre as edições, como o final de Marcos e , e dá critérios práticos para escolher uma tradução sem tomar partido onde estudiosos sérios ainda divergem.

Em palavras simples

A Bíblia foi escrita em hebraico, aramaico e grego e chegou até nós em cópias feitas à mão. Os originais se perderam, mas há milhares de cópias, e os estudiosos as comparam para chegar ao texto mais provável. Depois vieram as traduções: para o grego, para o latim e, na Reforma, para as línguas do povo. Em português, as mais conhecidas são a Almeida, a Figueiredo, a NVI, a NTLH e a Bíblia de Jerusalém. Algumas seguem as palavras do original de perto, outras priorizam a clareza. Poucos versículos mudam entre as edições, e as notas avisam.

Antes de começar

Quase tudo o que se diz sobre traduções depende de uma distinção entre texto e tradução. O texto é o que os manuscritos preservam, em hebraico, em aramaico e em grego. A tradução é o que alguém decide fazer com ele em outra língua. As duas etapas têm problemas diferentes e merecem ser discutidas separadamente, porque a confusão entre elas está na origem de boa parte das brigas sobre qual Bíblia é a certa.

No Antigo Testamento, o texto-base é o massorético, fixado por estudiosos judeus na Idade Média e conservado em códices como o de Leningrado, de 1008 ou 1009. A descoberta dos rolos do Mar Morto, a partir de 1947, trouxe cópias muito mais antigas, que em geral confirmam a fidelidade da transmissão, mas também mostram variantes. A Septuaginta, a tradução grega feita por judeus de Alexandria a partir do século III a.C., funciona como testemunha paralela do texto hebraico e foi a Bíblia de muitos autores do Novo Testamento.

No Novo Testamento, o problema é de abundância: mais de cinco mil manuscritos gregos, nenhum idêntico a outro. A crítica textual compara essas cópias para chegar à leitura mais provável, e os resultados aparecem em edições como o Nestle-Aland. A tradição do Textus Receptus, ligada à edição de Erasmo de 1516, segue outro caminho e continua sendo usada por parte das igrejas.

A tradução propriamente dita é uma história de línguas. O latim de Jerônimo, a Vulgata, dominou o Ocidente. A Reforma defendeu que o povo lesse na própria língua, com Tyndale e Lutero como figuras centrais. Em português, a linha de Almeida, de 1681, e a de Figueiredo, do século XVIII, abriram dois caminhos, o protestante e o católico, que hoje convergem em parte em edições ecumênicas como a TEB. Em tudo isso, o ponto de partida é o mesmo: toda tradução interpreta, e a pergunta honesta é como ela diz o que fez.

As partes do estudo

  1. 1.O que existe e o que se perdeu

    Nenhum original assinado por Moisés, Isaías ou Paulo chegou até nós. O que temos são cópias de cópias, feitas à mão durante séculos, e toda tradução da Bíblia começa por uma decisão que raramente aparece na capa: de qual cópia, ou de qual combinação de cópias, o tradutor parte. Isso não é motivo de alarme, mas é o ponto de partida honesto de qualquer conversa sobre traduções.

    Para o Antigo Testamento, a base de quase todas as traduções modernas é o texto massorético. Os massoretas eram estudiosos judeus, ativos em lugares como Tiberíades entre mais ou menos os séculos VI e X, que fixaram o texto consonantal hebraico e acrescentaram vogais, acentos e notas marginais para que ele não se alterasse mais. Os manuscritos mais conhecidos dessa tradição são o Códice de Alepo, do início do século X, e o Códice de Leningrado, de 1008 ou 1009, que serve de base às edições críticas usadas hoje. Por muito tempo, esses códices eram os manuscritos hebraicos completos mais antigos que se possuía.

    A situação mudou a partir de 1947, com a descoberta dos rolos do Mar Morto nas cavernas próximas a Qumran. Entre os fragmentos há cópias, ou partes, de praticamente todos os livros do Antigo Testamento hebraico, com Ester como ausência frequentemente notada, copiadas entre uns dois e três séculos antes de Cristo e o primeiro século depois. O resultado foi duplo. De um lado, em muitos trechos o texto de Qumran é muito próximo do massorético, o que mostra uma transmissão cuidadosa ao longo de mais de mil anos. De outro, em alguns livros aparecem formas do texto diferentes, algumas coincidindo com o que a tradução grega pressupõe e outras com o Pentateuco preservado pela comunidade samaritana. Os especialistas discutem o que isso significa: se havia vários textos coexistindo e legítimos, ou uma forma dominante cercada de variantes. Quem apresenta a questão como encerrada em qualquer direção está simplificando.

    Na prática, isso significa que, para o Antigo Testamento, o tradutor tem um texto-base estável e, em passagens pontuais, precisa decidir se corrige uma leitura difícil com ajuda de Qumran, da Septuaginta ou de outras versões antigas. Edições diferentes decidem de modo diferente, e as notas de rodapé de uma Bíblia costumam registrar essas escolhas. Quem nunca leu essas notas tem uma ideia incompleta do trabalho que existe por trás de cada versículo.

    Para conversar

    • O que muda, para você, saber que a Bíblia chegou por cópias e não por originais? A palavra que aparece é alívio, desconfiança ou outra?
    • Se os manuscritos de Qumran mostram textos ligeiramente diferentes circulando ao mesmo tempo, como você descreveria a ideia de um texto autorizado sem recorrer a uma única versão?
    • Que critérios você consideraria justos para um tradutor escolher entre duas leituras hebraicas antigas quando elas não coincidem?
  2. 2.A Septuaginta e o texto grego do Novo Testamento

    Séculos antes de o Novo Testamento ser escrito, judeus que viviam em Alexandria, no Egito, e falavam grego no dia a dia traduziram suas Escrituras para essa língua. A tradição, contada na chamada Carta de Aristeias, atribui o trabalho a setenta ou setenta e dois sábios, e daí vem o nome Septuaginta, representada pelo número LXX. Os historiadores consideram a história embelezada, mas aceitam que o Pentateuco foi vertido no século III a.C. e que os demais livros vieram nas gerações seguintes, por mãos diferentes e com critérios diferentes de fidelidade.

    A Septuaginta importa por dois motivos. O primeiro é que ela era a Bíblia de grande parte dos primeiros cristãos de língua grega, e os autores do Novo Testamento muitas vezes citam formas próximas dela. Hebreus 10:5, por exemplo, cita o Salmo 40 com a frase 'um corpo me preparaste', enquanto o texto massorético do salmo fala de ouvidos abertos. O segundo é que a Septuaginta inclui livros ausentes da Bíblia hebraica, como Tobias, Judite e Sabedoria. Católicos e ortodoxos os recebem como Escritura; os protestantes, em geral, não. Essa divisão é uma das razões pelas quais duas Bíblias em português podem ter índices diferentes.

    Para o Novo Testamento, o material é muito maior: mais de cinco mil manuscritos gregos, além de versões antigas em latim, copta e siríaco e de citações dos autores cristãos antigos. Os papiros mais antigos são fragmentos do segundo e do terceiro século. Os grandes códices em pergaminho, como o Sinaítico e o Vaticano, são do século IV. Com tantos testemunhos, as diferenças entre eles se contam aos milhares, a maior parte delas ortografia e ordem de palavras sem consequência para o sentido.

    Duas famílias de edições dominam a conversa. O chamado Textus Receptus, expressão que vem de um prefácio de 1633, descende da edição do Novo Testamento grego publicada por Erasmo em 1516, preparada com poucos manuscritos tardios, e das revisões que a seguiram. O texto crítico, que se firmou a partir da edição de Westcott e Hort de 1881 e hoje aparece no Nestle-Aland e na edição das Sociedades Bíblicas Unidas, dá mais peso a testemunhos antigos e a regras de comparação. Há ainda quem defenda o texto majoritário, o das cópias mais numerosas, argumentando que a continuidade de uso conta como evidência. É uma divergência real entre estudiosos sérios, não um confronto entre fé e descrença.

    Para conversar

    • A Septuaginta era a Bíblia de muitos cristãos do primeiro século. Isso muda a forma como você pensa em 'a Bíblia original'?
    • Por que você acha que católicos, ortodoxos e protestantes chegaram a listas diferentes de livros, e o que cada uma dessas decisões afirma sobre autoridade?
    • Entre a antiguidade de um manuscrito e o número de cópias que o seguem, qual critério lhe parece mais sólido para estabelecer um texto, e por quê?
  3. 3.Latim, línguas do povo e a disputa por traduzir

    Quando o cristianismo se espalhou pelo Ocidente, o grego deixou de ser a língua comum e o latim tomou o lugar. Por volta do final do século IV, Jerônimo recebeu a tarefa de revisar as traduções latinas existentes, que variavam muito entre si. No Antigo Testamento ele foi além da revisão e passou a traduzir diretamente do hebraico, consultando rabinos, o que na época provocou resistência: havia quem preferisse a Septuaginta, que considerava inspirada, e olhasse com suspeita um tradutor que a deixava de lado. O conjunto, que no fim do período medieval passou a ser chamado de Vulgata, a versão comum, foi a Bíblia da Igreja ocidental por mais de mil anos. No Concílio de Trento, em 1546, a Igreja Católica declarou a Vulgata autêntica para o uso público, sem dizer com isso que ela substituía os originais.

    O problema aparece quando o latim deixa de ser entendido pelo povo. Quem controlava a língua da Bíblia controlava a leitura da Bíblia, e foi essa relação que a Reforma contestou. John Wycliffe, na Inglaterra do século XIV, inspirou uma tradução inglesa feita a partir da Vulgata. William Tyndale, no século XVI, foi além e traduziu o Novo Testamento a partir do grego, publicado em 1526. Foi perseguido por isso e acabou executado em 1536, na região que hoje é a Bélgica. Mais de setenta anos depois, a Bíblia do rei Jaime, de 1611, aproveitou grande parte do que ele havia feito.

    Na Alemanha, Martinho Lutero traduziu o Novo Testamento em 1522, durante o período em que esteve protegido no castelo de Wartburg, e publicou a Bíblia completa em 1534. A tradução teve peso na própria língua alemã, mas também foi acusada de reflexo doutrinário. Em Romanos 3:28, Lutero escreveu que o ser humano é justificado 'somente' pela fé, palavra que o grego não traz. Em 1530 ele defendeu a escolha numa carta sobre a arte de traduzir, argumentando que o alemão natural exigia a palavra. Seus críticos viram aí a teologia entrando pela tradução.

    O episódio ilustra algo que vale para todas as épocas: traduzir é interpretar, e todas as tradições, inclusive a que se acha neutra, deixam marcas. A diferença entre uma tradução honesta e uma tendenciosa não está em ter ou não ter posição, mas em dizer o que fez e deixar o leitor conferir.

    Para conversar

    • Lutero acrescentou uma palavra que o grego não tem para tornar o sentido claro em alemão. Quando uma tradução esclarece demais, e quando esclarece de menos?
    • Por que a língua em que a Bíblia circula pode ser uma questão de poder, e não só de comunicação? Há exemplos de hoje?
    • O que você acha da decisão de uma tradição de declarar uma tradução 'autêntica' para uso público, sem excluir o estudo dos originais?
  4. 4.O caminho até o português

    As primeiras partes da Bíblia em português circularam de forma fragmentária na Idade Média, mas a história que importa ao leitor brasileiro de hoje começa em dois pontos opostos do mapa cristão. Em 1681, em Amsterdã, saiu o Novo Testamento de João Ferreira de Almeida, português que se tornou pastor reformado e trabalhou nas regiões da Ásia onde holandeses e portugueses disputavam espaço. Almeida morreu antes de concluir o Antigo Testamento, e a obra foi completada por outros ao longo do século XVIII. Foi a primeira grande Bíblia em português de tradição protestante e a base de uma longa linhagem de revisões.

    Do lado católico, o padre Antônio Pereira de Figueiredo traduziu a Bíblia no final do século XVIII, publicando-a em partes. O trabalho partiu da Vulgata, de acordo com a prática da época, e se tornou a referência católica em português por muito tempo, antes de a Igreja incentivar o retorno aos originais.

    A família Almeida se ramificou. A Almeida Revista e Corrigida, a ARC, é a revisão que se consolidou no fim do século XIX e ainda é a mais difundida em muitas igrejas brasileiras, com vocabulário que soa antigo e boa parte do Novo Testamento baseada na tradição do Textus Receptus. A Almeida Revista e Atualizada, a ARA, publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil em 1959, atualizou a linguagem e se apoiou em edições críticas. A Nova Almeida Atualizada, a NAA, de 2017, é uma revisão ainda mais recente dessa linha.

    Fora dessa linha estão traduções feitas em equipe a partir dos originais. A Nova Versão Internacional, a NVI, surgiu no começo dos anos 2000 por iniciativa de editoras e entidades evangélicas, com tradutores de várias denominações. A Nova Tradução na Linguagem de Hoje, a NTLH, pertence à Sociedade Bíblica do Brasil e tem como objetivo ser compreensível para quem lê pouco. Do lado católico e ecumênico há a Bíblia de Jerusalém, edição brasileira de uma obra francesa nascida na Escola Bíblica de Jerusalém, conhecida pelas notas extensas, e a Tradução Ecumênica da Bíblia, a TEB, feita por equipes de católicos e protestantes. Há ainda a Bíblia da CNBB, a Pastoral e outras. Nenhuma dessas é a Bíblia 'certa'. Cada uma decidiu de modo consciente quem seria seu leitor, e isso explica as diferenças mais do que qualquer disputa de fidelidade.

    Para conversar

    • Se você cresceu com uma tradução específica, como ela moldou o jeito de você ouvir certas passagens? Ouvir outra o incomoda?
    • Por que linhagens diferentes de revisão, como a da família Almeida, podem parecer aliadas e rivais ao mesmo tempo?
    • Como você avaliaria uma tradução produzida por uma equipe de várias denominações, em comparação com outra feita dentro de uma única tradição?
    • Que perguntas valeria fazer à editora de uma Bíblia antes de adotá-la como a principal da sua igreja ou do seu grupo?
  5. 5.Literal ou dinâmica: o que significa ser fiel

    Quem compara duas traduções logo percebe que a diferença raramente está em doutrinas, e quase sempre em um tipo de escolha que acompanha todo tradutor: manter a forma do original ou transmitir o sentido na forma natural da língua de chegada. Os especialistas falam em equivalência formal e equivalência dinâmica ou funcional, termos popularizados por Eugene Nida a partir dos anos 1960. É um espectro, não uma divisão em dois campos. A ARC e a ARA ficam mais perto do polo formal; a NVI e a NAA ocupam o meio; a NTLH está mais próxima do polo dinâmico. Ninguém traduz em um extremo puro, porque a tradução palavra por palavra de uma língua para outra costuma produzir frases que ninguém fala.

    Cada polo tem ganhos e perdas reais. A tradução formal deixa visíveis a estrutura, as repetições e os jogos de palavras do original, o que ajuda o estudo atento, mas pode soar estranha e exigir notas para ser entendida. A tradução dinâmica é fácil de ler em voz alta e atinge quem não tem familiaridade com a Bíblia, mas o tradutor precisa decidir por conta própria o que uma expressão significa, e essa decisão pode fechar possibilidades que o original deixava abertas. Em Isaías 7:14, o hebraico usa uma palavra que designa uma moça em idade de casar, enquanto a Septuaginta usa um termo grego mais próximo de 'virgem', e Mateus 1:23 cita essa forma. Cada tradução precisa escolher uma palavra e, por isso, muitas colocam a outra em nota.

    Há ainda o fator da finalidade. Uma tradução feita para leitura pública em liturgia prioriza o ouvido. Uma feita para estudo prioriza a transparência. Uma pensada para quem está aprendendo português ou nunca abriu uma Bíblia prioriza vocabulário simples. Julgar todas pelo mesmo critério é injusto com algumas e favorece outras sem dizer por quê.

    Por isso a afirmação de que a tradução literal é a mais fiel merece cuidado. Fiel a quê? Ao léxico, à sintaxe, ao efeito sobre o primeiro ouvinte? A palavra 'fiel' precisa ser definida antes de ser usada como argumento. Uma tradução muito literal pode ser infiel ao sentido de uma expressão idiomática, e uma muito livre pode ser infiel ao que o texto deixou em aberto. O melhor uso dessa distinção é prático: saber em que ponto do espectro está cada tradução que você abre.

    Para conversar

    • Para o que você costuma usar a Bíblia: leitura em voz alta, estudo, devoção pessoal, ensino de crianças? Isso muda a tradução que lhe parece melhor?
    • Em que situação você preferiria uma nota explicando uma ambiguidade em vez de uma tradução que escolhe por você?
    • Quando alguém diz que uma tradução é 'mais fiel', o que a pessoa realmente quer dizer? Há outras palavras que expressariam isso melhor?
  6. 6.Variantes, notas de rodapé e como escolher

    Chega, enfim, o ponto que mais gera ansiedade: os versículos que aparecem numa Bíblia e somem de outra. São poucos, e vale conhecê-los pelo nome. O final de Marcos, os versículos 9 a 20 do capítulo 16, falta em alguns dos manuscritos gregos mais antigos, e outros trazem um final mais curto. Algumas traduções o colocam entre colchetes ou em nota. A passagem da mulher apanhada em adultério, em João 7:53 a 8:11, também está ausente de grande parte dos manuscritos antigos e aparece, em outros, em lugares diferentes, até em Lucas. E o trecho de 1 João 5:7, sobre o Pai, o Verbo e o Espírito Santo no céu, a chamada vírgula joanina, não consta dos manuscritos gregos mais antigos e entrou na tradição principalmente por via latina. A ARC o mantém, enquanto a maioria das traduções posteriores o retira do texto ou o relega a nota. Os defensores do Textus Receptus enxergam nisso corte indevido; os do texto crítico, restauração. A discussão sobre o que cada grupo entende por 'original' continua.

    Convém manter a proporção. A imensa maioria das diferenças entre manuscritos não afeta nada que um leitor perceba, e as que afetam estão em geral sinalizadas. Quanto à doutrina da Trindade, por exemplo, ela já tem seu estudo próprio neste acervo, e a questão aqui é só que ela não depende de um único versículo contestado.

    Para escolher uma tradução, algumas perguntas ajudam mais do que um ranking. Qual é a finalidade? Quem vai ler? A edição traz notas honestas sobre variantes e sobre palavras difíceis? Quem a produziu e a partir de qual texto? Para estudo, o hábito mais valioso é ler dois ou três pontos do espectro lado a lado, uma formal e outra dinâmica, por exemplo, e prestar atenção onde elas divergem, porque é ali que o texto pede mais atenção. Para o culto ou a catequese, o fator comum importa: uma comunidade que lê a mesma tradução ganha uma memória compartilhada.

    Não há resposta única, e este estudo não finge que há. O que existe é uma escolha informada, que sabe de onde veio a tradução em mãos, que decisões ela tomou e o que as outras decidiram de forma diferente.

    Para conversar

    • Quando você descobre que um trecho conhecido está em dúvida nos manuscritos, o que faz com esse trecho em sua leitura e no ensino?
    • Que vantagem e que risco há em uma comunidade inteira ler sempre a mesma tradução?
    • Se você tivesse de orientar uma pessoa que acaba de comprar sua primeira Bíblia, que perguntas faria a ela antes de recomendar alguma?
    • Como separar a discussão sobre qual texto grego é o melhor da discussão sobre se a Bíblia é confiável? Elas são a mesma pergunta?

O que fica

  • Nenhum original chegou até nós: toda Bíblia parte de cópias, e tradução começa pela decisão de qual texto seguir.
  • Há dois textos-base, o massorético para o Antigo Testamento, confirmado em muitos pontos por Qumran, e o grego para o Novo, com mais de cinco mil manuscritos.
  • Traduzir é sempre interpretar, de Jerônimo e Lutero a Almeida; a diferença está em dizer o que se fez.
  • Literal e dinâmica são polos de um espectro, e a melhor tradução depende da finalidade.
  • Poucas variantes, como , :11 e , mudam entre edições, e comparar traduções e ler as notas resolve a maior parte das dúvidas.

Aprofundamento

A discussão mais viva sobre traduções hoje se concentra em três eixos que convém separar.

O primeiro é o texto grego do Novo Testamento. Há três posições reconhecíveis. A primeira defende o Textus Receptus, argumentando que a providência de Deus preservou o texto na prática da Igreja e que as edições impressas a partir de Erasmo refletem essa preservação. A segunda, a do texto crítico, adotada pela maior parte da academia e por muitas traduções, dá peso a testemunhos mais antigos e a critérios como a leitura mais difícil e a mais curta. A terceira defende o texto majoritário, ou bizantino, apelando à quantidade e à continuidade das cópias. As três concordam sobre a imensa maioria das palavras do Novo Testamento. Discordam em algumas centenas de passagens significativas, entre elas o final de Marcos, a passagem da mulher adúltera e .

O segundo eixo é o Antigo Testamento e a questão de qual forma do texto deve ser tratada como base. A Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas reconhecem como canônicos livros que o judaísmo e o protestantismo não incluem, e as ortodoxas dão à Septuaginta um lugar especial no culto. Para os protestantes, o cânon hebraico é o critério. A descoberta de Qumran obrigou todos a admitir que, em alguns trechos, o texto massorético não é o único testemunho antigo, e as traduções modernas variam na disposição de corrigi-lo.

O terceiro eixo é a filosofia de tradução. A literal, ou formal, valoriza a transparência do original e deixa ao leitor a tarefa de interpretar. A dinâmica, ou funcional, valoriza a compreensão imediata e assume parte da interpretação. As duas têm virtudes e limites, e quase nenhuma tradução vive em um extremo só. Há também uma terceira variável, a confessional: traduções produzidas por uma comunidade específica refletem sua teologia nas escolhas de vocabulário, como o debate em torno do 'somente' de Lutero em mostra com clareza.

Vale registrar um limite: nada disso permite dizer, com honestidade, que uma das posições seja a única possível para um cristão sério. Há estudiosos competentes e comprometidos com a fé em cada uma delas, e a tendência de transformar a escolha de uma edição em teste de ortodoxia costuma dizer mais sobre a comunidade que a faz do que sobre o texto.

Em nenhum dos três eixos a questão se resolve por regra mecânica. Por isso, a prática mais sólida de leitura é comparar, ler as notas e saber que decisões a edição em mãos tomou. Uma tradução usada com consciência dessas escolhas serve melhor do que uma defendida por lealdade.

O que costumam dizer errado

  • Dizem que:A Bíblia foi traduzida de tradução em tradução, como no jogo do telefone sem fio, e por isso já não se sabe o que dizia.

    As traduções modernas em português partem, em regra, dos textos hebraico, aramaico e grego, e não de traduções anteriores. A exceção histórica é a de Figueiredo, que seguiu a Vulgata, prática comum da época. Além disso, a transmissão dos manuscritos é bem documentada, e os rolos de Qumran confirmaram, em muitos trechos, a fidelidade de cópias bem posteriores.

  • Dizem que:As traduções modernas removeram versículos da Bíblia.

    O que ocorre é uma divergência sobre qual texto grego seguir. Versículos como ou o final longo de Marcos não constam dos manuscritos mais antigos e entraram em edições posteriores, e por isso muitas traduções os colocam em nota ou entre colchetes. Há quem discorde dessa avaliação, e a discussão é legítima, mas descrevê-la como remoção deliberada atribui má-fé onde há um debate de critérios.

  • Dizem que:A tradução mais literal é sempre a mais fiel ao original.

    Uma tradução palavra por palavra pode preservar a forma e perder o sentido, sobretudo em expressões idiomáticas, e uma tradução livre pode fazer o contrário. Fidelidade depende do que se quer preservar: o vocabulário, a sintaxe ou o efeito sobre o leitor. Por isso especialistas descrevem um espectro, e não uma escala de pior a melhor.

  • Dizem que:Existe uma única tradução inspirada, e as demais são adulteradas.

    A afirmação de que uma versão específica seria a única inspirada não tem apoio nos próprios textos bíblicos, que aparecem citados em formas diferentes já no Novo Testamento, como no uso da Septuaginta em . As tradições que tratam uma tradução como particularmente autorizada, como a Igreja Católica com a Vulgata em Trento, o fazem para uso e não como exclusão dos originais.

Como diferentes tradições cristãs leem

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica

    A Vulgata foi declarada autêntica para o uso público pelo Concílio de Trento, em 1546, e foi a base de traduções como a de Figueiredo. A partir da encíclica Divino Afflante Spiritu (1943) e do Concílio Vaticano II, a Igreja incentiva traduções a partir dos originais, com notas e, de preferência, em cooperação ecumênica. Os livros deuterocanônicos fazem parte do cânon.

  • Ortodoxa

    A Septuaginta tem lugar de destaque como Antigo Testamento da Igreja grega, e nas igrejas de tradição bizantina o texto do Novo Testamento usado no culto tende a seguir a tradição majoritária. A Escritura é lida dentro da Tradição, e a tradução é vista como serviço à comunidade que celebra, mais do que como empreendimento acadêmico isolado.

  • Protestante histórica

    Defende a leitura da Bíblia na língua do povo e o retorno aos textos originais, com Lutero, Tyndale e Almeida como figuras representativas. O princípio de que a Escritura deve ser acessível a todos levou a uma longa história de traduções e revisões, e o cânon segue a Bíblia hebraica para o Antigo Testamento.

  • Defensores do Textus Receptus

    Presente entre parte dos batistas, dos reformados conservadores e das igrejas que usam a ARC, essa posição sustenta que a Igreja preservou o texto grego recebido e que as edições críticas modernas dão peso excessivo a poucos manuscritos antigos. A ARC é, por isso, valorizada como tradução baseada nessa linhagem.

  • Evangélica de texto crítico

    Muitos evangélicos, inclusive os que produziram a NVI e a ARA, aceitam o método da crítica textual e o uso de manuscritos antigos, tratando as variantes como questão técnica que não ameaça a confiança nas Escrituras. As diferenças relevantes são registradas em notas de rodapé.

O que fazer com isso

Na próxima vez que um versículo soar estranho, diferente do que você aprendeu, ou simplesmente faltar na sua Bíblia, abra duas outras traduções e a nota de rodapé antes de concluir qualquer coisa. Anote onde elas divergem e por quê: se é uma palavra, uma ordem, uma variante entre manuscritos. Em geral a diferença se explica em poucos minutos, e o hábito de conferir é mais útil do que escolher uma tradução vencedora.

Perguntas frequentes

Qual é a melhor tradução da Bíblia em português?
Não há uma resposta única, porque depende do uso. Para estudo, vale comparar uma tradução mais formal, como a ARA ou a NAA, com uma intermediária, como a NVI, e consultar as notas. Para leitura inicial, a NTLH é a mais acessível. Para quem quer notas extensas, a Bíblia de Jerusalém é referência.
Por que a minha Bíblia não tem um versículo que existe na do meu pastor?
Provavelmente por uma diferença de texto grego. Alguns versículos, como , não constam dos manuscritos mais antigos e são omitidos ou colocados em nota por traduções que seguem o texto crítico, enquanto a ARC os mantém. Consultar a nota de rodapé costuma esclarecer.
A ARC é a mais correta por ser a mais antiga?
Ela é uma revisão da linha de Almeida e segue em boa parte a tradição do Textus Receptus. É valorizada pela linguagem e pelo uso em muitas igrejas, mas a sua base textual é questionada por defensores do texto crítico. Mais antiga não significa mais próxima do original.
Os livros deuterocanônicos fazem parte da Bíblia?
Depende da tradição. Católicos e ortodoxos os recebem como canônicos, e protestantes, em geral, não. Eles aparecem na Septuaginta, mas não no cânon hebraico. Bíblias católicas, como a de Jerusalém, os incluem, e muitas protestantes não.

Fontes consultadas

  • Bruce M. Metzger e Bart D. Ehrman. The Text of the New Testament: Its Transmission, Corruption, and Restoration, 2005.
  • Bruce M. Metzger. A Textual Commentary on the Greek New Testament, 1971.
  • Emanuel Tov. Textual Criticism of the Hebrew Bible, 1992.
  • Eugene A. Nida. Toward a Science of Translating, 1964.
  • Martinho Lutero. Carta aberta sobre a tradução (Sendbrief vom Dolmetschen), 1530.
  • Concílio de Trento. Decreto sobre as edições e o uso dos livros sagrados, 1546.
  • Gordon D. Fee e Douglas Stuart. Entendes o que lês?, 1982.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Temas

Publicado em 06/11/2026

Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 7 obras citadas, com autor e ano
  • 4 afirmações populares checadas e refutadas
  • 5 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

Sem devocional, sem corrente e sem promoção. Só o verbete da semana, com o contexto que normalmente fica de fora. Todo e-mail leva um link para sair, e sair é imediato.