Amor: o que a Bíblia chama de amar
o que a bíblia diz sobre o amor
Resposta curta
Amor é a palavra mais usada e uma das menos examinadas da fé cristã. Em português ela recobre o que o hebraico distribui entre ahavah e hesed e o grego entre agapē e philia, e o leitor que ignora isso tende a ler a Bíblia com a régua do sentimento. Este estudo mostra que, nos textos, o amor aparece primeiro como lealdade ativa e mandamento, depois como característica de Deus que convive com justiça e ira, e então como prática descrita em João, em e no Cântico dos Cânticos. Percorre seis partes, do vocabulário ao amor aos inimigos, mostra onde as tradições cristãs divergem e adverte contra a tabela dos 'quatro amores' usada como se fosse léxico.
Em palavras simples
Na Bíblia, amar é antes de tudo agir com lealdade e cuidado, e só depois sentir. Deus ordena o amor a ele e ao próximo, mas o texto diz que esse mandamento vem de um amor que o precede. Esse amor de Deus convive com justiça e com ira diante do mal, e as tradições cristãs explicam essa convivência de maneiras diferentes. Jesus mostra o amor lavando pés e dando a vida, Paulo o descreve em e pede amor até aos inimigos. A tabela dos 'quatro amores' não funciona como dicionário da Bíblia.
Antes de começar
O vocabulário bíblico do amor vem de dois idiomas. No hebraico, אהבה (ahavah) é o termo geral: serve para o afeto entre pais e filhos, entre noivos, para a preferência por um alimento e para a relação de Deus com o povo. Ao lado dele está חסד (hesed), que as traduções vertem por misericórdia, benignidade ou amor leal. A palavra supõe uma relação já existente e descreve a fidelidade com que uma das partes a sustenta, mesmo quando a outra falha. Sobre o hesed, o estudo clássico é o de Katharine Doob Sakenfeld, que o liga a ajuda concreta numa relação com obrigações.
No grego do Novo Testamento, o termo mais frequente é ἀγάπη (agapē), com o verbo ἀγαπάω, enquanto φιλέω (phileō) e φιλία (philia) designam o afeto entre amigos e familiares. A Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, usa agapē e agapaō para traduzir ahavah, inclusive no Cântico dos Cânticos e em histórias que nada têm de sagrado, como a de Amnon e Tamar em . Isso desfaz a ideia de que a palavra, por si, indicaria um amor 'divino'. O significado vem do contexto, e foi o contexto cristão que o enriqueceu.
O mundo de fundo importa. A aliança de Deuteronômio tem a forma dos tratados em que um rei poderoso estabelecia lealdade com vassalos, e nesses tratados 'amar' era vocabulário de fidelidade política. Esse pano de fundo explica por que o amor pode ser mandado: não pede um estado emocional, pede lealdade exclusiva. Isso não esvazia o afeto, mas muda a ordem das coisas: a lealdade vem primeiro e o sentimento, quando vem, a acompanha.
Duas leituras populares precisam de reserva. A primeira é a tabela dos quatro amores, popularizada por C. S. Lewis em reflexão pastoral e muitas vezes tomada como análise lexical; D. A. Carson usa a mesma crítica sobre o erro de extrair doutrina de uma palavra isolada. A segunda é a oposição radical entre agapē e erōs, defendida por Anders Nygren no século XX, que muitos autores consideram esquemática demais para dar conta do Cântico dos Cânticos e da tradição cristã que o leu como alegoria do amor entre Deus e a alma.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO Novo Testamento não define o amor de Deus por um conceito, mas por uma pessoa e por um ato. diz que Jesus amou os seus até o fim, e situa o amor no envio do Filho como propiciação. Aquilo que pediu em forma de lealdade e pediu em forma de conduta, o Novo Testamento afirma que Cristo cumpriu e que passa a ser o padrão do amor entre os seus: 'como eu vos amei'.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.Palavras que traduzimos por amor
Quem pergunta o que a Bíblia diz sobre o amor costuma esperar uma resposta de sentimento. A Bíblia, em geral, responde com verbos de compromisso. Antes de qualquer tese, vale ver de que palavras se está falando, porque o português usa 'amor' para o que o hebraico e o grego distribuem por vários vocábulos, e o leitor que não sabe disso lê o texto com a régua errada.
No hebraico, a palavra mais comum é אהבה (ahavah), que cobre o amor de um pai pelo filho, de um homem por uma mulher, de alguém por comida saborosa e de Deus por seu povo. Ao lado dela está חסד (hesed), termo difícil de traduzir: fidelidade em uma relação já estabelecida, bondade que cumpre o que a aliança prometeu. As traduções oscilam entre 'misericórdia', 'benignidade' e 'amor leal', e nenhuma das três dá conta sozinha. No grego do Novo Testamento aparecem ἀγάπη (agapē), com o verbo ἀγαπάω, e φιλία (philia), com o verbo φιλέω, que fala de afeto entre amigos e familiares. A palavra ἔρως (erōs) não ocorre no Novo Testamento.
Aqui entra um cuidado. Circula muito a tabela dos 'quatro amores', em que ágape seria o amor divino e incondicional, filia o amor de amigos, eros o amor erótico e estorge o amor familiar. C. S. Lewis escreveu um livro conhecido com esse esquema, mas como reflexão, não como léxico bíblico. Como tabela de vocabulário ela falha: a Septuaginta usa ἀγάπη para o amor de Amnon por Tamar em 2 Samuel 13, e em João 21:15-17 os dois verbos se alternam numa conversa em que a maioria dos estudiosos não vê diferença de nível. A significação de uma palavra vem do uso na frase, não da lista.
O que a Bíblia faz, então, é apresentar o amor menos como emoção e mais como lealdade ativa. Isso não elimina o afeto. Jacó trabalha anos por Raquel e os anos lhe parecem poucos dias, em Gênesis 29:20. Mas o texto raramente se interessa em medir o afeto e quase sempre se interessa em dizer o que o amor faz, a quem, e a que custo.
Este estudo segue essa pista. Começa pelo mandamento de amar, passa pelo amor de Deus e pelo que ele tem a ver com justiça e ira, olha o amor encarnado nos capítulos de João, descreve-o em 1 Coríntios 13 e no Cântico dos Cânticos e termina na exigência mais difícil, amar quem não retribui.
Para conversar
- Que imagem de 'amor' você trazia antes de ler este texto, e o que nela veio mais da cultura do que da Bíblia?
- Se agapē e philia aparecem lado a lado em João, o que se perde quando alguém usa a tabela dos 'quatro amores' para decidir o sentido de uma palavra?
- Em que situações amar como lealdade ativa é diferente de amar como sentimento, e onde as duas coisas se encontram?
2.O amor que se manda
A primeira surpresa é que o amor, na Bíblia, aparece como mandamento. Deuteronômio 6:5 diz: 'Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças'. É a primeira metade do Shemá, que a tradição judaica recita até hoje. Levítico 19:18 completa: 'amarás o teu próximo como a ti mesmo'. Jesus, em Mateus 22:37-40, junta os dois textos e diz que deles dependem a Lei e os Profetas.
Um sentimento não se manda, e por isso muitos leitores concluem que 'amar' aqui só pode ser algo mais do que sentir. O contexto confirma. Deuteronômio tem a forma de um tratado de aliança, e nos tratados do antigo Oriente Próximo 'amar' o suserano era vocabulário de lealdade: servir, obedecer, não trocar de senhor. Por isso o versículo seguinte de Deuteronômio 6 fala de guardar as palavras no coração e ensiná-las aos filhos. Quem sustenta a leitura puramente afetiva precisa explicar por que o texto passa tão rápido do verbo 'amar' para os verbos da prática. Também seria exagero dizer que o afeto está excluído: o mesmo livro fala de um Deus que 'se afeiçoou' ao povo, e a lealdade sem calor tem pouco de amor.
Levítico 19:18 pede atenção ao contexto imediato. O versículo está dentro de um bloco que trata de colheita deixada para o pobre, salário pago no dia, justiça no tribunal e proibição de vingança. O amor ao próximo, ali, é um regime de conduta concreta. E o próximo não é só o parente: Levítico 19:34 estende o mesmo verbo ao estrangeiro que mora na terra, com o argumento de que Israel também foi estrangeiro no Egito.
Há uma discussão antiga sobre a expressão 'como a ti mesmo'. Alguns leem como ordem de ter amor-próprio antes de amar o outro; outros, como Agostinho, entendem que o texto apenas constata que todo mundo já cuida de si e pede o mesmo cuidado para o outro. O texto não decide, e a segunda leitura tem a vantagem de não precisar de uma doutrina da autoestima que o verso nunca enuncia.
Quando um especialista pergunta 'quem é o meu próximo?', em Lucas 10:25-37, Jesus responde com uma parábola que inverte a pergunta: não define quem merece ser amado, mostra quem agiu como próximo. Dentro deste primeiro nível, então, o amor bíblico é mandado, prático e sem lista prévia de quem entra.
Para conversar
- Se amor pode ser mandado, o que isso diz sobre a diferença entre amar e sentir? Alguém discordaria?
- Quem hoje corresponderia ao estrangeiro de na sua comunidade, e o que o texto pediria de vocês?
- Em , Jesus responde a uma pergunta sobre quem é o próximo com uma pergunta sobre quem agiu como próximo. O que muda com essa troca?
3.O amor de Deus, a justiça e a ira
Se o amor humano é mandado, de onde vem o mandamento? A Bíblia responde apontando para o amor que o precede. Deuteronômio 7:7-8 diz que Deus não escolheu Israel por ser numeroso, mas porque o amou e quis guardar o juramento feito aos antepassados. Em Êxodo 34:6-7, a autodescrição que Deus faz de si diante de Moisés começa com compaixão, graça, paciência e abundância de hesed, e na mesma frase afirma que ele não inocenta o culpado. O amor de Deus e a seriedade de Deus aparecem juntos desde o começo.
Oseias 11 é talvez o retrato mais íntimo do Antigo Testamento: um Deus que ensinou Efraim a andar, tomou-o nos braços e agora hesita diante do juízo. 'Como te deixaria, Efraim?' (Oseias 11:8). O texto mostra um amor que sofre com aquilo que precisa julgar. No Novo Testamento, João 3:16 liga o amor ao dar, Romanos 5:8 o liga à iniciativa antes do mérito, e 1 João 4:8 e 4:16 afirmam que 'Deus é amor'. O contexto de 1 João diz que esse amor se vê no envio do Filho (1 João 4:9-10).
A parte incômoda é a ira. Os Salmos dizem que Deus aborrece o malfeitor (Salmo 5:5), Romanos 1:18 fala da ira revelada contra a injustiça, e em Romanos 9:13 Paulo cita Malaquias 1:2-3: 'Amei Jacó e odiei Esaú'. Muitos estudiosos lembram que, no hebraico antigo, 'odiar' em contraste com 'amar' pode indicar preferência ou escolha, não aversão emocional, como em Gênesis 29:30-31. Outros acham a explicação insuficiente para Malaquias, que fala de consequências concretas para Edom. A discussão continua aberta.
A pergunta de fundo é se amor e ira se opõem. Uma tradição, forte na teologia reformada e na obra de D. A. Carson, sustenta que a ira é a resposta do amor santo ao que destrói o amado. Outra, presente em vários autores ortodoxos e em parte da teologia católica, tende a falar da ira como linguagem humana para a experiência que o ser humano faz de Deus, e não como paixão divina. Ambas partem do mesmo dado: no texto bíblico a indiferença nunca é a alternativa ao amor.
Quanto à justiça, os textos não a apresentam como freio do amor. Os Salmos celebram um Deus que ama a justiça (Salmo 33:5). O amor que ignorasse o mal feito ao pobre não seria mais amoroso; seria desatento.
Para conversar
- coloca na mesma frase compaixão e juízo. Como você lê essa convivência, e que leitura das tradições mencionadas lhe parece mais convincente?
- Em , Deus hesita diante do juízo. O que esse texto sugere sobre como o amor e a justiça se relacionam?
- cita Malaquias sobre amar Jacó e 'odiar' Esaú. Que dificuldades uma leitura literal traz, e que dificuldades traz a leitura de preferência?
- O que muda quando se pensa que o contrário do amor é a indiferença, e não a ira?
4.O amor encarnado em João 13 a 15
Nos capítulos 13 a 17 de João, o amor deixa de ser tema e passa a ser cena. Tudo acontece na noite anterior à crucificação, e o evangelista abre assim: Jesus, 'tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim' (João 13:1). Em seguida ele se levanta da mesa, tira o manto e lava os pés dos discípulos, tarefa que ninguém de posição elevada faria.
Depois vem o 'mandamento novo': 'que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei' (João 13:34). A questão óbvia é em que sentido ele é novo, já que Levítico 19:18 existe. As respostas mais comuns apontam para o padrão, 'como eu vos amei', e para o alcance comunitário: o amor mútuo dos discípulos passa a ser o sinal de reconhecimento diante do mundo (13:35). Note-se também o limite: o mandamento fala do amor entre os discípulos, e muitos leitores se perguntam se João estreita aqui o círculo. A maioria das tradições responde que o amor aos de fora está assegurado por outros textos, inclusive o próprio Evangelho, e que João está descrevendo o ponto de partida da comunidade, não o seu teto.
Em João 15 aparece a imagem da videira. O amor do Pai pelo Filho é o modelo do amor do Filho pelos discípulos ('como o Pai me amou, também eu vos amei', 15:9), e permanecer nesse amor está ligado a guardar os mandamentos (15:10). A frase pode soar como condição, e há quem a leia assim. Outros observam que Jesus compara com o próprio caso: ele guardou os mandamentos do Pai e permanece no amor do Pai, sem que isso signifique que o amor do Pai fosse conquistado. Mais uma vez, o amor precede e a obediência acompanha.
João 15:13 dá a medida: 'Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a sua vida em favor dos seus amigos'. A palavra 'amigos' aqui é φίλοι (philoi), e o versículo seguinte diz que os discípulos são amigos se fazem o que ele ordena. Repare que o texto não usa a diferença de vocabulário para hierarquizar amores. Philos e agapaō convivem na mesma passagem sem nenhum sinal de que um seja mais alto do que o outro.
O amor que João mostra tem corpo: toalha, bacia, mesa, cruz.
Para conversar
- Por que o evangelista coloca o lava-pés antes do mandamento novo? O que a ordem das cenas ensina?
- 'Como eu vos amei' é um padrão alcançável ou uma direção? Como um grupo pode conviver com essa distância?
- Se o mandamento novo trata do amor entre os discípulos, que outros textos impedem que ele seja lido como amor só para quem é do grupo?
5.1 Coríntios 13 e o Cântico dos Cânticos
O capítulo mais citado sobre o amor é 1 Coríntios 13, e costuma ser lido em casamentos. O contexto é bem menos romântico. Paulo escreve a uma comunidade dividida, em que os dons espirituais viraram motivo de rivalidade, e o capítulo fica no meio de dois capítulos sobre dons (12 e 14). O hino é uma correção, não uma pausa lírica. Sem amor, diz Paulo, falar em línguas, profetizar, conhecer todos os mistérios e até entregar o corpo não serve de nada (13:1-3).
A descrição seguinte é feita quase toda por verbos: o amor é paciente, é bondoso, não inveja, não se vangloria, não procura os seus interesses, não se irrita, não leva em conta o mal (13:4-7). Nenhum desses verbos exige que o sentimento esteja quente. Descrevem uma maneira de tratar o outro que pode ser mantida quando o afeto está seco. Quem aplica a lista a si mesmo percebe que ela funciona mais como espelho do que como elogio.
O verso 13:7 diz que o amor 'tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta'. Alguns leem 'tudo crê' como credulidade; a maior parte dos comentaristas vê a disposição de dar crédito ao outro antes de supor o pior. O 'tudo suporta' não trata de aceitar violência; o capítulo não fala disso.
Ao lado dessa leitura sóbria o Cântico dos Cânticos faz uma coisa rara: celebra o amor erótico entre um homem e uma mulher sem usar o vocabulário do pecado nem o da aliança. É um livro de desejo, ausência, procura e encontro. Cântico 8:6-7 diz que o amor é forte como a morte e que as muitas águas não o podem apagar. Há uma antiga tradição de leitura alegórica, em que o Cântico fala de Deus e do povo ou de Cristo e da Igreja, adotada por autores judeus, católicos e ortodoxos. Há também a leitura que o toma como poesia sobre o amor humano, que os reformadores e vários comentaristas modernos preferem, e há quem combine as duas. O texto em si não diz qual é a certa.
O que as duas leituras têm em comum é que o corpo e o desejo não são tratados como inimigos do amor. A Bíblia pede ao desejo o que pede a todo amor: que não use o outro, e que não desapareça quando o outro deixa de ser conveniente.
Para conversar
- Por que o 'hino do amor' foi escrito a uma comunidade em disputa e não a um casal? O que muda ao lê-lo assim?
- Qual dos verbos de é, hoje, o mais difícil para você ou para o seu grupo, e por quê?
- Alegoria, poesia sobre o amor humano ou as duas coisas: que leitura do Cântico faz mais justiça ao texto, e o que cada uma deixa de fora?
- O que a presença do desejo na Bíblia diz sobre a ideia de que o amor 'verdadeiro' dispensa o corpo?
6.Amar quem não retribui
A parte mais difícil vem por último. Em Mateus 5:43-48, Jesus cita: 'Ouvistes que foi dito: amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo'. Repare que a segunda metade não está na Torá. Era uma conclusão corrente, e Jesus a recusa: 'amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem'. A razão dada não é que o inimigo mereça, mas que o Pai faz nascer o sol sobre maus e bons. O modelo está na conduta de Deus, e é com ela que o discípulo é comparado.
O que isso significa na prática é debatido. Para as igrejas anabatistas e menonitas, o texto funciona como norma de conduta pessoal e comunitária, que inclui a recusa de retribuir violência. As tradições luterana e reformada costumam distinguir entre a ordem pessoal, em que o discípulo perdoa e serve, e o cargo público, em que juízes e governantes têm a função de restringir o mal, apoiando-se em Romanos 13:1-4. A tradição católica trabalha com a distinção entre amar a pessoa e combater o ato, e com a doutrina da guerra justa. Nenhuma delas defende que se possa odiar o inimigo; o desacordo é sobre o que o amor autoriza ou proíbe fazer em nome de terceiros. As questões de guerra e paz e de perdão têm tratamento próprio em outros estudos; aqui interessa o que o mandamento diz do amor.
Romanos 12:14-21 desenvolve o tema: abençoar quem persegue, não pagar mal com mal, dar de comer ao inimigo faminto, vencer o mal com o bem. Paulo coloca a vingança nas mãos de Deus, o que mostra que ele não vê no amor o fim da justiça. Em Romanos 13:8-10 ele chega a dizer que quem ama cumpriu a Lei, porque o amor não faz mal ao próximo.
E a primeira carta de João amarra a questão em termos de verificação: 'Quem não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê' (1 João 4:20). O amor que não se paga em atos fica sob suspeita, e 1 João 3:16-18 diz que o amor se mostra em dar o que se tem ao irmão necessitado, não em palavras e língua.
Fechando o percurso: o amor na Bíblia é mandado, mas vem de um amor que o precede; é prático antes de ser eloquente; é afetuoso sem ser sentimental; e é testado, de modo mais claro, justamente onde não rende nada.
Para conversar
- Em , a razão para amar o inimigo é a conduta do Pai. Como essa justificativa muda a maneira de ler o mandamento?
- Onde o amor aos inimigos termina e onde começam a justiça e a proteção de quem sofre? Como as tradições resumidas respondem?
- testa o amor a Deus pelo amor ao irmão. Que exemplos concretos esse teste exige do seu grupo?
- Que parte deste estudo mais desafiou uma ideia que você tinha sobre o amor?
O que fica
- Na Bíblia, amar é primeiro lealdade e cuidado ativos, e só depois, ou ao mesmo tempo, afeto; por isso o amor pode ser mandado.
- A tabela dos 'quatro amores' ajuda a refletir, mas não funciona como dicionário: o sentido de agapē, philia ou ahavah vem do contexto da frase.
- O amor de Deus aparece junto com justiça e ira, e as tradições cristãs explicam essa convivência de maneiras diferentes, sem negar que ele ama.
- Em a 15 e em , o amor tem forma de gesto e de verbo: lavar pés, dar a vida, ser paciente, não levar em conta o mal.
- O teste final dos textos é o amor concreto ao irmão e ao inimigo, não a intensidade do que se sente (; ).
Aprofundamento
O centro da discussão teológica sobre o amor não é se Deus ama, mas como esse amor se relaciona com os outros atributos divinos e com a conduta humana. Três pontos concentram o debate.
O primeiro é o amor e a ira. A Bíblia diz que Deus é amor () e também que sua ira se revela contra a injustiça (). A tradição reformada, com D. A. Carson como voz contemporânea, sustenta que o amor de Deus tem várias dimensões, entre elas a que se dirige a todos, a que busca os perdidos e a que escolhe um povo, e que a ira é o amor santo diante do que destrói. Autores ortodoxos tendem a descrever a ira como experiência do ser humano diante de um Deus que só ama, e resistem a atribuí-la a Deus como paixão. Ambos concordam que a indiferença não é o contrário do amor bíblico.
O segundo é a relação entre amor e o que se ama. Agostinho falou da ordem do amor: amar cada coisa na medida e na hora certas, com Deus em primeiro lugar. Tomás de Aquino, na Suma Teológica, descreve a caridade como amizade do ser humano com Deus, capaz de ordenar as outras virtudes. Nygren, de tradição luterana, vê no amor cristão algo que desce de Deus e não sobe do desejo humano, e por isso desconfia da tradição que aproxima os dois. Lewis, de tradição anglicana, responde que os amores naturais são bons e precisam ser ordenados, não eliminados. Não há consenso, e cada posição enfatiza um conjunto real de textos.
O terceiro é o amor ao inimigo e o uso da força. e pedem benevolência e vedam a vingança pessoal, mas fala de uma autoridade que 'não traz a espada em vão'. Anabatistas leem os textos como uma só norma de não violência; luteranos e reformados distinguem a pessoa e o ofício; a tradição católica recorre à doutrina da guerra justa. É um desacordo entre pessoas que concordam que o inimigo não pode ser odiado.
Há ainda uma observação prática, que Kierkegaard desenvolveu em As Obras do Amor: se o amor fosse só sentimento, seria impossível mandá-lo, e o Evangelho o manda. Isso sugere que o conceito é mais largo do que a emoção. Resta saber o quanto de afeto o mandamento pressupõe, e as tradições respondem de formas distintas: algumas veem o afeto como fruto esperado da prática, outras como dom que Deus concede e que não se fabrica.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Cada palavra grega para amor corresponde a um tipo de amor: ágape é o divino, filia o amistoso e eros o erótico.
A Septuaginta usa agapē para o amor de Amnon por Tamar em , e em agapaō e phileō se alternam sem diferença de nível reconhecida pela maioria dos estudiosos. A tabela serve como reflexão, como em Lewis, mas não como léxico. O sentido da palavra vem da frase em que ela está.
Dizem que:Como amor não se manda, os mandamentos de amar são só um jeito de falar de sentimento.
tem a forma de um tratado de aliança, em que amar o senhor era lealdade e serviço. está num bloco de justiça concreta. Isso não elimina o afeto, mas o mandamento bíblico se verifica em atos, como diz .
Dizem que:O Deus do Antigo Testamento é o da ira e o do Novo Testamento é o do amor.
e estão entre os textos mais ternos sobre Deus, e o Novo Testamento fala de ira em e em . O mesmo Deus é apresentado com as duas linguagens nos dois Testamentos, e a oposição entre eles é uma ideia posterior ao texto.
Dizem que:Amar o próximo significa aprovar tudo o que ele faz e nunca contrariá-lo.
O amor descrito em não se alegra com a injustiça, e manda repreender o próximo em vez de odiá-lo no coração. O amor bíblico inclui franqueza, e o sentimentalismo que evita qualquer conflito não é o que os textos descrevem.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Segue Agostinho e Tomás de Aquino ao tratar o amor como caridade, virtude infundida por Deus que ordena as demais e é descrita como amizade do ser humano com Deus. Insiste na ordem do amor, com Deus em primeiro lugar e o próximo amado em Deus, e reconhece a legitimidade dos amores naturais quando bem ordenados. Em questões de força, recorre à distinção entre amar a pessoa e combater o ato.
Ortodoxa
Pensa o amor dentro da participação na vida divina, em que o ser humano é chamado a amar como Deus ama. Tende a ler a ira de Deus como a experiência que a pessoa faz do amor divino quando resiste a ele, e resiste a atribuir a Deus uma paixão de cólera. O Cântico dos Cânticos foi lido com ênfase na relação entre Deus e a alma.
Luterana
Enfatiza que o amor cristão desce de Deus para o mundo e flui do que Cristo fez, não do mérito do amante. A distinção entre lei e evangelho organiza a leitura: o mandamento de amar acusa, e o amor de Deus em Cristo liberta para servir. Nygren, de formação luterana, levou essa linha ao extremo ao opor agapē e erōs.
Reformada
Descreve vários modos do amor de Deus: o que se dirige à criação, o que oferece salvação a todos e o que escolhe um povo. Entende a ira como resposta do amor santo ao pecado e o amor humano como fruto da graça, resumido no Decálogo e no duplo mandamento. D. A. Carson é uma voz contemporânea desta linha.
Anabatista e wesleyana
Os anabatistas leem como norma de conduta da comunidade, incluindo a recusa de retribuir violência. Wesley fala de amor perfeito, o amor a Deus e ao próximo que enche o coração, como meta da vida cristã, entendido como graça que age no crente e não como ausência de falhas.
O que fazer com isso
Ao ler qualquer texto que diga 'amar', pergunte primeiro o que o amor faz naquela passagem: quem ele serve, o que custa e o que o texto manda fazer, antes de perguntar o que se deveria sentir. Evite apoiar-se na tabela dos 'quatro amores' para decidir o sentido de uma palavra grega; confira o contexto da frase. E teste a leitura com : se ela dispensa o amor concreto ao irmão, algo no entendimento está faltando.
Perguntas frequentes
- Quais são os tipos de amor na Bíblia?
- O Novo Testamento usa agapē e philia, e o Antigo usa ahavah e hesed, mas isso não forma uma escala de quatro amores. Os vocábulos se sobrepõem, e o sentido vem do contexto. A tabela popular é de reflexão, não de léxico.
- Deus é amor significa que Deus não julga?
- Não. e 4:16 afirmam que Deus é amor, e o mesmo Novo Testamento fala de juízo e ira. As tradições explicam a relação entre as duas coisas de modos diferentes, mas nenhuma sustenta que o amor de Deus seja indiferença ao mal.
- Como amar um inimigo sem fingir sentimento?
- pede orar por quem persegue, e pede dar de comer ao inimigo faminto. Os textos descrevem atos, não afeição obrigatória. O sentimento pode acompanhar ou não, e o mandamento não o exige como condição.
- O Cântico dos Cânticos fala de amor humano ou de Deus?
- Há as duas leituras na história. A tradição alegórica, judaica e cristã, vê nele Deus e o povo ou Cristo e a Igreja. A leitura literal vê poesia sobre o amor entre um homem e uma mulher. O texto não decide entre elas, e muitos comentaristas combinam as duas.
Fontes consultadas
- Agostinho de Hipona. Tratados sobre a Primeira Epístola de João.
- Tomás de Aquino. Suma Teológica, II-II, questões 23 a 27.
- Søren Kierkegaard. As Obras do Amor, 1847.
- Anders Nygren. Agape e Eros.
- C. S. Lewis. Os Quatro Amores, 1960.
- Katharine Doob Sakenfeld. The Meaning of Hesed in the Hebrew Bible, 1978.
- D. A. Carson. Exegetical Fallacies, 1984.
- D. A. Carson. A Difícil Doutrina do Amor de Deus, 1999.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.