Amizade: o que a Bíblia diz sobre ter e ser amigo
o que a bíblia diz sobre amizade
Resposta curta
A Bíblia não traz um tratado sobre amizade, mas traz muitos amigos, e é pelo que eles fazem que o tema se deixa ler. Davi e Jônatas, Rute e Noemi, Jó e os três que vieram consolá-lo, Abraão e Moisés chamados de amigos de Deus, Jesus dizendo aos discípulos que já não os chama de servos, Paulo e seus companheiros: em cada caso, o vínculo é medido por aquilo que se faz pelo outro, e quase nunca por aquilo que se sente. Este estudo percorre seis momentos dessa leitura, do vocabulário à lealdade que custa, da sabedoria dos provérbios ao conselho ruim, da amizade com Deus à solidão, e aponta, sem tomar partido, onde as tradições leem o texto de maneiras diferentes.
Em palavras simples
A Bíblia não explica o que é amizade com uma definição; ela mostra amigos. Davi e Jônatas se protegem mesmo quando isso custa o trono. Rute escolhe ficar com a sogra Noemi quando poderia voltar para casa. Provérbios diz que o amigo ama em todo tempo e que um golpe de amigo é mais fiel que um beijo de inimigo. Os amigos de Jó erram ao falar. Abraão e Moisés são chamados de amigos de Deus, e Jesus chama os discípulos de amigos porque lhes contou o que ouviu do Pai. A solidão também aparece, nos Salmos e em Paulo.
Antes de começar
O mundo bíblico não pensava a amizade como nós. Nas sociedades do Antigo Oriente Próximo, as relações importantes eram reguladas por parentesco, por aliança e por hospitalidade, e a amizade se movia entre essas categorias com menos rigidez do que hoje. A palavra hebraica רֵעַ (rēaʿ) serve para amigo, companheiro e vizinho, e é por ela que manda amar o próximo como a si mesmo. O verbo 'amar' (אָהַב, ʾahav) aparece em contextos de aliança política, de família e de afeto, e é por isso que a linguagem de amor entre Davi e Jônatas pode ser lida como pacto sem que o afeto desapareça.
No mundo grego do Novo Testamento, a amizade era assunto de filosofia. Aristóteles dedicou dois livros da Ética a Nicômaco a ela, distinguindo a amizade por utilidade, por prazer e por virtude, e Cícero escreveu em latim um diálogo inteiro sobre o tema, o que mostra o peso que a conversa tinha entre os letrados do mundo em que o cristianismo nasceu. Os autores do Novo Testamento usam o vocabulário comum, φίλος (phílos) e φιλέω (philéō), e não fazem teoria, mas é possível que seus leitores ouvissem em 'amigo' ecos dessas conversas: reciprocidade, confiança, bens em comum. Em , Jesus redefine o assunto ao dizer que o amigo se reconhece pelo que lhe foi revelado.
A literatura de sabedoria, por fim, ocupa um lugar à parte. Provérbios, Eclesiastes e Jó não narram uma história de amizade, mas observam o comportamento de amigos em muitos contextos: na riqueza e na pobreza, no conselho e na calúnia, na hora da queda. Os três registros, o narrativo, o sapiencial e o do Novo Testamento, não se contradizem, mas respondem a perguntas diferentes, e convém não misturá-las: o que um amigo faz quando o outro corre perigo, como se reconhece um bom amigo e o que significa ser chamado de amigo por Deus.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoA amizade humana, nas histórias do Antigo Testamento, aponta para um amigo que ainda não aparece. Jônatas dá a Davi as próprias insígnias, e Jesus, em , descreve o amor maior como dar a própria vida pelos amigos. O que o Novo Testamento afirma é que ele fez isso: não só deu o exemplo, mas, segundo a leitura dos autores neotestamentários, tomou a iniciativa de escolher e de revelar o que ouviu do Pai. É por isso que Paulo, em , descreve o amor de Cristo em favor de quem ainda era inimigo, e não de quem já era amigo. A amizade que Jesus oferece precede o merecimento, e a que os discípulos passam a viver entre si deriva dela.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.Quem a Bíblia chama de amigo
A Bíblia não tem um tratado sobre amizade. Tem histórias de amigos, provérbios sobre eles e algumas palavras espalhadas, e é dessas peças que este estudo precisa partir. Quem procura um capítulo que defina o que é um amigo não o encontra; encontra Davi chorando por Jônatas, Jó irritado com os três que vieram consolá-lo e Jesus dizendo a um grupo de homens assustados que já não os chama de servos.
O vocabulário é modesto. No hebraico, a palavra mais comum para amigo é רֵעַ (rēaʿ), que também significa vizinho, companheiro, o outro com quem se convive. É a mesma palavra de 'amarás o teu próximo' em Levítico 19:18, e isso importa: a fronteira entre amigo e próximo, no texto hebraico, é bem mais frouxa do que a nossa. Outra forma é o particípio de 'amar', אֹהֵב (ʾohev), 'o que ama', que Isaías 41:8 usa para Abraão. No grego do Novo Testamento, a palavra central é φίλος (phílos), da família de φιλέω (philéō), amar com afeto. O substantivo abstrato 'amizade' aparece uma única vez, em Tiago 4:4, e é para dizer que a amizade com o mundo é inimizade contra Deus. Quem espera ali uma celebração do tema se surpreende.
Há, portanto, uma primeira observação honesta: a Bíblia pensa a amizade quase sempre em situação, e quase nunca em teoria. Ela mostra o que um amigo faz quando o outro está sob ameaça, falido, doente, errado ou longe. O que se pode dizer em geral é derivado dessas cenas, e por isso este estudo as percorre em ordem: a lealdade que custa caro, a sabedoria prática dos provérbios, a falha dos amigos e o conselho ruim, a amizade que o texto atribui a Deus e a de Paulo com seus companheiros.
Convém também separar amizade de simpatia. Rute e Noemi eram nora e sogra, Davi e Jônatas tinham interesses opostos por nascimento, e Jesus chama de amigos homens que ele mesmo escolheu. Em todos esses casos, o laço se descreve por aquilo que se faz pelo outro, e só depois pelo que se sente.
Por fim, vale notar o que o Antigo Testamento faz com a solidão logo no começo. Em Gênesis 2:18, a primeira coisa que Deus declara 'não bom' na criação é que o homem esteja só. O texto fala ali de companhia em sentido amplo, e não apenas de casamento, e essa observação serve de pano de fundo para tudo o que vem depois.
Para conversar
- Se a Bíblia mostra amigos em ação e quase nunca os define, o que você aprende sobre amizade vendo o que eles fazem que uma definição não ensinaria?
- O mesmo termo hebraico serve para amigo, vizinho e próximo. O que muda na forma de ler quando 'próximo' é entendido como alguém com quem se convive de perto?
- trata a 'amizade com o mundo' como inimizade com Deus. Que tipo de amizade o autor tem em mente, e como evitar transformar o versículo em desculpa para não ter amigos fora da igreja?
2.A lealdade que custa: Davi e Jônatas, Rute e Noemi
As duas narrativas mais longas sobre vínculo afetivo no Antigo Testamento têm algo em comum: em ambas, uma pessoa abre mão de algo concreto para ficar ao lado de outra. A amizade, ali, é medida pelo que custa.
Em 1 Samuel 18:1-4, logo depois da vitória de Davi sobre Golias, o texto diz que a alma de Jônatas se ligou à alma de Davi e que ele o amou como a si mesmo. Os dois fazem uma aliança, e Jônatas lhe entrega o manto, a armadura, a espada, o arco e o cinto. Jônatas era filho do rei Saul, herdeiro presumido; Davi era um jovem pastor. Entregar as próprias insígnias a ele é reconhecer, em gesto, que o trono pode não ser seu. Saul percebe isso e o diz com todas as letras em 1 Samuel 20:30-31: enquanto Davi viver, Jônatas não estará seguro como futuro rei. Ainda assim, Jônatas avisa Davi do perigo (1 Samuel 20) e, em Horesh, o fortalece em nome de Deus (1 Samuel 23:16-18), dizendo que Davi reinará e ele ficará em segundo lugar. Jônatas morre com o pai em Gilboa (1 Samuel 31), e o lamento de Davi diz que o amor de Jônatas lhe era mais maravilhoso que o amor de mulheres (2 Samuel 1:26). Anos depois, Davi procura alguém da casa de Saul a quem mostrar bondade 'por amor a Jônatas' e acolhe à sua mesa Mefibosete, filho dele (2 Samuel 9).
A natureza desse vínculo é objeto de debate moderno. Parte dos estudiosos contemporâneos lê o relato como amor erótico; a leitura dominante nas tradições judaica e cristãs é de amizade de aliança, com a linguagem de amor típica dos pactos do Antigo Oriente Próximo. O texto não descreve relação sexual e não a nega expressamente; quem afirma mais, em qualquer direção, lê além do que a narrativa dá.
Em Rute, o vínculo é entre uma viúva moabita e a sogra israelita. Noemi, amargurada, manda as noras voltarem; Orfa volta, e Rute 'se apegou' a ela (1:14), verbo que Gênesis 2:24 usa para o casal. A declaração de 1:16-17, 'aonde fores irei', é dita a quem não tinha nada a oferecer: Noemi chega a Belém dizendo que a chamem de Mara, 'amarga', pois o Todo-Poderoso a tratou duramente (1:20). No fim, são as mulheres de Belém que dizem a Noemi que a nora, que a ama, vale mais que sete filhos (4:15). O livro não usa a palavra amiga, mas descreve exatamente o que a palavra deveria cobrir.
Para conversar
- Jônatas entrega suas insígnias a Davi, e Rute abre mão da própria terra. O que cada gesto custou, e o que isso sugere sobre a diferença entre afeto e lealdade?
- O relato de Davi e Jônatas foi lido de formas diferentes ao longo da história. O que muda na leitura quando se admite que o texto não resolve a questão por nós?
- Noemi não tinha como retribuir a Rute. Que lugar tem, numa amizade, o vínculo com quem nada pode oferecer em troca?
- Davi cumpre a aliança com Jônatas anos depois da morte dele. Que formas de fidelidade a um amigo continuam mesmo quando ele não está mais presente?
3.Sabedoria prática: Provérbios e Eclesiastes
Se as narrativas mostram a amizade em ação, os livros sapienciais a tratam como assunto de observação cuidadosa. Provérbios fala dela com a frieza de quem viu muita gente trair e muita gente ficar, e por isso nenhum dos seus versículos é sentimental.
O primeiro grupo trata da constância. 'O amigo ama em todo o tempo' (17:17) e é tentador ler o versículo como consolo, mas ele é também um critério: a amizade se prova no tempo ruim, quando já não há vantagem em ficar. Outros provérbios confirmam a lógica pela negativa. Riqueza multiplica amigos e pobreza os afasta (19:4, 14:20), e o texto registra isso sem aprovar. Provérbios 27:10 aconselha a não abandonar o amigo da família e acrescenta que o vizinho perto vale mais que o irmão distante, o que é uma afirmação ousada num mundo em que parentesco era a rede de segurança.
O segundo grupo trata da sinceridade. 'Fiéis são as feridas feitas pelo amigo, mas os beijos de quem odeia são enganosos' (27:6). Ferir, aqui, quer dizer corrigir. A imagem de 27:17, o ferro que afia o ferro, supõe atrito: a amizade que só concorda não afia nada. Mas o mesmo livro avisa que quem espalha o que ouviu separa até amigos íntimos (16:28, 17:9), de modo que a franqueza vem acompanhada de discrição.
Provérbios 18:24 merece uma nota de cautela. O hebraico do versículo é difícil, e as traduções divergem: umas leem que quem tem muitos amigos deve mostrar-se amigo, outras que há amigos que levam à ruína, e quase todas terminam com 'há amigo mais chegado que um irmão'. Quem cita o versículo deveria saber que a primeira metade está em disputa.
Eclesiastes 4:9-12 é o texto mais citado do tema: dois valem mais que um, porque se um cair o outro o levanta; dois se aquecem na noite fria; e o cordão de três dobras não se rompe depressa. Vale notar o contexto. O trecho vem logo depois do homem sozinho, sem filho nem irmão, que trabalha sem fim e nunca pergunta para quem (4:7-8). O Pregador argumenta, em chave prática e até um pouco seca, que companhia é o que torna suportável um mundo cansativo. O uso do 'cordão de três dobras' em cerimônias de casamento é aplicação posterior; o texto fala de parceria em sentido geral.
Para conversar
- diz que as feridas do amigo são fiéis. Como distinguir, na prática, a correção de um amigo da crítica de quem só quer se sentir superior?
- O texto registra que riqueza atrai amigos e pobreza os afasta, sem aprovar nem condenar. O que você faz com essa observação quando olha para as próprias amizades?
- O Pregador defende a companhia por razões práticas: ajuda na queda, calor na noite, defesa contra ataque. Isso diminui ou amplia o valor da amizade?
4.Quando o amigo falha ou aconselha mal
A Bíblia não idealiza. Ao lado das amizades que atravessam tudo, ela guarda um número impressionante de amigos que falham, e dois tipos de falha merecem atenção: a do amigo que está presente e diz a coisa errada, e a do amigo que dá o conselho errado.
O caso clássico do primeiro tipo é Jó. Os três amigos, Elifaz, Bildade e Zofar, viajam para consolá-lo e, ao ver o tamanho do sofrimento, sentam-se com ele no chão por sete dias e sete noites sem dizer palavra (2:11-13). Em termos de presença, é o melhor momento deles. O problema começa quando falam. Partem de uma premissa que o texto do livro todo põe à prova, a de que sofrimento tão grande tem de ter causa moral proporcional, e passam a acusar Jó de algo que não fez. Jó os chama de consoladores molestos (16:2) e diz que o desfalecido tem direito à compaixão do amigo (6:14). No fim, Deus censura Elifaz porque os três não falaram dele o que era reto, como Jó (42:7). Vale notar duas coisas. O texto não diz que tudo o que os três disseram era falso: Paulo cita uma frase de Elifaz, de Jó 5:13, em 1 Coríntios 3:19. E a restauração de Jó é narrada no momento em que ele ora por esses mesmos amigos (42:10). O sofrimento como assunto próprio tem outro estudo no acervo.
O segundo tipo é o do conselho. Em 2 Samuel 13:3-5, Amnom tinha um amigo chamado Jonadabe, descrito como muito sagaz, que ensina o príncipe a fingir doença para ficar a sós com Tamar. O desfecho é a violência contra ela. Em 1 Reis 12:6-14, Roboão consulta primeiro os anciãos, que lhe dizem para servir o povo, e depois os jovens com quem crescera, que lhe dizem para aumentar o jugo; ele segue os segundos, e o reino se divide. Em ambos os casos o conselho ruim vem de gente próxima e ouvida com gosto.
É daí que vêm as advertências: Provérbios 13:20 diz que quem anda com sábios se torna sábio e o companheiro dos insensatos sofre dano, e Paulo cita em 1 Coríntios 15:33 uma máxima segundo a qual más conversações corrompem bons costumes, que muitos comentaristas atribuem a um poeta grego. Mas a mesma carta diz, em 5:9-10, que ninguém precisa sair do mundo para evitar o mal.
Para conversar
- Os amigos de Jó acertam ao sentar-se em silêncio e erram ao falar. O que isso diz sobre quando a presença basta e quando ela precisa de palavras?
- Jonadabe e os jovens de Roboão eram amigos que davam conselho que o ouvinte queria ouvir. Como reconhecer, em você mesmo, a inclinação para escolher conselheiros pelo que eles confirmam?
- Se adverte contra más companhias e diz que não é preciso sair do mundo, onde você traça a linha entre prudência e isolamento?
- Deus manda Jó orar pelos amigos que o feriram. O que a narrativa sugere sobre reconciliação depois de uma falha séria?
5.Amigos de Deus: Abraão, Moisés e o convite de Jesus
Um dos usos mais surpreendentes da palavra 'amigo' na Bíblia é aquele em que ela é dita de Deus. Isaías 41:8 chama Abraão de 'meu amigo' (literalmente, o que me ama), a oração de Josafá em 2 Crônicas 20:7 repete a expressão, e Tiago 2:23 a atribui a ele como título dado pela Escritura. Êxodo 33:11 afirma que o Senhor falava com Moisés face a face, 'como qualquer fala a seu amigo'.
O que essas passagens mostram sobre a natureza da amizade? Primeiro, acesso. Em Gênesis 18:17, o Senhor pergunta se deve ocultar de Abraão o que vai fazer, e o que se segue é uma conversa em que Abraão discute com Deus sobre Sodoma, cidade por cidade, número por número (18:23-33). Moisés intercede da mesma forma em Êxodo 32:11-14, e chega a pedir que seu nome seja apagado do livro caso o povo não seja perdoado (32:32). Em segundo lugar, há limite. O mesmo capítulo 33 de Êxodo, que fala de conversa como entre amigos, registra que Moisés pede para ver a glória e ouve que ninguém pode ver o rosto de Deus e viver (33:20). Intimidade não apaga a diferença entre criador e criatura.
Em João 15, no discurso da Última Ceia, Jesus diz uma frase que as tradições leem de modos diferentes: 'Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a sua vida pelos seus amigos' (15:13). E logo adiante: 'Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai' (15:15). O critério da amizade é, aqui, a revelação, não a igualdade: o amigo sabe o que o senhor está fazendo. O versículo 14, porém, traz uma condição, 'se fazeis o que eu vos mando', e a seção das interpretações mostra como as tradições a explicam. O texto acrescenta que a iniciativa é de Jesus: 'não fostes vós que me escolhestes' (15:16). E o mandamento a que ele se refere é o de amar uns aos outros (15:12), de modo que a amizade com Cristo tem consequência nas amizades entre os discípulos.
Os evangelhos mostram o outro lado dessa amizade. Jesus chora diante da tumba de Lázaro, 'nosso amigo' (João 11:11, 35), e é chamado, como acusação, de 'amigo de publicanos e pecadores' (Mateus 11:19). A amizade que ele pratica é a que as pessoas respeitáveis não esperavam.
Para conversar
- Abraão e Moisés discutem com Deus e são chamados de amigos. O que isso sugere sobre a diferença entre reverência e silêncio?
- Em , o que separa servo de amigo é saber o que o senhor faz. Que consequências isso tem para como você pensa a oração, o estudo e a vida em comunidade?
- A condição de , 'se fazeis o que eu vos mando', pode soar como amizade com cláusula. Como o conjunto do capítulo, com 15:12 e 15:16, ajuda ou não a lê-la?
6.Paulo e seus companheiros, a solidão e o que muda
O Novo Testamento mostra, de forma mais direta do que o Antigo, uma rede de amizades de trabalho e de vida. Paulo raramente aparece sozinho. Em Romanos 16 ele cumprimenta quase trinta pessoas pelo nome, e os adjetivos são afetivos: 'amado', 'querido', 'que também foi mãe para mim'. Timóteo é seu 'filho amado' (2 Timóteo 1:2), e Filipenses 2:19-30 descreve com carinho Timóteo e Epafrodito, o segundo quase morto por servir Paulo. A carta a Filemom é um pedido de amigo a amigo em favor de Onésimo, e é notável que Paulo peça em vez de ordenar.
A amizade ali não é livre de atrito. Em Atos 15:36-41, Paulo e Barnabé se separam por causa de João Marcos, num desentendimento que Lucas descreve como 'contenda' sem dizer quem tinha razão. Anos depois, Paulo escreve que Marcos lhe é útil para o ministério (2 Timóteo 4:11), o que sugere reaproximação, embora o texto não conte como foi. Há também quem tenha ido embora: Demas, que, nas palavras do texto, amou o presente século (2 Timóteo 4:10), e uma defesa em que ninguém ficou ao seu lado (4:16). A passagem acrescenta que o Senhor esteve com ele (4:17). Isso não anula a dor, e o texto não a esconde.
A solidão, aliás, é assunto bíblico por conta própria. 'Volta-te para mim e tem compaixão, porque estou solitário e aflito' (Salmo 25:16). 'Não há quem cuide da minha vida' (Salmo 142:4). Elias, em 1 Reis 19:10, diz que ficou só, e Deus responde com alimento, descanso, a indicação de um sucessor, Eliseu, e a informação de que restam sete mil em Israel (19:18). O Salmo 88 termina sem resolução: 'os meus conhecidos são trevas' (88:18). A Bíblia dá voz à solidão sem apressar a saída.
O que isso muda para quem lê hoje? O texto não oferece método para fazer amigos. Oferece, porém, um quadro: amizade é lealdade que se paga, é franqueza com cuidado, é presença antes de palavra, é escolha de conselheiros que não dizem apenas o que agrada, é abertura sobre o que se sabe e se vive. É também gesto pequeno e sustentado no tempo: sentar-se junto, voltar a procurar, cumprir uma promessa feita a quem já morreu. E aceita que algumas amizades terminam sem que ninguém seja vilão.
Para conversar
- Paulo e Barnabé se separaram sem que o texto diga quem estava certo. O que isso sugere sobre desentendimentos entre pessoas sinceras?
- Os salmos dão voz à solidão sem apressar a saída. Como a leitura deles pode ajudar quem se sente só, ou quem convive com alguém nessa situação?
- Paulo pede a Filemom em vez de ordenar. O que essa escolha revela sobre como ele entende a relação entre autoridade e amizade?
- Das características de amizade vistas ao longo do estudo, qual você sente que mais precisa cultivar agora, e qual você poderia oferecer a alguém?
O que fica
- A Bíblia não define amizade; mostra amigos em ação, e a medida deles é o que fazem pelo outro, principalmente quando isso custa algo.
- Davi e Jônatas, Rute e Noemi: o vínculo é provado na perda de status, de terra, de segurança. O texto é silencioso sobre aquilo que não narra, e convém respeitar esse silêncio.
- Provérbios e Eclesiastes pedem constância, sinceridade com discrição e cuidado com a escolha de conselheiros. O mesmo livro que elogia a franqueza avisa contra o fofoqueiro.
- Abraão, Moisés e os discípulos são chamados de amigos de Deus, e o critério em é o acesso ao que o Pai revelou, não a igualdade. As tradições divergem sobre como entender a condição do versículo 14.
- A solidão e a falha dos amigos aparecem sem disfarce, em Jó, nos Salmos e em Paulo, e a Escritura as trata como parte da experiência e não como falta de fé.
Aprofundamento
Três pontos concentram o debate em torno da amizade na Bíblia, e convém nomeá-los separadamente.
O primeiro é o vínculo entre Davi e Jônatas. O texto usa vocabulário intenso: a alma de Jônatas se liga à de Davi (), os dois se beijam e choram juntos (20:41), e o lamento de Davi diz que o amor de Jônatas era mais maravilhoso que o de mulheres (). A leitura tradicional, judaica e cristã, entende isso como amizade de aliança; o Pirkei Avot 5:16 cita o amor deles como exemplo de amor que não depende de coisa alguma. Parte da exegese contemporânea propõe uma leitura erótica. O texto, que não descreve relação sexual nem a exclui expressamente, não resolve a disputa, e as afirmações mais fortes em qualquer direção dizem mais sobre quem lê do que sobre o que está escrito.
O segundo é o significado de 'amigo de Deus'. liga o título a , a fé de Abraão, e o liga à conversa com Moisés. Tomás de Aquino definiu a caridade como amizade do homem com Deus, e a tradição católica e a ortodoxa falam do 'amigo de Deus' como título de santidade. A leitura reformada tende a sublinhar que a amizade nasce de uma reconciliação anterior, dada por Cristo e não conquistada. Os Quakers tomaram o nome de Amigos a partir de , e veem na expressão uma descrição da própria vida comunitária.
O terceiro é a condição em . 'Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando' pode ser lido como critério de entrada ou como descrição de quem já entrou. O contexto ajuda: o mandamento é amar (15:12), a iniciativa é de Jesus (15:16), e o discurso ocorre depois que Judas saiu da sala (13:30). Isso favorece a leitura de que a obediência descreve a amizade, e não a compra. Os que leem de modo mais condicional apontam que o próprio texto fala em permanecer no amor (15:9-10).
Há, por fim, uma lição de método que atravessa tudo isso: as histórias de amizade na Bíblia nunca apresentam o amigo ideal. Jônatas morre sem ver Davi reinar, Noemi só enxerga o fim da amargura no último capítulo, os amigos de Jó erram, Barnabé e Paulo se separam. A amizade bíblica é sempre a de gente real, com limites, ressentimentos e reconciliações tardias, e é isso que a torna crível para quem a lê hoje.
O que costumam dizer errado
Dizem que:'O cordão de três dobras não se rompe depressa' (Eclesiastes 4:12) é um versículo sobre o casamento.
O trecho de trata de companhia em geral, e vem logo depois da imagem do homem que trabalha sozinho, sem filho nem irmão (4:7-8). O uso do versículo em cerimônias de casamento é aplicação posterior, legítima como aplicação, mas não é o que o Pregador afirma.
Dizem que:Amigo de verdade nunca machuca, e a Bíblia manda poupar o amigo de qualquer desconforto.
diz o contrário: fiéis são as feridas feitas pelo amigo, e 27:17 compara a amizade ao ferro que afia o ferro. A Bíblia pede franqueza, acompanhada de discrição (17:9), e trata como suspeito o amigo que só concorda.
Dizem que:Os três amigos de Jó só diziam mentiras, e por isso Deus os condenou por tudo o que falaram.
A censura de Deus em diz que eles não falaram dele o que era reto, no contexto da acusação a Jó. O texto não afirma que cada frase era falsa: Paulo cita uma fala de Elifaz () em . Dizer que não havia nada de verdadeiro ali desfaz a dificuldade do livro em vez de enfrentá-la.
Dizem que:A Bíblia ordena que o crente só tenha amigos entre os crentes e se afaste de todo o resto.
Jesus foi chamado de amigo de publicanos e pecadores (), e Paulo escreve em que não se refere aos devassos deste mundo em geral, pois então seria preciso sair do mundo. As advertências de e tratam da influência sobre quem convive de perto, não de um isolamento total.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Tomás de Aquino, na Suma Teológica, descreve a caridade como amizade do ser humano com Deus, fundada na comunicação dos bens divinos, e a partir dela entende as amizades humanas virtuosas. Aelred de Rievaulx escreveu um tratado sobre a amizade espiritual em que lê como modelo da relação entre amigos em Cristo. A tradição lê a condição de como consequência da caridade que une a pessoa a Deus.
Ortodoxa
Tende a ver 'amigo de Deus' como título dos santos, aplicado a Abraão e a Moisés, que revelaria uma participação na vida divina e não apenas uma relação de afeto. A amizade com Deus se vive na liturgia, na oração e na vida comunitária, e a linguagem de é lida junto com a de comunhão e de transformação.
Reformada e luterana
Sublinha que a amizade com Deus nasce da reconciliação operada por Cristo, e não de mérito: o Abraão de é aquele cuja fé foi contada como justiça (). A obediência de é lida como fruto e sinal da amizade, e não como condição que a produz. A iniciativa de 15:16 reforça essa leitura.
Quaker (Sociedade Religiosa dos Amigos)
Tomou o nome de Amigos de e entende a relação com Cristo como direta, sem mediação necessária de ritos ou clero. A amizade com Cristo se expressa em igualdade entre os membros da comunidade e em um modo de vida simples e pacífico.
Judaica
O Pirkei Avot 5:16 cita o amor de Davi e Jônatas como exemplo do amor que não depende de nada, e por isso não acaba. Na leitura rabínica, a amizade dos dois é o exemplo de um afeto que sobrevive à perda de qualquer vantagem. A tradição rabínica lê o relato como paradigma de lealdade, em que Jônatas abre mão de sua pretensão ao trono sem rancor, e vê em Abraão e Moisés modelos de intimidade com Deus que não dispensa a argumentação.
O que fazer com isso
Ao ler um texto sobre amizade, pergunte primeiro o que o amigo faz, e só depois o que sente. Os provérbios, as histórias e o discurso de descrevem atos: ficar, avisar, corrigir, calar, voltar, cumprir uma promessa. Compare então com as suas relações atuais. Em vez de perguntar se você tem amigos suficientes, pergunte de quem você poderia ser amigo hoje de uma forma concreta e pequena, e quem anda por perto sem que ninguém tenha reparado.
Perguntas frequentes
- A Bíblia diz algo sobre como escolher amigos?
- Diz, de forma indireta. observa que quem anda com sábios se torna sábio, e adverte contra más companhias. O texto não dá critérios de seleção; dá exemplos de amigos bons e maus, e adverte para o efeito que as companhias têm sobre quem convive.
- Davi e Jônatas eram um casal?
- O texto descreve amor intenso, aliança e lealdade, mas não descreve relação sexual nem a nega expressamente. A leitura tradicional, judaica e cristã, é de amizade de aliança; parte da exegese moderna propõe outra leitura. O estudo trata o assunto como não resolvido pelo texto.
- Jesus teve amigos?
- Sim, o Novo Testamento usa a palavra. Jesus chama Lázaro de 'nosso amigo' (), diz aos discípulos que os chama de amigos () e é acusado de ser amigo de publicanos e pecadores (). Os evangelhos também mostram que ele chorou por um amigo morto.
- O que a Bíblia diz sobre solidão?
- Trata a solidão como parte da experiência humana. diz que não é bom que o homem esteja só; os e 142:4 dão voz à pessoa sozinha; Elias e Paulo sentiram o abandono. O texto não oferece fórmula para sair dela, mas registra que Deus responde a quem a descreve com sinceridade.
Fontes consultadas
- Aristóteles. Ética a Nicômaco (livros VIII e IX).
- Cícero. Sobre a Amizade (De Amicitia).
- Agostinho de Hipona. Confissões.
- Aelred de Rievaulx. A Amizade Espiritual (De spiritali amicitia).
- Tomás de Aquino. Suma Teológica (II-II, questão 23).
- Dietrich Bonhoeffer. Vida em Comunhão, 1939.
- C. S. Lewis. Os Quatro Amores, 1960.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.