Os Salmos: como ler o livro de oração de Israel
o que são os salmos e como ler
Resposta curta
Os Salmos são 150 poemas em cinco livros, reunidos ao longo de séculos e usados em Israel como oração, canto e ensino. Não formam um tratado, e sim um repertório: lamentos, hinos, ações de graças, poemas de sabedoria e cantos do rei. Lê-los bem exige conhecer o paralelismo da poesia hebraica, o peso dos títulos e a diferença entre os gêneros. Este estudo percorre seis etapas: a estrutura do livro, o funcionamento da poesia, os gêneros, os salmos de vingança, o uso no culto e a leitura do Novo Testamento sobre o Messias. Onde as tradições divergem, as posições são apresentadas com honestidade, sem esconder o que é difícil.
Em palavras simples
Os Salmos são 150 poemas que Israel usava para orar e cantar. Estão divididos em cinco livros e foram reunidos ao longo de muitos séculos. Há hinos de louvor, mas há também muitas queixas, pedidos de socorro, poemas de sabedoria e cantos sobre o rei. A poesia hebraica não rima: ela repete e completa as ideias em linhas paralelas. Alguns salmos pedem vingança, e as tradições cristãs discutem como lê-los. O Novo Testamento cita os Salmos com frequência e os aplica a Jesus.
Antes de começar
O livro que o português chama de Salmos tem, no hebraico, o nome de Tehilim, "louvores", embora uma parte considerável dos poemas seja de queixa e de súplica. O título grego, psalmoi, remete a canções acompanhadas por instrumentos de corda. O Saltério reúne composições de épocas diferentes: algumas são atribuídas a Moisés ou a Davi, outras pressupõem claramente a vida depois do exílio, como o Salmo 137. A forma final do livro, em cinco blocos fechados por doxologias, é o resultado de um trabalho de edição que a pesquisa costuma situar depois do retorno da Babilônia, ainda que a data exata seja discutida.
Os poemas nasceram em contextos diversos: a corte, o templo, a família, a viagem de peregrinação, o campo de batalha e a doença. Muitos trazem um título que indica autoria, ocasião ou orientação musical; vários termos desses títulos, como "selá", "gitite" ou "ao mestre de canto", têm significado incerto, e as traduções divergem. O mundo conceitual é o do antigo Oriente Próximo: Deus como rei e juiz, o Sheol como lugar de silêncio dos mortos, o templo em Sião como ponto de encontro entre céu e terra, a lei como caminho. Não há aqui uma teologia sistemática; há uma teologia cantada.
A poesia hebraica não depende de rima. Seu recurso central é o paralelismo, descrito por Robert Lowth em 1753, em que duas ou três linhas se relacionam por repetição, contraste ou avanço. Esse traço aparece também nos Provérbios, em Jó e nos Profetas, mas nos Salmos é a chave de leitura constante. Perdê-lo é ler tudo como informação, quando o texto é, em boa parte, apelo e resposta.
O Saltério também foi o hinário do segundo templo, a base da oração das sinagogas e um dos livros mais bem representados entre os manuscritos do mar Morto. No Novo Testamento, o livro mais citado do Antigo, é recitado por Jesus, citado por Paulo, Pedro e pelo autor de Hebreus. Isso explica por que cristãos de todas as épocas, de Atanásio a Calvino, o trataram como livro central de vida espiritual.
Como isso aponta para Jesus
TipologiaO Saltério chega ao Novo Testamento como um livro em aberto. O rei dos e 110 é maior do que qualquer trono de Davi, o justo que sofre do Salmo 22 aponta para além do poeta, e a pedra rejeitada do Salmo 118 espera um construtor. A tradição cristã lê essa abertura como cumprida em Jesus, que ora os salmos de lamento na cruz e que os apóstolos citam como chave para entender a ressurreição. A tradição judaica lê o mesmo livro em outra direção, e o debate sobre profecia direta ou tipologia segue vivo. O ponto em comum é que o Novo Testamento não trata os Salmos como mero pano de fundo: trata-os como voz.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.Um livro feito de cinco livros
O Saltério não foi escrito de uma vez nem por uma pessoa. Os 150 salmos da maioria das Bíblias em português formam uma coleção reunida ao longo de séculos, e a própria coleção deixa marcas disso. Quatro vezes a sequência é interrompida por uma fórmula de bênção seguida de "amém": no fim dos Salmos 41, 72, 89 e 106. Somadas ao Salmo 150, que funciona como fecho, essas pausas dividem o livro em cinco blocos: Salmos 1 a 41, 42 a 72, 73 a 89, 90 a 106 e 107 a 150. A tradição judaica compara os cinco blocos aos cinco livros da Torá, e o Midrash sobre os Salmos diz isso expressamente. Que a divisão em cinco seja intencional é opinião amplamente aceita; que cada bloco corresponda a um livro de Moisés, ponto a ponto, tem mais entusiasmo do que evidência.
Os dois primeiros salmos funcionam como porta de entrada. O Salmo 1 não traz título e abre com a bem-aventurança de quem se ocupa da lei do Senhor; o Salmo 2 trata do rei ungido e das nações em revolta. Muitos estudiosos os leem como prólogo e notam a moldura: o primeiro começa com "bem-aventurado" e o segundo termina com "bem-aventurados todos os que nele confiam". Já o Salmo 72:20 diz que "findam aqui as orações de Davi, filho de Jessé", sinal de que existiu uma coletânea menor, depois incorporada a outra maior, embora Davi continue aparecendo nos livros seguintes.
Os títulos que encabeçam muitos salmos acrescentam outra camada. Cerca de setenta e três levam a expressão "de Davi"; há salmos "de Asafe", "dos filhos de Corá", "de Salomão" (72 e 127) e um "de Moisés" (90). A preposição hebraica usada pode indicar autoria, mas também dedicatória ou pertencimento a um repertório, e por isso o sentido exato é discutido. Treze títulos ligam o salmo a um episódio da vida de Davi, como o Salmo 3, ligado à fuga diante de Absalão. A tradição conservadora recebe esses dados como informação histórica; boa parte da pesquisa moderna os trata como acréscimos editoriais antigos. O texto bíblico, em si, não decide a questão. O Salmo 137, que pressupõe o exílio na Babilônia, basta para mostrar que nem todo o livro pode ser de Davi.
Um detalhe prático: a numeração varia. Edições católicas antigas e a liturgia ortodoxa seguem a Septuaginta, que une os Salmos 9 e 10, e por isso o número fica um abaixo em boa parte do livro.
Para conversar
- Se o Saltério é uma coleção montada com cuidado, e não um diário de um só autor, o que muda na forma de ler um salmo isolado?
- Os títulos são informação histórica, dedicatória musical ou acréscimo editorial? Que diferença prática faz a resposta para quem estuda ou prega um salmo?
- O livro abre com a lei e com o rei. Que expectativa isso cria no leitor antes mesmo de ele chegar ao primeiro lamento?
2.Como a poesia hebraica diz as coisas
A maior parte dos problemas de leitura dos Salmos nasce de tratá-los como prosa. O hebraico bíblico não rima como o português; sua poesia se apoia em ritmo de acentos, em imagens concretas e, sobretudo, no paralelismo: uma ideia dita em duas linhas, em que a segunda responde à primeira. Foi o bispo anglicano Robert Lowth quem descreveu o fenômeno de forma sistemática, em 1753, e as categorias dele ainda circulam. No paralelismo sinônimo a segunda linha repete a primeira com outras palavras, como no Salmo 24:1: "Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e os que nele habitam". No antitético, ela contrasta, como no fim do Salmo 1, em que o caminho dos justos é conhecido e o dos ímpios perece. No sintético, ela avança, completa ou acrescenta.
O estudioso Robert Alter fez uma correção importante a esse esquema. Segundo ele, a segunda linha raramente só repete: quase sempre intensifica, especifica ou desloca o sentido. Ler "dois versos que dizem o mesmo" é perder o movimento. No Salmo 121:6, o sol de dia e a lua de noite não são dois perigos distintos, e sim uma forma hebraica de dizer "a qualquer hora", o que se chama de merisma.
Há ainda os acrósticos. No Salmo 119 cada uma das 22 estrofes corresponde a uma letra do alfabeto hebraico, e os oito versos de cada estrofe começam com ela. Outros salmos, como o 25, o 34, o 37 e o 145, seguem o mesmo princípio de forma mais solta. A tradução quase sempre apaga esse artifício, mas ele sugere que o poema era feito para ser memorizado e que a ideia de completude, "de A a Z", fazia parte da mensagem.
As imagens pedem o mesmo cuidado. Quando o Salmo 91:4 diz que Deus cobre o fiel "com as suas penas", ninguém entende que Deus tenha penas; a figura quer dizer abrigo. Rocha, escudo, pastor, águas profundas e lugares largos são vocabulário de experiência, não de doutrina. Ler tudo como afirmação literal falsifica o texto, e ler tudo como metáfora sem peso também. O desafio é distinguir o que o poeta afirma, o que ele sente e o que ele está pedindo, e aceitar que as três coisas costumam vir misturadas na mesma linha.
Para conversar
- Escolha um salmo que você conhece bem e releia procurando o paralelismo. A segunda linha repete a primeira ou acrescenta algo?
- Onde passa a linha entre ler uma imagem como figura e esvaziá-la? Dê um exemplo em que cada erro acontece.
- Se o Salmo 119 foi construído para ser memorizado, o que isso diz sobre o uso que Israel fazia da lei: estudo, canto, oração, tudo junto?
- Que perda você percebe quando um poema é lido como se fosse um conjunto de instruções?
3.Gêneros: o que cada salmo faz
Em 1926 e 1933, Hermann Gunkel (a obra foi concluída por Joachim Begrich) propôs classificar os salmos não pelo autor nem pelo tema, e sim pelo que cada um faz no culto e na vida do povo. A divisão mais usada até hoje deriva dele, com ajustes. Ela não aparece no texto bíblico; é uma ferramenta de leitor, e vários salmos misturam gêneros ou ficam entre dois.
O lamento é o gênero mais numeroso. Pode ser individual, como os Salmos 13 e 22, ou coletivo, como o 44 e o 74. A estrutura costuma ser reconhecível: invocação a Deus, queixa ("até quando?"), pedido, uma virada de confiança e, muitas vezes, a promessa de louvar. O Salmo 13 faz esse percurso em seis versículos. O Salmo 88 é o caso extremo: não tem virada, e termina na escuridão. A presença dele no cânon indica que a tradição de Israel julgou legítima uma oração que não se resolve.
O louvor, ou hino, descreve quem Deus é e o que ele fez, sem um problema a resolver. Os Salmos 100, 113, 145 e 150 são exemplos; há também os hinos a Sião (46, 48, 84) e os salmos que celebram Deus como rei (93, 96 a 99). A ação de graças é parente próxima: quem foi socorrido conta o que aconteceu, como nos Salmos 30 e 116. A diferença é que ela olha para trás, para um livramento concreto.
Os salmos sapienciais lembram os Provérbios: contrastam o justo e o ímpio e discutem a vida boa (1, 37, 112, 128). O Salmo 73 é notável porque usa a forma da sabedoria para enfrentar o seu limite, a prosperidade dos maus. Os salmos reais giram em torno do rei davídico: coroação, casamento, guerra, súplica (2, 20, 45, 72, 110, 132). Os imprecatórios, que pedem a Deus um mal sobre inimigos, não são um gênero à parte para a maioria dos estudiosos, e sim um traço presente em lamentos.
Walter Brueggemann propôs um mapa por fases da vida: salmos de orientação, de desorientação e de nova orientação. Claus Westermann observou que louvor e lamento são os dois polos do livro. Os dois esquemas concordam num ponto: quem lê apenas os salmos de conforto tem uma imagem parcial do Saltério.
Para conversar
- Qual gênero você mais lê ou ouve na sua comunidade? Qual quase nunca aparece, e por quê?
- O que o Salmo 88 ensina a uma comunidade que costuma exigir um final esperançoso em toda oração?
- Em que sentido um salmo de ação de graças e um lamento são o mesmo gesto visto em momentos diferentes?
- A classificação em gêneros ajuda ou atrapalha a leitura devocional de um salmo?
4.Os salmos que pedem vingança
Há trechos do Saltério que a maioria dos leitores prefere pular. O Salmo 137 termina com uma bem-aventurança sobre quem esmagar os filhos da Babilônia contra a rocha. O Salmo 109 pede que os filhos do inimigo fiquem órfãos, que sua memória desapareça e que um outro ocupe o seu cargo. O Salmo 58 pede que o ímpio seja como o caracol que se derrete, e os Salmos 35, 69 e 83 seguem a mesma linha. A questão que o leitor honesto precisa enfrentar é como uma Bíblia que manda amar os inimigos conserva orações assim.
Quatro leituras principais circulam. A primeira lê o contexto: o Salmo 137 nasce da queda de Jerusalém, em 587 ou 586 a.C., por quem viu o templo queimado e as crianças mortas. Esmagar bebês contra pedras era prática de guerra atestada em 2 Reis 8:12, Oseias 10:14 e Naum 3:10. O salmista não inventa a violência, ele devolve em oração o que sofreu. A segunda leitura nota que o texto entrega a vingança a Deus em vez de executá-la: o orante não vai à Babilônia, ele clama. Paulo recorre a essa lógica em Romanos 12:19, ao citar Deuteronômio 32:35.
A terceira é uma proposta sobre o Salmo 109: os versículos 6 a 19 poderiam ser a citação das palavras dos acusadores, e o salmista as repetiria para Deus antes de pedir livramento (v. 20). Algumas traduções modernas inserem "dizem" para marcar isso. O hebraico, porém, não traz um sinal de citação, de modo que é uma interpretação, e não um fato do texto. A quarta é a objeção moral. C. S. Lewis, em Reflexões sobre os Salmos, não os defendeu como simplesmente corretos nem os descartou: tratou-os como um ódio real que o leitor não deve copiar nem negar.
O Novo Testamento não resolve a tensão em uma frase. Jesus pede perdão pelos que o crucificam (Lucas 23:34), e ao mesmo tempo os apóstolos citam o Salmo 69 e o 109 com autoridade (Atos 1:20; Romanos 11:9-10). Quanto ao uso, as tradições divergem: a Liturgia das Horas católica omite alguns desses salmos e versículos, enquanto outras tradições os leem inteiros. Parece haver acordo em um ponto: ninguém precisa fingir que a raiva do oprimido não existe para ler bem o Saltério.
Para conversar
- Entregar a vingança a Deus é uma forma de renunciar à violência ou de adiá-la? O que o Salmo 137 sugere?
- Se a hipótese da citação no Salmo 109 estiver certa, o que muda? E se estiver errada?
- Existe lugar para a raiva de uma vítima na oração da comunidade? Como acolhê-la sem transformá-la em programa?
- Por que você acha que algumas tradições omitem esses trechos e outras os mantêm? Que critério você usaria?
5.Peregrinos e cantores: os salmos no culto
Entre os Salmos 120 e 134 há uma pequena coleção de quinze poemas, cada um com o título "cântico de romagens" (ou "das subidas", "dos degraus", conforme a tradução). O que o título quer dizer é objeto de hipóteses. A mais difundida os liga às subidas dos peregrinos a Jerusalém nas três festas anuais prescritas em Deuteronômio 16:16. Outra, apoiada na tradição rabínica, os associa a quinze degraus do templo, cantados pelos levitas. Uma terceira propõe a volta do exílio, já que o verbo "subir" aparece nesse contexto em Esdras. Nenhuma é conclusiva.
O conteúdo da coleção é variado e muito humano. O Salmo 120 vem de quem vive entre gente que odeia a paz. O 121 começa com os olhos levantados para os montes, e os intérpretes divergem se a frase seguinte é uma pergunta ansiosa ou uma afirmação de confiança. O 122 é a alegria de entrar na casa do Senhor; o 126 lembra o sonho do retorno; o 130 clama das profundezas; o 133 elogia a convivência de irmãos; o 134 despede a noite com uma bênção. Percorridos em ordem, eles formam um itinerário que vai do afastamento à chegada, o que reforça a ideia de que foram organizados para a viagem.
Outros usos aparecem nos próprios textos. Os livros de Crônicas dizem que Davi organizou levitas para cantar diante da arca, e há salmos para a dedicação do templo (30) e para o sábado (92). Os Salmos 113 a 118, conhecidos como Hallel, eram cantados nas grandes festas, em especial na Páscoa. Os Evangelhos dizem que Jesus e os discípulos, depois da última ceia, cantaram um hino (Mateus 26:30), e muitos entendem que se tratava do Hallel, embora o texto não o nomeie.
A prática se estendeu depois por caminhos distintos. A Regra de Bento, do século VI, distribui o Saltério inteiro ao longo de uma semana nas horas de oração. Na tradição ortodoxa o livro é dividido em vinte seções, lidas semanalmente. Em Genebra, no século XVI, os salmos foram metrificados para o canto congregacional, e algumas igrejas reformadas cantam só salmos até hoje. Na missa católica, um salmo é cantado entre as leituras. Em todos os casos o gesto de fundo é o mesmo: orar com palavras que não foram inventadas por quem ora.
Para conversar
- Os salmos de peregrinação foram feitos para ser cantados a caminho. O que se perde quando os lemos sentados, em silêncio?
- Orar com palavras herdadas é uma limitação ou uma ajuda? O que sua comunidade ganharia ou perderia usando mais o Saltério em voz alta?
- Você conhece um salmo que sabe de cor? Em que ocasião ele voltou à sua memória?
- Que diferença há entre cantar os salmos em coro e lê-los sozinho, no que se refere ao tipo de oração que eles ensinam?
6.O Messias nos Salmos e os Salmos no Novo Testamento
O Saltério é um dos livros mais citados no Novo Testamento. Em Lucas 24:44 Jesus fala do que estava escrito sobre ele "na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos", e a menção do terceiro bloco com nome próprio mostra o peso que o livro tinha. Mas como os Salmos falam de Cristo? A resposta exige distinguir caminhos que o Novo Testamento usa sem rotular.
O primeiro caminho parte dos salmos reais. O Salmo 2 e o 110 provavelmente faziam parte de cerimônias da realeza davídica, e o Salmo 89 lamenta a queda do rei ungido, quando o trono parecia ter falhado. Com o fim da monarquia, essas palavras ficaram sem um rei que as preenchesse, e o Saltério foi lido como promessa ainda em aberto. O Novo Testamento a lê cumprida em Jesus: o Salmo 2 aparece em Atos 4:25-26 e em Hebreus 1:5; o Salmo 110:1 é a pergunta de Jesus sobre o Cristo ser filho e senhor de Davi (Mateus 22:41-46) e sustenta a argumentação de Hebreus sobre o sacerdócio. O Salmo 16, em Atos 2, é aplicado por Pedro à ressurreição, a partir da forma grega do texto.
O segundo caminho é o do justo que sofre. Na cruz, os Evangelhos mostram Jesus citando o Salmo 22:1 (Mateus 27:46) e o Salmo 31:5 (Lucas 23:46), duas orações de lamento. João lê a partilha das vestes à luz do Salmo 22:18 (João 19:24). Aqui há debate: muitos veem tipologia, em que a experiência de Davi aponta para outra maior; outros veem profecia direta. Em Salmos 22:16 o texto hebraico tradicional e a Septuaginta divergem ("como um leão" ou "furaram"), e um manuscrito do deserto de Judá reacendeu a discussão, o que mostra como o apoio textual pode ser menos firme do que a citação popular sugere.
O terceiro caminho é o das citações de apoio: Salmo 118:22 sobre a pedra rejeitada (Mateus 21:42), Salmo 69:9 sobre o zelo pela casa de Deus (João 2:17) e Salmo 8 aplicado em Hebreus 2. Em todos eles, o Novo Testamento trata o Saltério como um livro cujo sentido se completa em Cristo, sem dispensar o que o texto dizia a Israel antes. Como cada tradição pesa essa continuidade é assunto da seção de interpretações.
Para conversar
- Quando o Novo Testamento cita um salmo, ele revela um sentido escondido ou dá um sentido novo? Como você decidiria?
- O que significa que Jesus tenha orado, no momento mais difícil, com versos que já existiam? O que isso diz da relação entre oração espontânea e oração herdada?
- Que critério distingue uma leitura cristológica responsável de uma que força o texto?
- Como ler o Salmo 22 sem transformar o sofrimento do salmista em mero preâmbulo da cruz?
O que fica
- Os Salmos são uma coleção de 150 poemas em cinco livros, editada ao longo de séculos, e não obra de um só autor. Os títulos ajudam, mas seu sentido exato é discutido.
- A poesia hebraica funciona por paralelismo: a segunda linha costuma intensificar ou especificar a primeira. Ler como prosa faz perder o movimento do poema.
- O lamento é o gênero mais numeroso. O Saltério ensina a orar também nos dias sem resposta, e o Salmo 88 está no cânon sem final feliz.
- Os salmos de vingança são difíceis, e as tradições divergem sobre como lê-los. Nenhuma leitura honesta precisa fingir que eles não estão ali.
- O Novo Testamento cita os Salmos como voz de Jesus, mas entre a profecia direta e a tipologia há debate. O texto sustenta mais de um caminho de leitura.
Aprofundamento
Três debates atravessam a interpretação dos Salmos, e vale nomeá-los com precisão. O primeiro é o da autoria e dos títulos. A tradição judaica e cristã mais antiga atribui a Davi a maior parte do livro, e os títulos davídicos são lidos como dado histórico. A pesquisa crítica moderna, a partir de Gunkel, tende a ver neles acréscimos editoriais e a datar muitos salmos de acordo com o conteúdo. O texto bíblico não resolve: o mesmo hebraico que se traduz "de Davi" também pode significar "para Davi" ou "do repertório de Davi". Reconhecer essa incerteza é mais honesto do que defender uma tese fechada.
O segundo debate é o dos salmos de imprecação. A maioria dos intérpretes concorda que eles não são um corpo estranho no livro e que não podem ser eliminados sem mutilar o Saltério. As divergências aparecem no passo seguinte. Para uns, são expressão legítima de uma dor real, entregue a Deus em vez de executada pelas próprias mãos. Para outros, refletem um estágio moral que Cristo superou. Para uma terceira linha, devem ser lidos como a voz de Cristo ou da Igreja contra o mal em si, não contra pessoas, o que é uma leitura espiritual de grande peso na tradição patrística. Cada uma dessas leituras resolve uma dificuldade e cria outra.
O terceiro é o da leitura messiânica. A tradição cristã vê Cristo em salmos como o 2, o 16, o 22 e o 110, e o Novo Testamento autoriza essa leitura. A tradição judaica, por sua vez, lê muitos deles em referência a Davi, a Israel ou ao rei da época, e tem seus próprios usos messiânicos de alguns. Entre cristãos há ainda a pergunta de método: trata-se de profecia direta, de tipologia ou de reaplicação? A escolha afeta a forma de pregar um salmo. Vale notar também que o Novo Testamento cita boa parte do Saltério na Septuaginta, e nem sempre a forma grega coincide com a hebraica, o que torna algumas citações mais complexas do que parecem.
Há ainda um debate de uso. Alguns grupos defendem que a igreja deve cantar apenas salmos; outros, que a liberdade para hinos e cânticos novos é reconhecida em e . Esses dois versículos citam "salmos, hinos e cânticos espirituais", e saber se são três categorias distintas ou uma expressão ampla é, de novo, matéria de interpretação. O que as tradições têm em comum é o reconhecimento de que o Saltério ensina a orar, e não só o que orar.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Davi escreveu os 150 salmos.
Os próprios títulos atribuem salmos a Moisés (90), Salomão (72 e 127), Asafe e aos filhos de Corá. O Salmo 137 pressupõe o exílio na Babilônia, séculos depois de Davi. Mesmo os títulos davídicos têm sentido discutido, pois a preposição hebraica pode indicar autoria, dedicatória ou repertório. O Saltério é uma coleção, e não obra de um só autor.
Dizem que:Os Salmos são um livro de consolo e louvor.
O lamento é o gênero mais numeroso do livro, e há salmos que terminam sem consolo, como o 88, e outros que pedem vingança, como o 137 e o 109. Ler só os trechos tranquilizadores dá uma imagem parcial. A tradição de Israel julgou oração legítima a queixa, a dúvida e a raiva dirigidas a Deus.
Dizem que:'Selá' é uma pausa para meditar em silêncio.
O significado da palavra é desconhecido. A Septuaginta a traduziu por diapsalma, que sugere intervalo musical, e propostas modernas incluem pausa, elevação do tom ou sinal de refrão. Nenhuma é segura. Apresentar 'meditar em silêncio' como o sentido certo transforma uma hipótese em dado.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
O Saltério é recitado diariamente na oração, e o Salmo 145 faz parte do culto três vezes ao dia. O Midrash sobre os Salmos compara os cinco livros aos cinco livros de Moisés e atribui a Davi o papel central. Muitos salmos que o cristianismo lê como messiânicos são lidos como referentes a Davi, a Israel ou a um rei da época, com usos messiânicos próprios para alguns.
Católica
O Saltério é o núcleo da Liturgia das Horas e fornece o salmo responsorial da missa. A tradição patrística, de Agostinho em diante, lê muitos salmos como a voz de Cristo ou de Cristo com a Igreja. Os sentidos literal e espiritual são mantidos juntos, e a Liturgia das Horas omite alguns salmos e versículos de imprecação.
Ortodoxa
O Saltério é dividido em vinte seções, as kathismata, lidas ao longo da semana, com repetição mais intensa na Grande Quaresma. A leitura é litúrgica e cristológica, e os salmos estruturam as horas de oração monásticas e paroquiais. Os de imprecação são mantidos e frequentemente lidos como o clamor da alma contra o mal.
Reformada
Calvino chamou o Saltério de espelho da alma, no sentido de que cada emoção do crente tem ali uma forma de expressão. Em Genebra os salmos foram metrificados para o canto congregacional. Algumas igrejas reformadas mantêm a salmodia exclusiva; outras combinam salmos com hinos. A leitura de Cristo nos Salmos é central, mas a ênfase recai no sentido histórico de cada poema.
Crítica histórica
A partir de Hermann Gunkel, o estudo acadêmico classifica os salmos por gênero e pelo contexto de vida em que teriam sido usados, e lê a forma final do livro como obra de edição pós-exílica. Os títulos tendem a ser vistos como acréscimos. Essa linha não é uma confissão de fé, e pode ser combinada com leituras de qualquer tradição.
O que fazer com isso
Ao abrir um salmo, comece perguntando de que tipo ele é: lamento, louvor, ação de graças, sabedoria ou salmo do rei. Depois, leia em voz alta e procure a segunda linha de cada verso, para ver o que ela acrescenta. Se o salmo for de vingança ou de desespero, resista à pressa de corrigi-lo: ele está dizendo a Deus o que o orante sente, e é isso que o leitor deve notar primeiro.
Perguntas frequentes
- Por que a numeração dos salmos muda entre Bíblias?
- Edições católicas antigas e a liturgia ortodoxa seguem a Septuaginta, que une os e 10 e soma de outro modo alguns salmos mais adiante. Por isso o número costuma ficar um abaixo em boa parte do livro. Bíblias modernas, inclusive as católicas, tendem a seguir a numeração hebraica.
- Todos os salmos são de Davi?
- Não. Os títulos atribuem salmos a Moisés, Salomão, Asafe e aos filhos de Corá, além de Davi. E o Salmo 137 pressupõe o exílio na Babilônia. Mesmo os títulos davídicos têm sentido discutido, pois a preposição hebraica pode indicar autoria, dedicatória ou repertório.
- Posso orar os salmos que pedem vingança?
- As tradições respondem de modos diferentes. Uns os oram como entrega da raiva a Deus, outros como voz de Cristo contra o mal, outros preferem omiti-los na liturgia. A quarta parte do estudo apresenta essas leituras. O que o texto bíblico não faz é esconder a raiva do oprimido.
- Por onde começar a ler os Salmos?
- Uma sugestão comum é começar pelo Salmo 1 e pelo 2, que funcionam como porta de entrada, e depois escolher um de cada gênero: um hino (100), um lamento (13), uma ação de graças (30) e um poema de sabedoria (73). Lido em voz alta, o texto se abre melhor.
Fontes consultadas
- Robert Lowth. De Sacra Poesi Hebraeorum (Lições sobre a poesia sagrada dos hebreus), 1753.
- João Calvino. Comentário aos Salmos, 1557.
- Hermann Gunkel e Joachim Begrich. Einleitung in die Psalmen, 1933.
- Claus Westermann. Das Loben Gottes in den Psalmen, 1953.
- C. S. Lewis. Reflexões sobre os Salmos, 1958.
- Walter Brueggemann. The Message of the Psalms, 1984.
- Robert Alter. The Art of Biblical Poetry, 1985.
- Erich Zenger. Ein Gott der Rache? Feindpsalmen verstehen, 1994.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.