Romanos: a carta que organiza o evangelho
o que a bíblia diz sobre o livro de romanos
Resposta curta
Romanos é a carta mais longa e mais ordenada de Paulo, escrita por volta dos anos 56 ou 57 a uma igreja que ele ainda não conhecia pessoalmente. Em dezesseis capítulos ela segue uma sequência reconhecível: o diagnóstico do pecado de judeus e gentios, a justificação pela fé ilustrada com Abraão, a vida nova sob a graça e no Espírito, a pergunta sobre o destino de Israel e, por fim, a convivência concreta entre cristãos que divergem. Este estudo percorre essa sequência em seis partes, mostra onde as tradições cristãs leem o texto de maneiras diferentes, em especial a respeito da justificação, da eleição e da autoridade, e indica com clareza onde o próprio texto é silencioso ou debatido, sem tomar partido onde a divergência é real.
Em palavras simples
Romanos é uma carta de Paulo à igreja de Roma, que ele ainda não conhecia. Ela começa mostrando que todos, judeus e não judeus, têm o mesmo problema. Depois explica que Deus resolve isso pela fé em Cristo, como já acontecera com Abraão. Em seguida fala de como a vida muda sob o Espírito, de qual é o lugar do povo de Israel nos planos de Deus e de como cristãos que pensam diferente podem conviver. As tradições cristãs leem alguns trechos de modos diferentes, e este estudo mostra onde.
Antes de começar
Romanos é uma carta circunstancial. Paulo a escreve provavelmente em Corinto, entre 56 e 57, e a envia por Febe, de Cencreia (16:1). O escriba é Tércio (16:22). A igreja destinatária existe antes dele e o texto não diz quem a fundou. A cidade era a capital do império e abrigava uma comunidade judaica antiga; registra que Cláudio expulsou judeus de Roma, episódio que costuma ser relacionado a conflitos sobre Cristo. Com a morte do imperador, em 54, os exilados puderam voltar, e a tensão entre cristãos judeus e gentios que se vê nos capítulos 14 e 15 pode refletir esse retorno. É uma reconstrução plausível, não um dado do texto.
Paulo diz por que escreve: quer visitar Roma, seguir para a Espanha com apoio da igreja (15:24) e, antes, levar a Jerusalém a coleta das igrejas gentias (15:25-27). A tese vem em 1:16-17: o evangelho é poder de Deus para a salvação de todo o que crê, primeiro do judeu e também do grego, porque nele se revela a justiça de Deus. A partir daí a carta se organiza em blocos. Os capítulos 1 a 3 apresentam o problema, os capítulos 3 a 5 a resposta, os 6 a 8 a vida que decorre dela, os 9 a 11 a questão de Israel e os 12 a 15 a prática. O capítulo 16 é de saudações.
A forma de argumentar é a da diatribe, um estilo de diálogo com um interlocutor imaginário que faz objeções, como em 3:1-8 e 6:1. Isso importa na leitura: nem toda frase afirma o que Paulo pensa; algumas citam a objeção que ele vai recusar. Também importa o uso do Antigo Testamento, que em Romanos é constante, de ao Salmo 32, de Isaías a Oseias.
Há questões de texto. A doxologia de 16:25-27 aparece em lugares diferentes nos manuscritos, e o papiro P46 a coloca ao fim do capítulo 15. Alguns estudiosos discutem se o capítulo 16 pertencia à carta enviada a Roma; a maioria o aceita como parte dela. Nada disso muda o argumento central, mas ajuda a lembrar que a carta chegou até nós por transmissão humana, com as dúvidas que isso traz.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoRomanos abre apresentando Jesus como descendente de Davi e Filho de Deus com poder pela ressurreição (1:3-4) e, no meio, como o segundo Adão, cuja obediência desfaz o que o primeiro começou (5:18-19). A carta organiza o evangelho em torno de uma pessoa, e os grandes temas, justiça, lei, Espírito e Israel, são tratados na medida em que se referem a ele. Até a questão de Israel é lida à luz dele: Cristo é o fim, ou o alvo, da lei para todo o que crê (10:4).
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.Uma carta a uma igreja que Paulo não fundou
Romanos costuma ser lido como tratado, e esse hábito esconde o fato mais elementar sobre ela: é uma carta, escrita por alguém com motivos concretos para escrever. Paulo a redige, ao que tudo indica, em Corinto, por volta dos anos 56 ou 57, e a dita a um escriba que se identifica perto do fim, Tércio (Romanos 16:22). Febe, servidora da igreja de Cencreia, é recomendada no fim (16:1-2) e provavelmente a levou. A data exata é inferência e os estudiosos variam em alguns anos; o que não varia é que Paulo nunca tinha estado em Roma (1:10-13).
Isso muda a leitura. Em outras cartas ele corrige comunidades que fundou e conhece; aqui se apresenta a uma igreja que existe sem ele. O texto não diz quem a começou. A comunidade parece ter composição mista, de judeus e gentios, e a mistura tem história: Atos 18:2 conta que Áquila e Priscila vieram da Itália porque Cláudio mandara os judeus saírem de Roma. Costuma-se ligar o episódio a disputas em torno de Cristo, mas a ligação vem de uma fonte romana posterior, Suetônio, e não de Romanos. Se a expulsão aconteceu, os cristãos judeus voltaram a uma igreja que os gentios tinham passado a conduzir, o que ajuda a entender a tensão que reaparece nos capítulos 14 e 15. O capítulo 16, com seus vinte e tantos nomes, mostra que Paulo conhecia muita gente na cidade, entre eles Priscila e Áquila de novo, agora de volta a Roma.
Os propósitos que a própria carta declara são vários, e não competem entre si. Paulo quer ser conhecido e apoiado: planeja seguir para a Espanha e espera que Roma o ajude na viagem (15:24, 28). Quer expor o evangelho que prega a quem só ouviu falar dele por terceiros (1:15-16). E precisa, antes de tudo, levar a Jerusalém a coleta feita entre as igrejas gentias, viagem de que teme não sair bem; ele pede orações por isso (15:25-32). A carta inteira é escrita à sombra dessa viagem.
Alguns acrescentam um propósito a mais, o de mediar o conflito entre judeus e gentios cristãos, e quanto peso ele tem diante dos outros é discussão antiga que não se encerrou. A proposta deste estudo é seguir a carta como ela própria se organiza: um diagnóstico, uma solução, uma vida nova, uma pergunta sobre Israel e uma convivência concreta. Quem lê as partes soltas do conjunto perde justamente o que o título promete, a ordem.
Para conversar
- Saber que Romanos é uma carta circunstancial, escrita antes de uma viagem arriscada, muda o peso que você dá a frases soltas dela?
- O capítulo 16 dedica uma página inteira a nomes. O que isso sugere sobre a maneira como Paulo entendia a igreja a quem escrevia?
- Se a igreja de Roma tinha judeus e gentios com memórias diferentes, que perguntas cada grupo traria ao mesmo texto?
2.O diagnóstico: ira e pecado universal
Paulo abre a argumentação com uma frase que incomoda: a ira de Deus "se revela do céu" (1:18), com o mesmo verbo que acabou de usar para dizer que a justiça de Deus "se revela" no evangelho (1:17). Ira e justiça aparecem como duas faces de uma mesma revelação, e a carta não tenta suavizar nenhuma. O alvo da ira não é a fragilidade humana, e sim a supressão da verdade: pessoas que conhecem algo de Deus pela criação e trocam a glória dele por imagens (1:19-23). O capítulo se constrói sobre uma troca repetida três vezes, e cada troca é seguida do mesmo verbo: "Deus os entregou" (1:24, 26, 28).
Esse verbo é o centro da discussão. Há quem leia a ira de Romanos 1 como consequência impessoal, uma lógica moral que o mundo cobra; C. H. Dodd defendeu algo próximo disso no século XX. Outros, e é a leitura mais comum, insistem que o texto fala de uma ação de Deus, ainda que a ação seja deixar as escolhas darem seus frutos. O texto admite as duas ênfases e não decide sozinho. O que ele exclui é a ideia de um Deus indiferente. Quanto aos comportamentos citados, a sexualidade tem estudo próprio; vale notar que a lista termina em vícios comuns, como inveja, maledicência e desobediência aos pais (1:29-31), e que o argumento não isola um grupo de culpados.
O capítulo 2 faz uma virada que muitos leitores só percebem na segunda leitura. Quem aplaudia o retrato do capítulo 1 é interrompido: "Portanto, és inescusável, ó homem, quem quer que sejas, que julgas" (2:1). Paulo adota um estilo de diálogo com um interlocutor imaginário, e a partir de 2:17 esse interlocutor ganha identidade: o judeu que confia na lei e a transgride. O argumento é que ter a lei não é cumpri-la. Os versículos 14 a 16, sobre gentios que fazem "por natureza" o que a lei manda, são disputados: uns veem ali gentios cristãos, outros, gentios em geral que mostram a lei escrita no coração.
Chega-se então ao veredito de 3:9-20: judeus e gregos estão "debaixo do pecado". A cadeia de citações dos Salmos e de Isaías que vem em seguida funciona como acusação lida em voz alta, até que "toda boca se cale" (3:19). Universal, aqui, não quer dizer igual: Paulo não afirma que todos fizeram o mesmo, afirma que ninguém está fora do alcance do problema. Resta saber o que Deus faz com essa situação.
Para conversar
- Paulo descreve a ira de Deus como uma revelação, e não como um humor. O que muda quando a ira é lida como parte da justiça de Deus, e não como algo contrário a ela?
- O capítulo 2 interrompe quem aprovava o capítulo 1. Em que situações um texto duro costuma se voltar contra quem o usa?
- Dizer que todos estão debaixo do pecado não é dizer que todos são igualmente maus. Como manter essa distinção numa conversa?
- é lido de formas diferentes. Que consequências cada leitura traz para a pergunta sobre quem nunca ouviu o evangelho?
3.Justificação, fé e Abraão
A virada da carta cabe em duas palavras: "Mas agora" (3:21). Depois de capítulos de acusação, Paulo afirma que a justiça de Deus foi manifestada "independentemente da lei", embora a lei e os profetas deem testemunho dela. A salvação em conjunto tem estudo próprio; aqui interessa como Romanos monta o argumento. A expressão "justiça de Deus" admite pelo menos três leituras, e as tradições a tomam de formas diferentes: um atributo de Deus, a sua fidelidade ao que prometeu; um dom que ele concede; ou um status que ele reconhece.
Debate parecido cerca "fé em Jesus Cristo" em 3:22 e 3:26. O grego permite "fé em Cristo" ou "fidelidade de Cristo", e as duas traduções têm defensores sérios. A segunda põe o peso na obediência de Jesus, mas as duas concordam no essencial: a iniciativa não parte de quem é justificado.
O capítulo 4 é a prova bíblica que Paulo escolhe, e a escolha importa: Abraão, e não Moisés. Gênesis 15:6 diz que ele creu e isso lhe foi "contado" como justiça, e Paulo explora uma ordem cronológica que seus leitores conheciam: isso acontece antes da circuncisão, que só vem em Gênesis 17. Logo Abraão pode ser pai dos incircuncisos que creem e dos circuncisos que creem (4:11-12). Davi entra como segunda testemunha, com o Salmo 32 (4:6-8). A promessa repousa na fé para ser firme "para toda a descendência" (4:16).
A partir do livro de E. P. Sanders sobre o judaísmo palestino (1977), vários estudiosos, entre eles James Dunn e N. T. Wright, propuseram ler as "obras da lei" sobretudo como marcas de identidade judaica, como circuncisão, alimentos e sábado, e não como esforço de conquistar mérito. Críticos como Douglas Moo e Thomas Schreiner respondem que o texto fala também de salário e dívida (4:4) e que o problema é mais fundo que uma fronteira étnica. A discussão leva o nome de nova perspectiva sobre Paulo e segue aberta.
O capítulo 5 desloca o foco para as consequências, paz, acesso e esperança, e termina com o paralelo entre Adão e Cristo (5:12-21). O versículo 12 é um dos mais disputados da carta: "porque todos pecaram" traduz uma construção grega que a versão latina antiga leu como "no qual todos pecaram", e essa leitura moldou a doutrina ocidental do pecado original; a tradição oriental costuma ler de outro modo. O trecho fecha com a ideia que gera a objeção do capítulo seguinte: onde o pecado abundou, a graça superabundou (5:20).
Para conversar
- Paulo escolhe Abraão, e não Moisés, para provar seu ponto. O que a ordem dos acontecimentos em e 17 faz pelo argumento?
- Entre "fé em Cristo" e "fidelidade de Cristo", o que muda na maneira de falar da confiança de quem crê?
- Se as obras da lei eram marcas de identidade, que equivalentes poderiam existir numa igreja hoje? Se eram tentativa de mérito, quais seriam?
- foi lido de formas diferentes quanto à maneira como o pecado de Adão alcança os outros. Quais dessas diferenças pesam na vida de uma comunidade?
4.Batismo, lei e vida no Espírito
O capítulo 6 começa com uma objeção que o próprio Paulo levanta: se a graça superabunda onde o pecado abunda, devemos continuar pecando? "De modo nenhum" (6:1-2). A resposta não é uma regra, é uma ideia de união: quem foi batizado em Cristo Jesus foi batizado na sua morte, e portanto anda "em novidade de vida" (6:3-4). O debate sobre a natureza do batismo, se ele opera o que significa ou o testemunha, tem estudo próprio e atravessa este texto sem se resolver nele; todas concordam que Paulo o usa como argumento sobre identidade. O verbo central é "considerai-vos" (6:11): o texto pede que se pense a própria vida a partir do que já aconteceu.
O capítulo 7 é o mais disputado da parte. Paulo defende que a lei não é pecado, e sim santa, justa e boa (7:7, 12), e descreve em seguida um "eu" que quer o bem e faz o mal (7:14-25). Quem é esse "eu"? Orígenes e a maior parte dos primeiros intérpretes gregos viam alguém ainda não renovado. Agostinho pensou assim no início e depois mudou, passando a ler o texto como a luta do cristão; Lutero e Calvino seguiram essa segunda linha. Wesley voltou à primeira. No século XX, ganhou força uma terceira leitura: Paulo falaria de Israel sob a lei ou de uma figura retórica, não de uma biografia. O texto não diz de quem fala, e quem apresenta uma resposta como a única possível ensina menos do que parece.
O capítulo 8 desemboca no que o 7 deixou em suspenso: "nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (8:1). Aqui o Espírito aparece pela primeira vez em abundância na carta; seu papel é dar vida, testemunhar filiação, clamar "Aba, Pai" (8:15-16) e interceder quando faltam palavras (8:26-27). O Espírito Santo tem estudo próprio; aqui interessa que Paulo o associa ao sofrimento presente, e não à saída dele. A criação inteira geme esperando (8:18-25), e a esperança é descrita como algo que ainda não se vê.
O versículo 28 é famoso e menos simples do que parece. Alguns manuscritos antigos trazem "todas as coisas cooperam para o bem", outros acrescentam Deus como sujeito: é ele quem faz tudo cooperar. Em ambos os casos o "bem" é definido pelo versículo seguinte, a conformação à imagem do Filho, e não por conforto. A parte termina com a pergunta "quem nos separará?" (8:35), cuja lista inclui perseguição e espada. A resposta é uma afirmação de amor, não garantia de que nada aconteça.
Para conversar
- O argumento de parte de quem a pessoa já é, e só depois fala do que deve fazer. Como essa ordem muda a maneira de encarar a luta contra o pecado?
- pode ser lido como o cristão em luta, como alguém ainda sob a lei ou como retórica. O que cada leitura ganha e o que cada uma perde?
- Paulo liga o Espírito ao sofrimento e à espera, e não só à vitória. Que lugar isso deixa para o cansaço na vida cristã?
- O "bem" de é definido pelo versículo 29. Como isso muda o uso comum desse versículo?
5.Israel, eleição e predestinação
Os capítulos 9 a 11 começam com uma dor: Paulo diz que gostaria de ser ele mesmo separado de Cristo em favor de seus irmãos, os israelitas, a quem pertencem a adoção, a glória, as alianças, a lei, o culto e as promessas (9:1-5). A pergunta que move a seção não é primeiro sobre a sorte individual de cada pessoa, e sim sobre a fidelidade de Deus: se a maior parte de Israel não creu, a palavra de Deus falhou? A resposta começa em 9:6: "nem todos os que descendem de Israel são Israel".
Dali surge o texto mais debatido da carta. Deus escolhe Isaque e não Ismael, Jacó e não Esaú (9:7-13); endurece o coração do faraó (9:17-18); e é comparado a um oleiro que faz vasos para usos diferentes (9:19-24). As tradições leem isso de modos distintos. A reformada vê eleição incondicional de pessoas, e Calvino é seu grande defensor. A arminiana e a wesleyana entendem a eleição como corporativa, ou condicionada à fé que Deus prevê. A católica admite duas linhas internas, a tomista e a molinista, e o magistério nunca decidiu entre elas. A luterana confessa a eleição em Cristo e recusa falar de predestinação à condenação. A ortodoxa costuma pôr a previsão divina e a cooperação humana no centro. Uma leitura mais recente, como a de N. T. Wright, trata o capítulo como relato do papel histórico de Israel, e não de destinos eternos individuais. O texto tem frases para todos: o versículo 22 fala de vasos de ira "preparados para a destruição", numa forma verbal que não diz quem os preparou, enquanto o 23 diz que Deus "preparou de antemão" os vasos de glória.
O capítulo 10 devolve a responsabilidade: quem confessar que Jesus é Senhor e crer no coração que Deus o ressuscitou será salvo (10:9), e a fé vem pelo ouvir (10:17). O 11 traz a afirmação mais clara da seção: Deus não rejeitou o seu povo (11:1-2), e os dons e o chamado dele são irrevogáveis (11:29). Os gentios são o ramo de oliveira silvestre enxertado, e Paulo os adverte a não se gabar (11:17-24).
Resta o versículo 26, "todo o Israel será salvo". Três leituras principais: a conversão futura de Israel como povo, a salvação de todos os eleitos entre os judeus ao longo da história, ou "Israel" como a igreja de judeus e gentios, que é a de Calvino. O texto fala em "mistério" (11:25), e a seção termina não com uma solução, mas com um louvor (11:33-36).
Para conversar
- A pergunta que abre os capítulos 9 a 11 é sobre a fidelidade de Deus. Como isso muda o que se espera encontrar neles?
- Cada tradição lê a partir de um conjunto diferente de textos. Que outros textos você traria para a conversa, e quais deixaria de lado?
- Paulo termina a seção em louvor, e não em solução. O que isso diz sobre o tipo de resposta que ele achava possível?
- Se os dons de Deus a Israel são irrevogáveis (11:29), que postura prática isso pede de uma igreja gentia hoje?
6.Vida cristã, autoridade e convivência
O capítulo 12 começa com um "portanto" que amarra tudo o que veio antes: "pelas misericórdias de Deus" (12:1). A ordem importa. A vida cristã que Paulo descreve é consequência do que foi dito, e não condição para obtê-lo. O culto passa a ser o corpo oferecido, a mente é renovada, e a humildade é medida pelo fato de que há muitos membros num só corpo (12:3-8). O trecho seguinte (12:9-21) é uma sequência de ordens curtas sobre o amor, a hospitalidade e a recusa da vingança, que inclui bendizer os perseguidores.
Em seguida vem o texto sobre as autoridades (13:1-7), um dos mais usados da Bíblia em debates políticos. O pedido é de sujeição, com a razão dada de que a autoridade vem de Deus, e inclui o pagamento de impostos. Há quem lembre que Tácito registra queixas contra cobradores de impostos no reinado de Nero; a ligação com o texto é plausível, não demonstrada. O texto não trata do caso do governante que ordena o mal, e é nesse silêncio que as tradições divergem. A luterana distingue dois reinos; a reformada admite resistência organizada por autoridades inferiores; a anabatista fala em obediência até o limite da consciência; e quase todas recorrem a outros textos, como Atos 5:29, para o ponto que Romanos não trata. A discussão mais ampla tem estudo próprio. O capítulo segue com o amor como cumprimento da lei (13:8-10) e uma advertência de que a hora é de despertar (13:11-14).
Os capítulos 14 e 15:1-13 mostram por que a carta existe. Há na igreja de Roma os "fortes" e os "fracos", que divergem sobre alimentos e dias especiais. Paulo não identifica os grupos com nome, e embora muitos os associem a gentios e judeus, o texto não o diz de modo direto. O que ele faz é fixar uma postura: acolher sem discutir opiniões (14:1), não desprezar nem julgar (14:3), cada um plenamente convicto em sua própria mente (14:5), e não derrubar o irmão por causa de comida (14:15, 20). Ele se coloca entre os fortes (15:1) e pede a eles o maior peso.
Isso não quer dizer que tudo seja negociável. Em 16:17 ele manda observar os que causam divisões contrárias ao ensino recebido. A carta distingue, portanto, o que pode variar sem ruptura do que não pode, e deixa ao leitor o trabalho de discernir. Ela termina como começou, com judeus e gentios louvando juntos a Deus (15:7-13), e com uma lista de nomes (16:1-16).
Para conversar
- O "portanto" de 12:1 coloca a vida cristã depois da misericórdia. Como isso muda o tom com que se fala de exigências morais na igreja?
- não responde ao caso do governante injusto. Que outros textos você usaria, e o que cada um traz?
- Paulo põe o maior peso sobre os fortes, e não sobre os fracos. Que situações atuais pedem essa mesma inversão?
- Onde passa, na sua comunidade, a linha entre o que pode variar sem ruptura e o que não pode? Como saber?
O que fica
- Romanos é uma carta com destinatários e motivos reais, e só se entende na ordem em que foi escrita.
- O diagnóstico vem antes da solução: judeus e gentios estão na mesma condição diante de Deus.
- A justificação pela fé tem Abraão como prova, e as tradições discordam sobre o que exatamente a palavra descreve.
- Nos capítulos 7, 9 e 11 o texto admite mais de uma leitura honesta, e nomear isso faz parte de estudá-lo bem.
- A convivência entre cristãos que pensam diferente é parte do argumento da carta, e não apêndice dela.
Aprofundamento
Poucos livros da Bíblia pesaram tanto na história cristã. Agostinho conta que a conversão se deu ao ler num jardim em Milão. Lutero escreveu que a carta era o centro do Novo Testamento e a lia como a defesa da justificação pela fé; em 1738, John Wesley disse ter sentido o coração aquecido ao ouvir a leitura do prefácio de Lutero a ela. Em 1919 Karl Barth publicou um comentário que, por seu tom, abalou a teologia liberal do tempo. Cada uma dessas leituras mostra o que o leitor trazia, e esse é o primeiro cuidado ao estudar o livro: ele foi sempre lido a partir de perguntas de cada época.
Quatro debates concentram as divergências, e convém nomeá-los separadamente. O primeiro é a justificação: Lutero e Calvino a leram como declaração forense da qual decorre a transformação; Trento a tratou como processo que inclui o perdão e a renovação interior; a nova perspectiva mudou a pergunta e propôs que Paulo discute quem pertence ao povo de Deus. Nenhuma dessas leituras nega a graça; elas divergem sobre o que a palavra "justificar" descreve.
O segundo é a leitura de , entre o homem sem Cristo, o cristão em luta e a figura retórica ou de Israel. O terceiro é a eleição de , entre a escolha individual incondicional, a escolha corporativa e a condicionada à fé prevista; o texto traz frases que cada lado cita, e nenhum consegue silenciar as do outro. O quarto é o lugar de Israel: se Deus mantém uma relação própria com o povo judeu, como parecem dizer 11:25-29, ou se Israel foi absorvido pela igreja. Depois do Holocausto, igrejas de várias tradições revisaram leituras antigas, e a declaração Nostra Aetate (1965), da Igreja Católica, afirma que os judeus continuam amados por Deus por causa dos pais.
Vale registrar o que o texto deixa em aberto. Não diz quem fundou a igreja de Roma. Não identifica fortes e fracos. Não resolve se "todo o Israel" é um evento futuro. Paulo, ele mesmo, termina a seção com louvor diante de um "mistério" (11:25, 33). Estudar Romanos com honestidade é aceitar que a carta sustenta mais certeza no centro, a graça e o fato de que Cristo é o ponto de apoio, e menos nas bordas. Isso não torna o estudo vago: a distinção entre o que o texto afirma, o que ele deixa em aberto e o que cada tradição acrescenta é o que permite discutir sem que a conversa vire disputa de lados, e é o método que as seis partes seguem.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Romanos é um tratado de teologia escrito para ensinar doutrina a qualquer leitor.
É uma carta com destinatários, motivos e planos de viagem reais. Paulo cita nomes (16:1-16), fala de dinheiro e de Espanha (15:24-28) e trata de um conflito concreto sobre comida e dias especiais (cap. 14). Isso não tira a densidade teológica, mas explica por que cada argumento responde a uma situação e por que ler os capítulos soltos distorce o conjunto.
Dizem que:Romanos 9 ensina com clareza que Deus escolheu alguns para a perdição.
O capítulo trata de eleição, mas as tradições o leem de modos distintos: escolha individual incondicional, escolha corporativa, escolha ligada à fé prevista. Em 9:22 os vasos de ira são "preparados para a destruição", numa forma verbal que não diz quem os preparou, enquanto em 9:23 Deus "preparou de antemão" os vasos de glória. Quem afirma que o texto é claro num sentido só apresenta a própria leitura como se fosse o texto.
Dizem que:Romanos ensina que Deus rejeitou Israel e o substituiu pela igreja.
Paulo diz o contrário, em termos explícitos: "Deus não rejeitou o seu povo" (11:1-2) e os dons e o chamado dele são irrevogáveis (11:29). Os gentios são ramos enxertados e advertidos a não se gabar (11:17-24). Como isso se articula com a fé em Cristo é discutido, e o versículo 26 tem leituras diferentes, mas a ideia de rejeição é recusada pelo próprio texto.
Dizem que:Romanos 13 manda obedecer a qualquer governo em qualquer circunstância.
O texto pede sujeição às autoridades e não trata do caso do governante que ordena o mal. As tradições que o leem com mais seriedade, luteranos, reformados e anabatistas, discordam entre si sobre os limites, e quase todas completam o ponto com outros textos, como . Afirmar que diz tudo sobre o assunto é pedir ao texto o que ele não responde.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Lê a justificação de a 5 como perdão que também renova interiormente, iniciada no batismo e crescente pela cooperação com a graça (Trento, Sessão VI, 1547). Cita para a doutrina do pecado original (Sessão V, 1546). Em , admite internamente linhas tomista e molinista, e em afirma, desde Nostra Aetate (1965), que a aliança com o povo judeu não foi revogada.
Ortodoxa
Dá a uma leitura em que a herança de Adão é sobretudo a morte e a corrupção, e não a culpa transmitida. Lê em termos de adoção e participação na vida divina. Tende a entender a eleição de a partir da previsão divina e da cooperação humana, e a pregação de João Crisóstomo sobre a carta é referência da tradição.
Luterana
Faz de e 3:21-28 o centro da Escritura: a justiça é dom recebido pela fé, e a distinção entre lei e evangelho organiza a leitura. Entende como o retrato do cristão que é ao mesmo tempo justo e pecador, lê dentro da doutrina dos dois reinos e confessa a eleição em Cristo sem afirmar predestinação à condenação.
Reformada
Acompanha a leitura declarativa da justificação e acrescenta a eleição incondicional em e 8:29-30 como fundamento da perseverança. Lê Adão como representante de toda a humanidade em . Em , admite a resistência organizada por autoridades inferiores, e em há leituras diversas, entre elas a de Calvino, para quem o Israel de 11:26 é a igreja de judeus e gentios.
Arminiana e wesleyana
Lê a eleição de como corporativa ou condicionada à fé que Deus prevê, e a graça de como capacitação que alcança todos. Wesley entendeu como o retrato de quem vive sob a lei e ainda não na liberdade do Espírito de , e o capítulo 8 como o ponto a que o crente é chamado.
Nova perspectiva sobre Paulo
Proposta por estudiosos como E. P. Sanders, James Dunn e N. T. Wright. Lê as obras da lei de e 4 como marcas de identidade judaica e o centro da carta como a formação de um só povo de Deus, de judeus e gentios, em Cristo. Reconhece a justificação pela fé, mas insiste em que o conflito entre os dois grupos é o pano de fundo que explica o argumento.
O que fazer com isso
Leia Romanos na ordem em que ele foi escrito, e pergunte a cada passagem em que ponto da sequência ela está: diagnóstico, resposta, vida nova, Israel ou convivência. Texto citado fora do lugar costuma dizer o que o capítulo seguinte corrige. Quando duas pessoas discordarem sobre um versículo, procure primeiro o ponto em que as duas tradições concordam e só depois nomeie o que as separa. Em , o exemplo que Paulo dá é esse: acolher antes de discutir.
Perguntas frequentes
- Quem escreveu Romanos e quando?
- Paulo, provavelmente em Corinto, por volta de 56 ou 57, ditando a um escriba chamado Tércio (16:22). A data exata é inferência e os estudiosos divergem em alguns anos. O que quase todos aceitam é que a carta antecede a ida de Paulo a Roma e foi escrita antes da viagem a Jerusalém com a coleta.
- Romanos ensina que Deus escolhe uns para a salvação e outros para a condenação?
- O capítulo 9 trata de eleição, mas as tradições o leem de modos diferentes: eleição individual incondicional, corporativa, condicionada à fé prevista, ou como relato do papel de Israel. O texto traz frases que cada leitura cita, e este estudo apresenta os caminhos sem escolher um.
- O Israel de Romanos 11 é o mesmo que a igreja?
- Depende da leitura. Alguns entendem Israel como o povo judeu, que Deus não rejeitou e com quem mantém uma relação própria. Outros, como Calvino, leem "todo o Israel" em 11:26 como a igreja de judeus e gentios. Paulo chama o assunto de mistério (11:25), e as três leituras principais seguem em uso.
- Romanos 13 obriga a obedecer a qualquer governo?
- O texto pede sujeição às autoridades e menciona o pagamento de impostos, mas não trata do governante que ordena o mal. As tradições divergem sobre os limites e costumam completar o ponto com outros textos, como . O tema tem estudo próprio no acervo.
Fontes consultadas
- Agostinho de Hipona. Exposição de algumas proposições da Epístola aos Romanos.
- João Crisóstomo. Homilias sobre a Epístola aos Romanos.
- Martinho Lutero. Prefácio à Epístola aos Romanos, 1522.
- João Calvino. Comentário à Epístola aos Romanos, 1540.
- Karl Barth. A Epístola aos Romanos, 1922.
- E. P. Sanders. Paul and Palestinian Judaism, 1977.
- Douglas J. Moo. The Epistle to the Romans, 1996.
- N. T. Wright. The Letter to the Romans (The New Interpreter's Bible, vol. 10), 2002.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.