1 Coríntios: uma igreja dividida, vaidosa e amada
o que a bíblia diz sobre 1 coríntios
Resposta curta
Primeira Coríntios é a carta em que Paulo responde, ponto por ponto, aos problemas de uma igreja que ele mesmo fundou e que se mostrava dividida em partidos, orgulhosa de seus dons, tolerante com o que não devia e desatenta com os mais pobres. Nenhum outro livro do Novo Testamento deixa ver tão de perto como era a vida cotidiana de uma comunidade cristã do primeiro século. Este estudo percorre a carta em seis partes: a cidade e a ocasião, as divisões e a cruz, o corpo e as relações, a carne oferecida a ídolos, a reunião do culto com a Ceia e os dons, e por fim a ressurreição e a coleta. Mostra onde os textos são claros, onde são debatidos e onde as tradições cristãs leem de maneiras diferentes.
Em palavras simples
Primeira Coríntios é uma carta de Paulo a uma igreja cheia de problemas: grupos que disputavam qual líder seguir, um caso grave que ninguém corrigia, processos entre irmãos, dúvidas sobre casamento e sobre comer carne de sacrifício, abusos na Ceia e rivalidade por causa dos dons. Paulo responde a cada um, mas sempre volta à cruz e ao amor. O ponto alto é o capítulo 15, sobre a ressurreição. Alguns trechos são claros e outros são muito debatidos, e as tradições cristãs leem de modos diferentes o que valia só para Corinto e o que vale sempre.
Antes de começar
A carta foi escrita por Paulo a partir de Éfeso, provavelmente em meados da década de 50 d.C., para a igreja que ele havia fundado em Corinto cerca de três anos antes. Corinto, refundada como colônia romana em 44 a.C., era uma cidade portuária e comercial, capital da província da Acaia, com população variada e forte senso de posição social. conta a chegada de Paulo, a estada de um ano e meio e a oposição na sinagoga. A igreja reunia judeus e gregos, gente de poucos recursos e alguns com mais posses, e o texto sugere que essas diferenças alimentavam os conflitos.
Paulo escreve em resposta a duas fontes: o relato de pessoas da casa de Cloé sobre as divisões (1:11) e uma carta dos próprios coríntios com perguntas (7:1). Ele já havia mandado uma carta anterior, mencionada em 5:9 e perdida. Essa estrutura de resposta explica o formato do livro: cada assunto é tratado em separado, com a fórmula 'quanto a', e as frases dos coríntios aparecem às vezes citadas para serem corrigidas.
Os temas se organizam em blocos. Os capítulos 1 a 4 tratam das divisões e da sabedoria da cruz. Os capítulos 5 a 7 tratam de um caso de imoralidade, de processos entre irmãos, do corpo, do casamento e da solteirice. Os capítulos 8 a 10 tratam da carne oferecida a ídolos, dos direitos de Paulo e dos exemplos do deserto. O capítulo 11 trata da cobertura da cabeça e da Ceia, e os capítulos 12 a 14 dos dons espirituais, com o capítulo 13 sobre o amor no meio. O capítulo 15 é o mais longo argumento sobre a ressurreição do Novo Testamento. O capítulo 16 trata da coleta para Jerusalém e fecha com saudações.
Convém lembrar ainda que, na visão da maioria dos estudiosos, Paulo escreveu outras cartas aos coríntios além das duas que o cânon conserva. Segunda Coríntios, aliás, deixa entrever que a relação continuou tensa. Por isso 1 Coríntios é menos um tratado sistemático do que um registro de um momento de uma relação pastoral em andamento, com seus acertos e arestas.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaA carta inteira é uma tentativa de reorganizar uma comunidade em torno de um Cristo crucificado. A cruz é a resposta de Paulo à vaidade, às divisões, ao desprezo pelos fracos e à indiferença com o corpo, e a ressurreição, a razão de a obra não ser em vão. O Cristo da carta não é uma ideia: é a pessoa em cujo nome os coríntios foram lavados e a quem Paulo atribui o fundamento de tudo o que vem depois.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.Corinto e a carta: uma igreja jovem numa cidade de status
Corinto não era uma cidade qualquer, e a carta só se entende com ela em mente. Destruída por Roma em 146 a.C., foi refundada por Júlio César em 44 a.C. como colônia romana e repovoada em boa parte por libertos e gente em busca de ascensão. Ficava no istmo que liga o Peloponeso ao resto da Grécia, com um porto de cada lado, e vivia de comércio, de viajantes e de jogos. Era a principal cidade da província da Acaia, e isso significava dinheiro, ambição e uma atenção constante a quem estava acima de quem.
Paulo chegou ali na segunda viagem e ficou cerca de um ano e meio, segundo Atos 18. Trabalhou com Áquila e Priscila e, rejeitado na sinagoga, passou a ensinar na casa de Tício Justo. Atos 18:12 menciona o procônsul Gálio, o que ajuda os historiadores a situar a estada no início da década de 50 d.C. A carta que temos foi escrita de Éfeso (16:8), poucos anos depois, e não é a primeira: em 5:9 Paulo diz que já havia escrito antes, e essa carta se perdeu.
A composição da igreja aparece em 1:26: não havia muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento. Mas havia gente com recursos, como Crispo, chefe da sinagoga (Atos 18:8), e Gaio, a quem Romanos 16:23 chama de hospedeiro de toda a igreja.
Paulo conhece a situação por duas vias, e o próprio texto diz isso. Pessoas da casa de Cloé lhe contaram das divisões (1:11), e uma carta dos coríntios lhe fez perguntas. Cada vez que aparece a fórmula 'quanto a' (7:1; 7:25; 8:1; 12:1; 16:1), é um item dessa carta que está sendo respondido. Isso importa porque ouvimos só um lado do diálogo. Quando Paulo escreve 'todas as coisas me são lícitas' (6:12), muitos comentaristas entendem que ele cita um lema dos coríntios para corrigi-lo. Ler 1 Coríntios é reconstruir uma conversa a partir de metade dela, e quem esquece isso acaba atribuindo a Paulo frases que ele estava discutindo.
Por fim, a carta não é um tratado de doutrina. É a resposta a problemas concretos, tratados um a um, às vezes com ironia, às vezes com raiva. Mas Paulo chama os destinatários de 'santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos' (1:2) antes de qualquer correção. A ordem importa: o título vem antes da repreensão.
Para conversar
- Saber que ouvimos só um lado da conversa, a carta de Paulo e não a dos coríntios, muda a forma de ler as frases mais duras do texto? Em que casos?
- Paulo chama os coríntios de santificados antes de corrigi-los. O que essa ordem diz sobre a maneira de tratar uma comunidade falha?
- Uma cidade que vive de ascensão social e de comércio se parece com algum contexto que você conhece? O que costuma entrar na igreja vindo desse ambiente?
2.Quatro partidos e uma cruz: a sabedoria que dividia
O primeiro problema que Paulo enfrenta é o que lhe contaram: 'cada um de vós diz: eu sou de Paulo, eu de Apolo, eu de Cefas, eu de Cristo' (1:12). Não sabemos exatamente o que eram esses grupos. O texto não descreve doutrinas diferentes, e sim lealdades a pessoas, e a quarta frase, 'eu de Cristo', é lida às vezes como um quarto partido e às vezes como a bandeira de quem se julgava acima dos demais. Apolo, segundo Atos 18:24, era um judeu alexandrino eloquente; o texto não diz que isso causasse as preferências, mas o contraste com a retórica modesta de Paulo (2:1-3) é plausível.
A resposta de Paulo não é organizacional, é teológica. Ele volta à cruz e diz que a mensagem dela é loucura para os que se perdem e poder de Deus para os que estão sendo salvos (1:18). Judeus pediam sinais e gregos buscavam sabedoria (1:22), e a pregação era de um crucificado. Num mundo em que a crucificação era castigo de escravos e rebeldes, e em que o prestígio se media por discurso e linhagem, o argumento é que o fundamento da igreja é exatamente o que a cidade desprezaria. Se Deus escolheu o que é fraco e baixo (1:27-28), a competição por status perde o sentido: 'quem se gloria, glorie-se no Senhor' (1:31).
Em 3:5-9 a imagem muda para a lavoura: Paulo plantou, Apolo regou, mas quem dá o crescimento é Deus. A passagem seguinte (3:10-15) fala de construir sobre o fundamento com ouro, prata ou palha, e de uma obra que será provada pelo fogo. O texto é muito citado em debates sobre o purgatório: a tradição católica o invoca como apoio parcial à ideia de purificação depois da morte, enquanto a maioria dos protestantes o lê como avaliação do trabalho de cada obreiro. O texto fala de obra provada e de alguém que se salva 'como que através do fogo' (3:15); o que isso diz sobre o além é inferência, não afirmação.
O trecho 3:16-17 costuma ser aplicado ao corpo individual, mas o 'vós' é plural: a igreja é o templo. A seção fecha no capítulo 4, onde Paulo ironiza a autossatisfação: 'já estais fartos, já estais ricos, reinais sem nós' (4:8), e descreve os apóstolos como condenados no fim de um desfile, feitos espetáculo ao mundo (4:9). A resposta à vaidade não é uma regra nova, é um contraste de vidas: o dos que se julgam reis e o dos apóstolos tratados como lixo do mundo.
Para conversar
- Os partidos de Corinto giravam em torno de pessoas, não de doutrinas. Que formas modernas de lealdade a líderes ou estilos você reconhece em comunidades de fé?
- Em que sentido a cruz é 'loucura' hoje? A palavra ainda choca, ou foi domesticada?
- Como ler 3:10-15 sem decidir de antemão se o fogo fala de purgatório ou de avaliação de obras? O que o próprio texto sustenta e o que fica por inferência?
- A ironia de Paulo em 4:8 é uma forma legítima de correção? O que ela pressupõe sobre a relação dele com os coríntios?
3.O corpo, o tribunal e o estado civil
Os capítulos 5 a 7 tratam do corpo e das relações próximas, e o tom muda: do argumento teológico para casos concretos. O primeiro é o de um homem que vivia com a mulher de seu pai (5:1), provavelmente a madrasta, situação que Paulo diz ser escandalosa até entre os não crentes. O que mais o irrita não é só o caso, mas que a igreja estivesse 'inchada', talvez orgulhosa da própria tolerância, em vez de enlutada. Ele ordena que o homem seja entregue 'a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo' (5:5). Os intérpretes discutem se isso é excomunhão, doença ou morte, e se o alvo é a correção do homem ou a purificação da comunidade.
O capítulo 6 começa com membros levando uns aos outros a tribunais pagãos. Paulo se escandaliza: os santos julgarão o mundo (6:2) e não conseguem resolver uma disputa de bens? O texto trata de irmãos contra irmãos, diante de juízes sem fé, numa cidade em que processos eram instrumento de status entre os ricos; deduzir daqui uma regra sobre toda e qualquer ação judicial é ir além do que ele diz. Segue a lista de 6:9-11 e a frase 'tais fostes alguns de vós', que define a igreja pelo que foi lavado, e não pelo que fora. Depois vem o lema 'todas as coisas me são lícitas', ao qual Paulo responde 'mas nem todas convêm', e a afirmação de que o corpo é santuário do Espírito (6:19-20).
O capítulo 7 responde à carta deles. 'Bom seria o homem não tocar em mulher' (7:1) é, para muitos, uma frase dos coríntios a que Paulo reage; a resposta tem uma reciprocidade rara para a época: o marido tem direitos sobre o corpo da mulher, e a mulher sobre o do marido (7:3-4). Paulo prefere que todos fossem como ele, solteiro, mas reconhece que cada um tem o seu dom (7:7), e distingue o que diz 'o Senhor' do que é 'eu, não o Senhor' (7:10, 12, 25). A razão que dá para a preferência é prática: a 'angústia presente' e o tempo abreviado (7:26-31). E o princípio de cada um permanecer no estado em que foi chamado (7:17-24) alcança o escravo, mas o versículo 21 é difícil e traduzido de formas opostas, 'use antes a liberdade' ou 'permaneça', e o texto não resolve.
Para conversar
- Paulo reage a um caso que a igreja tolerava com orgulho. Quando a tolerância deixa de ser acolhimento e passa a ser omissão?
- O que significa tomar 6:1-8 como regra para qualquer disputa, e o que significa tomá-lo como uma resposta a um problema específico de Corinto?
- Em 7:3-4 há reciprocidade entre marido e mulher, rara no mundo antigo. O que isso mostra sobre a maneira de ler Paulo em outros pontos?
- Paulo diferencia o que diz 'o Senhor' do que é opinião sua. O que se ganha e o que se arrisca ao ler a Escritura reconhecendo esses graus de autoridade declarados?
4.Conhecimento infla, amor edifica: a carne e os ídolos
A pergunta dos coríntios era prática: pode-se comer carne oferecida a ídolos? Na cidade, boa parte da carne vendida no mercado vinha de sacrifícios nos templos, e refeições sociais, de associações, casamentos ou negócios, aconteciam em salões ligados a templos. Recusar era arriscar o convívio. Aceitar era, para alguns irmãos recém-saídos do paganismo, voltar à adoração antiga.
Paulo começa concordando com um slogan dos 'fortes': 'sabemos que o ídolo nada é no mundo' (8:4). Mas logo vira o jogo: 'o conhecimento ensoberbece, mas o amor edifica' (8:1). O critério não é quem tem razão, é o que acontece com o irmão de consciência fraca, que, vendo outro comer, pode ser levado a fazer o que não consegue fazer sem culpa (8:7-13).
O capítulo 9 parece uma digressão, mas é um exemplo. Paulo defende o direito de ser sustentado pela igreja, com argumentos tirados do campo, do rebanho, da lei de Moisés e do próprio Senhor, e então diz que não usou esse direito (9:12, 15). A liberdade dele tem a forma de renúncia. A frase 'fiz-me tudo para todos' (9:22) vem daqui e descreve um missionário que ajusta o modo de vida sem trocar a mensagem. O capítulo termina com a imagem do atleta e da disciplina, para que ele mesmo não seja 'reprovado' (9:27), palavra que os debates sobre perseverança leem em sentidos diferentes.
O capítulo 10 abre com o deserto: todos foram batizados em Moisés, comeram e beberam o mesmo alimento espiritual, e mesmo assim muitos caíram (10:1-5). Os exemplos avisam contra a idolatria e a presunção, e ali aparece o conhecido 10:13 sobre a fidelidade de Deus na provação. Depois vem a virada que muitos leitores acham difícil: os ídolos nada são, mas o que os pagãos sacrificam, sacrificam a demônios (10:20), e a mesa do Senhor e a mesa dos demônios não se combinam. Daí sai um critério em três casos: banquete no templo, não; carne do mercado, coma sem perguntar por causa da consciência (10:25); se alguém avisar que foi sacrificada, abstenha-se, por causa do outro (10:28-29).
Apocalipse 2:14 e 2:20 censuram, sem ressalva aparente, quem come carne sacrificada a ídolos. A leitura mais comum vê ali participação em ritos e pressão para a imoralidade, e não a carne do mercado, mas o assunto segue discutido. Paulo termina com uma regra que serve de síntese: 'quer comais, quer bebais, fazei tudo para a glória de Deus' (10:31), e com o pedido de que não sejam tropeço a ninguém, judeus, gregos ou igreja de Deus.
Para conversar
- Paulo concede o argumento dos 'fortes' e depois o subordina ao amor. Em que situações atuais ter razão não basta?
- O capítulo 9 apresenta a liberdade como renúncia voluntária. Como distinguir renúncia de manipulação ou de falsa humildade?
- Banquete no templo, não; carne do mercado, sim; carne avisada como sacrificada, abstenha-se. O que esse critério em três casos ensina sobre decidir quando o texto não traz uma lista pronta?
- Como lidar com a aparente diferença entre e ? Que leituras fazem justiça aos dois textos?
5.A reunião da igreja: cobertura, Ceia e dons
Os capítulos 11 a 14 tratam da reunião da igreja, e o fio comum é que o culto estava servindo à mesma competição que o capítulo 1 denunciava. A primeira passagem, 11:2-16, sobre a cobertura da cabeça, é das mais difíceis da carta, e a honestidade pede dizer isso. Paulo aceita que mulheres orem e profetizem na assembleia (11:5) e discute o que devem ter sobre a cabeça, ou como usar o cabelo. O sentido de 'cabeça' (kephalē) em 11:3 é debatido entre 'autoridade' e 'origem', e 'por causa dos anjos' (11:10) não tem explicação consensual. As igrejas leem o texto como norma permanente, como costume daquela época ou como apoiado numa ordem da criação, e a divergência é antiga. O texto, de todo modo, pressupõe mulheres falando em público.
Em 11:17-34 vem a Ceia. Paulo não está ensinando a Ceia a quem nunca a viu: está corrigindo uma refeição em que cada um come a sua, 'um tem fome e outro se embriaga' (11:21). Como a igreja se reunia em casas e os mais ricos podiam chegar cedo, a hipótese corrente é que os pobres, que trabalhavam até tarde, ficavam com as sobras. Paulo cita a tradição que recebeu (11:23-25), o relato mais antigo da instituição que possuímos, e diz que não discernir o corpo traz juízo, e que por isso muitos estavam fracos e doentes (11:29-30). Se 'corpo' designa o pão ou a comunidade é debatido, e talvez o texto queira os dois.
Nos capítulos 12 a 14 vem a resposta à pergunta sobre os dons. O Espírito é um só, os dons são diversos, e o corpo tem muitos membros, nenhum dispensável (12:12-26). No meio do argumento, o capítulo 13 não é um intervalo romântico: diz que línguas, profecia, conhecimento e até o martírio, sem amor, nada valem. Lê-se muito em casamentos, mas foi escrito para uma assembleia barulhenta. Em 13:8-13 profecias e línguas cessarão, 'quando vier o perfeito'. Cessacionistas leem o perfeito como o cânon completo, continuístas como a volta de Cristo, e o texto, por si, não decide.
O capítulo 14 pede ordem: a profecia vale mais que línguas sem interpretação, porque edifica a todos, e 'Deus não é de confusão, e sim de paz' (14:33). Os versículos 34-35, que mandam as mulheres se calarem, são disputados: alguns manuscritos os colocam depois do versículo 40, e se discute se limitam algo específico, se foram acrescentados depois ou como convivem com 11:5.
Para conversar
- Como a sua tradição lê 11:2-16, e que parte do texto ela costuma deixar de lado?
- Na Ceia de Corinto, o pecado era a desigualdade à mesa. Que formas dela existem hoje entre quem se reúne para o mesmo culto?
- O capítulo 13 foi escrito para uma assembleia com disputas de dons. O que muda quando é lido assim, e não como texto sobre o casal?
- Cessacionistas e continuístas leem 13:8-13 de modos distintos. O que cada leitura teria de provar para ser convincente?
6.Ressurreição e coleta: por que o capítulo 15 vem antes do 16
O capítulo 15 é o ponto mais alto da carta, e a coleta do capítulo 16 não é anticlímax, como veremos. Paulo começa com um credo: 'transmiti-vos, antes de tudo, o que também recebi' (15:3). Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras, foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia e apareceu a Cefas, aos Doze, a mais de quinhentos irmãos, a Tiago, a todos os apóstolos e, por último, a Paulo (15:3-8). Muitos estudiosos, de posições diversas, consideram essa fórmula uma das mais antigas tradições cristãs preservadas, anterior à própria carta. Paulo observa que a maior parte dos quinhentos ainda vivia (15:6), um convite implícito à verificação.
O que o levou a escrever isso? Alguns em Corinto diziam que 'não há ressurreição de mortos' (15:12). O texto não explica o motivo; as hipóteses incluem a influência de uma filosofia que via o corpo como prisão, ou a ideia de que a vida nova já havia chegado (cf. 4:8). A resposta é direta: se não há ressurreição, nem Cristo ressuscitou, e a fé é vã (15:13-17). Cristo é as primícias, e como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados (15:20-23). Paulo menciona ainda os que se batizam pelos mortos (15:29), prática que o texto não explica e para a qual há dezenas de interpretações; o mais honesto é dizer que não sabemos ao certo o que era.
Sobre o corpo ressuscitado, Paulo usa a imagem da semente (15:36-38) e fala em 'corpo espiritual' (15:44), expressão que não significa imaterial, e sim animado pelo Espírito. O 'mistério' (15:51) é que nem todos dormirão, mas todos serão transformados. A morte é 'o último inimigo' (15:26), e a conclusão não é uma doutrina para guardar, mas uma ordem: 'sede firmes, inabaláveis, sempre abundantes na obra do Senhor' (15:58).
Por isso o capítulo 16 vem depois, e não antes. A coleta para os santos de Jerusalém (16:1-4) é prática: separar algo no primeiro dia da semana, conforme a prosperidade de cada um, para que não se faça coleta só quando Paulo chegar. É o mesmo projeto de que falam Gálatas 2:10 e 2 Coríntios 8 e 9. A carta fecha com planos de viagem, Apolo, Timóteo, saudações, o beijo santo e o brado aramaico 'maranata' (16:22), que conforme a divisão das palavras pode ser lido como 'Senhor nosso, vem' ou 'nosso Senhor veio'. Uma igreja dividida, vaidosa e instável é, no fim, convocada a esperar e a repartir.
Para conversar
- O credo de 15:3-8 é anterior à carta e se apoia em testemunhas nomeadas. Que peso esse tipo de argumento tem para você e para sua comunidade?
- Por que Paulo termina o grande capítulo sobre a ressurreição com uma ordem prática, e não com um consolo?
- O que significa 'corpo espiritual' (15:44)? Quais são os limites do que o texto permite afirmar?
- A coleta de 16:1-4 liga a igreja de Corinto à de Jerusalém. Que laços de partilha entre comunidades distantes seriam o equivalente hoje?
O que fica
- Corinto era uma cidade obcecada por status, e a carta responde a uma igreja que levou essa obsessão para dentro de si.
- Para Paulo, a cruz é o critério contra a vaidade, as divisões e o desprezo pelos fracos, e é por ela que as outras questões são resolvidas.
- Boa parte da carta responde a perguntas dos coríntios que só conhecemos pela resposta; saber quando Paulo cita um lema e quando afirma é metade da leitura.
- Alguns textos valem de modo claro para todos, outros são debatidos, e cada tradição escolhe seus critérios para o que era local e o que é permanente.
- O capítulo 15 não é um apêndice: a ressurreição sustenta a fé, e a coleta do capítulo 16 mostra que a esperança se traduz em partilha.
Aprofundamento
Três questões concentram os maiores debates de interpretação na carta, e vale nomeá-las com precisão. A primeira é o que Paulo está citando e o que está afirmando. Frases como 'todas as coisas me são lícitas' (6:12), 'bom seria o homem não tocar em mulher' (7:1) e 'todos temos conhecimento' (8:1) soam como lemas dos coríntios. Muitos comentaristas entendem que Paulo os cita e depois os corrige ou qualifica. Isso muda bastante o sentido, porque o que parece conselho dele pode ser a posição que ele está limitando. Mas nem sempre há marca clara no texto, e a decisão em cada caso é de interpretação.
A segunda é o que valia só para Corinto e o que vale sempre. A cobertura da cabeça (11:2-16), o silêncio das mulheres (14:34-35), a proibição de processos (6:1-8) e a regra sobre a carne (cap. 8-10) são lidos por algumas tradições como normas permanentes, por outras como respostas a situações locais, e por outras de modo misto. Ninguém lê tudo como universal nem tudo como local; todos fazem escolhas, e vale perguntar quais critérios cada leitor usa para escolher. O próprio Paulo oferece pistas: ele diz às vezes que dá ordem do Senhor e outras que dá opinião (7:10, 12, 25), e apela ao costume das igrejas (11:16; 14:33).
A terceira é a relação entre o Espírito e a ordem. Os capítulos 12 a 14 afirmam a diversidade dos dons e ao mesmo tempo exigem que tudo seja feito com decência e ordem (14:40). Pentecostais e carismáticos enfatizam a presença contínua dos dons descritos, incluindo línguas e profecia. Cessacionistas entendem que certos dons cessaram quando o cânon se completou, lendo 13:8-13 de modo coerente com isso. Outras tradições, como a católica e a ortodoxa, tratam dos carismas dentro da vida sacramental e da autoridade da igreja. Os textos não fecham o debate, porque 13:10 não diz explicitamente o que é 'o perfeito'.
Merece menção, por fim, o capítulo 15. Há consenso amplo de que o credo de 15:3-8 é uma das tradições cristãs mais antigas. Os debates se concentram em 15:29, o batismo pelos mortos, para o qual se propuseram muitas leituras, e em 15:44, 'corpo espiritual', cujo sentido de continuidade e transformação do corpo é discutido desde os primeiros séculos. Outros estudos do acervo tratam da ressurreição e do Espírito de modo geral; aqui o ponto é como esses temas aparecem respondendo a problemas reais de uma igreja concreta.
O que costumam dizer errado
Dizem que:O capítulo 13 de 1 Coríntios é um texto sobre o amor romântico e o casamento.
O capítulo foi escrito para uma assembleia que competia por dons, e está entre o capítulo 12 e o 14, ambos sobre a vida do culto. O amor de que fala é o que sustenta a comunidade, e a lista do que ele faz e não faz descreve justamente os defeitos de Corinto: inveja, jactância, busca do próprio interesse. Aplicá-lo ao casal não é errado, mas perde o contexto.
Dizem que:Em 1 Coríntios 10:13, Deus promete que ninguém será tentado além do que pode suportar, e por isso o sofrimento nunca ultrapassa a pessoa.
O versículo fala de tentação, no sentido de prova e de risco de cair, dentro de uma advertência contra a idolatria, e promete uma saída. Não diz que dor, perda ou doença nunca excedem a capacidade humana; o próprio Paulo conta em que se sentiu carregado acima das forças. Usar o versículo como garantia sobre o sofrimento amplia o que o texto afirma.
Dizem que:Paulo desprezava o casamento e queria que todos fossem solteiros.
Em ele diz preferir que todos fossem como ele, mas acrescenta que cada um tem o seu dom (7:7), afirma que casar não é pecado (7:28, 36) e estabelece a reciprocidade entre os cônjuges (7:3-4). A preferência é justificada por uma 'angústia presente' (7:26), não por desprezo do casamento.
Dizem que:A frase 'as mulheres estejam caladas nas igrejas' resolve sozinha a questão do papel das mulheres, porque está clara em 1 Coríntios 14:34.
O mesmo livro, em 11:5, pressupõe mulheres orando e profetizando na assembleia. Além disso, a posição desses versículos varia em alguns manuscritos antigos, que os colocam depois de 14:40. As tradições divergem sobre como harmonizar os textos, e tratar o versículo isolado como se não houvesse questão ignora o que está em disputa.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Lê 1 Coríntios como testemunho da vida sacramental e da autoridade apostólica na igreja primitiva. Cita 11:23-26 como base da compreensão da Eucaristia como presença real, vê em 3:10-15 um apoio parcial à doutrina do purgatório e entende 7:25-40 como fundamento da honra ao celibato consagrado ao lado do matrimônio.
Ortodoxa
Enfatiza a unidade do corpo de Cristo (12:12-27) como fundamento eclesial e lê a Ceia de 11:17-34 dentro da liturgia eucarística como comunhão de toda a igreja. O capítulo 15 é central na teologia da ressurreição e da vitória sobre a morte, e a diversidade de dons é entendida dentro da ordem litúrgica e da comunhão.
Reformada e luterana
Destaca a teologia da cruz do capítulo 1 como crítica à sabedoria humana, lê 3:10-15 como julgamento da obra de cada obreiro e não como purgatório, e entende a Ceia de 11 como memorial ou presença espiritual segundo cada confissão. Em geral trata 13:8-13 como indicativo de que certos dons do capítulo 12 teriam um tempo limitado, embora essa conclusão seja mais forte entre cessacionistas do que em toda a tradição.
Pentecostal e carismática
Toma a 14 como descrição de dons que continuam disponíveis à igreja, incluindo línguas, profecia e cura. Lê 13:10 como referência à volta de Cristo e não ao cânon, e interpreta o capítulo 14 como regra de ordem, não como desestímulo, para o exercício dos dons.
Anabatista e menonita
Lê os capítulos 5 e 6 como base para a disciplina na comunidade local e para a resolução de conflitos entre irmãos dentro da igreja, e aproxima a cruz do capítulo 1 de um modo de vida não violento. O texto da cobertura (11:2-16) é lido, em muitas comunidades, como prática ordenada a ser mantida.
O que fazer com isso
Leia 1 Coríntios como a correspondência de uma comunidade real, não como um manual de regras soltas. Antes de aplicar um versículo, pergunte qual problema de Corinto ele respondia, se Paulo está citando um lema que corrige e se o texto apresenta aquilo como ordem, como opinião ou como costume. Depois pergunte o que, no seu contexto, se parece de fato com aquela situação. A carta pede menos imitação de formas e mais fidelidade ao critério que Paulo repete: o amor edifica, e a cruz desfaz a competição.
Perguntas frequentes
- Quem escreveu 1 Coríntios e quando?
- A autoria de Paulo é aceita praticamente por todos os estudiosos. A carta foi escrita de Éfeso (16:8), e a datação mais comum a situa em meados da década de 50 d.C., depois de uma estada em Corinto de cerca de um ano e meio, narrada em . Ela não é a primeira carta de Paulo aos coríntios, pois 5:9 menciona uma anterior, que não foi conservada.
- Qual é o tema central de 1 Coríntios?
- Não há um tema único, porque a carta responde a vários problemas. Mas o fio que a percorre é a cruz como critério para a vida da igreja: contra a vaidade e as divisões do capítulo 1, contra o desprezo pelos fracos na Ceia e nos dons, e como fundamento da ressurreição no capítulo 15.
- 1 Coríntios 13 fala de casamento?
- Não de forma direta. O capítulo foi escrito para uma igreja em que a disputa por dons gerava rivalidade, e está entre os capítulos 12 e 14, sobre a vida do culto. Pode ser aplicado ao casal por analogia, mas o contexto original é a comunidade.
- O que quer dizer 'batizar-se pelos mortos' em 1 Coríntios 15:29?
- Ninguém sabe ao certo. O texto menciona a prática sem explicá-la, e as interpretações propostas são muitas: batismo em favor de mortos, batismo de quem se converte por causa de parentes mortos e outras. Paulo a usa como argumento sem aprová-la nem condená-la, e o mais seguro é reconhecer que o sentido permanece incerto.
Fontes consultadas
- João Crisóstomo. Homilias sobre a Primeira Epístola aos Coríntios.
- João Calvino. Comentário à Primeira Epístola aos Coríntios, 1546.
- Anthony C. Thiselton. The First Epistle to the Corinthians (New International Greek Testament Commentary), 2000.
- Gordon D. Fee. The First Epistle to the Corinthians (New International Commentary on the New Testament), 1987.
- Jerome Murphy-O'Connor. St. Paul's Corinth: Texts and Archaeology, 1983.
- Gerd Theissen. The Social Setting of Pauline Christianity, 1982.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.