O Messias no Antigo Testamento: como o texto aponta e como é lido
o que o antigo testamento diz sobre o messias
Resposta curta
A palavra Messias significa simplesmente "ungido", e no Antigo Testamento ela designa sacerdotes, reis e até um imperador estrangeiro. A figura única esperada no fim dos tempos nasce por acúmulo, quando promessas sobre a casa de Davi, o servo de Isaías e o filho do homem de Daniel são reunidas por leitores posteriores. Este estudo percorre o caminho em seis partes: o sentido da palavra, os textos antigos que apontam sem nomear, a promessa feita a Davi, o servo e o sofredor, as leituras judaica, cristã e histórico-crítica, e o modo como o Novo Testamento cita o Antigo. Em cada passagem, diz o que o texto afirma, o que a tradição extraiu dele e onde a leitura é realmente debatida.
Em palavras simples
Messias quer dizer "ungido", alguém que recebeu óleo para uma função. No Antigo Testamento, reis, sacerdotes e até o imperador Ciro receberam esse título. Com o tempo, depois que os reis de Israel desapareceram, os textos sobre o descendente de Davi, o servo de Isaías e o filho do homem de Daniel foram reunidos numa esperança por um rei futuro. Os judeus leem essas passagens de um jeito, os cristãos de outro, que vê Jesus como cumprimento, e os historiadores perguntam o que cada texto dizia na sua época. Todos os três jeitos de ler merecem ser conhecidos.
Antes de começar
Para entender o tema, é preciso lembrar que Israel viveu séculos sob reis. Saul, Davi e seus sucessores eram ungidos com óleo, e o título "ungido do Senhor" era uma forma de falar do rei legítimo. A promessa de deu a esse costume uma base teológica: Deus se comprometeu com a casa de Davi. Quando a monarquia chegou ao fim, com a queda de Jerusalém em 587 a.C. e o exílio na Babilônia, a promessa ficou sem rei para exercê-la. Foi nessa crise que os textos proféticos e os Salmos passaram a ser relidos como esperança de um rei futuro.
Depois do exílio, Israel viveu sob o domínio persa, grego e, por fim, romano. A revolta dos macabeus, no século II a.C., produziu uma dinastia que acumulou os títulos de sacerdote e rei sem pertencer à linhagem de Davi, o que alimentou, em alguns grupos, a espera por um rei autêntico. Nesse ambiente, a literatura judaica do Segundo Templo mostra várias expectativas: os Salmos de Salomão, de data próxima ao século I a.C., descrevem um rei davídico que destruirá os opressores; os manuscritos de Qumrã falam de dois Messias, um sacerdotal e outro régio; e outros textos aguardam um profeta ou uma figura celeste.
É importante notar que nenhuma dessas expectativas era universal. A Bíblia hebraica não apresenta uma doutrina única e sistemática sobre o Messias. As passagens que se tornaram famosas nos debates posteriores, como , o Salmo 110 e , foram lidas de modos distintos conforme a comunidade e o momento. O Novo Testamento surge nesse cenário diverso e afirma que Jesus é o Cristo, termo grego equivalente a Messias, relendo os mesmos textos à luz de sua morte e ressurreição.
Há também uma diferença de idioma. O Antigo Testamento foi escrito em hebraico, com partes em aramaico, e ganhou tradução grega, a Septuaginta, a partir do século III a.C. Os autores do Novo Testamento usaram muito essa versão, e ela às vezes difere do original hebraico. Por isso, o estudo do Messias exige olhar o texto hebraico, a tradução grega e as leituras posteriores como camadas distintas.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO Novo Testamento afirma que as imagens dispersas do Antigo, o rei da casa de Davi, o servo que sofre, o filho do homem que recebe domínio, convergem em Jesus. Essa convergência é uma leitura de fé, feita depois dos fatos e à luz da ressurreição, e não uma dedução que o texto antigo, sozinho, imponha a todo leitor. É assim que Lucas apresenta o caminho de Emaús: Jesus abre as Escrituras para dois discípulos e mostra como elas se ligam a ele.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.Ungidos antes do Ungido
Antes de perguntar o que o Antigo Testamento diz sobre o Messias, convém perguntar o que a palavra significa. Mashiach, em hebraico, é um adjetivo e um substantivo derivado do verbo que quer dizer untar, derramar óleo. Messias é apenas esse termo passado ao português pelo caminho do aramaico e do grego; a tradução grega, christos, deu o título "Cristo". Na origem, portanto, não há nada de misterioso: ungido é quem recebeu óleo para uma função.
O mais surpreendente é o uso. Na Bíblia hebraica, a palavra se aplica a vários personagens. O sacerdote é "o sacerdote ungido" em Levítico 4:3. Saul, mesmo rejeitado por Deus, continua sendo "o ungido do Senhor" para Davi, que por isso se recusa a levantar a mão contra ele em 1 Samuel 24:6. Davi, Salomão e os reis seguintes recebem o mesmo título. O Salmo 105:15 chama os patriarcas de ungidos, e 1 Reis 19:16 manda ungir Eliseu como profeta. E há o caso mais estranho de todos: Isaías 45:1 dá o título a Ciro, rei da Pérsia, que não adorava o Deus de Israel.
Isso significa que, na maior parte do texto, "ungido" é um título de ofício, não o nome de uma figura única esperada no fim dos tempos. Quem procura no Antigo Testamento a expressão "o Messias" como a conhecemos, com artigo e com maiúscula, encontra muito pouco. O Messias como personagem aguardado é, em grande medida, uma construção que se forma por acúmulo, quando leitores posteriores juntam promessas dispersas sobre um rei, um servo, um sacerdote e um juiz.
Isso não esvazia a esperança; apenas ensina a ler com método. Há três níveis que convém separar. O primeiro é o sentido no seu contexto original, em que o texto quase sempre fala de um rei ou de uma situação do seu tempo. O segundo é a maneira como o judaísmo do Segundo Templo passou a reunir essas passagens numa expectativa. O terceiro é a leitura cristã, que identifica essa expectativa com Jesus de Nazaré. Os três níveis são distintos, e misturá-los é a causa da maior parte dos mal-entendidos neste tema.
Nem todo texto citado a seguir usa a palavra Messias. Muitos falam de "semente", "cetro", "renovo" ou "servo". O critério deste estudo será dizer, a cada passagem, o que o texto afirma, o que a tradição extraiu dele e onde a leitura é debatida.
Para conversar
- Se "ungido" é um título aplicado a sacerdotes, reis e até a um rei estrangeiro, o que muda na forma de ler a palavra quando ela aparece no Novo Testamento?
- Por que você acha que a esperança por uma figura única surgiu depois, e não já nos primeiros textos?
- Que diferença faz, para quem lê, separar o que o texto diz no seu contexto do que a tradição extraiu dele?
2.Promessas que apontam sem nomear
Três textos antigos costumam abrir qualquer lista de profecias messiânicas: Gênesis 3:15, Gênesis 49:10 e Números 24:17. Eles têm algo em comum: são breves, poéticos e ambíguos, e nenhum deles usa a palavra Mashiach.
Gênesis 3:15 fala da inimizade entre a serpente e a mulher, e entre a descendência de uma e a da outra, com a promessa de que a descendência da mulher ferirá a cabeça da serpente. O hebraico diz "semente", palavra coletiva, que pode designar uma descendência inteira. A Vulgata latina traz um pronome feminino, "ela esmagará", e disso nasceu uma tradição mariana na leitura católica; os manuscritos hebraicos e a Septuaginta têm um pronome masculino. Os Pais da Igreja, como Ireneu, já leram o versículo como primeira promessa de redenção, e a tradição cristã o chama de protoevangelho. A leitura judaica clássica o toma como sentença sobre a luta permanente entre o gênero humano e o mal. O próprio texto não diz mais do que isso.
Gênesis 49:10 está na bênção de Jacó a Judá: o cetro não se apartará de Judá "até que venha Siló", ou, em outra tradução possível, "até que venha aquele a quem pertence". O sentido de Siló é um dos problemas mais debatidos do Pentateuco. Os targuns judaicos antigos e boa parte da tradição rabínica leem o texto como referência ao rei Messias; a tradição cristã o relê em Jesus; vários estudiosos críticos o associam à realeza davídica ou a um lugar, a cidade de Siló. A dificuldade textual é real, e uma tradução segura não existe.
Números 24:17 é o oráculo de Balaão: "uma estrela procederá de Jacó, e um cetro subirá de Israel". No contexto, o oráculo olha para a vitória de Israel sobre Moabe e Edom, e o cumprimento imediato costuma ser associado a Davi. Mesmo assim, o texto foi lido como messiânico bem cedo: aparece nos manuscritos de Qumrã e, séculos depois, a tradição rabínica associa Simão bar Kokhba, líder da revolta do ano 132, ao título "filho da estrela".
O que esses textos oferecem não é um retrato, mas um vocabulário: descendência, cetro, estrela, reinado. Em vez de provar uma pessoa específica, eles fornecem as imagens com que gerações posteriores falarão de um rei futuro.
Para conversar
- Quando um texto é ambíguo no hebraico e traduzido de formas diferentes, quanto peso você daria a uma tradição de leitura antiga para escolher entre elas?
- O que se ganha e o que se perde ao chamar de "primeira promessa do Messias"?
- Como separar o que o texto diz do que gerações de leitores quiseram ouvir nele?
3.A casa de Davi e o rei esperado
O núcleo da esperança messiânica está em Davi. Em 2 Samuel 7, o profeta Natã comunica a Davi que Deus lhe construirá uma "casa", isto é, uma dinastia: seu descendente será firmado no trono, será tratado por Deus como filho, e o reino durará para sempre. O texto prevê também que, se esse descendente errar, será corrigido. Isso mostra que o oráculo falava, em primeiro lugar, de Salomão e dos reis seguintes, e não de uma figura distante.
A partir daí, os livros proféticos e os Salmos retomam e ampliam a promessa. O Salmo 2 é um salmo de entronização: Deus diz ao rei ungido "tu és meu filho, hoje te gerei" e lhe oferece as nações como herança. É um texto que provavelmente se cantava na coroação dos reis de Judá, com linguagem exagerada para qualquer rei real. O Salmo 110 é ainda mais enigmático, porque Davi chama alguém de "meu Senhor" e esse alguém é convidado a sentar à direita de Deus e declarado sacerdote "à maneira de Melquisedeque". É um dos salmos mais citados no Novo Testamento.
Em Isaías, três passagens formam um conjunto. Isaías 7:14 anuncia ao rei Acaz um sinal, o nascimento de um filho chamado Emanuel; o termo hebraico almah designa uma jovem em idade de casar e não afirma, por si, virgindade, enquanto a Septuaginta o traduz por parthenos. Mateus 1:23 cita a versão grega. Isaías 9:1-7 descreve um filho que traz luz e cujos títulos incluem "Deus forte" e "Príncipe da Paz". Isaías 11:1-9 fala de um renovo do tronco de Jessé, pai de Davi, sobre quem repousa o Espírito e cujo reino traz justiça e uma paz quase edênica. Os intérpretes críticos ligam esses textos ao reinado de Acaz e de Ezequias; a tradição judaica e a cristã os leem como retratos do rei ideal.
Miqueias 5:2 completa o conjunto ao situar o governante esperado em Belém, a cidade de Davi, de "origens antigas". O texto não diz o que seria esse governante, mas liga a esperança à mesma casa.
Há, portanto, um traço constante: a esperança nasce como promessa a uma dinastia concreta e vai se afastando dela, à medida que os reis reais decepcionam. É esse deslocamento, do rei do presente para o rei do futuro, que prepara o terreno para o que se chamará Messias.
Para conversar
- Como um texto escrito sobre um rei do seu tempo pode, sem perder o sentido original, passar a alimentar uma esperança futura?
- O que a decepção com reis reais pode ter a ver com o nascimento da esperança por um rei ideal?
- Se o hebraico de diz "jovem" e o grego diz "virgem", como você lidaria com a diferença ao ensinar o texto?
- O que a ligação com Belém e com Jessé acrescenta à imagem do governante esperado?
4.O servo, o sofredor e o filho do homem
Ao lado do rei, o Antigo Testamento apresenta outra figura, bem diferente: o servo. Em Isaías 42 a 53 aparecem quatro poemas, conhecidos como cânticos do servo, em que alguém escolhido por Deus traz justiça às nações com mansidão, é ferido, e por fim é glorificado. O quarto poema, em Isaías 52:13 a 53:12, descreve um homem desprezado, que carrega as doenças e as dores de muitos e é levado como cordeiro ao matadouro. A pergunta é quem é esse servo. Em Isaías 49:3, o próprio texto o chama de "Israel"; em outros trechos, o servo parece distinto do povo e tem uma missão em relação a ele. Há, portanto, uma ambiguidade interna ao texto.
O Salmo 22 funciona de modo parecido. Começa com o grito "Deus meu, por que me desamparaste?", descreve mãos e pés traspassados, roupas repartidas por sorteio e, no fim, termina em louvor. Na origem, é a oração de um justo em perigo, que provavelmente se aplicava ao rei ou a qualquer sofredor fiel. Os evangelistas, porém, o usam como chave para a paixão de Jesus.
Zacarias 9:9 traz um rei que chega a Jerusalém "humilde, montado num jumento". Contrasta com a imagem do guerreiro e prepara, na leitura cristã, a entrada de Jesus em Jerusalém, narrada nos quatro evangelhos.
Daniel acrescenta duas pistas. No capítulo 7, o profeta vê "um como filho de homem" que vem com as nuvens e recebe de Deus domínio eterno. A expressão pode designar uma figura individual ou o povo dos santos do Altíssimo, como o próprio capítulo interpreta mais adiante; Jesus usa o título para si mesmo. No capítulo 9, o anjo Gabriel fala de setenta "semanas" e menciona um "ungido" que será cortado. A leitura dessas semanas é uma das mais disputadas de toda a Bíblia: há quem a associe a Antíoco IV, no século II a.C., e quem a leve a Jesus ou ao fim dos tempos.
Esses textos mostram que a imagem do Messias sofredor não é uma invenção posterior sem raiz, mas que, antes do cristianismo, a leitura dominante ainda associava o Ungido ao rei vitorioso.
Para conversar
- Quando o texto de Isaías chama o servo de "Israel" e depois parece distingui-lo do povo, o que isso diz sobre o modo de ler poesia profética?
- O que significa dizer que um salmo de lamento de um justo foi lido depois como descrição da paixão?
- pode se referir a uma pessoa e a um povo ao mesmo tempo. Como lidar com essa dupla leitura?
- Por que as setenta semanas de Daniel produzem tantas leituras diferentes?
5.Três maneiras de ler
Diante dos mesmos textos, ao menos três grandes modos de leitura convivem, e cada um tem sua lógica e seus pontos fracos.
A leitura judaica clássica reconhece a esperança de um Messias, mas a entende de modo diferente do cristão. Em seus termos, o Messias é um descendente de Davi, um homem, que reunirá os exilados, reconstruirá o Templo, estabelecerá o direito e inaugurará uma era em que as nações conhecerão o Deus de Israel. Maimônides, no século XII, fez dessa expectativa um dos treze princípios de fé e, em suas Leis dos Reis, descreveu o Messias como um rei humano e não como um ser divino. Para essa tradição, as profecias ainda não se cumpriram, porque ainda não houve paz universal nem reunião completa do povo. Quanto a Isaías 53, a leitura rabínica mais comum, como a de Rashi, entende o servo como Israel; alguns targuns antigos, porém, aplicam o poema ao Messias. A tradição judaica, portanto, não é monolítica.
A leitura cristã identifica Jesus como o Messias esperado e usa duas chaves. A primeira é o cumprimento direto, quando uma passagem é lida como predição de um fato. A segunda é a tipologia, em que pessoas, instituições e acontecimentos do Antigo Testamento são vistos como figuras de uma realidade maior, como Davi, o cordeiro pascal ou o servo. Católicos, ortodoxos e protestantes concordam nisso, mas diferem em quanto peso dão a cada chave e em como tratam a conexão com Israel.
A leitura histórico-crítica pergunta, antes de tudo, o que cada texto significava para seu primeiro público. Daí resulta que muitos oráculos tratam de reis e crises do seu tempo, que a figura do Messias se formou aos poucos, e que a diversidade era grande: os manuscritos de Qumrã falam até de dois Messias, um sacerdotal e outro régio. Essa leitura não decide se Jesus é o Messias, porque essa é uma pergunta de fé, não de método histórico; mas lembra que o mesmo texto admite mais de um sentido.
Nenhuma dessas leituras tem a última palavra por conta própria. Cada uma responde a perguntas diferentes e deve ser ouvida pelo que consegue mostrar.
Para conversar
- O que uma leitura cristã aprenderia ao escutar sem pressa a leitura judaica de , e vice-versa?
- Em que sentido a expectativa judaica de um Messias que traz paz universal é um critério legítimo, e em que sentido pode ser uma pressuposição?
- A crítica histórica ajuda ou atrapalha a fé de quem lê? Em que condições?
6.Como o Novo Testamento cita, e onde o argumento termina
O Novo Testamento cita o Antigo com uma frequência impressionante, e o faz de modos muito diferentes. Entender essa variedade evita duas simplificações: a de que todas as citações são predições diretas e a de que nenhuma tem base no texto.
Alguns casos são citações de cumprimento explícito, como Mateus 2:5-6 com Miqueias 5:2 e João 12:14-15 com Zacarias 9:9. Outros usam o Antigo Testamento por tipologia: Mateus 2:15 aplica a Jesus a frase de Oseias 11:1, "do Egito chamei o meu filho", que no original se refere a Israel saindo do cativeiro. Isso mostra que o evangelista lê a história de Israel como um padrão que se repete e se concentra em Jesus. Há ainda os casos de vocabulário compartilhado, como a expressão "à direita de Deus", tomada do Salmo 110 em Marcos 12:35-37 e Hebreus 1. E há o uso de Isaías 53 em Atos 8:30-35, em que Filipe parte desse texto para anunciar Jesus ao eunuco etíope. Lucas 24:27 e 24:44 resumem a convicção: Jesus ensina aos discípulos que Moisés, os Profetas e os Salmos falavam dele. A Primeira Carta de Pedro acrescenta que os próprios profetas indagavam sobre o tempo e as circunstâncias dessas coisas.
Mas é preciso reconhecer limites. Primeiro, o Novo Testamento muitas vezes lê o texto a partir do que aconteceu, e por isso certas conexões só ficam visíveis depois do fato. Segundo, os autores usam a Septuaginta, que às vezes difere do hebraico, como em Isaías 7:14. Terceiro, nem todo texto citado como messiânico o era para os leitores judeus do século I. Quarto, a leitura judaica não aceita que as passagens se cumpriram em Jesus e se apoia no próprio texto para dizer isso. Esses desacordos não se resolvem apenas por filologia.
O que o estudo pode afirmar com honestidade é o seguinte: o Antigo Testamento oferece promessas, imagens e um padrão de esperança; o Novo Testamento afirma que esse padrão se cumpre em Jesus; e quem aceita ou recusa essa afirmação o faz por razões que ultrapassam o texto isolado. Reconhecer isso não enfraquece a fé de quem crê, nem desmerece quem discorda.
Para conversar
- Quando Mateus aplica a Jesus uma frase que, no original, falava de Israel, o que isso revela sobre a forma de ler a Escritura no século I?
- Que diferença há entre dizer que um texto "prediz" e dizer que ele "encontra seu sentido pleno" em alguém?
- Como conversar com uma pessoa que lê as mesmas passagens e chega a outra conclusão, sem reduzir o desacordo a má vontade?
- Que cuidados um professor deve ter para não apresentar uma lista de "cem profecias" como se todas tivessem a mesma força?
O que fica
- Messias significa "ungido", e no Antigo Testamento o título vale para sacerdotes, reis e até Ciro; a figura única esperada se forma aos poucos.
- Muitos textos citados como messiânicos falam, antes de tudo, de reis e situações do seu tempo, e só depois foram lidos como esperança futura.
- , o Salmo 110 e admitem mais de uma leitura, e as tradições judaica, cristã e histórico-crítica respondem a perguntas diferentes.
- O Novo Testamento cita o Antigo por cumprimento e por tipologia, e a conclusão de que Jesus é o Messias é afirmação de fé, não dedução neutra.
- Conhecer onde o texto é silencioso ou debatido protege tanto da credulidade quanto do ceticismo apressado.
Aprofundamento
Três questões concentram o debate. A primeira é a relação entre sentido original e sentido posterior. Boa parte dos textos messiânicos tem um referente histórico: o Salmo 2 fala de um rei de Judá, de um sinal dado a Acaz, de um filho nascido na corte. A pergunta é se o texto continha desde o início um alcance maior. A tradição cristã costuma responder que sim, por meio de cumprimento direto ou de tipologia, e alguns teólogos católicos falam em sentido pleno, o sentido que Deus pretendeu e que só se revela depois. A crítica histórica responde que o alcance maior é obra de leitores posteriores, e não distingue entre isso e intenção divina. A tradição judaica, por sua vez, aceita muitas leituras messiânicas antigas, mas nega que Jesus as cumpra.
A segunda questão é o servo sofredor. Não há consenso sobre se descreve Israel, um indivíduo, o profeta ou uma figura futura. Os rabinos medievais, como Rashi, preferiam Israel; os targuns antigos aplicavam o texto ao Messias; a leitura cristã o associa a Jesus desde o Novo Testamento. A dificuldade para qualquer leitura é que o poema fala de sofrimento vicário, algo raro na Bíblia hebraica.
A terceira questão é o critério de cumprimento. Muitas vezes se diz que Jesus cumpriu centenas de profecias, mas essa contagem depende de decidir quais passagens são profecias, em que sentido são e quanto se aproximam do fato. Alguns cumprimentos são explícitos, como o de Belém em . Outros dependem de tipologia, como o de . E há textos que a tradição cristã interpretou como messiânicos, mas que a judaica e a crítica histórica não aceitam como tais.
Também é preciso lembrar que a expectativa do tempo de Jesus era plural. Havia quem esperasse um rei guerreiro, um sacerdote, um profeta ou um juiz celeste. O Novo Testamento mostra que até os discípulos tiveram dificuldade em entender um Messias que sofre e morre, como em . Essa dificuldade é um dado histórico: a ideia de um Ungido sofredor não era a leitura dominante e precisou ser defendida com argumentos.
Por fim, convém registrar que um estudo como este não pode provar nem refutar a fé. Ele pode mostrar o que o texto diz, o que se leu nele e por que as comunidades discordam. Onde o texto é silencioso, como na identidade exata do servo ou no sentido de Siló em , o mais honesto é dizer que o silêncio é real.
O que costumam dizer errado
Dizem que:O Antigo Testamento está cheio de profecias claras que preveem Jesus pelo nome e pelos detalhes.
Nenhum texto do Antigo Testamento nomeia Jesus, e a maior parte das passagens citadas fala, em primeiro lugar, de reis e situações da época. A ligação com Jesus vem de leituras tipológicas e de cumprimento feitas pelo Novo Testamento, que são afirmações de fé, e não evidências neutras.
Dizem que:Todos os judeus do tempo de Jesus esperavam o mesmo Messias.
A literatura do Segundo Templo mostra expectativas variadas: um rei davídico, um sacerdote, dois Messias em Qumrã, um profeta, uma figura celeste. Havia também muitos judeus sem expectativa messiânica destacada. A ideia de um Messias único e uniforme é uma simplificação posterior.
Dizem que:A palavra Messias aparece no Antigo Testamento só para falar de Jesus.
Mashiach designa sacerdotes (), reis como Saul e Davi () e até Ciro, rei da Pérsia (). O sentido básico é "ungido", e o uso como título de uma figura final é desenvolvimento posterior.
Dizem que:Os judeus rejeitaram Jesus porque não leram suas próprias Escrituras.
A tradição judaica leu os mesmos textos com atenção e chegou a conclusões diferentes, por exemplo ao entender como o povo de Israel e ao esperar um Messias que cumpra a paz universal. O desacordo é sobre interpretação, e não sobre ignorância do texto.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica rabínica
O Messias é um descendente de Davi, um homem, que reunirá os exilados, reconstruirá o Templo e inaugurará uma era de paz e conhecimento de Deus. Maimônides inclui essa expectativa entre os treze princípios de fé. costuma ser lido como referência a Israel, embora alguns targuns o apliquem ao Messias, e as profecias são tidas por ainda não cumpridas.
Cristã (cumprimento e tipologia)
Jesus é o Messias prometido. Algumas passagens são lidas como predições diretas, como , e outras como figuras que se realizam nele, como o servo de Isaías e o rei do Salmo 110. Católicos, ortodoxos e protestantes compartilham essa convicção, com ênfases diferentes sobre quanto o sentido pleno já estava no texto antigo.
Histórico-crítica
Cada oráculo deve ser lido primeiro no contexto do seu autor e de seu público, em geral referido a reis e crises de Judá. A figura do Messias teria se formado aos poucos, com expectativas plurais no Segundo Templo, como atestam os manuscritos de Qumrã. O método descreve essa formação e não decide a questão de fé sobre Jesus.
Judaísmo do Segundo Templo (Qumrã)
Os textos de Qumrã falam de um Messias de Aarão e de um Messias de Israel, isto é, uma figura sacerdotal e outra régia, e mostram que a esperança era mais variada do que a imagem posterior de um único rei. Essa leitura é anterior à separação entre judaísmo rabínico e cristianismo.
O que fazer com isso
Ao encontrar uma lista de profecias messiânicas, vale perguntar três coisas sobre cada item: o que o texto diz no seu contexto original, como a tradição judaica o leu e como o Novo Testamento o cita. Essa disciplina evita tanto a credulidade, que aceita qualquer ligação, quanto o ceticismo apressado, que descarta todas. Também ajuda a conversar com pessoas de outras tradições com respeito, reconhecendo onde o desacordo é de fato sobre o texto.
Perguntas frequentes
- O que significa a palavra Messias?
- Vem do hebraico Mashiach, "ungido", alguém que recebeu óleo para exercer uma função. A forma grega christos deu "Cristo". No Antigo Testamento o termo se aplica a reis, sacerdotes e até a Ciro, e só mais tarde passou a designar um rei esperado no fim dos tempos.
- Isaías 53 fala de Jesus ou de Israel?
- Depende da tradição. A leitura cristã o associa a Jesus desde o Novo Testamento. A leitura rabínica mais comum, como a de Rashi, entende o servo como Israel, e alguns targuns antigos o aplicam ao Messias. O próprio texto de Isaías chama o servo de Israel em 49:3, o que mantém a questão aberta.
- Isaías 7:14 fala mesmo de uma virgem?
- O hebraico almah indica uma jovem em idade de casar, sem afirmar por si só virgindade. A Septuaginta traduziu por parthenos, que costuma significar virgem, e cita essa versão. A discussão é de tradução e de leitura, e as tradições cristãs aceitam o uso do Novo Testamento.
- Os judeus esperam o mesmo Messias que os cristãos?
- Não. A tradição judaica espera um descendente humano de Davi que traga paz universal e reúna o povo, e considera que isso ainda não aconteceu. Os cristãos creem que Jesus é o Messias e que seu reino se inaugurou, com plenitude ainda por vir.
Fontes consultadas
- Maimônides. Mishneh Torá (Leis dos Reis e de suas Guerras), 1180.
- Justino Mártir. Diálogo com Trifão.
- Joseph Klausner. A Ideia Messiânica em Israel (The Messianic Idea in Israel), 1955.
- Sigmund Mowinckel. He That Cometh, 1956.
- Raymond E. Brown. The Birth of the Messiah, 1977.
- John J. Collins. The Scepter and the Star: The Messiahs of the Dead Sea Scrolls and Other Ancient Literature, 1995.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.