Mateus: o evangelho do Messias de Israel e do discípulo
o que a bíblia diz sobre o evangelho de mateus
Resposta curta
O Evangelho de Mateus abre o Novo Testamento e foi escrito por alguém que conhecia as Escrituras de Israel por dentro. Do primeiro versículo, que chama Jesus de filho de Davi e filho de Abraão, ao último, que promete a presença dele até o fim dos tempos, o livro sustenta uma tese: o Messias prometido a Israel chegou, e quem o segue aprende a viver sob o reinado dele. Este estudo percorre seis pontos: a genealogia e a infância, o uso do Antigo Testamento, a estrutura em cinco discursos, o confronto de , as parábolas do reino e do juízo, e a paixão com a Grande Comissão. Onde há divergência real entre as tradições, o texto a nomeia sem escolher lado.
Em palavras simples
Mateus é o evangelho que mais insiste em ligar Jesus à história de Israel. Começa com uma lista de antepassados, cita o Antigo Testamento várias vezes para mostrar que as promessas se cumpriram e organiza os ensinos de Jesus em cinco grandes discursos. Traz também as palavras mais duras contra os líderes religiosos, as parábolas sobre o reino e o juízo, e termina com a ordem de fazer discípulos de todas as nações. É um livro sobre quem Jesus é e sobre o que significa segui-lo.
Antes de começar
O livro é anônimo. O nome de Mateus aparece no título que os manuscritos trazem, não no corpo do texto, e a tradição que o liga ao cobrador de impostos chamado em e listado entre os doze em 10:3 é antiga. Eusébio de Cesareia, no século IV, transmite uma informação atribuída a Papias, bispo de Hierápolis, segundo a qual Mateus pôs em ordem as palavras do Senhor em língua hebraica, e cada um as interpretou como pôde. O que Papias quis dizer, e se isso descreve o livro que temos, é discutido: o Mateus grego não tem aparência de tradução e aproveita boa parte de Marcos, o que leva a maioria dos estudiosos a vê-lo como obra composta em grego por um autor judeu-cristão culto, talvez a partir de material anterior. Uma minoria sustenta que Mateus veio primeiro e que Marcos o resumiu. A tradição antiga, de Agostinho em diante, em geral aceitou a autoria do apóstolo; parte da pesquisa moderna a considera incerta.
A data e o lugar também são debatidos. A parábola da festa de casamento fala de uma cidade incendiada (22:7), e muitos leitores veem ali um eco da destruição de Jerusalém no ano 70, o que situaria o livro entre os anos 80 e 90; outros defendem data anterior, e a menção ao incêndio não decide a questão. Antioquia da Síria é a sugestão mais repetida para o lugar, mas é hipótese, não dado.
O público é uma comunidade de raízes judaicas, que lê o Antigo Testamento, discute a Lei e disputa sua identidade com outras formas de judaísmo num tempo de crise. Mateus usa expressões que só fazem pleno sentido nesse ambiente: diz reino dos céus onde os outros evangelhos dizem reino de Deus, provavelmente por reverência ao nome divino; supõe que o leitor conhece as regras de purificação (15:1-2); e escreve até o dia de hoje (27:8; 28:15) como quem conversa com vizinhos. É também o único evangelho que usa a palavra igreja (16:18; 18:17).
Por que ocupa o primeiro lugar no Novo Testamento é igualmente discutido, já que quase ninguém o considera o mais antigo. A explicação mais comum é que, na ordem canônica, ele faz a ponte: abre com a genealogia e termina com a missão às nações, ligando a história de Israel à história da Igreja.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoMateus põe Jesus como a resposta de Deus à história de Israel e o faz de forma emoldurada. No começo, o nome Emanuel, Deus conosco (1:23); no fim, a promessa de estar com os discípulos todos os dias (28:20). Entre uma e outra, Jesus aparece como o filho de Davi, o novo Israel que passa pelo Egito, pela água e pelo deserto, o mestre que fala com autoridade própria e o rei que reina a partir da cruz. O livro não apresenta um sistema, apresenta uma pessoa que cumpre aquilo que a Escritura esperava.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.Um livro que começa com uma lista de nomes
Mateus abre com o que o leitor moderno mais tende a pular: uma genealogia. Em 1:1 o livro se apresenta como a origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão, e os dois títulos já anunciam o programa. Davi é o rei prometido; Abraão é o pai de um povo por meio de quem todas as famílias da terra seriam abençoadas (Gênesis 12:3). A lista organiza a história de Israel em três blocos de catorze gerações (1:17), arranjo que exige selecionar nomes: entre Jorão e Uzias, por exemplo, o texto salta alguns reis que as crônicas registram. Muitos intérpretes notam que as letras hebraicas do nome de Davi somam catorze, o que explicaria a escolha; é uma hipótese plausível, mas o texto não a afirma.
Mais notável que a aritmética são as quatro mulheres. Numa genealogia que segue a linha dos pais, aparecem Tamar, Raabe, Rute e a que foi de Urias (1:3-6). Todas têm alguma ligação com estrangeiros ou com situações irregulares. Por que Mateus as inclui é debatido: uns veem o anúncio da abertura aos gentios, outros a marca de um Deus que age por caminhos pouco convencionais, o que prepararia a gravidez de Maria, outros ainda a lembrança de que o Messias vem para pessoas com histórias difíceis. O texto não explica, e as três leituras não se excluem.
Em seguida a narrativa acompanha José, e não Maria. É a ele que o anjo fala em sonho, e é ele quem recebe a tarefa de dar o nome que significa o Senhor salva, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados (1:21). A expressão seu povo importa: o Messias aqui é o de Israel. Os magos do oriente (2:1-12), estrangeiros, vêm adorá-lo, enquanto Herodes e toda Jerusalém se perturbam. O capítulo 2 antecipa o enredo do livro: gentios que se aproximam, autoridade hostil dentro de Israel, ameaça de morte, fuga e retorno. O texto não diz quantos eram os magos nem como se chamavam; a tradição posterior fixou em três e os nomeou, mas isso não está em Mateus.
Antes de qualquer milagre, portanto, o livro já coloca a pergunta que o atravessa até o fim: quem é este, e a quem ele pertence?
Para conversar
- Por que um autor que quer apresentar o Messias começaria com uma lista de antepassados, e o que o leitor perde ao pulá-la?
- A presença de quatro mulheres com histórias complicadas na genealogia pode ser lida de pelo menos três formas. Qual delas parece mais convincente para você, e por quê?
- No capítulo 2, estrangeiros adoram o rei enquanto o rei local e a capital se assustam. O que esse contraste sugere sobre o que Mateus espera que o leitor perceba em si mesmo?
2.Cumprimento: como Mateus lê o Antigo Testamento
Mateus tem uma fórmula característica: isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta. Ela aparece em torno de dez vezes, a começar pela infância (1:22; 2:15; 2:17; 2:23) e continuando pelo ministério (4:14; 8:17; 12:17; 13:35; 21:4) e pela paixão (27:9). Quem as lê de modo seguido nota logo que elas não funcionam todas do mesmo jeito, e é aqui que começa o trabalho honesto.
Alguns casos se parecem com predição: Miqueias 5:2 aponta Belém (2:5-6), e Zacarias 9:9 descreve o rei montado num jumento (21:4-5). Outros funcionam por padrão repetido. Em 2:15, Mateus cita Oseias 11:1, que no original recorda o êxodo de Israel, não uma previsão: Jesus sai do Egito como Israel saiu, e Mateus o apresenta como quem refaz a história do povo, passando pela água do batismo e pelos quarenta dias no deserto (3:13-4:2), e respondendo às tentações com textos de Deuteronômio, o livro que Israel ouviu no deserto. Em 2:18, o lamento de Raquel, de Jeremias 31:15, é citado a propósito do massacre de Belém, ainda que no original fale do exílio. E Isaías 7:14, o sinal do Emanuel (1:23), no contexto de Isaías é dirigido ao rei Acaz diante de uma ameaça concreta; a tradução grega, que Mateus usa, tem parthenos (virgem) onde o hebraico tem ʿalmāh, termo que as tradições cristãs e judaicas leem de forma diferente.
Há casos mais difíceis. Em 2:23, Mateus diz que Jesus morou em Nazaré para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas, que ele seria chamado nazareno, mas nenhum texto do Antigo Testamento diz isso literalmente, e os intérpretes sugerem relações com a palavra hebraica para ramo (Isaías 11:1) ou com o nazireu, sem consenso. Em 27:9, Mateus atribui a Jeremias uma citação cuja redação se parece mais com Zacarias 11:12-13, com ecos de Jeremias 18 e 32.
As tradições respondem de modos diferentes: sentido pleno que só se vê à luz de Cristo, tipologia, técnica interpretativa judaica da época, como os comentários de Qumran, ou liberdade criativa de um autor que lê o Antigo Testamento a partir da conclusão. Que Mateus não lê como um historiador de textos fica claro; se isso é problema ou método é uma questão que o próprio texto deixa aberta.
Para conversar
- Em 2:15, Mateus usa um texto que no original fala do passado para falar de Jesus. O que muda na leitura quando se vê o cumprimento como repetição de um padrão, e não só como previsão?
- Quando Mateus cita um profeta de modo que o contexto original não deixa óbvio, isso enfraquece ou enriquece o argumento dele? Que critérios você usaria para decidir?
- Que diferença faria para um leitor judeu do primeiro século ouvir Jesus apresentado como quem refaz o caminho de Israel pelo Egito, pela água e pelo deserto?
- Por que importa para a fé cristã que Mateus tenha precisado ler o Antigo Testamento para entender Jesus, e não apenas relatar o que Jesus fez?
3.Cinco discursos e uma estrutura que ensina
Quem lê Mateus em sequência percebe um ritmo: blocos de narrativa se alternam com longos discursos, e cada discurso termina com uma frase quase idêntica, quando Jesus acabou estas palavras (7:28; 11:1; 13:53; 19:1; 26:1). No início do século XX, o estudioso Benjamin Bacon propôs que esses cinco blocos imitam os cinco livros da Lei de Moisés e que Mateus apresentava Jesus como um novo mestre da Torá. A hipótese teve grande influência e ainda é discutida: há quem a aceite, há quem a considere forçada, e o que parece mais sólido é a própria regularidade da fórmula, que mostra uma escolha deliberada do autor, mais do que a comparação com o Pentateuco.
Os cinco são o Sermão do Monte (5-7), que tem estudo próprio, o discurso da missão (10), o das parábolas (13), o da vida em comunidade (18) e o discurso sobre o fim (24-25). Cada um responde a um aspecto do discipulado: ética, envio, mistério do reino, convivência, vigilância. No discurso da missão, os Doze são enviados com poucos recursos e avisados da perseguição. No discurso da comunidade, a pessoa perdida é procurada como a ovelha, o irmão que peca é tratado em etapas e o perdão é praticado sem contagem (18:12-22), e a promessa da presença de Jesus onde dois ou três se reúnem (18:20) antecipa a do final do livro.
Outra proposta, de Jack Dean Kingsbury, divide o texto pelas frases desde então começou Jesus (4:17; 16:21), que marcam a pregação do reino e o caminho para a cruz. As duas estruturas não são rivais, e os estudiosos podem usar ambas.
O discurso da missão traz uma tensão que o livro não esconde. Em 10:5-6, os Doze não devem ir aos gentios nem aos samaritanos; em 15:24, Jesus afirma ter sido enviado apenas às ovelhas perdidas da casa de Israel, e mesmo assim atende a mulher cananeia (15:21-28); em 28:19 o envio é a todas as nações. Muitos leem essa sequência como etapas da história da salvação, com a ressurreição abrindo o que antes estava fechado. Outros dizem que a comunidade de Mateus continuou missionando entre judeus. O texto registra as três coisas e não as concilia em uma frase.
Para conversar
- O que muda na leitura de um evangelho quando se percebe que seu autor organizou o material por tema, e não só por cronologia?
- A ordem de 10:5-6 e a de 28:19 parecem opostas. Como você explicaria a diferença sem perder nenhuma das duas?
- O discurso do capítulo 18 trata da vida entre irmãos e vai da ovelha perdida à correção e ao perdão. Que ideia de comunidade resulta dessa sequência?
- Que vantagem e que risco há em reduzir um livro inteiro a um esquema, seja o dos cinco discursos, seja o de Kingsbury?
4.Mateus 23 e a ferida da história
O confronto com os líderes religiosos cresce ao longo do livro. Os conflitos sobre o sábado (12:1-14), sobre a tradição dos anciãos (15:1-20) e sobre a autoridade de Jesus no templo (21-22) preparam o capítulo 23, um dos discursos mais duros do Novo Testamento. Antes de lê-lo, vale notar que ele começa com um reconhecimento: os escribas e fariseus se assentam na cadeira de Moisés, e por isso os discípulos devem fazer e guardar o que eles dizem, mas não imitar o que eles fazem (23:2-3). A crítica, portanto, não é ao ensino da Lei, e sim à distância entre o que se ensina e o que se vive.
Os ais que se seguem têm esse tema. A palavra hipócrita vem do grego hypokritēs, que designava o ator de teatro, e Mateus a usa para quem representa um papel. O ponto central está em 23:23: dizimar hortelã, endro e cominho é correto, mas isso não pode ocupar o lugar da justiça, da misericórdia e da fidelidade. Em 23:8-12 o discurso se volta para dentro da comunidade de Jesus: vós sois todos irmãos, e quem se exalta será humilhado. O capítulo termina não com triunfo, mas com lamento por Jerusalém (23:37-39), e a última frase é uma promessa de bênção.
Aqui entra a ferida. O retrato dos fariseus em Mateus é polêmico e não coincide com tudo o que outras fontes, como Josefo e a literatura rabínica, dizem sobre eles. Os textos foram escritos num tempo em que a comunidade de Jesus e outras correntes do judaísmo disputavam a herança de Israel depois da queda do templo, e a linguagem é a de uma briga em família. Em outro contexto, essas palavras foram usadas contra judeus de todos os tempos, e o grito de 27:25, sobre nós e sobre nossos filhos, alimentou perseguições. A declaração Nostra Aetate, do Concílio Vaticano II (1965), rejeitou a ideia de culpa coletiva.
Ler Mateus 23 com honestidade é manter as duas coisas: o texto é severo, e a severidade se dirige a uma atitude que qualquer comunidade religiosa pode ter, inclusive a que lê.
Para conversar
- Jesus reconhece a autoridade de ensino dos fariseus (23:2-3) e ao mesmo tempo os condena. Como isso muda a forma de ler os ais seguintes?
- Em 23:8-12 o discurso se volta para os discípulos. O que significa receber um aviso duro que se aplica a quem o ouve, e não a um adversário?
- Como uma comunidade pode ler textos polêmicos do Novo Testamento sem repetir contra outros as acusações que eles faziam em outro contexto?
- O capítulo termina em lamento. O que esse fecho acrescenta ao que se leu antes?
5.Parábolas do reino: mistura, espera e prestação de contas
O estudo geral das parábolas já existe; aqui interessa o que é próprio de Mateus. Nos capítulos 13 e 25 ele reúne duas coleções que respondem a perguntas diferentes. O capítulo 13 pergunta como é o reino quando chega de modo inesperado; o 25, o que se faz enquanto o rei demora.
No capítulo 13, as sete parábolas descrevem um reino que não chega como se esperava. O semeador mostra que a mesma palavra produz resultados diversos. O trigo e o joio (13:24-30; 36-43) ensina paciência com a mistura: o campo é o mundo, como diz o próprio Jesus (13:38), e a separação cabe ao fim, não à pressa dos servos. Essa parábola foi usada por Agostinho contra os donatistas para argumentar que a igreja visível contém bons e maus até o fim, e outros a leem como alerta contra o rigor excessivo. O grão de mostarda e o fermento falam de pequenez que se expande; o tesouro e a pérola, de um valor que justifica abrir mão de tudo; a rede, de um juízo posterior. A explicação de Jesus sobre por que fala em parábolas (13:10-17), com a citação de Isaías 6, é debatida: o texto trata o endurecimento como propósito ou como consequência?
O capítulo 25 muda o tom. As dez virgens (25:1-13) apresentam a demora do noivo e o preparo que não pode ser emprestado. Os talentos (25:14-30) mostram que o dono volta depois de muito tempo e pede contas, e que o servo condenado é o que escondeu por medo, não o que fez errado. As ovelhas e os bodes (25:31-46) terminam com um critério: o que se fez ou deixou de fazer pelos meus irmãos menores. Os intérpretes se dividem sobre quem são eles: qualquer pessoa necessitada, os cristãos em dificuldade ou os mensageiros do reino. O texto não decide, e as três leituras têm defensores sérios.
O que une os dois blocos é que o reino de Mateus exige paciência com os outros e vigilância consigo mesmo.
Para conversar
- Na parábola do joio, os servos querem arrancar o joio logo e o dono diz que espere. Em que situações reais a pressa de separar os bons dos maus faz mais estrago do que a espera?
- No capítulo 25, o dono volta depois de muito tempo. Como se vive bem o intervalo, nem em ansiedade nem em descuido?
- Quem são os irmãos menores de 25:40? Que consequências práticas cada uma das leituras traria para uma igreja?
- Por que Mateus, mais do que os outros evangelhos, associa o juízo a pessoas que estavam dentro da festa, e não fora dela?
6.Paixão, túmulo vazio e a promessa do final
A paixão em Mateus segue o roteiro dos outros evangelhos, mas tem acentos próprios. Judas recebe trinta moedas de prata (26:15), o preço de Zacarias 11:12, e, ao se arrepender, devolve o dinheiro, que os sacerdotes usam para comprar o campo do oleiro (27:3-10). O relato de Atos 1:18-19 sobre o fim de Judas é diferente em detalhes, e as harmonizações propostas não são unânimes. Só Mateus registra o sonho da mulher de Pilatos (27:19) e o gesto de Pilatos lavando as mãos (27:24). Na cruz, o grito de Jesus é o primeiro versículo do Salmo 22. E Mateus acrescenta que, na morte de Jesus, a terra tremeu, os túmulos se abriram e muitos santos ressuscitaram (27:51-53), passagem que intriga os leitores e cuja natureza, simbólica ou histórica, é discutida.
Também é Mateus que narra a guarda posta ao túmulo (27:62-66) e a história inventada de que os discípulos teriam roubado o corpo, que, segundo ele, circula entre os judeus até o dia de hoje (28:11-15). As mulheres são as primeiras a encontrar o túmulo vazio e a receber a ordem de avisar os discípulos de que devem ir à Galileia (28:1-10).
O fim do livro se passa numa montanha da Galileia (28:16-20). O texto diz que, ao vê-lo, os discípulos o adoraram, mas alguns duvidaram. A autoridade que Jesus reivindica, toda autoridade no céu e na terra, ecoa o Filho do Homem de Daniel 7:13-14. A ordem tem um verbo principal, fazei discípulos, acompanhado de ir, batizar e ensinar. De todas as nações pode incluir Israel ou apenas os gentios, e os intérpretes divergem. O batismo é feito em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, fórmula única no Novo Testamento neste formato.
O livro termina sem cena de ascensão. Jesus diz: eu estou convosco todos os dias, até a consumação do século. A frase fecha um círculo aberto no capítulo 1, Emanuel, Deus conosco, e deixa a pergunta inicial respondida: o Messias de Israel permanece com os discípulos que vão a todos os povos.
Para conversar
- Mateus registra que, diante do Ressuscitado, alguns duvidaram (28:17), e Jesus os envia mesmo assim. O que isso diz sobre a relação entre dúvida e missão?
- Quais elementos próprios de Mateus na paixão, como Pilatos, o sonho de sua mulher e os santos ressuscitados, mudam a forma como você lê a cruz?
- A promessa final de presença volta ao nome Emanuel do capítulo 1. Que efeito tem, na leitura do livro inteiro, esse fecho?
- Se fazer discípulos inclui ensinar a guardar tudo o que Jesus ordenou (28:20), o que isso sugere sobre o que a missão deve produzir além de conversões?
O que fica
- Mateus apresenta Jesus como o Messias de Israel, filho de Davi e de Abraão, e as quatro mulheres da genealogia já sugerem que a promessa alcança além de Israel.
- As citações de cumprimento não funcionam todas do mesmo jeito: algumas são predições, outras padrões repetidos, e algumas continuam em debate entre os intérpretes.
- A estrutura em cinco discursos mostra um livro construído para ensinar, e a tensão entre a missão a Israel e o envio a todas as nações é registrada sem ser dissolvida.
- é uma advertência interna e severa, que tem sido usada contra judeus de modo estranho ao texto; lê-lo bem é manter a seriedade sem repetir o dano.
- O livro começa com Emanuel, Deus conosco, e termina com a promessa de presença até o fim dos tempos, no meio de dúvidas e envio.
Aprofundamento
Três pontos concentram a discussão sobre Mateus, e convém não confundi-los. O primeiro é a relação do livro com a Lei. Jesus diz que não veio abolir a Lei e os Profetas, mas cumpri-los (5:17), censura os fariseus por negligenciarem o mais importante da Lei enquanto dizimam hortelã (23:23) e, ao mesmo tempo, em 19:8-9 trata uma concessão de Moisés como algo que a criação desautoriza. Há quem leia o conjunto como continuidade da prática judaica na comunidade de Mateus; há quem veja cumprimento que relativiza as normas cerimoniais; e a tradição reformada distinguiu entre leis morais, civis e cerimoniais para dar conta do material. O texto fornece todos os dados, e cada leitura deixa algum deles pesando mais do que os outros.
O segundo ponto é a relação entre Israel e as nações. Mateus registra a ordem de não ir aos gentios nem aos samaritanos (10:5-6), a declaração de que Jesus foi enviado só às ovelhas perdidas da casa de Israel (15:24), a frase de que o reino será tirado de alguns e dado a um povo que produza seus frutos (21:43) e o envio final a todas as nações (28:19). Alguns leitores concluem que Israel foi substituído; outros, que a missão se amplia sem anular a promessa a Israel, argumentando que o povo de 21:43 não é descrito como etnia e que Paulo, em , rejeita a ideia de rejeição total. A Igreja Católica, em Nostra Aetate (1965), afirmou que os judeus não devem ser apresentados como rejeitados por Deus. O texto de Mateus, lido sozinho, admite as duas direções.
O terceiro ponto é o peso do juízo. Seis vezes aparece a imagem de choro e ranger de dentes (8:12; 13:42; 13:50; 22:13; 24:51; 25:30), e quase sempre o aviso recai sobre quem ocupava lugar de conforto: os herdeiros do reino, o servo que tinha confiança do dono, o convidado que entrou na festa. As tradições divergem sobre o que isso descreve, com leituras que vão da condenação definitiva à correção severa, e este estudo não decide entre elas.
Há ainda um problema de método que o próprio texto impõe: Mateus agrupa o material por tema, e não por cronologia. Os milagres dos capítulos 8 e 9 e as parábolas do capítulo 13 formam coleções, de modo que a ordem do livro serve ao ensino, e comparar seus trechos com os paralelos de Marcos e Lucas mostra escolhas editoriais que o leitor atento deve levar a sério em vez de harmonizar às pressas.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Mateus é o primeiro evangelho escrito, porque aparece primeiro no Novo Testamento.
A ordem dos livros no cânon não registra a ordem em que foram compostos. A maioria dos estudiosos entende que Marcos é anterior e que Mateus e Lucas o usaram; uma minoria defende a prioridade de Mateus, e a tradição antiga, inclusive Agostinho, chegou a pensar assim. O que não existe é prova de que a posição na Bíblia indique data. Mateus abre o Novo Testamento por razões de organização canônica, não de cronologia.
Dizem que:Em Mateus 27:25, o povo judeu se amaldiçoou, e por isso Deus o rejeitou para sempre.
O versículo registra o grito de uma multidão em Jerusalém, e não uma sentença divina. Mateus escreve de dentro do mundo judaico, seus personagens principais são judeus, e o mesmo livro mostra a multidão de Israel que recebe Jesus com hosanas (21:9). Usar essa frase contra judeus de qualquer época alimentou séculos de violência, e a Igreja Católica, em Nostra Aetate (1965), rejeitou formalmente essa leitura. Paulo, em , diz expressamente que Deus não rejeitou o seu povo.
Dizem que:Reino dos céus é um lugar no céu para onde se vai depois da morte, e reino de Deus é outra coisa.
Céus é, em Mateus, um modo reverente de dizer Deus. A prova está em 19:23-24, onde Jesus diz reino dos céus e reino de Deus na mesma conversa, sobre o mesmo assunto, e em 12:28 e 21:31, em que Mateus usa a forma reino de Deus sem mudar de tema. As parábolas de descrevem um reino que opera na terra, entre trigo e joio, e não um lugar distante.
Dizem que:Toda vez que Mateus escreve para que se cumprisse, ele aponta uma previsão que o profeta fez sobre Jesus.
O verbo usado em grego (πληρόω, plēróō) significa encher, completar, e Mateus o aplica a casos bem diferentes. Em 2:15 ele cita , que no original fala do êxodo, não de uma previsão; em 2:18 usa , um lamento pelo exílio. A palavra pode indicar predição direta, padrão repetido ou realização de um sentido mais pleno, e a distinção entre esses casos é parte do trabalho de leitura.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Lê Mateus como o evangelho eclesial por excelência. Em 16:18, Jesus edifica a Igreja sobre Pedro, e a tradição católica vê ali o fundamento do ministério petrino, enquanto o poder de ligar e desligar (16:19; 18:18) fundamenta a autoridade de ensino e de absolvição. A fórmula batismal de 28:19 sustenta a prática sacramental, e é lido como base das obras de misericórdia. A Igreja distingue o sentido literal do espiritual e vê nas citações de cumprimento a unidade entre as duas alianças.
Ortodoxa
Dá grande peso à leitura patrística e litúrgica, com as Homilias sobre Mateus de João Crisóstomo como referência. Muitos Padres entenderam a rocha de 16:18 como a confissão de Pedro, e não a pessoa isolada, e a Ortodoxia mantém essa leitura sem reconhecer o primado universal de Roma. As passagens de juízo são ouvidas como chamado à conversão contínua, não como ameaça distante.
Protestante (luterana e reformada)
Enfatiza a autoridade das Escrituras e lê as citações de cumprimento como prova de que Jesus é o Messias prometido. Em 16:18, a rocha costuma ser entendida como a confissão de Pedro ou o próprio Cristo, e as chaves como a pregação do evangelho. A tradição reformada articula a Lei de Mateus pela distinção entre leis moral, civil e cerimonial; a luterana distingue Lei e evangelho. Calvino escreveu uma harmonia dos evangelhos sobre o texto de Mateus (1555).
Judaica e acadêmica contemporânea
Pesquisadores judeus e cristãos, como os que contribuíram para The Jewish Annotated New Testament (2011), leem Mateus como um documento judaico do século I que disputa com outros grupos o que significa ser fiel à Torá. Notam que a polêmica de tem paralelos na retórica interna de Israel, como a dos profetas e a de Qumran, e que ela não descreve fielmente todos os fariseus. Sobre e , apontam que no contexto original os textos tratam de situações históricas próprias, e veem em Mateus um modo criativo de leitura, não uma exegese neutra.
O que fazer com isso
Ao ler Mateus, acompanhe duas perguntas em cada trecho: o que ele diz sobre quem Jesus é para Israel e o que diz sobre quem é o discípulo. O livro as costura o tempo todo. Ao encontrar uma passagem dura contra os fariseus ou sobre o juízo, descubra primeiro quem está sendo advertido e em que situação, e só então pergunte onde o texto o alcança. Em Mateus, o aviso mais duro quase sempre aponta para dentro da casa.
Perguntas frequentes
- Foi o apóstolo Mateus quem escreveu o evangelho?
- A tradição cristã antiga diz que sim, e o nome está nos títulos dos manuscritos. O corpo do texto, porém, é anônimo, e boa parte da pesquisa moderna considera a autoria incerta, entre outros motivos porque o livro usa Marcos como fonte. Como se trata de um ponto debatido, vale ler o livro pelo que ele diz, sem apostar a interpretação na resposta.
- Por que Mateus diz reino dos céus e os outros dizem reino de Deus?
- Provavelmente por um costume judaico de evitar pronunciar o nome de Deus, substituído por céus. O próprio Mateus usa as duas expressões como sinônimas, como em 19:23-24. O sentido é o mesmo: o governo de Deus que Jesus anuncia.
- A genealogia de Mateus é igual à de Lucas?
- Não. Mateus desce de Abraão a José por Davi e Salomão; Lucas sobe de Jesus a Adão e passa por Natã, outro filho de Davi. Há várias explicações antigas e modernas, como casamento de levirato, descendência legal em um ramo e biológica em outro, ou linhagem de Maria em Lucas, e nenhuma delas é demonstrada pelo texto.
- Mateus 23 é um ataque aos judeus?
- O capítulo é uma advertência a escribas e fariseus feita por um judeu, a outros judeus, e se volta também aos discípulos (23:8-12). Os profetas de Israel usaram linguagem parecida contra seus contemporâneos. Por isso, ler como condenação de um povo inteiro ou de todos os fariseus da história vai além do texto.
Fontes consultadas
- Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica, 325.
- João Crisóstomo. Homilias sobre o Evangelho de Mateus.
- Jerônimo. Comentário sobre Mateus, 398.
- João Calvino. Harmonia dos Evangelhos, 1555.
- Benjamin W. Bacon. Studies in Matthew, 1930.
- Jack Dean Kingsbury. Matthew: Structure, Christology, Kingdom, 1975.
- Concílio Vaticano II. Nostra Aetate, 1965.
- Amy-Jill Levine e Marc Zvi Brettler (orgs.). The Jewish Annotated New Testament, 2011.
- R. T. France. The Gospel of Matthew (New International Commentary on the New Testament), 2007.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.