As cartas de Paulo: contexto, temas e como lê-las
o que são as cartas de paulo
Resposta curta
Entre os escritos do Novo Testamento, as cartas de Paulo são as mais antigas, as mais citadas e as que mais provocam desacordo. Foram escritas entre os anos 50 e 60 do primeiro século por um fariseu de Tarso que se tornou fundador de comunidades mistas de judeus e não judeus, e foram redigidas como cartas de verdade, ditadas a secretários e lidas em voz alta diante de assembleias reais. Este estudo percorre seis etapas: o homem e a cronologia, o gênero da carta antiga, a divisão entre cartas reconhecidas e disputadas, o mapa dos temas centrais, três passagens difíceis e, por fim, a relação entre Paulo e Jesus e o debate chamado Nova Perspectiva. Onde há divergência real, as tradições são apresentadas sem que o estudo tome partido.
Em palavras simples
As cartas de Paulo são mensagens que um líder cristão do primeiro século mandou a igrejas que ele conhecia. Foram escritas entre os anos 50 e 60, antes dos evangelhos. Ele ditava a secretários, como Tércio, e as cartas eram lidas em voz alta nas reuniões. Nem todos concordam sobre quais das treze cartas foram escritas por ele: sete são aceitas por quase todos, e outras, como Efésios e as cartas a Timóteo e Tito, são discutidas. Alguns trechos são difíceis e as igrejas os leem de formas diferentes.
Antes de começar
As treze cartas atribuídas a Paulo ocupam cerca de um quarto do Novo Testamento e foram escritas num intervalo de mais ou menos quinze anos, a partir do início dos anos 50 d.C. Paulo não escreveu teologia sistemática. Escreveu a comunidades que ele mesmo fundara, ou, no caso de Romanos e Colossenses, que ainda não conhecia pessoalmente, e quase sempre em resposta a algum problema concreto: divisões em Corinto, a pressão para circuncidar os gálatas, o medo dos tessalonicenses diante da morte de irmãos, a fuga de um escravo em Filemom.
O mundo dessas cartas é o Império Romano urbano. As comunidades se reuniam em casas, eram formadas por gente de classes muito distintas e mantinham contato por mensageiros, que levavam e liam as cartas. A prática epistolar era comum, e havia modelos de redação conhecidos. Paulo usa o formato, mas o preenche de linguagem própria: o remetente costuma se apresentar como apóstolo ou servo de Cristo Jesus, e a saudação corrente é substituída por 'graça e paz'.
Há também o pano de fundo judaico, decisivo e debatido. Paulo era fariseu, lia a Escritura em grego e em hebraico e discute o tempo todo com textos como , e o Deuteronômio. Muitas das tensões das cartas nascem de uma pergunta que o judaísmo do tempo não tinha de enfrentar: o que acontece quando um povo que se definia pela lei, pela circuncisão e pelos alimentos passa a incluir, sem essas marcas, pessoas de outras nações?
As cartas circularam cedo em coleção. já fala de 'todas as suas cartas' e de gente que torce o sentido do que nelas é difícil. Isso mostra duas coisas ao mesmo tempo: que Paulo era lido com autoridade ainda na primeira geração depois dele e que a interpretação sempre foi disputada. Ler Paulo com honestidade começa por admitir que não se lê sozinho: cada leitor chega com uma tradição, ainda que não a perceba.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoEm todas as cartas, qualquer que seja o assunto, o fio que as liga é uma pessoa, e não um sistema. Paulo abre e fecha suas cartas com 'graça e paz' em nome de Jesus Cristo, e quando precisa resumir o que transmitiu, resume em fatos: que Cristo morreu, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia. Até as passagens mais discutidas, sobre lei, eleição ou igreja, são argumentos sobre o que significa pertencer a esse Messias, e é isso que dá unidade a cartas escritas a comunidades tão diferentes.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.Um fariseu de Tarso e o mundo que ele percorreu
Paulo é uma das poucas figuras do Novo Testamento de quem temos, ao mesmo tempo, a própria voz e uma biografia escrita por outro. A voz está nas cartas; a biografia está em Atos, escrito por alguém que o conheceu ou que reuniu relatos a seu respeito. As duas concordam no essencial e se desencontram em detalhes, e os historiadores precisam decidir como encaixá-las.
Os dados mais seguros vêm do próprio Paulo. Ele era judeu da diáspora, de Tarso, na Cilícia, e se descreve como fariseu, circuncidado ao oitavo dia, da tribo de Benjamim (Filipenses 3:4-6). Atos acrescenta que era cidadão romano (22:28), informação que as cartas não confirmam nem negam. Ele perseguiu a igreja, e Gálatas 1:13-17 diz que a mudança veio por uma revelação de Jesus Cristo, seguida de um período na Arábia e de um retorno a Damasco. Atos 9 conta o episódio da estrada com mais cena; as cartas são sóbrias e não descrevem a luz nem a queda.
A cronologia é reconstruída por ancoragens externas. A mais usada é a menção ao procônsul Gálio em Atos 18:12, que uma inscrição encontrada em Delfos permite situar por volta de 51 a 52 d.C. A partir dela, contando para trás e para a frente os intervalos que Gálatas 1 e 2 e Atos oferecem, a maioria dos estudiosos coloca a conversão na primeira metade dos anos 30 e as cartas entre o início dos anos 50 e meados dos anos 60. Isso torna as cartas anteriores a qualquer evangelho: o escrito cristão mais antigo que possuímos é, em geral, 1 Tessalonicenses.
A divisão em três viagens missionárias, tão presente nos mapas das Bíblias, é uma organização de Atos, não de Paulo. Ele mesmo lista, em 2 Coríntios 11:23-28, naufrágios, prisões, açoites e perigos que Atos não narra por inteiro. O quadro que emerge é o de um fundador de comunidades urbanas, em cidades de porto ou de rota como Filipos, Corinto e Éfeso, onde o evangelho chegava primeiro a sinagogas e a simpatizantes não judeus e depois formava grupos mistos. A pergunta que atravessa tudo o que ele escreve nasce dessa mistura: como pessoas com origens, leis e costumes tão diferentes podem ser um só povo?
Atos termina com Paulo preso em Roma, sem contar o desfecho. A tradição cristã antiga afirma que ele foi executado sob Nero; o Novo Testamento não relata a morte. Temos muito, e ainda assim restam lacunas que ninguém preenche sem conjectura.
Para conversar
- O que muda na leitura de uma carta quando sabemos que ela foi escrita antes de qualquer evangelho e a comunidades que ainda não tinham um Novo Testamento?
- Paulo e Atos descrevem o mesmo homem em tons diferentes. Que critérios você usaria para decidir quando preferir um relato ao outro, e quando deixá-los lado a lado?
- Se a pergunta de fundo era como judeus e não judeus podem ser um só povo, que paralelos você enxerga com divisões do presente, e onde o paralelo deixa de funcionar?
2.Cartas de verdade, não tratados
Quem abre Romanos esperando um manual de doutrina se surpreende com o primeiro versículo: um remetente, uma saudação, e no fim uma lista de nomes. Paulo escreveu cartas, e cartas de um tipo específico no mundo antigo. O formato greco-romano comum tinha remetente, destinatário, saudação, uma ação de graças, o corpo, exortações e despedida. Paulo usa o molde e o transforma: a saudação grega corrente, chairein, vira 'graça e paz', e as ações de graças quase sempre antecipam o assunto da carta. Em Gálatas ela desaparece, e a ausência diz tudo, porque ele vai direto à indignação (Gálatas 1:6).
Quase todas as cartas são ocasionais, isto é, respondem a uma situação. 1 Coríntios mostra isso melhor que qualquer outra. A fórmula 'quanto ao que me escrevestes' (7:1) marca respostas a perguntas da comunidade, e 5:9 revela que existiu uma carta anterior que não chegou até nós. Colossenses 4:16 menciona uma carta aos laodicenses, também desconhecida. Lemos, portanto, uma metade de conversa. Quando Paulo escreve 'como dizem alguns entre vós que não há ressurreição' (1 Coríntios 15:12), temos de reconstruir quem dizia e por quê a partir apenas da resposta. Os estudiosos chamam o exercício de leitura em espelho e concordam que é indispensável e arriscado, porque é fácil inventar um adversário sob medida para a tese que já se queria defender.
Paulo raramente escrevia sozinho no sentido moderno. Várias cartas abrem com co-remetentes: Timóteo em 2 Coríntios, Silvano e Timóteo em 1 Tessalonicenses, Sóstenes em 1 Coríntios. E ele usava secretários. Em Romanos 16:22 aparece, com naturalidade desarmante, a frase 'eu, Tércio, que escrevi esta carta, vos saúdo no Senhor'. Em Gálatas 6:11, Paulo toma a pena e destaca: 'vede com que letras grandes vos escrevi de meu próprio punho'. Fórmulas parecidas surgem em 1 Coríntios 16:21, Colossenses 4:18 e 2 Tessalonicenses 3:17, e o gesto só faz sentido se o resto havia sido ditado. Quanta liberdade o secretário tinha, se anotava, redigia a partir de um esboço ou polia o texto, é debatido e pesa na questão da autoria.
Por fim, as cartas foram escritas para ser lidas em voz alta diante da assembleia (1 Tessalonicenses 5:27; Colossenses 4:16). Uma carta como Romanos pedia talvez uma hora de leitura. Os argumentos, por isso, são feitos para o ouvido, com repetição, perguntas retóricas e transições marcadas, e não para quem consulta versículos soltos. Ler uma frase de Paulo sem a carta em volta é como ler uma frase tirada do meio de um telefonema.
Para conversar
- Que diferença faria ler uma carta inteira de uma vez, em voz alta, em vez de estudá-la versículo por versículo?
- A leitura em espelho reconstrói o interlocutor de Paulo a partir da resposta. Que cuidados ela exige para não produzir um adversário sob medida?
- Saber que um secretário participou da redação muda o modo como você pensa a autoridade do texto? Por quê?
- O que se perde e o que se ganha ao tratar uma carta ocasional como ensino para todas as épocas?
3.Treze assinaturas, sete certezas
O Novo Testamento atribui treze cartas a Paulo: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito e Filemom. Hebreus, que a tradição por vezes juntou ao grupo, não traz nome de autor. Dentro das treze, a pesquisa crítica moderna costuma fazer uma divisão em três blocos. Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filemom são aceitas por quase todos como de Paulo. Colossenses, Efésios e 2 Tessalonicenses formam um grupo disputado. As Pastorais, isto é, 1 e 2 Timóteo e Tito, são as mais questionadas.
Os argumentos são de três tipos. O primeiro é de vocabulário e estilo: Efésios 1:3-14 é uma só frase em grego, e as Pastorais usam termos como 'piedade' e 'sã doutrina', que as cartas indiscutidas quase não empregam. O segundo é de teologia: Colossenses e Efésios apresentam Cristo como cabeça de um corpo que é a igreja e dão à ressurreição um tom mais realizado ('juntamente nos ressuscitou', Efésios 2:6), ao passo que Romanos 6:5 ainda a projeta no futuro. O terceiro é de situação: as Pastorais pressupõem funções organizadas, como bispos, presbíteros e diáconos (1 Timóteo 3), e um problema de falsos mestres diferente do das cartas maiores.
Os defensores da autoria paulina respondem a cada ponto. O vocabulário muda com o assunto e com o secretário; a teologia se desenvolve num mesmo autor ao longo de uma década ou mais; Paulo já fala de supervisores e diáconos em Filipenses 1:1; e as Pastorais podem pertencer a um período posterior ao fim da narrativa de Atos, que o livro não conta. Há ainda a posição intermediária de cartas redigidas por colaboradores próximos, com a aprovação de Paulo ou depois de sua morte. Efésios 1:1 ilustra a dificuldade: alguns dos manuscritos mais antigos não trazem 'em Éfeso', o que sugere uma carta circular.
A discussão sobre pseudonímia é parte do problema. Escrever em nome de um mestre falecido era prática conhecida na Antiguidade, e os estudiosos discordam sobre se era visto como homenagem aceitável ou como fraude. Note-se que 2 Tessalonicenses 2:2 e 3:17 mostram Paulo, ou quem escreve em seu nome, preocupado com cartas forjadas. A pergunta sobre quem segurou a pena não coincide com a pergunta sobre autoridade: as igrejas receberam essas cartas por reconhecê-las como apostólicas, e cada tradição discute o assunto à sua maneira. O estudo não decide o debate, mas cada posição paga um preço.
Para conversar
- Se uma das cartas atribuídas a Paulo tivesse sido escrita por um discípulo depois da morte dele, isso mudaria o lugar dela na sua leitura? Em que sentido, e em que sentido não?
- Que argumento do debate sobre autoria lhe parece mais forte, e que argumento parece mais fraco? O que você precisaria ver para mudar de posição?
- Por que uma comunidade antiga teria interesse em preservar e ampliar a voz de um apóstolo depois da sua morte?
4.O que está no centro: o mapa dos temas
Quem tenta resumir Paulo em uma palavra descobre logo que os intérpretes não concordam sobre qual seria ela. A tradição luterana e a reformada tomaram a justificação pela fé como centro, e Romanos e Gálatas dão boas razões para isso. No início do século XX, Albert Schweitzer defendeu que o núcleo está na expressão 'em Cristo', e E. P. Sanders retomou a ideia na forma de participação: Paulo pensa menos em como alguém é declarado justo e mais em como passa a pertencer a Cristo. Outros apontam a ressurreição e a expectativa de uma nova criação (2 Coríntios 5:17; Gálatas 6:15), e outros ainda a reconciliação. Cada proposta ilumina uma região das cartas e deixa outra na sombra, e há quem conclua que Paulo não tinha um centro, e sim um conjunto de convicções ligadas por uma história.
Essa história pode ser contada em quatro movimentos, cada um com seu estudo próprio no acervo. A ressurreição de Cristo é o ponto de partida: Paulo a chama de 'primícias' (1 Coríntios 15:20), a primeira parte de uma colheita que ainda virá. Se a colheita começou, uma era nova começou. O Espírito é a marca presente dessa era, descrito como penhor, ou garantia de pagamento, do que ainda falta (2 Coríntios 1:22; Romanos 8:23). A igreja é o povo dessa era, e Paulo a imagina como corpo com muitos membros (1 Coríntios 12:12-27), em que diferenças de origem, de função e de condição não desaparecem, mas perdem o poder de separar. E a justificação é o veredito que declara quem pertence a esse povo.
Esse último ponto tem uma consequência que muda a leitura. Em Gálatas 2:11-16, a palavra justificação aparece pela primeira vez no argumento depois de um incidente à mesa: Pedro deixou de comer com cristãos não judeus quando chegaram emissários de Tiago. A pergunta imediata não era 'como alguém escapa da condenação', mas 'quem pode sentar à mesma mesa'. Nada disso anula a leitura clássica, para a qual a mesma doutrina responde à pergunta da culpa diante de Deus. Mas mostra que, para Paulo, as duas perguntas andavam juntas, e que separá-las talvez seja uma escolha de leitor, não de autor.
Um aviso de método. Os temas se alimentam uns dos outros, e por isso um versículo citado sobre a justificação pode estar, na carta, a serviço de um argumento sobre a igreja. O mapa serve para orientar a viagem, mas o território continua sendo a carta inteira.
Para conversar
- Se você tivesse de escolher uma palavra como centro de Paulo, qual escolheria? O que essa escolha deixa de fora?
- O incidente de Antioquia mostra uma doutrina nascendo de um problema de convivência. Que problemas de convivência de hoje poderiam ser lidos à luz desse episódio?
- Paulo trata o Espírito como garantia do que ainda falta. O que significa viver numa era que já começou e ainda não terminou?
- Em que a ideia de pertencer a um povo muda o modo de entender uma doutrina que costumamos ler de forma individual?
5.Três textos que resistem
Todo leitor de Paulo tem um texto que o incomoda, e o próprio Novo Testamento já reconhece isso: 2 Pedro 3:16 diz que há nas cartas dele 'certas coisas difíceis de entender'. Três exemplos mostram como o debate se organiza, sem que o estudo pretenda encerrá-lo.
Romanos 9 trata de Jacó e Esaú, do faraó e do oleiro e do barro. A leitura agostiniana e reformada vê aí a eleição de indivíduos antes de qualquer mérito. A leitura arminiana costuma entender que o foco são grupos e papéis na história da salvação, não destinos eternos. Há ainda quem aponte que o capítulo não é uma teoria da predestinação em abstrato, e sim a resposta de Paulo a uma dor concreta: por que parte de Israel não reconheceu o Messias (9:1-5). O argumento continua em Romanos 11, que termina com 'todo o Israel será salvo' (11:26), expressão que tem pelo menos três leituras: Israel étnico no fim da história, a igreja formada de judeus e gentios, ou o conjunto dos judeus ao longo dos séculos.
1 Coríntios 11:2-16 é difícil por razões de vocabulário e de costume. Paulo trata de véus ou penteados no culto, usa a palavra 'cabeça' (kephalē), que pode significar autoridade ou origem, e fala de 'autoridade sobre a cabeça' (v. 10) e de 'anjos', expressão cuja referência ninguém estabelece com segurança. O versículo 5 pressupõe que mulheres oram e profetizam na assembleia. As tradições complementaristas leem o trecho como confirmação de uma ordem de autoridade entre homem e mulher; as igualitárias, como regra de decoro local que não exprime uma ordem permanente. Ambas precisam explicar o que fazer com 14:34-35, outro texto disputado. O costume a que Paulo se refere é em parte inacessível, e isso convida à cautela.
Gálatas 3 reúne três dificuldades diferentes. A primeira é o argumento sobre a 'semente' no singular (v. 16), que a muitos leitores modernos soa estranho como exegese e que Paulo apresenta como lido em Cristo. A segunda é a lei como paidagōgos (v. 24), o escravo que levava a criança à escola e a vigiava, imagem que pode ser protetora ou severa e dá margem a leituras opostas. A terceira é o versículo 28, 'não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher', que as tradições disputam: para alguns, afirma igualdade de acesso a Cristo sem alterar funções; para outros, estabelece um princípio que a igreja levou séculos para aplicar. O texto não diz qual das duas é a certa.
Para conversar
- nasce de uma dor de Paulo diante do próprio povo. Como esse contexto afeta o jeito de ler o capítulo, e que partes do debate ele deixa em aberto?
- Quando um costume antigo como véus e cabelos fica fora do nosso alcance, como decidir o que no texto é prática local e o que é princípio? Existe método que não dependa da conclusão que já se queria?
- afirma algo que as igrejas levaram muito tempo para aplicar. O que isso diz sobre a distância entre um princípio e a sua prática?
- Que critérios você usa para dizer 'não sei' diante de um texto difícil sem deixar de levá-lo a sério?
6.Paulo e Jesus, a Nova Perspectiva e como ler hoje
Uma pergunta antiga acompanha as cartas: Paulo continuou Jesus ou o reinventou? Alguns estudiosos do século XIX e do início do século XX, entre eles William Wrede, em 1904, falaram de Paulo como o segundo fundador do cristianismo, alguém que teria transformado um mestre judeu numa figura divina. A objeção óbvia é que Paulo cita Jesus pouco. Ele distingue uma ordem do Senhor de uma opinião sua (1 Coríntios 7:10-12), invoca o que o Senhor ordenou sobre o sustento dos pregadores (9:14), transmite a ceia (11:23-25) e menciona uma palavra do Senhor sobre a volta (1 Tessalonicenses 4:15). Ecos de ensinos de Jesus aparecem sem aspas em Romanos 12:14 e 13:8-10. A leitura mais comum hoje, com variações, é que Paulo não repete o ensino de Jesus porque suas comunidades já o conheciam, e que ele escreve a partir do que veio depois: a cruz, a ressurreição e a entrada dos não judeus. O texto, porém, não resolve a questão por nós.
Outro debate redefiniu a leitura das cartas no último meio século. Em 1963, Krister Stendahl argumentou que a pergunta de Paulo não era a consciência culpada de Lutero. Em 1977, E. P. Sanders, em Paulo e o Judaísmo Palestinense, propôs que o judaísmo do tempo não era uma religião de méritos, e sim de uma aliança em que se entrava pela graça e se permanecia pela obediência, o que ele chamou de nomismo da aliança. James Dunn deu nome ao conjunto, a Nova Perspectiva, e N. T. Wright o desenvolveu. Se Sanders estiver certo, as 'obras da lei' que Paulo contesta seriam sobretudo as marcas que separavam judeus de gentios, como circuncisão, alimentos e sábados, e não a tentativa de ganhar mérito.
As críticas vêm de vários lados. Stephen Westerholm, entre outros, sustenta que a leitura clássica continua a ter bom apoio em Romanos e Gálatas e que a Nova Perspectiva descreve com otimismo demais o judaísmo do período. Hoje o campo está dividido, e muitos combinam elementos: as duas perguntas, a da culpa e a da pertença, convivem nas cartas.
O que levar para a leitura? Ler a carta inteira, em voz alta se possível. Perguntar qual situação ela responde. Distinguir o que o texto afirma do que as tradições deduziram dele. E aceitar que Paulo escreve a pessoas concretas, não a nós, o que não impede que escreva também para nós.
Para conversar
- Se Paulo cita Jesus pouco, isso significa que ele o conhecia pouco? Que outras explicações são possíveis, e como testá-las?
- A Nova Perspectiva sugere que algumas leituras tradicionais olharam Paulo com as perguntas de outra época. Em que ponto essa observação ajuda, e em que ponto pode ser usada para fugir de um texto?
- As duas perguntas, a da culpa e a da pertença, convivem nas cartas. Qual delas costuma ocupar mais espaço na sua comunidade, e o que a outra poderia acrescentar?
- Que hábito de leitura você levaria deste estudo para a próxima vez que abrir uma carta de Paulo?
O que fica
- As cartas de Paulo são as mais antigas do Novo Testamento e foram escritas a comunidades reais, em resposta a situações reais.
- Eram cartas ditadas a secretários e lidas em voz alta, e ler uma frase sem a carta em volta altera o seu sentido.
- Sete cartas são aceitas por quase todos como de Paulo; Colossenses, Efésios, 2 Tessalonicenses e as Pastorais são disputadas, e cada posição paga um preço.
- Justificação, Espírito, igreja e ressurreição formam uma só história, e a Nova Perspectiva propõe que a pergunta de pertença andava junto com a da culpa.
- Nos textos difíceis, o texto às vezes se cala, e dizer que uma questão está em aberto é parte da honestidade.
Aprofundamento
Quatro discussões estruturam o estudo acadêmico das cartas, e vale distingui-las, porque costumam ser misturadas.
A primeira é a autoria. Sete cartas são aceitas por quase todos como de Paulo. Colossenses, Efésios e 2 Tessalonicenses formam um bloco disputado, e as Pastorais são as mais questionadas. Os argumentos são de estilo, de vocabulário, de teologia e de situação eclesial. Respostas conservadoras apontam o papel do secretário, a evolução do pensamento de um mesmo autor e a possibilidade de uma fase posterior à narrativa de Atos. A posição crítica prefere ver nesses textos a obra de discípulos que escreveram dentro da tradição paulina. Entre as duas há posições intermediárias, como a de cartas redigidas por colaboradores com ou sem aprovação do apóstolo.
A segunda é o centro do pensamento de Paulo. Justificação, participação em Cristo, ressurreição e nova criação são candidatos reais, e cada um recebe apoio de uma tradição. Quem escolhe um centro decide, em boa medida, quais textos servirão de chave e quais serão lidos à sua luz, e por isso a escolha raramente é inocente.
A terceira é a relação entre Paulo e o judaísmo. A leitura luterana clássica lê Romanos e Gálatas contra uma religião de méritos. Desde Stendahl e Sanders, a Nova Perspectiva sustenta que o alvo era a pertença étnica e as marcas de separação. A resposta crítica, representada por Westerholm entre outros, defende que a descrição clássica continua a ter apoio nos textos. A Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, assinada em 1999 por católicos e luteranos, mostra que mesmo as divisões mais antigas podem ser reabertas com novas perguntas, sem que as diferenças de fundo desapareçam.
A quarta, e talvez a mais prática, é a distância entre o que Paulo diz e o que as comunidades de hoje fazem com isso. Os textos sobre véus, sobre papéis na assembleia, sobre o Estado em e sobre a escravidão em Filemom foram lidos de maneiras opostas ao longo da história, às vezes para sustentar o que depois foi reconhecido como erro. A lição é menos a de que Paulo é ambíguo do que a de que o leitor nunca é neutro. Reconhecer o contexto original, perguntar o que o texto fazia para os primeiros ouvintes e só então perguntar o que ele faz hoje é um método mais lento e mais honesto do que citar um versículo como argumento final. Nenhuma tradição está livre dessa tentação, e conhecê-la é a primeira proteção contra ela.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Paulo escreveu uma doutrina sistemática e a mandou a todas as igrejas.
As cartas são ocasionais: respondem a situações específicas, como a divisão em Corinto ou a crise na Galácia, e lemos apenas metade da conversa. mostra Paulo respondendo a perguntas que a comunidade lhe fez. Há sistemas que partem das cartas, mas as cartas não foram escritas como sistema.
Dizem que:Paulo inventou o cristianismo e se afastou do que Jesus ensinou.
A tese do segundo fundador existe na pesquisa desde o início do século XX, mas esbarra no próprio texto: Paulo distingue o que o Senhor ordenou do que ele opina (), transmite a ceia como tradição recebida (11:23) e apresenta a ressurreição como ensino que também ele recebeu (15:3). A relação entre Paulo e Jesus é debatida, mas a ideia de ruptura total é uma das leituras, e não o consenso.
Dizem que:Todo especialista concorda que Paulo escreveu as treze cartas, ou que não escreveu quase nenhuma.
O quadro é graduado. Sete cartas são aceitas por quase todos; Colossenses, Efésios e 2 Tessalonicenses são disputadas; as Pastorais, mais ainda. Há posições conservadoras que defendem as treze, posições críticas que veem discípulos por trás de seis e posições intermediárias que invocam secretários e colaboradores.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Luterana
Lê Paulo a partir da distinção entre lei e evangelho. Romanos e Gálatas respondem à pergunta de como o pecador se apresenta diante de Deus, e a resposta é a justificação pela fé, recebida como dom. Lutero tratava Romanos como o centro do Novo Testamento, e a tradição luterana continua a ver na justificação o artigo pelo qual a igreja se mantém de pé ou cai.
Católica
Lê Paulo dentro da tradição da igreja e vê na justificação um ato que perdoa e transforma. A Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação (1999), assinada com a Federação Luterana Mundial, reconhece um consenso sobre verdades básicas, mantendo diferenças de ênfase e de linguagem. A autoria das cartas é estudada com os métodos históricos que o magistério passou a admitir no século XX.
Ortodoxa
Lê Paulo sobretudo pela liturgia e pelos Padres. João Crisóstomo deixou ciclos de homilias sobre as cartas, e a tradição valoriza temas como a participação em Cristo, a ressurreição e a vida em comunhão. A linguagem de tribunal é menos central, e as cartas são lidas como parte de uma só tradição viva, e não como texto isolado.
Nova Perspectiva
Corrente acadêmica surgida de Stendahl e Sanders e desenvolvida por Dunn e Wright. Sustenta que as 'obras da lei' de Paulo designam sobretudo as marcas de identidade que separavam judeus de gentios, e que a justificação trata de quem pertence ao povo de Deus. É criticada por quem vê nela uma descrição otimista demais do judaísmo do período e por quem a considera fiel ao contexto de Paulo.
O que fazer com isso
Ao abrir uma carta de Paulo, comece perguntando três coisas: a quem ela foi escrita, que situação ela responde e o que a pessoa que recebeu a carta teria entendido ao ouvi-la inteira. Só depois pergunte o que ela diz a você. Se o texto for um dos difíceis, anote o que o próprio texto afirma e o que a sua tradição acrescentou, e deixe as duas listas lado a lado antes de concluir qualquer coisa.
Perguntas frequentes
- Quantas cartas de Paulo há na Bíblia?
- O Novo Testamento atribui treze cartas a Paulo, de Romanos a Filemom. Sete são aceitas por quase todos os estudiosos como suas. As demais, como Efésios, Colossenses e as Pastorais, são discutidas, e há quem as defenda como paulinas e quem as veja como obra de discípulos.
- Paulo escreveu Hebreus?
- O texto não traz nome de autor. A tradição antiga chegou a atribuí-lo a Paulo, mas já na Antiguidade havia dúvidas, e a maioria dos estudiosos hoje considera a autoria desconhecida, dado o estilo e a teologia diferentes das cartas paulinas.
- Por que Paulo usava secretários?
- Era prática comum no mundo antigo: escrever era um ofício e custava caro. Tércio se apresenta em , e Paulo destaca em que escreveu um trecho de próprio punho. O debate é quanto o secretário podia redigir por conta própria.
- Por onde começar a ler Paulo?
- Muitos recomendam 1 Tessalonicenses, a mais antiga e curta, ou Filipenses, de tom pessoal. Romanos é a carta mais longa e argumentativa. Seja qual for a escolha, leia a carta inteira numa só sentada, como era lida na assembleia.
Fontes consultadas
- E. P. Sanders. Paul and Palestinian Judaism, 1977.
- James D. G. Dunn. The Theology of Paul the Apostle, 1998.
- F. F. Bruce. Paul: Apostle of the Heart Set Free, 1977.
- E. Randolph Richards. Paul and First-Century Letter Writing: Secretaries, Composition and Collection, 2004.
- Stephen Westerholm. Perspectives Old and New on Paul: The Lutheran Paul and His Critics, 2004.
- Raymond E. Brown. An Introduction to the New Testament, 1997.
- Krister Stendahl. Paul among Jews and Gentiles and Other Essays, 1976.
- N. T. Wright. Paul and the Faithfulness of God, 2013.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.