As alianças bíblicas: Noé, Abraão, Moisés, Davi e a nova aliança
o que são as alianças da bíblia
Resposta curta
Aliança é o fio que costura a Bíblia inteira, e raramente é explicada. O hebraico berit e o grego diathēkē descrevem uma relação em que Deus toma a iniciativa e assume o compromisso, e o próprio nome das duas partes da Bíblia cristã vem dessa palavra. Este estudo percorre, em seis partes, a aliança com Noé, as promessas a Abraão, o Sinai, a promessa a Davi e a nova aliança de Jeremias, Ezequiel e da ceia. Compara o Sinai com os tratados dos reis hititas, apresenta as principais leituras cristãs sobre como as alianças se relacionam e deixa claro onde o texto é silencioso e onde ele é debatido, sem escolher lado entre as tradições.
Em palavras simples
Aliança, na Bíblia, é uma relação que Deus propõe a alguém e se compromete a manter, com um sinal que a lembra. Há alianças com Noé, Abraão, o povo no Sinai, Davi e, por fim, a nova aliança anunciada por Jeremias e lembrada por Jesus na ceia. Os cristãos concordam que existe uma nova aliança, mas discordam sobre como ela se relaciona com as anteriores, e este estudo apresenta as principais leituras sem escolher uma.
Antes de começar
A palavra hebraica é בְּרִית (berit), e o verbo que costuma acompanhá-la é 'cortar': diz-se que se 'corta' uma aliança. A imagem remete a ritos como o de , em que animais são partidos ao meio, e a . O termo serve para relações muito diferentes: entre amigos, como Jônatas e Davi, entre nações, entre rei e povo e entre Deus e os seres humanos. Nas alianças de Deus, quem propõe e se compromete primeiro é ele.
A Septuaginta, tradução grega do Antigo Testamento, traduziu berit quase sempre por διαθήκη (diathēkē), e não por συνθήκη (synthēkē), a palavra mais comum para pacto entre iguais. No grego corrente, diathēkē significava disposição unilateral, em especial o testamento. joga com os dois sentidos, e a tradução latina testamentum fez com que as duas partes da Bíblia cristã se chamassem Antigo e Novo Testamento.
O pano de fundo histórico inclui os tratados de suserania do Antigo Oriente Próximo. Os reis hititas firmavam com povos vassalos documentos com preâmbulo, prólogo histórico, exigências, depósito do texto, testemunhas e bênçãos e maldições. Desde os anos 1950, muitos estudiosos compararam esse modelo com e Deuteronômio, embora a comparação seja discutida, sobretudo quanto à data dos textos bíblicos e à semelhança com tratados assírios posteriores.
Há, por fim, uma distinção que atravessa o tema: nem toda relação que a teologia chama de aliança recebe a palavra berit no texto. A promessa a Davi em é exemplo, pois só outros textos, como e o Salmo 89, a chamam assim. Separar o que o texto diz do que a tradição concluiu evita confundir as leituras com os fatos bíblicos.
Em ordem narrativa, as alianças principais são as de Noé (), Abraão ( e 17), Sinai ( a 24), Davi ( e Salmo 89) e a nova aliança (). Cada uma traz uma promessa, um sinal e uma pergunta sobre o que se espera da outra parte, e é a comparação entre elas que organiza o estudo.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoCada aliança deixa uma promessa que aponta adiante: a descendência de Abraão, o filho de Davi, o coração novo de Jeremias. O Novo Testamento afirma que tudo isso se encontra em uma pessoa. Na ceia, Jesus junta o sangue de com a nova aliança de e fala do cálice como seu sangue. Hebreus apresenta-o como mediador de uma aliança melhor, e é por essa ligação que o Novo Testamento lê as alianças como um caminho com destino.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.Berit e diatheke: o que é uma aliança
Antes de percorrer as alianças uma a uma, convém saber o que a palavra quer dizer, porque o português 'aliança' sugere um acordo entre iguais e o vocabulário bíblico nem sempre sugere isso. O termo hebraico é בְּרִית (berit), e o verbo que o acompanha com mais frequência é 'cortar': o Antigo Testamento diz que se 'corta' uma aliança. A imagem aparece em Gênesis 15:9-18, onde animais são partidos ao meio e uma chama passa entre as metades, e em Jeremias 34:18-19, onde os que firmaram um compromisso passam entre as partes de um bezerro dividido. O gesto parece dizer que a sorte dos animais cairia sobre quem rompesse a palavra, mas o texto não explica o rito, e os estudiosos discutem o sentido exato.
A palavra cobre relações muito diferentes. Há alianças entre iguais, como a de Labão e Jacó em Gênesis 31:44, entre amigos, como a de Jônatas e Davi em 1 Samuel 18:3, e entre um rei e o povo, como em 2 Reis 11:17. Há também alianças em que uma parte propõe e a outra aceita, e é a esse segundo tipo que pertencem as de Deus com seu povo: quem toma a iniciativa, define os termos e se compromete primeiro é Deus. Isso não torna a outra parte irrelevante, como as partes seguintes mostrarão, mas explica por que o texto raramente descreve uma negociação.
A passagem para o grego trouxe uma escolha reveladora. A Septuaginta, tradução grega do Antigo Testamento, verteu berit quase sempre por διαθήκη (diathēkē), e não por συνθήκη (synthēkē), a palavra mais comum para um pacto entre partes equivalentes. No grego corrente, diathēkē designava uma disposição unilateral, em especial o testamento. O Novo Testamento herda esse termo com a ambiguidade intacta, e Hebreus 9:15-17 joga com os dois sentidos ao falar de uma morte necessária para que a disposição tenha vigor. Foi pelo latim testamentum que as duas partes da Bíblia cristã ficaram conhecidas como Antigo e Novo Testamento: na origem, o título quer dizer 'alianças'.
Outra cautela diz respeito ao vocabulário. Nem toda relação que a teologia chama de aliança recebe a palavra berit no texto. A promessa a Davi, por exemplo, não usa o termo em 2 Samuel 7, embora outros textos a chamem assim. Este estudo assinalará esses casos quando importarem, porque a diferença entre o que o texto diz e o que a tradição concluiu dele é uma das linhas que atravessam o tema inteiro.
Para conversar
- Se a expressão hebraica fala em 'cortar' uma aliança e o rito de envolve animais partidos, o que esse gesto comunica sobre quem assume o risco da relação?
- O que muda na leitura quando a aliança é entendida como relação que alguém inicia e não como contrato entre iguais? E o que se perderia se a outra parte fosse tratada como mero espectador?
- usa 'aliança' e 'testamento' na mesma passagem. Que ganhos e que riscos há em ler os dois sentidos juntos?
2.Noé e Abraão: alianças que Deus assume primeiro
A palavra berit aparece pela primeira vez na Bíblia em Gênesis 6:18, quando Deus anuncia a Noé uma aliança antes mesmo do dilúvio, e é formalizada depois, em Gênesis 9:8-17. Chama atenção o alcance: ela é feita com Noé, com seus descendentes e com todo ser vivo que saiu da arca, aves, rebanhos e animais selvagens (9:10). O conteúdo é uma promessa sem condição declarada, a de que as águas não voltarão para destruir toda carne. O sinal é o arco nas nuvens, e o texto diz que ele serve para que Deus se lembre (9:15-16). Como a mesma palavra hebraica designa o arco de guerra, muitos leitores veem aí uma arma pendurada, mas essa é uma leitura corrente, e não uma afirmação do texto. Os mandamentos que precedem a aliança, em 9:1-7, tratam de fertilidade, do sangue e da vida humana, e a tradição judaica posterior os desenvolveu nas chamadas leis noaquitas.
Com Abraão, o horizonte se estreita sem se fechar. Gênesis 12:1-3 traz a promessa de terra, descendência e bênção, e o texto não usa ali a palavra aliança. Ela surge em Gênesis 15, depois que Abraão creu (15:6): num rito de animais partidos, Abraão adormece e somente a chama passa entre as metades (15:12-17), de modo que o compromisso é assumido por Deus sozinho. Em Gênesis 17 a aliança é chamada de perpétua, Abrão e Sarai ganham novos nomes, e a circuncisão é dada como sinal, com a advertência de que o homem que a recusar rompeu a aliança (17:14). Aqui o texto junta promessa firme e resposta esperada, e as tradições discordam sobre como pesar as duas coisas.
Há também uma discussão de composição. Alguns estudiosos leem Gênesis 15 e 17 como duas tradições sobre o mesmo acontecimento, outros como duas etapas de uma aliança só, e o próprio texto não resolve a questão. Gênesis 22:15-18 acrescenta um juramento depois da prova do monte Moriá.
O que as duas alianças têm em comum é a ordem do movimento. Com Noé, Deus se compromete com a criação inteira, e com Abraão ele escolhe uma família, mas com o objetivo declarado de que 'todas as famílias da terra' sejam abençoadas (12:3). A particularidade serve ao projeto universal. Paulo lerá esse ponto em Romanos 4 e Gálatas 3, onde a promessa a Abraão é anterior à lei e por ela não é anulada, tema que o estudo retoma adiante.
Para conversar
- A aliança com Noé inclui os animais e não impõe condição declarada. O que isso sugere sobre o alcance do cuidado de Deus com a criação, e como essa ideia conversa com o chamado de uma só família em Abraão?
- Em só a chama passa entre os animais partidos, e em a circuncisão é exigida. Como é possível sustentar ao mesmo tempo a iniciativa de Deus e a resposta humana, sem apagar nenhuma das duas?
- Se e 17 forem lidos como relatos de uma mesma aliança, o que cada um acrescenta ao outro? E se forem duas, o que separa uma da outra?
- Que sinais as comunidades de hoje usam para lembrar uma promessa, e o que o arco e a circuncisão ensinam sobre sinais que não dependem de quem os vê?
3.Sinai: a aliança com um povo e os tratados do mundo antigo
Em Êxodo 19 a aliança deixa de ser promessa a indivíduos e passa a ser relação com uma nação. O texto começa pelo que já aconteceu ('vistes o que fiz aos egípcios') antes de dizer o que vem a seguir: 'se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis o meu tesouro entre todos os povos [...] um reino de sacerdotes e uma nação santa' (19:4-6). O Decálogo de Êxodo 20 abre do mesmo modo, com a lembrança da libertação do Egito antes do primeiro mandamento (20:2). A ordem é intencional: a obediência é pedida a um povo que já foi tirado da escravidão.
Essa estrutura chamou a atenção dos historiadores. Os tratados que os reis hititas firmavam com povos vassalos, na Idade do Bronze Tardio, seguem um roteiro reconhecível: um preâmbulo que identifica o grande rei, um prólogo histórico dos benefícios concedidos, cláusulas de exigência, o depósito do documento com leitura pública periódica, deuses como testemunhas e listas de bênçãos e maldições. George Mendenhall chamou a atenção para o paralelo em 1954, e autores como Meredith Kline e Kenneth Kitchen o desenvolveram. Deuteronômio traz bênçãos e maldições (cap. 28), o texto guardado ao lado da arca (31:26) e céu e terra como testemunhas (30:19).
O paralelo, porém, é discutido. Moshe Weinfeld e outros notam que Deuteronômio se parece mais com tratados assírios do primeiro milênio, e a comparação depende da data atribuída aos textos bíblicos. Há ainda diferenças reais: nenhum tratado tem o suserano como libertador de escravos, e o amor ao Senhor de Deuteronômio 6:5, embora use um vocabulário que também aparece nos tratados, vai além de lealdade política. A comparação ajuda a ler o gênero, e não a explicar tudo.
Em Êxodo 24 a aliança é ratificada. O povo diz duas vezes que fará tudo o que o Senhor disse (24:3,7), e Moisés asperge o sangue e o chama de 'sangue da aliança' (24:8), seguido de uma refeição diante de Deus (24:9-11). Poucos capítulos depois vem o bezerro de ouro (32), e a aliança precisa ser renovada (34:10). Deuteronômio 5:2-3 insiste que ela foi feita 'conosco, os que hoje estamos aqui vivos', e não só com os pais. Paulo, por sua vez, dirá em Gálatas 3:17 que a lei, vinda quatrocentos e trinta anos depois, não anula a promessa feita antes a Abraão.
Para conversar
- e 20 colocam a libertação antes da exigência. O que essa ordem diz sobre a relação entre graça e obediência, e o que se perde quando ela é invertida?
- A comparação com os tratados hititas ajuda a entender o gênero dos textos, mas é discutida quanto à data. Como usar um paralelo histórico sem pedir a ele mais do que ele pode provar?
- O povo promete obediência em e quebra a promessa em . O que isso ensina sobre a diferença entre a fidelidade de Deus e a do povo?
- diz que a aliança foi feita com os que estavam ali, embora fossem a geração seguinte. Como uma aliança antiga continua sendo contemporânea de quem a lê?
4.Davi: a promessa de uma casa e de um trono
Em 2 Samuel 7 Davi quer construir uma casa para Deus, e a resposta inverte o pedido: o Senhor é quem fará uma casa para Davi. O que se segue é uma das promessas mais carregadas do Antigo Testamento. O Senhor diz que levantará um descendente, que estabelecerá o reino dele, que este construirá a casa do nome divino e que o trono permanecerá 'para sempre' (7:12-16). A promessa traz uma cláusula que importa para o debate posterior: se o filho cometer iniquidade, será corrigido, mas a misericórdia de Deus não será retirada dele como foi retirada de Saul (7:14-15).
Um dado de vocabulário merece atenção. O capítulo 7 não usa a palavra berit. É o próprio Davi quem, em 2 Samuel 23:5, fala de uma aliança eterna que Deus fez com ele, e é o Salmo 89 que desenvolve a ideia: 'fiz aliança com o meu escolhido' (89:3), com a promessa de que a descendência durará e de que o trono será como os dias do céu (89:29). Segunda Crônicas 13:5 chega a falar de uma 'aliança de sal' com Davi. Isaías 55:3 retoma a expressão 'as misericórdias firmes de Davi' e a estende a todo o povo.
A tradição do texto, porém, não é uniforme quanto às condições. Salmo 132:11-12 e 1 Reis 9:4-5 ligam a permanência dos descendentes de Davi à obediência de seus filhos. O Salmo 89 mostra a tensão de forma dolorosa: depois de declarar que a aliança não será violada (89:34), os versos 38 a 45 descrevem uma coroa jogada no pó, e o salmo termina em pergunta. Foi esse o quadro do exílio, quando o trono davídico desapareceu sem que a promessa tivesse sido cancelada nos textos. A espera por um rei da casa de Davi nasce desse intervalo.
O Novo Testamento lê Jesus nessa moldura. Mateus abre o livro chamando-o de filho de Davi (1:1), Lucas registra o anúncio de que ele receberá o trono de Davi (1:32-33), Pedro cita o Salmo 16 e a promessa juramentada a Davi em Atos 2:30, e Paulo menciona a linhagem em Romanos 1:3. As tradições divergem sobre o modo desse cumprimento, e a sexta parte do estudo trata disso.
Para conversar
- Davi quer fazer uma casa para Deus e ouve que Deus fará uma casa para ele. O que essa inversão revela sobre quem sustenta quem na relação com o divino?
- Os textos ligam a promessa a Davi tanto à fidelidade de Deus quanto à obediência dos reis seguintes. Como ler essas duas ênfases sem anular nenhuma?
- O Salmo 89 afirma a aliança e depois descreve a ruína do trono. O que significa orar uma promessa que parece desmentida pela história?
- Por que o Novo Testamento precisa da figura de Davi para apresentar Jesus? O que se perderia se essa ligação fosse retirada?
5.A nova aliança: Jeremias, Ezequiel e a ceia
A expressão 'nova aliança' aparece com essas palavras uma única vez no Antigo Testamento, em Jeremias 31:31-34, e o contexto é de crise: Jerusalém está prestes a cair, e o profeta diz que o povo 'rompeu' a aliança do Sinai (31:32). A promessa não é uma lei mais branda. O Senhor diz que a escreverá no coração, que todos o conhecerão, do menor ao maior, e que não se lembrará mais dos pecados. Quem lê o trecho com atenção nota que ele é dirigido à 'casa de Israel e à casa de Judá', ou seja, ao povo do Antigo Testamento, fato que pesa nos debates seguintes.
Ezequiel acrescenta o mecanismo. Em 36:24-28 Deus promete retirar o coração de pedra, dar um coração de carne e pôr dentro do povo o seu Espírito, de modo que ele ande segundo os seus decretos. Em 37:26 fala de uma 'aliança de paz', eterna. O que é novo, portanto, não parece ser o conteúdo da instrução, e sim a capacidade de segui-la, ponto que o estudo sobre o Espírito Santo desenvolve. Isaías 42:6 vai por outro caminho e faz do servo do Senhor uma 'aliança para o povo'.
No cenáculo, Jesus liga a refeição a esses textos. Em Mateus e Marcos o cálice é o 'sangue da aliança', eco direto de Êxodo 24:8, e em Lucas 22:20 e 1 Coríntios 11:25 ele é a 'nova aliança no meu sangue', que lembra Jeremias. A ceia, portanto, juntava Sinai e Jeremias numa mesma frase.
Hebreus 8 faz a leitura mais extensa. O autor cita Jeremias 31 quase inteiro, uma das mais longas citações do Antigo Testamento no Novo, e conclui que Jesus é mediador de uma aliança superior, fundada em melhores promessas (8:6). A frase final, em 8:13, diz que o que se torna antigo e envelhece está perto de desaparecer, e a sua extensão é debatida. Alguns leem aí a substituição da aliança mosaica, outros a transformação dela, e há quem pergunte se o autor fala do sistema do templo, ainda em pé quando escreveu, conforme alguns defendem. Paulo, em 2 Coríntios 3:6, descreve a si mesmo e a seus colegas como ministros de uma nova aliança, 'não da letra, mas do Espírito'. O texto bíblico, portanto, afirma a novidade com clareza e deixa em aberto a medida exata da ruptura.
Para conversar
- diz que a nova aliança não será como a do Sinai porque o povo a rompeu. O que isso sugere sobre o diagnóstico do problema: a lei, o povo, ou a distância entre os dois?
- Se o que é novo em Jeremias e Ezequiel é a capacidade de obedecer e não o conteúdo da instrução, como isso conversa com a forma como a vida cristã costuma ser descrita?
- Jesus fala do cálice com palavras que lembram tanto quanto . O que ganha quem lê a ceia à luz dos dois textos?
- diz que o primeiro é antigo e está perto de desaparecer. Que leituras o verso permite, e o que cada uma exige do restante do argumento da carta?
6.Uma aliança ou várias? As leituras e o que se disputa
Depois de percorrer as alianças, a pergunta inevitável é como elas se relacionam. Em quase todos os pontos de contato o texto bíblico afirma continuidade e descontinuidade ao mesmo tempo, e as tradições cristãs organizam essas duas ênfases de maneiras diferentes.
A teologia da aliança, de matriz reformada, ensina que a Bíblia gira em torno de uma única aliança da graça, administrada de formas diferentes ao longo da história, com Abraão, Moisés, Davi e Cristo como etapas do mesmo plano. Ela costuma acrescentar uma aliança das obras com Adão antes da queda, estrutura que a Confissão de Westminster (1647) sistematiza, embora o texto de Gênesis 1 a 3 não use a palavra berit e esse ponto seja discutido até dentro da tradição. O ponto forte dessa leitura é a unidade do povo de Deus. O ponto frágil é que ela tende a pesar menos as diferenças reais entre as alianças.
O dispensacionalismo, popularizado por John Nelson Darby e pela Bíblia de Scofield (1909), distingue períodos em que Deus lida de modos diferentes com os seres humanos e mantém Israel e a Igreja como realidades distintas. As alianças com Abraão, Davi e a nova aliança de Jeremias seriam promessas a Israel que se cumprirão literalmente, e a Igreja participaria de algumas de suas bênçãos sem ocupar o lugar de Israel. Versões progressivas, como a de Craig Blaising e Darrell Bock (1993), aproximam essa leitura das outras. A força dessa posição é a seriedade com que leva as promessas a Israel. A dificuldade é a distância que ela precisa manter em textos como Hebreus 8.
A leitura católica entende a nova aliança como realizada na Igreja e celebrada na Eucaristia, e ao mesmo tempo, desde a declaração Nostra Aetate (1965), ensina que a aliança com Israel não foi revogada, apoiada em Romanos 11:29. A teologia da nova aliança, presente em círculos batistas, vê no Novo Testamento uma ruptura maior com Moisés e trata Cristo como o centro de todas as alianças anteriores.
Há ainda uma voz que as discussões entre cristãos tendem a esquecer: a tradição judaica, para a qual a aliança do Sinai continua em vigor. Qualquer síntese cristã precisa se haver com essa presença. O estudo não escolhe uma leitura, e sugere que cada uma seja avaliada pelo modo como trata os textos que lhe são mais incômodos.
Para conversar
- Cada leitura (teologia da aliança, dispensacionalismo, católica, nova aliança) protege uma verdade e tem um ponto fraco. Qual verdade você acha mais difícil de abrir mão, e qual texto desafia a sua leitura?
- diz que os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis. Como essa frase se relaciona com a afirmação cristã de uma nova aliança?
- Como tratar uma divergência de séculos entre cristãos sem fingir que ela não existe e sem transformá-la em motivo de desprezo?
- Se as alianças formam uma progressão, o que cada etapa deixa para a seguinte? O que, em sua leitura, permanece do começo ao fim?
O que fica
- Aliança, na Bíblia, é uma relação em que Deus toma a iniciativa e assume o compromisso, e as palavras berit e diathēkē carregam essa ideia de disposição unilateral.
- As alianças formam uma sequência: Noé abrange a criação, Abraão chama uma família, o Sinai forma um povo, Davi promete um rei e a nova aliança promete um coração transformado.
- A comparação com os tratados hititas ilumina a estrutura do Sinai, mas depende de datas debatidas e não explica sozinha o texto bíblico.
- Os textos sustentam ao mesmo tempo a iniciativa de Deus e a resposta esperada, e tratar só uma delas é uma escolha de tradição.
- Reformados, dispensacionalistas, católicos e outros leem a relação entre as alianças de modos diferentes, e cada leitura se avalia pelos textos que mais a incomodam.
Aprofundamento
O centro do debate cristão não é se existe uma nova aliança, afirmação feita em e , mas como ela se relaciona com as anteriores. Três pontos concentram a divergência.
O primeiro é a unidade. A teologia da aliança, de matriz reformada, defende uma só aliança da graça, administrada de modos diferentes desde Abraão. O dispensacionalismo distingue períodos e mantém Israel e a Igreja como realidades separadas. Cada leitura protege algo real, que é a unidade do povo de Deus numa, e a seriedade das promessas a Israel na outra, e cada uma precisa explicar os textos que parecem contrariá-la.
O segundo é a condição. As alianças com Noé e com Abraão são apresentadas como iniciativa divina, e dá o exemplo mais forte, com a chama passando sozinha entre os animais. Mas mostra consequências para quem recusa o sinal, o Sinai começa com um 'se' (), e a promessa a Davi aparece ora incondicional, em , ora condicionada, em . O texto sustenta as duas ênfases. Tratar uma delas como a única é uma escolha de tradição.
O terceiro é a medida da novidade. e descrevem uma transformação interior, e diz que o primeiro está envelhecendo. Alguns leem a mudança como substituição, outros como cumprimento, outros ainda como renovação de uma aliança que continua. Paulo, em , afirma que os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis, e a pergunta é como isso se harmoniza com Hebreus.
Sobre o paralelo com os tratados, a prudência manda não exagerar. Ele ilumina a estrutura de a 24 e de Deuteronômio, mas depende de datas debatidas, e o texto bíblico muda o modelo em pontos decisivos, como o suserano que se apresenta como libertador. Por fim, a aliança com Adão, que algumas obras de teologia acrescentam à lista, não usa berit em a 3. é o texto mais citado a favor dela, mas a tradução do verso é discutida, pois 'como Adão' pode também ser lido como 'em Adã', um lugar.
Vale notar, ainda, que a novidade da ceia não depende de resolver essas discussões. Os quatro relatos da última refeição ligam o cálice ao sangue e à aliança, e as tradições concordam que ali Jesus se apresentou como o ponto em que as promessas anteriores convergem, mesmo quando discordam sobre o que isso significa para Israel e para a Igreja.
O estudo não resolve essas questões e não finge que estejam resolvidas.
O que costumam dizer errado
Dizem que:No Antigo Testamento Deus fazia alianças que dependiam de obras, e no Novo passou a fazer alianças por graça.
O Antigo Testamento já apresenta alianças como iniciativa divina. Em só a chama passa entre os animais partidos, e o Sinai começa lembrando a libertação do Egito antes de pedir obediência. Paulo, em , parte de Abraão para falar de promessa recebida pela fé. A oposição entre dois regimes sucessivos é posterior aos textos.
Dizem que:Na Bíblia, 'aliança' sempre é um contrato entre duas partes iguais.
Existem alianças entre iguais, como a de Labão e Jacó, mas nas alianças de Deus com o povo é ele quem propõe e define os termos. A Septuaginta traduz berit por diathēkē, que tem sentido de disposição unilateral, e não por synthēkē, o termo comum para pacto entre iguais.
Dizem que:O arco-íris foi criado depois do dilúvio, como sinal da aliança com Noé.
diz que Deus põe o seu arco nas nuvens como sinal, mas não afirma que o fenômeno fosse novo. O texto não explica a origem natural do arco-íris, e atribuir a ele uma data de criação é mais do que ele afirma.
Dizem que:A aliança de Deus com Davi está descrita com a palavra aliança em 2 Samuel 7.
Em não aparece a palavra berit. Quem chama a promessa de aliança são outros textos, como e o Salmo 89:3. Isso não diminui a promessa, mas mostra que o uso do termo na teologia é parte do que a tradição concluiu e não só do que o capítulo diz.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada (teologia da aliança)
A Bíblia gira em torno de uma só aliança da graça, administrada em formas diferentes com Abraão, Moisés, Davi e Cristo. A tradição costuma acrescentar uma aliança das obras com Adão e uma aliança da redenção na eternidade, estrutura sistematizada na Confissão de Westminster (1647). Enfatiza a unidade do povo de Deus e o vínculo entre o batismo e a circuncisão.
Dispensacionalista
Deus lida de modos distintos com os seres humanos em períodos sucessivos, e Israel e a Igreja são realidades distintas. As alianças com Abraão e Davi e a nova aliança de Jeremias seriam promessas a Israel, a cumprir-se de forma literal. Versões progressivas, como a de Blaising e Bock, aproximam as duas realidades.
Católica
A nova aliança se realiza em Cristo e é celebrada na Eucaristia, em continuidade com as alianças anteriores como etapas de uma pedagogia divina. Desde a declaração Nostra Aetate (1965), o ensino afirma que a aliança com Israel não foi revogada, com apoio em .
Teologia da nova aliança (círculos batistas)
Vê na nova aliança uma ruptura maior com a aliança mosaica do que a teologia reformada admite e trata Cristo como o centro e o cumprimento de todas as alianças anteriores. Costuma ler a lei de Moisés como um pacote que passou, e a lei de Cristo como o regime da nova aliança.
O que fazer com isso
Ao ler qualquer passagem sobre aliança, pergunte primeiro quem toma a iniciativa, quem promete o quê e qual é o sinal. Depois observe se o texto usa a palavra berit ou se a tradição é que a atribuiu. Essas duas perguntas evitam a maior parte das confusões, porque separam o que o texto afirma da leitura que cada tradição faz dele, e mostram onde a divergência é real.
Perguntas frequentes
- Qual a diferença entre aliança e testamento na Bíblia?
- São a mesma palavra em duas línguas. O hebraico berit foi traduzido para o grego como diathēkē, que significa tanto aliança quanto testamento, e daí vêm os nomes Antigo e Novo Testamento. joga com os dois sentidos na mesma passagem.
- Quantas alianças existem na Bíblia?
- Depende de quem conta. A lista mais comum inclui Noé, Abraão, o Sinai, Davi e a nova aliança. A teologia reformada acrescenta uma aliança com Adão, e há quem una Abraão e Moisés, ou veja só uma aliança em várias etapas. O texto não traz um número fechado.
- A nova aliança substitui a antiga?
- As tradições divergem. fala do primeiro como envelhecido e perto de desaparecer, e Paulo, em , diz que os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis. Reformados, dispensacionalistas e católicos lidam com essa tensão de maneiras diferentes, e cada leitura precisa explicar os textos que a desafiam.
- O Sinai se parece com os tratados hititas?
- Há semelhanças de estrutura: prólogo histórico, exigências, bênçãos e maldições, depósito do texto. Mas a data dos textos bíblicos é discutida, e alguns estudiosos veem em Deuteronômio mais afinidade com tratados assírios do primeiro milênio. O paralelo ilumina o gênero, e não decide a origem.
Fontes consultadas
- George E. Mendenhall. Law and Covenant in Israel and the Ancient Near East, 1955.
- Meredith G. Kline. Treaty of the Great King, 1963.
- Dennis J. McCarthy. Treaty and Covenant, 1963.
- Delbert R. Hillers. Covenant: The History of a Biblical Idea, 1969.
- Moshe Weinfeld. Deuteronomy and the Deuteronomic School, 1972.
- Assembleia de Westminster. Confissão de Fé de Westminster, 1647.
- Cyrus I. Scofield. The Scofield Reference Bible, 1909.
- Craig A. Blaising e Darrell L. Bock. Progressive Dispensationalism, 1993.
- Concílio Vaticano II. Declaração Nostra Aetate, 1965.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.