Enuma Elish
O que é o Enuma Elish e por que ele é comparado à criação em Gênesis?
Ficha do documento
- Data provável
- c. século XII a.C. (composição provável); cópias mais completas do século VII a.C.
- Língua
- Acádio (dialeto babilônico)
- Onde se preserva
- Tábuas cuneiformes da Biblioteca de Assurbanipal (Nínive), hoje no Museu Britânico; fragmentos adicionais de Assur, Uruk, Kish e Sultantepe.
A erudição, no entanto, sustenta: Escribas-sacerdotes ligados ao templo de Marduk (Esagila), em Babilônia — autoria coletiva e anônima, como é típico da literatura religiosa mesopotâmica.
Status por tradição
| Tradição judaica | Fora do cânon | Texto religioso babilônico, nunca considerado escritura por Israel. |
| Igreja Católica | Fora do cânon | Documento histórico mesopotâmico, sem qualquer status de escritura. |
| Igreja Ortodoxa | Fora do cânon | Nunca fez parte do cânon ortodoxo; é objeto de estudo histórico. |
| Ortodoxa Etíope | Fora do cânon | Também fora de qualquer lista canônica dessa tradição. |
| Tradições protestantes | Fora do cânon | Sem status de escritura em nenhuma denominação protestante. |
Resposta curta
Enuma Elish — "Quando lá em cima", suas palavras iniciais — é o principal poema de criação da Babilônia antiga, composto em acádio e registrado em sete tábuas de argila cuneiforme. O texto narra como o deus jovem Marduk vence a deusa do oceano salgado, Tiamat, corta seu corpo ao meio e forma com as metades o céu e a terra, organizando em seguida o cosmos e, por fim, a própria humanidade.
As cópias mais completas vieram da Biblioteca de Assurbanipal, em Nínive (século VII a.C.), achadas em escavações do século XIX e hoje guardadas no Museu Britânico, embora a composição do poema seja bem mais antiga, provavelmente ligada à ascensão de Marduk como divindade suprema de Babilônia. Historiadores leem o Enuma Elish como testemunho da cosmologia mesopotâmica, com frequência comparado à narrativa de criação de .
Passagens bíblicas relacionadas
Em palavras simples
Enuma Elish é um poema muito antigo da Babilônia que conta como o mundo teria surgido: o deus Marduk luta contra Tiamat, uma espécie de monstro do mar que representa o caos, vence e usa o corpo dela para criar o céu e a terra. O texto foi encontrado em tábuas de argila numa biblioteca de Nínive, no atual Iraque, e hoje está no Museu Britânico. Muita gente compara essa história com a criação do mundo em , já que as duas tratam da origem do céu, da terra e da humanidade.
O que o documento conta
O Enuma Elish pertence à literatura religiosa da Mesopotâmia antiga, escrita em acádio — a língua semítica usada na Babilônia e na Assíria — com escrita cuneiforme sobre tábuas de argila. Seu nome vem das duas primeiras palavras do poema, "enūma eliš", que significam "quando lá em cima"; os próprios mesopotâmicos o chamavam por essa abertura, como era comum na região com textos sem título formal.
As cópias mais completas e mais estudadas do poema foram encontradas na Biblioteca de Assurbanipal, em Nínive (capital assíria, atual Mossul, Iraque), reunida no século VII a.C. pelo rei Assurbanipal. As tábuas foram desenterradas em escavações britânicas dos anos 1840 a 1850, lideradas por Austen Henry Layard e Hormuzd Rassam, e o texto foi identificado, traduzido e publicado pela primeira vez pelo assiriólogo George Smith em 1876, sob o título "The Chaldean Account of Genesis" — já então em diálogo direto com o livro bíblico. Fragmentos adicionais do poema, de outras épocas e cidades (Assur, Uruk, Kish, Sultantepe), mostram que ele circulou de forma ampla e por séculos no mundo mesopotâmico.
Embora as tábuas de Nínive datem do primeiro milênio a.C., os estudiosos consideram a composição do poema bem mais antiga — a maioria situa sua origem por volta do século XII a.C., ligada à necessidade política e religiosa de justificar a ascensão de Marduk, divindade de Babilônia, à posição de rei dos deuses do panteão mesopotâmico, quando a cidade se firmou como potência regional. O poema era recitado ritualmente durante o Akitu, a festa babilônica de Ano Novo, reafirmando a cada ano a ordem cósmica estabelecida por Marduk.
Não se trata de um texto sagrado de nenhuma tradição viva hoje: a religião babilônica antiga não tem continuidade institucional, e o Enuma Elish é estudado como fonte histórica da assiriologia, não como escritura de fé praticada. Seu valor para o leitor da Bíblia está em mostrar, em primeira mão, como um povo vizinho de Israel imaginava a origem do mundo — pano de fundo cultural que ajuda a perceber tanto ecos quanto contrastes na literatura bíblica de criação.
Aprofundamento
O poema se distribui por sete tábuas de argila, cada uma com cerca de 150 linhas em acádio, e segue uma progressão dramática clássica da literatura mesopotâmica: caos primordial, conflito entre gerações de deuses, ascensão de um herói divino e organização final do cosmos.
No início só existiam Apsu (as águas doces) e Tiamat (as águas salgadas), cujas misturas geraram as primeiras gerações de deuses. O barulho dos deuses mais jovens perturba o sono de Apsu, que planeja destruí-los; o deus Ea descobre o plano e mata Apsu primeiro. Tiamat, viúva e enfurecida, cria um exército de monstros híbridos e nomeia seu novo consorte, Kingu, como general, portando a "Tábua dos Destinos" que lhe dá autoridade suprema. Diante da ameaça, os deuses recorrem ao jovem Marduk, filho de Ea, que aceita enfrentar Tiamat sob uma condição: se vencer, deve ser reconhecido como rei supremo do panteão. Os deuses concordam, e Marduk mata Tiamat com um vento e uma flecha, corta seu corpo ao meio e ergue as duas metades como o firmamento e a terra, fixando ali as estrelas, a lua e o calendário. Ele também executa Kingu e, com seu sangue, o deus Ea forma a humanidade — criada, no poema, para libertar os deuses do trabalho manual, servindo-os com oferendas e culto. O poema termina com a construção de Babilônia e do templo Esagila, seguida por um hino que enumera cinquenta nomes e títulos de Marduk, celebrando sua supremacia.
Esse desfecho revela a função do texto: mais que uma cosmogonia neutra, o Enuma Elish é também um poema político-religioso, escrito para justificar a posição de Marduk — e, por extensão, de Babilônia — no topo da hierarquia divina mesopotâmica, num momento em que essa supremacia ainda precisava de legitimação diante de tradições religiosas mais antigas, ligadas a Enlil e à cidade de Nipur.
Historicamente, o texto sobreviveu em múltiplas cópias de diferentes séculos e cidades, o que permite reconstruir boa parte de suas sete tábuas com razoável confiança, embora restem lacunas em alguns trechos. Desde sua publicação por George Smith em 1876, tornou-se referência obrigatória nos estudos de literatura comparada do Antigo Oriente Próximo, sobretudo por suas semelhanças estruturais com — a separação das águas, a organização do céu e da terra, a criação de luzes para marcar o tempo — e por suas diferenças igualmente marcantes, como o conflito violento entre deuses e a origem da humanidade a partir do sangue de um deus morto, contra a criação pacífica de Gênesis, por simples palavra divina.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O Enuma Elish é 'a fonte' de onde Gênesis 1 teria copiado a criação do mundo.
Não há evidência de dependência literária direta entre os dois textos — nenhuma citação, estrutura ou vocabulário que prove cópia. O que os dois compartilham são motivos e temas comuns a toda a cosmologia do Antigo Oriente Próximo, dos quais tanto a Babilônia quanto Israel participavam à sua maneira; os assiriólogos falam em pano de fundo cultural comum, não em plágio.
Dizem que:O Enuma Elish é uma escritura sagrada que alguma religião ainda pratica hoje.
A religião babilônica antiga, com seu panteão liderado por Marduk, não tem continuidade institucional viva; o culto que sustentava o Enuma Elish desapareceu na Antiguidade. O texto é preservado e estudado hoje como documento histórico da assiriologia, não como escritura de uma fé praticada.
Como diferentes tradições leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Protestantismo evangélico
Tende a reconhecer o pano de fundo cultural comum, mas enfatiza os contrastes teológicos — a criação por palavra divina e sem conflito em Gênesis, contra a violência entre deuses do Enuma Elish — como sinal de uma revelação distinta, não de dependência literária.
Catolicismo
Acolhe amplamente a pesquisa histórico-crítica sobre paralelos do Antigo Oriente Próximo, lendo como resposta polêmica e teológica às cosmologias vizinhas, que desmitologiza o sol, a lua e o mar sem que isso comprometa a inspiração do texto bíblico.
Ortodoxia
Situa a comparação no quadro da tradição patrística, que já via nos mitos das nações ecos distorcidos de uma verdade original sobre a criação, preservada com pureza apenas na revelação bíblica.
Protestantismo histórico (tradição reformada)
Valoriza o estudo comparativo como ferramenta exegética legítima, mostrando que fala a linguagem cosmológica de sua época para afirmar, de forma polêmica, a soberania de um só Deus sobre um cosmos que os babilônios repartiam entre muitas divindades.
O que fazer com isso
Ler o Enuma Elish com equilíbrio significa reconhecê-lo como testemunho legítimo de como um povo vizinho de Israel entendia a origem do mundo — nem uma "fonte secreta" da Bíblia, nem um mito que a Bíblia teria copiado. Os pontos de contato mostram um vocabulário cultural comum do Antigo Oriente Próximo; as diferenças, muitas vezes deliberadas, revelam o que cada tradição afirmava sobre seus deuses. Comparar os dois textos amplia a compreensão histórica sem exigir que um "vença" o outro.
Fontes consultadas5 obras
- W. G. Lambert. Babylonian Creation Myths, 2013.
- Alexander Heidel. The Babylonian Genesis: The Story of Creation, 1951.
- Benjamin R. Foster. Before the Muses: An Anthology of Akkadian Literature, 2005.
- George Smith. The Chaldean Account of Genesis, 1876.
- John H. Walton. Ancient Near Eastern Thought and the Old Testament, 2006.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O Enuma Elish é mais antigo do que Gênesis?
A composição do poema é geralmente datada de cerca do século XII a.C., enquanto a datação da composição de Gênesis é discutida entre os estudiosos e varia conforme a abordagem. As tábuas físicas mais completas do Enuma Elish, do século VII a.C., também não definem sozinhas a idade real do texto, já que cópias tardias podem preservar composições muito mais antigas.
O Enuma Elish prova que a criação bíblica foi copiada dos babilônios?
Não. Os dois textos compartilham temas do Antigo Oriente Próximo, como a separação das águas primordiais, mas divergem em pontos centrais — o número de deuses, o modo da criação (por palavra ou por conflito) e a origem da humanidade. A maioria dos especialistas entende as semelhanças como parte de um ambiente cultural comum, não como prova de cópia direta.
Onde está o texto original do Enuma Elish hoje?
As tábuas mais completas, vindas da Biblioteca de Assurbanipal em Nínive, estão hoje no Museu Britânico, em Londres. Fragmentos adicionais, de outras cidades e períodos, se encontram em outros museus e coleções de arqueologia mesopotâmica.
Por que o Enuma Elish foi achado em Nínive, capital da Assíria, se fala de Babilônia?
A Assíria absorveu boa parte da cultura literária e religiosa babilônica, incluindo seus mitos. O rei assírio Assurbanipal reuniu cópias de textos babilônicos clássicos em sua biblioteca de Nínive por valorizar essa herança cultural, não porque o poema fosse de origem assíria.
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