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Significado Bíblico
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Águas do princípio: Gênesis e o Enuma Elish

A criação em Gênesis foi copiada de um mito babilônico?

Resposta curta

descreve o início do mundo como uma terra "desordenada e vazia", com trevas sobre o abismo e o Espírito de Deus pairando sobre as águas. O Enuma Elish, poema babilônico da criação, também abre com águas primordiais indiferenciadas — mas ali essas águas são os próprios deuses Apsu e Tiamat, de cuja mistura nascem todas as demais divindades.

A semelhança está no cenário: um mundo pré-criação de água escura e sem forma, comum ao Oriente Próximo antigo. A diferença é decisiva: em Gênesis a água é matéria inerte, e Deus atua sobre ela de fora; no Enuma Elish a água é divindade, e os deuses nascem de dentro do caos aquático — um texto narra teogonia, o outro, um Criador que precede e ordena a matéria pela palavra.

O que diz Enuma Elish

Enuma Elish, tábua I, o estado das águas primordiais

O Enuma Elish ("Quando lá em cima", suas primeiras palavras em acadiano) é o poema babilônico da criação, composto em sete tábuas de argila em escrita cuneiforme. As cópias mais completas vieram da biblioteca do rei assírio Assurbanípal, em Nínive (século VII a.C.), descobertas em escavações do século XIX, mas o texto em si é bem mais antigo: a maioria dos assiriólogos o situa entre o fim do segundo milênio a.C., possivelmente do período cassita da Babilônia (c. séculos XIV a XII a.C.), embora a datação exata continue debatida.

A Tábua I abre antes de existir céu, terra ou templo, quando só havia Apsu (as águas doces subterrâneas) e Tiamat (o mar salgado), suas águas "misturando-se em um só corpo" — sem ainda haver outros deuses. Dessa mistura nascem, geração após geração, as primeiras divindades (Lahmu e Lahamu, depois Anshar e Kishar, e assim por diante), até chegar a Ea e, por fim, Marduk. O poema segue narrando um conflito: irritado com o barulho dos deuses jovens, Apsu tenta destruí-los e é morto por Ea; depois, Tiamat, em vingança, declara guerra e é derrotada por Marduk, que parte seu corpo ao meio para formar o céu e a terra. As últimas tábuas exaltam Marduk como rei dos deuses e patrono de Babilônia.

O poema era recitado ritualmente durante o Ano Novo babilônico (Akitu), reforçando a supremacia religiosa e política de Babilônia e de seu deus principal. Não tem status de escritura sagrada para nenhuma tradição viva hoje — é conhecido apenas por meio de achados arqueológicos e do trabalho de assiriólogos, que o traduzem e publicam desde o século XIX. Para o leitor da Bíblia, o interesse do Enuma Elish está em mostrar como outro povo do mesmo mundo antigo, vizinho de Israel, imaginava o estado do universo antes da ordem — o que ajuda a perceber, por contraste, o que afirma e o que recusa afirmar sobre a origem das coisas.

Ler mais sobre Enuma Elish

O que diz a Bíblia

No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra estava desordenada e vazia, e as trevas estavam sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

Onde coincidem e onde divergem

Onde coincidem

  • Ambos os textos começam com um estado aquático, escuro e sem forma, anterior à ordem do mundo.
  • Em ambos, as águas primordiais precedem o resultado final do cosmo ordenado (céu, terra, mundo habitável).
  • Possível parentesco linguístico entre o hebraico tehom ("abismo") e o nome acadiano Tiamat, ambos ligados a uma raiz semítica para "mar profundo", também atestada no ugarítico.

Onde divergem

  • No Enuma Elish, as águas primordiais (Apsu e Tiamat) são, elas mesmas, deuses; em Gênesis, a água é matéria criada, sem personalidade nem status divino.
  • O Enuma Elish narra uma teogonia, o nascimento sucessivo de deuses a partir da mistura das águas; Gênesis não tem teogonia alguma — Deus já existe plenamente antes do primeiro versículo.
  • A ordenação do cosmo no Enuma Elish nasce de um combate entre divindades (Marduk mata Tiamat e parte seu corpo ao meio); em Gênesis, a ordem vem por comando verbal repetido de Deus, sem batalha nem rival.

O que só existe fora do cânon

Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.

  • Os deuses Apsu, Tiamat, Mummu, Lahmu, Lahamu, Anshar e Kishar, e sua genealogia detalhada.
  • A guerra entre Apsu e os deuses jovens, e depois entre Tiamat e Marduk, incluindo o desmembramento do corpo de Tiamat para formar céu e terra.
  • A exaltação final de Marduk com cinquenta nomes divinos e sua ligação com a supremacia religiosa e política de Babilônia (Tábuas VI-VII).
Em palavras simples

Gênesis diz que, antes da criação, a terra era "sem forma e vazia", só água escura, e Deus pairava sobre ela. Um poema muito antigo da Babilônia, o Enuma Elish, também começa com água escura e sem forma no início de tudo — só que ali essa água era formada por dois deuses, Apsu e Tiamat. A parecença é o cenário de água e escuridão; a diferença grande é que, em Gênesis, Deus não nasce da água — ele já existe antes e ordena tudo com sua palavra.

Aprofundamento

O ângulo mais preciso de comparação é o estado "anterior" à criação em cada texto. chama esse estado de tohu wa-bohu ("desordenada e vazia"), com trevas sobre a face do tehom (o "abismo") e o Espírito (ruach) de Deus pairando sobre as águas. O Enuma Elish, Tábua I, também começa antes de o céu ter nome e a terra firme ter sido chamada, "quando só existiam Apsu, seu gerador, e Mummu-Tiamat, que a todos gerou, suas águas se misturando em um só corpo". Em ambos os textos, o ponto de partida é água indiferenciada, escura, sem contornos — um vocabulário de caos aquático compartilhado por boa parte da cosmologia do Crescente Fértil.

Há também um possível eco linguístico: o hebraico tehom e o nome acadiano Tiamat parecem vir de uma raiz semítica comum ligada à ideia de "mar profundo" (atestada também no ugarítico thm). Isso não significa, porém, que tehom seja uma versão "desmitologizada" de Tiamat por consenso entre os especialistas — a relação exata entre as duas palavras é discutida, e boa parte dos hebraístas prefere falar em raiz compartilhada, não em empréstimo direto de um nome próprio.

A diferença central, porém, não é de vocabulário, mas de natureza. No Enuma Elish, Apsu e Tiamat são deuses — a matéria primordial é, ela mesma, divina, e todos os outros deuses (a começar por Lahmu e Lahamu) nascem de dentro dessa mistura aquática: é uma teogonia, o relato de como os deuses vieram a existir, e só depois, com Marduk, chega-se à ordenação do cosmo — e mesmo essa ordenação nasce de uma batalha, quando Marduk mata Tiamat e parte seu corpo ao meio para formar céu e terra. Em , ao contrário, não há teogonia alguma: Deus já existe plenamente antes do primeiro versículo, a água não é uma divindade nem gera outras divindades, e o Espírito de Deus paira sobre ela como algo distinto e soberano, não como parte do mesmo tecido da matéria. Não há combate: nos versículos seguintes (1:3 em diante), a ordem vem por um comando verbal simples, repetido — "disse Deus" — sem rival algum a vencer.

Essa comparação não serve para provar que um texto copiou o outro, nem para desacreditar Gênesis por parecer-se com um mito mais antigo. Serve para mostrar, com precisão, o que estava dizendo a um leitor do Oriente Próximo antigo: que o mar profundo, tão temido e divinizado por vizinhos como a Babilônia, não é um deus — é criatura, e está sob o domínio tranquilo de um único Criador que fala e ordena, sem precisar lutar por seu trono.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Gênesis 1 copiou o Enuma Elish, o que provaria que a criação bíblica é "só um mito reescrito".

    Não há evidência de dependência literária direta entre os dois textos — nenhum fragmento hebraico do Enuma Elish, nenhuma citação, nenhuma tradução conhecida em Israel. O que existe é um vocabulário e um cenário (águas escuras e sem forma antes da ordem) comuns a várias culturas do Oriente Próximo antigo, do qual Israel também fazia parte; historiadores tratam os dois textos como parentes de uma mesma família cultural, não como cópia e original.

  • Dizem que:"Tehom", em Gênesis 1:2, é apenas outro nome para a deusa Tiamat, então a Bíblia também estaria falando de uma divindade do caos.

    A maioria dos hebraístas entende tehom como substantivo comum ("abismo", "mar profundo"), de uma raiz semítica também presente no ugarítico, e não como nome próprio de uma divindade — em nenhum lugar do Antigo Testamento tehom recebe culto ou é tratado como deus; a suposta ligação direta com o nome Tiamat como empréstimo é discutida entre especialistas, não um consenso fechado.

Como diferentes tradições leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica (exegese histórico-crítica magisterial)

    Reconhece que foi escrito num ambiente cultural que compartilhava imagens com a Mesopotâmia, mas entende o texto como obra inspirada que usa essas imagens para ensinar verdades teológicas sobre Deus como único Criador — a semelhança de pano de fundo não compromete a mensagem revelada.

  • Evangélica conservadora (ex.: abordagem de John H. Walton)

    Lê o pano de fundo do Antigo Oriente Próximo, incluindo o Enuma Elish, como chave para entender que fala primariamente de funções e ordem, não de mecânica material — e vê nas diferenças com o mito babilônico um esforço deliberado do texto em desqualificar os deuses das nações vizinhas.

  • Ortodoxa

    Mantém o foco patrístico no próprio texto de Gênesis — o Espírito de Deus pairando sobre as águas como antecipação da ação do Espírito Santo na criação e na nova criação — sem investir tanto no debate comparativo com mitos mesopotâmicos, tratado como pano de fundo histórico, não como chave interpretativa central.

  • Protestante histórico-crítica (linha de Claus Westermann e Gerhard von Rad)

    Vê em uma polêmica deliberada contra cosmologias como a babilônica: o texto sacerdotal (P) teria absorvido motivos comuns do Oriente Próximo — como as águas primordiais — esvaziando-os do conteúdo mítico, e transformando deuses em simples elementos criados por um único Deus transcendente.

O que fazer com isso

Ao ler comparações como esta, vale resistir a dois exageros: tratar o Enuma Elish como prova de que a Bíblia "copiou" um mito, ou tratá-lo como ameaça a descartar sem exame. O caminho mais honesto é notar o que os dois textos compartilham — o vocabulário comum de um mundo antigo tentando explicar a origem das coisas — e o que os separa: se a matéria criada é, ela mesma, divina e caótica, ou se existe um Criador distinto dela, que a ordena por sua palavra.

Fontes consultadas5 obras
  • Alexander Heidel. The Babylonian Genesis, 1951.
  • W. G. Lambert. Babylonian Creation Myths, 2013.
  • John H. Walton. The Lost World of Genesis One, 2009.
  • Benjamin R. Foster. Before the Muses: An Anthology of Akkadian Literature, 2005.
  • James B. Pritchard (org.), trad. E. A. Speiser. Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament, 1969.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O Enuma Elish é mais antigo que Gênesis?

As cópias que restaram do Enuma Elish datam do primeiro milênio a.C., mas a composição original é bem mais antiga, provavelmente do fim do segundo milênio a.C. A data de composição final de é discutida entre estudiosos, então não dá para afirmar com certeza qual texto é mais antigo em sua forma final — o que se sabe é que os dois vêm da mesma região e de um mundo que compartilhava ideias sobre a origem do universo.

Tiamat é a mesma coisa que o "abismo" de Gênesis 1:2?

Não exatamente. Tiamat é uma deusa com corpo, vontade e papel numa guerra entre divindades. O tehom de Gênesis é uma palavra comum para "mar profundo" ou "abismo", sem personalidade nem culto — a possível ligação entre os dois termos é de raiz linguística, não de identidade.

Por que estudar um poema pagão junto com a Bíblia?

Porque o texto bíblico foi escrito para leitores que conheciam essas outras histórias sobre a origem do mundo. Entender o que Gênesis afirma e o que recusa afirmar, em contraste com seus vizinhos, ajuda a perceber com mais precisão a mensagem original do texto.

Existe prova de que os autores de Gênesis conheciam o Enuma Elish?

Não há uma prova direta, como uma citação ou cópia do poema encontrada em Israel. Existe, sim, um amplo consenso entre historiadores do Oriente Próximo de que as culturas da região compartilhavam repertórios de imagens sobre a criação, o que torna plausível alguma familiaridade cultural, sem que isso implique cópia literária.

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Publicado em 05/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 5 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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