Tabuinha do Dilúvio (Épico de Gilgamesh, Tábua XI)
A tabuinha do dilúvio de Gilgamesh prova que a história de Noé foi copiada?
Ficha do documento
- Data provável
- Cópia de c. século VII a.C. (biblioteca de Assurbanipal, Nínive); tradição textual da versão padrão compilada entre os séculos XIII-XI a.C.; raízes narrativas em tradições sumérias e babilônicas de c. 2000-1700 a.C.
- Língua
- Acádio (dialeto babilônico-padrão)
- Autoria atribuída
- Tradição escribal mesopotâmica atribui a compilação da versão padrão do Épico de Gilgamesh (na qual se insere a Tábua XI) ao escriba e exorcista Sîn-lēqi-unninni.
- Onde se preserva
- Museu Britânico, Londres, entre as tabuinhas cuneiformes recuperadas das ruínas de Nínive.
A erudição, no entanto, sustenta: Compilação de tradições sumérias e babilônicas mais antigas (entre elas o Épico de Atrahasis e lendas sumérias sobre Gilgamesh) por escribas da Babilônia, entre os séculos XIII e XI a.C.; a cópia específica achada em Nínive foi produzida por escribas da corte de Assurbanipal, no século VII a.C.
Status por tradição
| Tradição judaica | Fora do cânon | Documento mesopotâmico não bíblico, sem relação com o cânone hebraico. |
| Igreja Católica | Fora do cânon | Não é texto bíblico nem deuterocanônico; é uma fonte histórica externa. |
| Igreja Ortodoxa | Fora do cânon | Não é texto bíblico nem faz parte de nenhum cânone ortodoxo. |
| Ortodoxa Etíope | Fora do cânon | Não é texto bíblico nem faz parte do cânone amplo etíope. |
| Tradições protestantes | Fora do cânon | Não é texto bíblico; tratado como documento histórico comparativo. |
Resposta curta
A Tabuinha do Dilúvio é a décima primeira tábua do Épico de Gilgamesh, a mais célebre composição poética da Mesopotâmia antiga. A cópia mais conhecida veio da biblioteca do rei assírio Assurbanipal, em Nínive, escavada em meados do século XIX e hoje guardada no Museu Britânico. Escrita em acádio cuneiforme sobre argila, essa cópia data de cerca do século VII a.C., mas reproduz uma composição bem mais antiga, com raízes em tradições sumérias e babilônicas de mais de mil anos antes.
Na tábua, Gilgamesh ouve de Utnapishtim, sobrevivente de um dilúvio enviado pelos deuses, como o deus Ea o avisou em segredo e mandou construir um barco para embarcar a família, artesãos e "a semente de todo ser vivo". O texto foi decifrado em 1872 por George Smith, causando grande repercussão pelo paralelo com o dilúvio de Gênesis.
Passagens bíblicas relacionadas
Em palavras simples
É uma placa de argila muito antiga, da Mesopotâmia, que faz parte de uma longa história chamada Épico de Gilgamesh. Nela, um homem chamado Utnapishtim conta como um deus o avisou de um dilúvio e mandou construir um barco para salvar a família e os animais. A cópia que temos veio da biblioteca de um rei assírio e tem quase 2.700 anos, mas a história é ainda mais velha. Ela foi lida pela primeira vez em 1872, e desde então é comparada com o dilúvio de Noé.
O que o documento conta
A descoberta da Tabuinha do Dilúvio está ligada às grandes escavações do Império Assírio realizadas em meados do século XIX. Entre 1849 e 1853, o arqueólogo britânico Austen Henry Layard e seu assistente Hormuzd Rassam escavaram o monte de Kouyunjik, na margem do rio Tigre, próximo à atual Mossul, no Iraque, identificando ali as ruínas de Nínive, capital do Império Assírio. No local encontraram os restos da biblioteca do rei Assurbanipal (reinou c. 668-627 a.C.), um dos maiores acervos de textos cuneiformes da Antiguidade, com milhares de tabuinhas de argila reunidas por ordem real, entre registros administrativos, textos religiosos, listas de reis e obras literárias.
Entre esses fragmentos estava a Tábua XI do Épico de Gilgamesh, parte da chamada "versão padrão babilônica" do épico. As tabuinhas foram levadas para Londres e incorporadas ao acervo do Museu Britânico, mas sua escrita cuneiforme ainda era, na época, pouco compreendida. O trabalho de decifração avançou nas décadas seguintes graças a estudiosos como Henry Rawlinson e Edward Hincks, até que, em 1872, o jovem assiriólogo George Smith, funcionário do próprio museu, identificou na tábua um relato de dilúvio com semelhanças notáveis ao de Gênesis. Sua apresentação à Sociedade de Arqueologia Bíblica de Londres, em dezembro daquele ano, causou grande comoção pública e motivou uma expedição financiada por um jornal britânico para buscar fragmentos que completassem o texto.
A composição em si é mais antiga que essa cópia de Nínive. O Épico de Gilgamesh tem origem em poemas sumérios independentes sobre o rei-herói Gilgamesh, de Uruk, compostos ainda no início do segundo milênio a.C., e passou por diversas versões antes de ser reunido na forma que conhecemos, provavelmente entre os séculos XIII e XI a.C. O episódio do dilúvio nessa versão se apoia numa tradição ainda mais antiga, atestada no Épico de Atrahasis, texto babilônico do século XVIII a.C. que já narrava um dilúvio enviado pelos deuses.
Aprofundamento
Na Tábua XI, Gilgamesh, em busca da imortalidade, procura Utnapishtim, o único ser humano a quem os deuses concederam vida eterna, para lhe perguntar como isso aconteceu. Utnapishtim então narra: os grandes deuses decidiram em conselho destruir a humanidade com um dilúvio, mas o deus Ea, contrário à decisão, avisou Utnapishtim em segredo, falando através da parede de junco de sua casa, sem revelar abertamente que desobedecia aos demais deuses. Ea instrui Utnapishtim a demolir sua casa e construir um barco de formato cúbico, com lados de sessenta côvados e sete andares internos, calafetado com betume. Utnapishtim embarca sua família, artesãos de diversos ofícios, "a semente de todo ser vivo" (os animais) e seus bens.
A tempestade, comandada pelo deus Adad, dura seis dias e sete noites, e é tão violenta que os próprios deuses se apavoram com o que causaram, chorando ao ver a destruição. Quando a chuva cessa, o barco encalha no monte Nimush. Utnapishtim solta, em sequência, uma pomba e uma andorinha, que voltam por não encontrarem onde pousar, e depois um corvo, que não retorna, sinal de que as águas baixaram. Ao sair do barco, Utnapishtim oferece um sacrifício, e o texto diz que "os deuses sentiram o doce aroma" e "se reuniram como moscas" ao redor da oferenda. O deus Enlil, líder do conselho, fica furioso ao saber que houve sobreviventes, mas Ea o repreende por ter decretado uma destruição tão desproporcional. Como reparação, os deuses concedem a Utnapishtim e sua esposa a imortalidade, e os instalam a viver "na foz dos rios", longe dos demais homens.
Estudiosos da Assiriologia, como Andrew George e Alexander Heidel, documentam que essa narrativa não nasceu com o Épico de Gilgamesh: ela retoma, de forma quase literal em alguns trechos, um episódio já presente no Épico de Atrahasis, obra babilônica bem mais antiga, e ecoa uma tradição suméria ainda mais remota sobre um rei chamado Ziusudra, sobrevivente de um dilúvio primordial. A versão da Tábua XI parece ter sido incorporada ao épico de Gilgamesh por um editor ou compilador, numa etapa relativamente tardia da história do texto, tradicionalmente associada por escribas mesopotâmicos posteriores ao nome do escriba-exorcista Sîn-lēqi-unninni. O resultado é uma das narrativas de dilúvio mais completas e mais estudadas de toda a literatura do Antigo Oriente Médio, e por isso mesmo a mais citada nas comparações com o relato bíblico de , tanto pelas semelhanças de estrutura quanto pelas diferenças de fundo teológico entre um mundo de muitos deuses e o Deus único da narrativa bíblica.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A tabuinha prova que o relato do dilúvio em Gênesis foi copiado do Épico de Gilgamesh.
A cópia de Nínive é do século VII a.C., mas a data da composição final de Gênesis é discutida entre os próprios estudiosos, e semelhança de estrutura narrativa não equivale a prova de cópia direta de um texto pelo outro; a maioria dos assiriólogos e biblistas fala em tradições orais e literárias compartilhadas na região, não em plágio de um documento específico.
Dizem que:O barco de Utnapishtim tinha o mesmo formato da arca de Noé.
Na Tábua XI, o barco descrito é um cubo perfeito de sessenta côvados de lado, com sete andares - uma forma bem diferente da caixa retangular alongada descrita para a arca em .
Dizem que:George Smith decifrou a tabuinha para tentar refutar a Bíblia.
Smith trabalhava catalogando e traduzindo tabuinhas do Museu Britânico por interesse assiriológico; os relatos da época descrevem sua reação à descoberta como de forte emoção pessoal, e o interesse público subsequente foi amplamente por curiosidade histórica e religiosa, não por uma agenda de refutação.
Como diferentes tradições leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Tende a acolher a pesquisa histórico-crítica sobre paralelos mesopotâmicos como parte legítima do estudo dos gêneros literários do Antigo Testamento, sem que isso comprometa a inspiração do texto bíblico: Gênesis retrabalha uma memória e uma linguagem comuns ao Antigo Oriente Médio para transmitir uma teologia própria, monoteísta e centrada na aliança.
Protestante evangélica (conservadora)
Costuma enfatizar que as semelhanças entre os relatos indicam a lembrança de um evento real e catastrófico, preservado de forma corrompida pela mitologia politeísta mesopotâmica e de forma fiel e teologicamente coerente no relato bíblico, tido como o registro mais confiável dos dois.
Ortodoxa
Concentra-se menos no debate sobre prioridade histórica entre os textos e mais na leitura patrística do dilúvio bíblico como figura de julgamento e salvação; os paralelos mesopotâmicos são vistos como pano de fundo cultural que reforça a universalidade da memória humana do dilúvio, sem abalar o sentido espiritual do relato de Gênesis.
Protestante histórico-crítica (liberal)
Entende que o autor ou os autores de Gênesis conheciam, direta ou indiretamente, tradições literárias mesopotâmicas de dilúvio (via Atrahasis e Gilgamesh) e as reelaboraram deliberadamente para expressar uma visão monoteísta da história, num processo comum de diálogo e contraste com a cultura circundante.
O que fazer com isso
Vale ler esse tipo de fonte sem pressa de tirar conclusões grandes demais: ela não "prova" nem "desmente" o relato bíblico, e mostra que a memória de um grande dilúvio era comum no mundo antigo. O valor está em comparar com cuidado - onde a estrutura se parece (aviso, barco, animais, aves enviadas) e onde diverge de forma marcante, como o número de deuses caprichosos contra um só Deus que julga com justiça e faz aliança depois.
Fontes consultadas4 obras
- Andrew George. The Babylonian Gilgamesh Epic: Introduction, Critical Edition and Cuneiform Texts, 2003.
- George Smith. The Chaldean Account of Genesis, 1876.
- Alexander Heidel. The Gilgamesh Epic and Old Testament Parallels, 1949.
- Jean Bottéro. L'épopée de Gilgameš, le grand homme qui ne voulait pas mourir, 1992.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
A Tabuinha do Dilúvio é mais antiga que a Bíblia?
A cópia física que temos hoje é do século VII a.C. A tradição do dilúvio que ela conta, porém, remonta a textos babilônicos e sumérios ainda mais antigos, de vários séculos antes. Comparar a idade dessa tradição com a de Gênesis é complexo, porque a data de composição final do livro de Gênesis também é debatida entre os estudiosos.
Onde está a Tabuinha do Dilúvio hoje?
Ela integra o acervo de tabuinhas cuneiformes de Nínive guardado no Museu Britânico, em Londres, entre milhares de outros fragmentos trazidos das escavações do século XIX.
Quem decifrou a tabuinha e quando?
O assiriólogo britânico George Smith a decifrou em 1872, e sua apresentação pública do relato de dilúvio ao meio acadêmico londrino causou grande repercussão pela semelhança com a história de Noé.
O barco de Utnapishtim era igual à arca de Noé?
Não na forma: o texto descreve um barco em formato de cubo, com lados de sessenta côvados e sete andares, diferente da arca retangular descrita em Gênesis. As funções, porém, são parecidas - abrigar pessoas e animais durante o dilúvio.
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